1.8.07

Tudo bem, mesmo?

Foto: Paulo Heuser

Tudo bem, mesmo?

Por Paulo Heuser


Rodolfo passou direto por mim na rua. Apenas me olhou de esguelha e seguiu em frente, como se não me conhecesse. Cheguei a reduzir o passo, para cumprimentá-lo. Nos encontramos de quando em quando, no meio da praça, coincidentemente. Na última vez, faz um ano, mais ou menos, Rodolfo acenou de longe e, como sempre, agarrou meu braço e perguntou, em tom aflito:

- Tudo bem?

- Tudo bem, e você? – eu respondia, protocolarmente.

Nunca mais ousei perguntar pela mulher dele, pois as duas primeiras morreram, uma fugiu com o irmão dele e outra se casou com a síndica do prédio. Talvez por isso, nunca estranhei o modo peculiar como cumprimenta os outros. Sei, tudo bem, não é estranho. Porém, se torna, quando dito daquele modo. Ainda mais quando ele insistia na questão:

- Tudo bem, mesmo?

Ele sempre agiu assim, mas hoje havia algo mais. Tive que chamá-lo aos gritos, pois já ameaçava perder-se em meio à multidão de camelôs. Ele parou, hesitou por um momento e virou-se, relutante. Estava mais tenso do que de hábito, com um olhar febril. Pálido, visivelmente tremia. Pensei que ele estava doente. Instintivamente tentei me afastar um pouco. Ele pareceu adivinhar minha intenção e agarrou meu braço com mais força, fazendo outra pergunta de praxe:

- Tem certeza de que está tudo bem?

O que antes parecia apenas pitoresco, agora deu medo. Rodolfo estava visivelmente abalado. Nem respondi, impressionado. Ele voltou à carga, como de costume:

- Tem certeza de que está tudo bem, mesmo?

Notei que uma lágrima desceu pelas rugas do canto do olho direito. Pensei em lhe perguntar se sua última mulher havia feito cirurgia de troca de sexo, mas me contive. Melhor não perguntar sobre a vida pessoal dele, pois não é nada ortodoxa. Fiquei com cara de bobo, no meio da praça, com o Rodolfo me segurando firmemente o meu braço. Faltaram-me as palavras. Foi ele quem nos tirou daquele impasse:

- Me belisca! – implorou, sem largar meu braço.

Fiquei um tanto constrangido. O que diabos ele estava querendo? Faria parte de alguma pegadinha infame, ou Rodolfo finalmente havia pirado de vez, coisa que se anunciava desde que cursara o Maternal I. Rodolfo sempre foi diferente. Desmaiou três vezes na cerimônia do seu primeiro casamento. O pessoal da UTI móvel acabou na festa, com Rodolfo bebendo soro no bico.

Tentei me afastar, puxando meu braço, com força. Ele novamente pareceu adivinhar o movimento e crispou mais os dedos. Percebendo que eu não atenderia seu pedido, Rodolfo beliscou a si mesmo. Deu um grito e recuou, finalmente soltando meu braço. Eu deveria ter fugido naquela deixa, porém permaneci parado, abestalhado.
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- Graças a Deus, é você mesmo! – disse ele, visivelmente aliviado. E me contou que andava apavorado, sem dormir há noites, pois tivera um estranho sonho recursivo, onde me encontrava repetidas vezes, no mesmo lugar da praça. Quando ele me pedia para beliscá-lo, eu prontamente desaparecia, momentaneamente, para logo ressurgir, vindo pela praça. Esse ciclo estaria se repetindo há muitos dias, apesar de o calendário não avançar proporcionalmente. Pensei que ele finalmente enlouquecera de vez. Aliviado, lhe dei bom dia e segui meu caminho, por sete metros, distância suficiente para encontrar um apavorado Rodolfo que vinha na minha direção. Virei-me. O outro Rodolfo sumira, no ar ou na multidão. E o que vinha na minha direção fingia não me ver, passando direto. Pensei em me beliscar, mas não tive coragem. Tive medo de ver o Rodolfo, o novo, sumir, como que por encanto.

Fui salvo pelo despertador, tão odiado, nos outros dias, tão amado, neste.
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