4.1.10

572 - A Tríplice Aliança




Foto: Paulo Heuser
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A Tríplice Aliança




Paulo Heuser



Lojas de roupas para mulheres são o inferno. Para os homens, pelo menos. Nada há para se fazer lá dentro, senão esperar. O problema maior é onde esperar. Aqueles lugares são repletos de araras e mulheres que andam desordenadamente na busca de algo que nem elas mesmas sabem o que é. Não sobra lugar onde se possa esperar. Faz parte das estratégias de marketing não permitir que os clientes atravessem a loja diretamente. É necessário se percorrer um labirinto confuso e cheio de expositores. As mulheres escolhem aleatoriamente algo como 27 peças de roupas e entram no provador, após longa espera até que um se desocupe. Ao sair, rejeitam todas as peças e se põem novamente à caça de outras opções. Quando finalmente encontram algo que parece satisfazê-las, acham caro e vão embora, em busca de outra loja. Enquanto isso, os homens esperam, esperam e esperam. E esperam.


Em outros tempos, os shoppings disponibilizavam bancos para maridos em espera. O sujeito sentava-se e lia Guerra e Paz enquanto esperava. Depois, inventaram o 3G, e os maridos puderam trabalhar enquanto cumpriam seu sagrado dever de acompanhar as mulheres às compras. Essa cômoda situação se prolongou até que alguém percebeu que poderia ganhar o dinheiro dos maridos em espera. Instalaram cafés nos corredores e retiraram os bancos. Os maridos viram-se no dilema da escolha entre a espera em pé e o café. Três horas em pé azedam o humor de qualquer um. E incham os pés.


Em Punta del Este há uma loja, de aparência indiana, nome também, que criou uma área de convivência para maridos em espera. A loja é outra daquelas personificações do caos. Algumas clientes tentam comprar a própria roupa. Lá se descobre que os maridos são iguais, mesmo vindos de diversas partes do mundo. A inovação está no porta-maridos externo. Construíram uma espécie de arquibancada, junto ao passeio público, onde os maridos sentam-se e observam o movimento. Alguns fumam, outros arriscam até uma olhadela nas chicas que passam. Lá pelas tantas, passa um sujeito que toca o hino uruguaio na corneta. Atrás, vem o pior. Uma trupe de argentinos ensaia uma desconcertante batucada. Porém, o porta-maridos se parece com o paraíso. Argentinos, brasileiros e uruguaios ensaiam até uma conversa e descobrem que, afinal, não são tão diferentes. Deixam de lado antigas rusgas, observados pelos intrigados americanos e europeus; os argentinos reconhecem que Pelé até que jogou um bolão; os brasileiros reconhecem que Maradona chegou a jogar futebol. Vez por outra, um argentino olha impaciente para o relógio e diz que aquilo não é possível, ninguém pode se demorar tanto lá dentro. De pronto, vêem-se brasileiros e uruguaios a consolá-lo. É a volta da Tríplice Aliança.


Em meio a vinte e tantos maridos senta-se uma mulher. Todos olham-na surpresos. Ela percebe e devolve com um “olha a discriminação!”.


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18.12.09

571 - Quando o cosseno de teta tende a zero


Foto: Wikipedia
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Quando o cosseno de teta tende a zero



Paulo Heuser



Do primeiro bueiro a gente não se esquece. Tornei-me repetitivo depois que caí num deles. Volto ao assunto porque me encontrei ontem com o Gervásio, na Praça da Alfândega. Em meio aos habituais freqüentadores do local, o Perninha, o Funéreo e a Catorze Minutos, lá vinha ele, rengueando as duas pernas, mais ou menos como eu. Alguém poderá questionar a verossimilhança da rengueada dupla simétrica, mas, fazer o quê? São questões puramente técnicas e funcionais. Eu não sabia do assalto dele, não foi o primeiro, nem ele sabia do meu bueiro, o primeiro. A bem da verdade, devo confessar que aquela não foi a minha primeira incursão num bueiro, porém, foi a primeira involuntária. Quando eu era criança venci uma aposta ao percorrer dois quarteirões através da recém-implantada rede de esgoto pluvial, espero, de Santa Cruz. Isso são águas passada. Gervásio contou-me da sua mais recente aventura, ocorrida dois dias antes. Ele fora fazer a ceia no drive thru para pedestres, pois a noite o estava convidando a fugir da delivery do Anthony’s Dog, o popular Lulú do Tonhão. Quando quase alcançava o trailer de comida rápida, surgiram dois sujeitos que se apaixonaram pela carteira dele. O relógio já se fora no quarto assalto de 1993. Disposto a salvar o que fosse, Gervásio pôs-se a correr ladeira abaixo. Quando estava em plena debandada, calculou que sua velocidade crescia para além do limite tolerável pelas pernas, pois o cos(Ѳ) era muito pequeno e tornava proporcionalmente minúsculo o atrito cinético. Em mais três ou quatro passos, ele entendeu a gravidade da situação. Com força de atrito cinético quase nula, referida ao solo, sua velocidade aumentava pela aceleração da gravidade, freado apenas pela força de atrito com o ar. Graças aos céus, e ao cachorro-quente do Tonhão, sua silhueta semi-atlética o ajudava a frear. Até que ele tropeçou. Aí a coisa se complicou de vez, pois ele colidiu contra um corpo de massa infinitamente maior, a Terra. Toda aquela energia cinética foi convertida em hematomas e escoriações. Além da energia mecânica dos gritos, evidentemente. Quando Gervásio chegou em casa, naquele estado, a mulher duvidou dele ao ouvir que ele havia feito tudo aquilo sem a ajuda de ninguém. Sozinho ninguém conseguiria rebentar-se tanto.


Promovemos o I Concurso de Chagas da Praça da Alfândega. Um mostrava o joelho ralado, outro mostrava a mão esfolada. De chaga em chaga, um apostava, outro cobria a aposta. Empatamos. Estávamos igualmente destroçados. Havia mais algo, em comum, conforme deduzimos depois. Todo mundo nos dizia da sorte que tivemos, afinal, não quebramos nenhum osso e não levamos tiros. Que sorte! É verdade, temos muita sorte de morar aqui. Como canta a música, Porto Alegre é demais!




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13.12.09

570 - Lady Ga Ga e eu



Cosette
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Lady Ga Ga e eu



Paulo Heuser




Eis-me aqui, de pernas para o ar. Tento entender o que, afinal, aconteceu. Vou além e tento achar um culpado. Candidatos não me faltam. Já os tenho no rol de suspeitos: Victor Hugo, Delfim Netto, Dr. Kenneth Cooper, Lady Ga Ga, Johann Wolfgang von Goethe e eu. O fato é que o aquecimento global vinha afetando minhas caminhadas. Sábado, por exemplo, comecei a caminhar e o céu veio abaixo. Caminhada frustrada. Nos dias anteriores, então, não houve condições nem para uma tentativa. Toda história tem que ter um início, e esta não haveria de ser diferente. Um observador apressado poderia concluir que ela iniciou hoje. Ledo engano. No entanto, para uma melhor compreensão dos fatos, deixemo-nos levar por esse engano. Pensando assim, tudo se iniciou hoje, neste belo domingo de sol, coisa rara nos dias de hoje. Dia para se saltar da cama e correr, no sentido figurado, para a rua. Foi o que fiz. Dezoito graus no termômetro incitavam à caminhada vigorosa e entusiástica. Lá fui eu. Caminhei um tanto, até que o chão sumiu sob meus pés. Coisa de filme de Stephen King. Não, não é o Stephen Kanitz. O primeiro escreve histórias de terror comum, o segundo escreve histórias de terror econômico.


A sensação de não haver mais chão é um misto de espanto e impotência. Você está caminhando sob o sol da primavera, o vento traz o frescor do escapamento dos carros e o próximo passo é no nada. Simples assim, nada. Pisei numa tampa de bueiro, de cimento, e ela girou, abrindo um buraco por onde minha perna direita penetrou. Sem apoio, caí sobre o joelho esquerdo, enquanto a perna direita ficava entalada no buraco. Um passante me socorreu e retirou a tampa que prendia a perna. Livre da arapuca, fiz um breve inventário dos danos. O joelho esquerdo estava um tanto danificado, mas é na perna direita que se concentravam múltiplas escoriações feitas por uma espécie de ralador gigante de legumes.


A sabedoria popular é de grande valia, nessas horas. Um advogado apressou-se em me passar seu cartão de visita. Outro passante recomendou que eu ficasse lá e chamasse a imprensa. Um ciclista, completamente equipado, deu-me minuciosas instruções de como fechar novamente a tampa do bueiro, utilizando uma corda e pedaços de madeira. Ajudou-me muito. Por via das dúvidas tomei uma antitetânica e tratei dos estragos.


Agora, mais calmo, começo a perceber o que efetivamente aconteceu. Victor Hugo, o escritor francês, que não fabricava bolsas, escreveu Les Misérables. Pois bem, esses miseráveis fugiram da França e vieram atrás do milagre brasileiro do Delfim Netto. Enganados, não tiveram opção senão furtar as tampas de bueiros feitas de metal. A prefeitura cansou de repô-las e as fez de cimento. O Dr. Kenneth Cooper inventou essa moda de se fazer exercícios físicos, que seriam ótimos para o coração. Talvez, porém, para as pernas, não sei. Eu não fazia idéia de quem seria essa Lady Ga Ga, até que a vizinha veio pedir o CD emprestado, logo após lavarem minhas pernas. Dizem que eu a imitei perfeitamente, gritando gá, gá, a cada esfregada. Goethe entrou de gaiato, pois caí na avenida que levou seu nome. E eu, bem, eu acreditei neles!






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12.12.09

569 - O último pôr-do-sol


Foto: Paulo Heuser
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O último pôr-do-sol



Paulo Heuser

Waldo chorava. Sentado sobre o encosto do banco, junto à avenida na beira do rio, olhava para o poente, com os olhos cheios de lágrimas. Sonhava com a vida no poente. Lá, todos deveriam ser felizes, pois havia aquela luz mágica. O céu se tingia de cores que variavam a cada instante, nunca se repetindo. Esse era o fractal dos deuses. Ah, como seria bom viver no poente, viajando para sempre entre o ontem e o amanhã sem sofrer o hoje. O vento trazia sons de pássaros que já iam longe. O ocaso aquietava as coisas e os seres.
Pri gosta de correr à tardinha. Antes de sair do escritório, troca os sapatos de salto pelos tênis e a roupa de trabalho pelo short e top. Assume sua identidade secreta. O sol ainda pinta sua pele alva quando ela se alonga para a corrida do pós-dia. As fibras musculares se esticam. O cabelo loiro passa pelo boné, e ela deixa o estacionamento do Gasômetro, pronta para percorrer os cinco quilômetros e meio que a separavam do estádio. Nem inicia a corrida. Faz o que nunca fez antes. Pára, quando vê aquele rapaz sentado sobre o encosto do banco. Não é a aparência dele o que chama a atenção dela. Nem belo, nem feio, bem vestido, ele não a vê. Essa é surpresa. Será cego? Pri não passa despercebida, ainda mais vestida deste jeito. As cavas das laterais do short costumam arrancar galanteios ou grosserias, daqueles pelos quais passa. Indiferença, nunca, só se for cego. Ou se jogar do outro lado. Ele olha para o nada e chora, muito. Novamente, ela faz o que nunca fez.
Ele não percebe de imediato a sua chegada. Quando ela provoca um eclipse, passando defronte o Sol, ele sente um calafrio, o vento parece subitamente frio. Ela senta-se ao seu lado e fala, interrompendo a jornada para o ocaso. Quebra-se a magia.
- Você está bem? Ela lhe parece sincera, e seus olhos acinzentados refletem o pôr-do-sol.
Waldo suspira. Droga, está quase alcançando o horizonte. Falta pouco. É logo ali, quase dá para vê-lo. Ele repara nos reflexos dos raios de sol nos cabelos loiros da mulher. Em outra ocasião, quem sabe, não agora, não quando quase chega lá.
Tarde demais, lá se vai o horizonte, não poderá mais alcançá-lo, não hoje, nunca. Suspira, mais, e seus ombros curvam-se em desânimo. Os olhos dela imploram por uma resposta.
- Vá lá, estou.
- Então, por que chora?
- Choro porque eu queria estar lá, onde o Sol se pôs. Lá, sim, eu viveria outra vida.
Ela tomou a mão dele na sua e a apertou, bem firme. Ficaram sentados, dois estranhos olhando para onde o Sol se poria novamente, amanhã, conscientes de que aquele fora o último pôr-do-sol.


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8.12.09

568 - Crônicas da Rua do Cotovelo


Fonte: Wikipedia
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Crônicas da Rua do Cotovelo



Paulo Heuser




Não o via há muito tempo. Um ano, creio. Eu andava pela Riachuelo, na direção da Usina do Gasômetro, quando me deparei novamente com a figura de Gianfranco Anarchico, o Gian, como é conhecido por aquelas bandas. Aconteceu no sábado passado, dia que, de tão perfeito, que me fez desistir de emigrar para a Índia das Monções, na procura de um lugar mais seco para viver. O Gian é aquele que defende a criação de um sistema de eleições permanentes, o Continua perpetua elettorale. Ele é um dos últimos anarquistas italianos que perambulam pelo mundo. Tenta disseminar a mobilidade sociopolítica desprovida de hierarquia institucionalizada, a popular bagunça. Seu habitat é o baixo Alto da Bronze, nas imediações do Bar da Elvira, reduto cult-liberal do Centro.
A sede me levou a comprar água, e não resisti a uma paradinha no bar. Elvira catava moscas sobre o vidro embaçado do balcão expositor de quitutes de outrora, como os irônicos bolos ingleses, os croquetes e os pastéis de, digamos assim, carne moída. Não consegui evitar o Gian, que me reconheceu de imediato. Abriu largo e semidentado sorriso, emoldurado pelo rosto magro. O ciao, gritado alegremente, denunciou o reconhecimento. Gian combina com a atmosfera fedorenta de cerveja e de fritura do Elvira. Aliás, tudo ali se encaixa perfeitamente. Copos de requeijão, mesas encardidas, cadeiras de madeira de espaldar reto, moscas pegajosas, a cortina floreada que leva à cozinha, cerâmica gretada até a metade da parede. Apesar dos declarados 72, Gian, por detrás dos óculos redondos, parece vir dos tempos em que a Riachuelo se chamava Rua do Cotovelo.
Gian fizera novas vítimas. Um trio que fora beber algumas no Elvira caiu no papo do toscano. A discussão corria solta, e o assunto era a corrupção. Como de outra vez, Gian entrou na conversa com o copo vazio e o corpo. Servia-se da cerveja deles como se fosse sua, prova de que todo anarquista tem pelo menos um pouco de socialista. Os dois rapazes estavam enfezados. A moça ouvia quieta. Seu rosto moreno apoiava-se sobre o joelho da perna erguida sobre a cadeira. Aparentemente alheia, ela furungava entre os dedos incrivelmente perfeitos do pé, como se procurasse por alguma sujeira que não estava lá. De quando em quando, afastava a mecha de cabelo liso e negro que lhe caía sobre a testa.
O velho serviu-se novamente da cerveja dos outros. Fingiram não perceber. Ele alisou os cabelos brancos, presos em rabo de cavalo, semicerrou os olhos azuis e gritou.
- As instituições são corruptas. No sistema de mobilidade sociopolítica desprovida de hierarquia institucionalizada a corrupção não existe, pois não há ninguém que tenha tanta influência a ponto de se tornar alvo da corrupção. Não há foco de poder!
O rapaz com boina de Bob Marley defendia a forca, sem a cedilha, para todos os políticos. Ele inclinava a cadeira para trás, até quase perder o equilíbrio. Dona Elvira distribuía mata-moscadas a rodo. Os cadáveres dos insetos confundiam-se com as manchas da cerâmica encardida do piso. O anarquista não esmorecia.
- Sem hierarquia, não há corrupção!
O segundo rapaz bebeu todo o conteúdo do copo, antes que Gian o fizesse, e falou, com voz de tenor.
- A solução pode ser a Anapro, a Agência Nacional da Propina, órgão regulador da corrupção. A ela caberiam a fiscalização, a regulamentação e a elaboração do Plano Nacional de Corrupção. Esse órgão teria independência administrativa e econômica, sem submissão a qualquer hierarquia de governo. Estabeleceria a tabela de referência para a cobrança de propinas.
A moça examinava o vale entre os dois últimos dedos do pé esquerdo, aparentemente satisfeita com o que via. A brancura daquele espaço contrastava com o tom bronzeado dos braços e das pernas. Sem desviar os olhos ela afastou a mecha rebelde do cabelo, com um sopro, e abriu a boca, pela primeira vez. Com voz de menina, disse:


- Ora, isso já existe...





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5.12.09

567 - O cofre

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Foto: Paulo Heuser
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O cofre


                                                                                Paulo Heuser



Vai chover, muito. Evito olhar para o céu, tornei-me gaulês. Temo que ele me caia sobre a cabeça, único temor dos gauleses. Deles, pois nós tememos tudo, inclusive que nossa própria sombra nos assalte. Caminho com jeito de local, pois é perigoso parecer forâneo por aqui. Os locais não olham para os lados, já sabem tudo que há pelos flancos. Olho setenta metros à frente, com olhar de franca indiferença. Essa é a regra. Mesmo à frente, conheço tudo, de olhos fechados, o poste, o mendigo, a lixeira, a caixa de coleta dos correios, a parada de ônibus e o cofre. O cofre. É, um cofre, daqueles grandes. Não é um Fort Knox, mas abrigaria o conteúdo de muito caixa dois.



Bem, aí temos algo de novo. O cofre. Se um cofre, em pé, chama a atenção, o que dizer de um cofre tombado, de boca aberta, na esquina da Rua da Praia? Jaz inerte feito pedestre que usa a faixa. Esconde apenas um grande vazio. Esse cofre perturba minha passagem, pois penso no que aconteceu para que ele esteja ali. O mendigo está lá porque é um mendigo, é sua profissão. Dele se espera que lamurie para pedir dinheiro. Em outros tempos, cheguei a temer a aposentadoria do mendigo, por invalidez. Isso implicaria o paradoxo do mendigo da Caldas Júnior, pois ele, uma vez aposentado, deixaria de mendigar. Premiado pelo fator previdenciário, e pelos formidáveis reajustes da aposentadoria, ele logo integraria a legião dos Sem-Paim e voltaria a mendigar. Pilhado na volta à atividade, perderia a aposentadoria. Porém, a invalidez o levaria novamente à aposentadoria, e salve-nos Paim, assim por diante. São temores sofismáveis, mas retornam, de quando em quando. Bem, o mendigo que se exploda, pois o que me preocupa, mesmo, no momento, é o raio do cofre. Se cruzar por ele, terei de olhar para o lado, gesto impensável para um local. Pior do que olhar para o lado, só mesmo olhar para trás. Locais não olham para trás, nem deixam que sua sombra o faça.



Fico a imaginar por que diabos alguém largaria um cofre nesse lugar. Não é o lugar mais recomendável para se desovar um cofre roubado, ainda mais na hora do almoço. Por que ainda não o furtaram, se já se encontra jogado há mais de dois minutos? Esse trambolho, mesmo vazio, vale uma grana preta, lá pelos lados da Voluntários da Pátria. Pesa muito, deve ser isso.



Quantas perguntas sem resposta. Pensando bem, nada disso é problema meu, e é hora do almoço, hora de se olhar para a própria barriga. Só há um jeito de cruzar por ele. Olho para cima, sem preocupação com a sombra, pois está muito nublado.



Céus, vai chover, muito!





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29.11.09

566 - Crônicas do Uzbequistão

Islam Karimov
Presidente do Uzbequistão
Foto: Wikipedia
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Crônicas do Uzbequistão

Paulo Heuser

Encontrei-me com o Seu Clistério. Há muito que não o via. Tentei evitá-lo, mas não consegui. Ele até que é simpático, porém, é o pior tipo de generalista, o que é especialista em tudo. Eu fazia o que há de melhor para se fazer numa sala de espera, esperava, quando o Seu Clistério surgiu. Escondi-me atrás da Caras de dezembro de 2003, em vão. O que de mim sobrou para fora foi suficiente para que ele me reconhecesse. Eu assistia a um monótono documentário exibido na TV de 14’’ da sala de espera. Os oftalmologistas fazem a triagem assim. Quem consegue descobrir o que está passando, ganha atestado. Seu Clistério é um dos últimos técnicos universais, aqueles que consertam qualquer coisa, inclusive aquelas que não estão estragadas. Se não há defeito, ele o cria. A vida de mecânico de aviões, de navios e do relógio da torre de Westminster, o levou a girar mundo. Ele conheceu toda a Europa. Essa bagagem cultural o transformou em chato pedante da mais alta ordem. Ele sabe mais de tudo e sabe melhor.

O cumprimento desinteressado não me livrou do ataque.

- Você, por aqui? O que veio fazer?

Senti vontade de lhe responder que eu viera vender rabanetes ao médico. Ora, o que alguém poderia fazer, na sala de espera de um médico, senão esperar? Como bom chato, ele sentou-se ao meu lado, para ajudar a esperar. Certamente veio consertar algo que o médico pensava estar estragado. Ele percebeu meu interesse pelo documentário e ficou a observá-lo. Pronto, pensei, ele está arrumando munição.

Islam Karimov, ditador do Uzbequistão, desfilava na tela. Seu Clistério bateu as palmas das mãos nas coxas e ajeitou-se na cadeira, enquanto abria o sorriso largo que prenunciava o bote. Não deu outra.

- Você já reparou?

Eu sempre odiei esse tipo de ataque, completamente indefinido. Reparar no quê? Ele me encarou com aquele sorriso interrogativo do professor para o pupilo idiota. Nada respondi e voltei minha atenção à TV. Ele não desistiu.

- Já reparou na coincidência?

Fraquejei. Dois ataques indefinidos era demais. Não havia como fingir que não o ouvira, pois ele é do tipo que cutuca seu braço enquanto fala. A pergunta me escapou.

- Qual coincidência?

Ele apertou os olhos, como que demonstrando fisicamente sua superior esperteza. Nessas horas, ele faz um hiato, antes de prosseguir. Suspeito de que ele quer aumentar o clima de suspense.

- Ora, salta aos olhos!

Ele conseguiu. Senti-me perfeitamente idiota. Certo da vitória, ele continuou, sempre sorrindo.

- Você não reparou que esses grandes ditadores foram eleitos, algum dia? Pode não ter sido através da eleição direta, mas foram eleitos, na pior das hipóteses, por alguém que foi eleito pelo povo. O povo os adorava! Hitler, Mussolini, Vargas, Salazar, Karimov, todos foram eleitos! Depois, através de conchavos políticos, perpetuaram-se no poder.

Tive de dar mãos à palmatória. Para variar, o homem estava certo, reconheci a contragosto. Tentei também demonstrar alguma sabedoria.

- Ora, Seu Clistério, o senhor não quer que eu acredite que isso poderá repetir-se, aqui?

Ele sacudiu vigorosamente a cabeça, demonstrando impaciência.
- Não, não, não! Você não percebeu, ainda? Não existem mais nações, nem patriotismo. Não importa quem for eleito, se for eleito e como for eleito. O poder não está na mão dos eleitores.

- Está na mão de quem, então?

Ele demonstrou impaciência, novamente. Revirou os olhos e bateu novamente com a palma das mãos nas coxas.

- Ora, o poder está nas mãos dos acionistas!

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27.11.09

565 - Emergência como rotina

Bíblia de Toggenburg (1411)
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Emergência como rotina

Paulo Heuser

Zé descobre que a vida prega peças. Algumas boas, outras nem tanto. Ele se vê cara a cara com a recepcionista do setor de emergência do hospital. Quem trabalha na emergência não sabe o que é emergência, pois dela fez rotina. Documento, carteira do convênio e as perguntas de praxe, sempre iniciam assim. Zé olha para a sala de espera, com o canto do olho. Pelo menos não está repleta. Duas moças escoram-se, uma na outra, com cara de enfado. A que tem o dedão do pé inchado e preto faz careta de dor. A outra a consola. Ambas têm cabelo preto, cortado exatamente da mesma forma, e parecem fugidas de um filme do Peter Pan. Riem, agora. Ao lado delas, um jovem com cara de insuficiência de tudo senta-se com o que deve ser a mãe.

Triagem em até dez minutos, realizada por um enfermeiro, atendimento pelo médico em até duas horas, avisa a recepcionista. A emergência está lotada porque o hospital está lotado. Na porta que leva à área de atendimento há uma tabela que relaciona a gravidade do caso com o tempo de atendimento, através de um sistema de cores. Coitados dos azuis, sabe-se lá quando serão atendidos. Felizes dos vermelhos. Se não morrerem antes de chegar lá, terão atendimento imediato. Os verdes terão inveja dos amarelos. E se o tal do enfermeiro que faz as vezes de porteiro da salvação for daltônico? O rapaz sentado ao lado da mãe pende a bombordo, com o olhar opaco. A vida parece tê-lo deixado. Ele está lá cumprindo alguma estranha formalidade, antes que venham buscá-lo de vez. A mãe aparenta resignação, limitando-se a segurar sua mão, de uma forma que só as mães sabem.

Assina aqui, assina ali e é só esperar pelo chamado do porteiro da salvação. Um homem calvo, de camiseta amarela, anda de um lado para o outro, sempre olhando para o celular. Transborda de ansiedade. Se não estiver esperando notícias de alguém que está do outro lado da porta, que lhe dêem uma ficha vermelha, ele é o que mais precisa de uma. O portal da salvação se abre, e surge o enfermeiro, de jaleco longo e estetoscópio passado ao redor do pescoço, numa atitude definitivamente profissional. Quem usa estetoscópio daquela forma sabe o que faz, com certeza.

O chamado do seu nome faz Zé sair do quase transe. O enfermeiro o leva a uma pequena sala de atendimento onde há aparelhos de toda sorte. Destaca-se um que emite sons estridentes e exibe os sinais vitais de ninguém, parecendo reclamar da solidão. Fica pouco tempo só, pois Zé é amarrado, tem o braço quase esmagado, prendem-lhe sensores e detectores que fazem a máquina vomitar sons, números e gráficos. As perguntas sucedem as medições. Qual é a cor do sangue dele? Haverá outra? Sangramento dá prioridade, mesmo que pouco sangue só dê ficha amarela. Qual será a vazão necessária para se conseguir uma vermelha? Na próxima vez ele trará fenolftaleína e amônia. Notarão a diferença? Sangue do diabo. Zé não é santo, mesmo. Tudo bem, a ficha amarela lhe concede um médico, só para ele, em menos de meia hora. O atendimento é perfeito, o diagnóstico não. Precisará de outro médico, um especialista, que chegará em 40 minutos. Leva menos de 30. O especialista é rápido em tudo, diagnostica, fala, prepara, anestesia, corta, remenda, receita e libera, tudo em menos de hora, com precisão cirúrgica. Zé e o especialista chegam em casa antes das 23 horas. Apesar de tudo, sentem-se extremamente aliviados.

Não perderão capítulo inédito de House.

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24.11.09

564 - Borboletas não têm passatempo

Foto: Wikipedia
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Borboletas não têm passatempo

Paulo Heuser


Hobbies existem desde muito. O Michaelis fornece sinônimo, passatempo. Curioso, a vida é finita, e as pessoas procuram passatempos. Nos tempos pré-orkutianos, as pessoas tinham algo que era conhecido como Tempo Livre. Era o que o próprio nome indica, por mais incrível que possa parecer. Havia espaços não preenchidos nas agendas. A maioria nem tinha agenda. É verdade, creia. Saíam do trabalho, chegavam a casa, após alguns minutos, jantavam e dedicavam-se ao hobby, até a hora de se deitarem. Alguns colecionavam selos postais, eram filatelistas. Os numismatas colecionavam moedas. Havia um homem que colecionava borboletas mortas, lá em Santa Cruz. Era o Seu Amon, dono de uma fábrica de doces que fazia balas de eucalipto extraordinárias. A Frau Amon preparava Hefeschnecken inesquecíveis, principalmente para quem consegue se lembrar da palavra. Ele caçava lepidópteros, incluídos numa das maiores coleções do Brasil. Recebiam visitantes de toda parte, que se deliciavam chupando balas de eucalipto enquanto viam borboletas e sonhavam com Hefeschnecken. Esse era seu passatempo. Borboletas não têm passatempo, pois seu tempo passa antes que possam escolher algum. Também não chupam balas de eucalipto.

A existência de passatempos era justificada, convenhamos. Não havia TV, e os telefones eram raros. Também não havia telemarketing, e ninguém ousaria lhe vender alguma coisa à noite. O Tempo Livre era isso, livre. Contudo, o que mais chamaria a atenção de um moderno humano adestrado, seriam as Redes de Relacionamento. Eram dispositivos de pano suspensos entre cordas presas às paredes através de ganchos. Os participantes dessas redes sociais utilizavam-nas, geralmente aos pares, para um passatempo chamado Namoro Presencial. Passavam horas relacionando-se, cara a cara, em tempo real, com eventual contato físico. Os relacionamentos com número ímpar de participantes, veladamente desaconselhados, eram conhecidos como Desvios de Conduta. Hoje, aquelas redes são classificadas como ecologicamente perfeitas, por não demandarem combustíveis fósseis, apesar do potencial de aumento populacional.

O fato é que a virtualidade ainda não era modo de vida. Assombrosas eram as comunidades compostas de humanos físicos, sem avatares. Eles encontravam-se, de verdade, em sítios do Mundo Real. No lugar das carinhas, ou emoticons, riam ou faziam cara feia. O mais incrível ainda não foi revelado.

Tudo aquilo funcionava durante os apagões!


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19.11.09

563 - A feira vista pelos fundos

Foto: Juliana Heuser
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A feira vista pelos fundos

Paulo Heuser

A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre se foi. É hora do desmanche. Vão-se as barracas, ficam as lembranças. Dessa feira, em particular, não me esquecerei. Afinal, dei o meu primeiro autógrafo. E não foi só um, houve até fila. Já ouvi críticas a respeito disso, dizem que mãe na fila não conta. Inveja. Quem diz isso não tem mãe, ou pior, ela não veio. Mães à parte, eu realizei parte do sonho e vi a feira pelos fundos, onde as coisas acontecem. Estive nos bastidores.

Foi lá, de caneta na mão, que percebi a crueldade demonstrada por alguns pais do passado. Inventaram nomes inimagináveis, saídos, na melhor das hipóteses, de um jogo cata-palavras. Hermeneuse não é nome de gente. Pode até ser nome de ciência humanística oculta, mas de gente, não é. Só não disseram isso para os pais da própria, e o escrivão deve estar contando essa história aos netos. Não é conversa, não, vi-me cara a cara com a Hermeneuse e dei-lhe um autógrafo. Houve também a seção dos gregos, representada pelo Achylles, com dois eles, para ficar bem Aquiles, mesmo. Tudo bem, afinal, é grego, mas quem consegue, fora da Grécia, escrever Achylles sem parar para pensar? Vendo assim, escrito, parece fácil. Lá, na seca, dá um branco.

Mudos deveriam ser proibidos de pedir autógrafos, a não ser que escrevam o nome em um pedaço de papel. Aí se incluem os que falam muito baixo em meio à algazarra feita pela mãe que está na fila. Seu nome, por favor? Hmmpfgh... Como? Hmmpfgh... Perdão? Hmmpfgh...! Seu Hmmpfgh se escreve com agá mudo, não é? Hmmpfgh...!

Confesso que eu morria de medo de que não aparecesse ninguém, nem a mãe. Haverá coisa mais frustrante, para um escritor, do que a ausência de leitores ávidos por autógrafos? Dá um frio, só de pensar no vazio causado pelos intermináveis 30 minutos de espera por alguém que não virá. Na hora, serve até engano, como autografar o livro do que entra lá por engano. Outra tática pode ser a oferta de livros aos doadores de sangue, além do lanche grátis.

Escrever um livro parece fácil, mas não é. Não basta a escolha do assunto. Tem que ser um assunto que interesse alguém. Caso contrário, não chega nem no balaião. O segundo passo, não menos importante, é escrevê-lo. Depois, vêm as revisões, revisões e mais revisões. Há outros problemas, menos óbvios, como financiamento, edição, divulgação, registro, et caetera e tal. Vencidos todos os obstáculos, ei-lo, novinho em folha e cheirando à tinta. É o momento de relaxar e partir para a sessão de autógrafos. Contudo, além de assiná-lo, faz-se necessário escrever alguma coisa. Então, surge o dilema, escrever o quê?

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