2.2.11

581 - A Graça

Foto: Paulo Heuser

A graça
Por Paulo Heuser

Eleutério é um sujeito estranhamente comum. Não é que ele não creia em deuses. Ele não crê nos homens. Assim, não crê nas igrejas feitas pelos homens. Simples assim. Essa descrença, contudo, não o afastou da religião, pelo contrário, levou-o a viver dela. Um descrente com formação em mercado soube como agarrar-se às oportunidades geradas pelas crenças de outrem. Além de crer na descrença, Eleutério crê piamente na preguiça, que seria o quarto pecado capital nas listas do Papa Gregório I e de Tomás de Aquino. A preguiça sempre abriu mercados e, aliada ao telefone, faz milagre econômicos. Ninguém compraria água, em bombonas de 20 litros, se tivesse que carregá-las escada acima. Para isso existem os tele-escravos. Hipoteticamente, águas são apenas águas, H2O e sais minerais, diferindo apenas em função da torneira de onde saíram. Portanto, a escolha por esta ou aquela água tem a ver com o seu preço e com o asseio do motoboy, nessa ordem. Essa mesmice levou o mercado a ansiar por um diferencial. Água com sabor, talvez. A idéia chegou a tentar a criatividade do Eleutério, mas ela deixaria de ser apenas água.
O estalo surgiu numa subida à Serra, enquanto ele almoçava em Bento Gonçalves. Água benta! Eleutério desceu de Bento e criou a primeira tele-entrega de água benta. Vinte litros de água benta entregues no topo da escada pelo motoboy vestido de frei. Foi sucesso absoluto. Vende como água. Aos mais críticos, ele alega que nunca afirmou que a água seria abençoada, ela vem de Bento, portanto, é benta. Depois, veio a água benta com gás, afinal, um pouco de CO2 não é pecado.  Eleutério não dorme no ponto e sabe que a concorrência logo vem. Está sempre criando. De uma conversa com fiéis, a respeito da falta de gosto das hóstias, veio a idéia de oferecê-las nos sabores pizza, churrasco e banana com canela. Se uma hóstia, por si, não é consagrada, falta o quê? O vinho, não um vinho qualquer. Logo, Eleutério criou a cesta de consagração, com um rodízio de sete sabores de hóstias – dois doces – e uma garrafa de vinho litúrgico varietal. Noutro rompante de criatividade, Eleutério criou o ajoelhador anatômico, tornando o ato de se ajoelhar  em algo mais civilizado. Ele vende uma tabua leve que é presa aos joelhos, através de velcro, permitindo ao fiel ajoelhar-se enquanto sentado ou deitado comodamente.
A descrença de Eleutério nas instituições não diminui sua admiração pelas obras de arte criadas pela religião. Noutro dia ele assistia, através da TV de assinatura, ao filme Sons do Coração, uma versão adaptada de Oliver Twist, de Charles Dickens - abobrinha melosa que tem bela fotografia e trilha sonora fantástica. Em uma cena onde o menino senta-se ao teclado de um órgão de tubos de uma catedral, tocando uma música que faria cair as penas de um anjo, Eleutério arrepiou-se. Deu-se um momento mágico. Sem a religião provavelmente aquele órgão não existiria. Ponto para os crentes nas igrejas. Ele rendeu-se à grandeza daquilo, uma autêntica graça. Então, aconteceu. Ele foi arrancado violentamente daquela cena por um grito que alardeava a volta do garanhão italiano: Rocky Balboa. Intervalo comercial. Do céu ao inferno. Depois, pularam a cena, e o menino organista havia se ido. Desde então, Eleutério crê no diabo e sabe como ele entra na sua casa.

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27.6.09

533 - O novo martelo dos hereges

Auto-da-fé (1475) de Pedro Berruguete
Fonte: Wikipedia
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O novo martelo dos hereges

Paulo Heuser

Era uma vez um lugar chamado Portus Victoriae Iuliobringensium, durante a Era Romana. Abusando de números romanos, no Século VIII, Afonso III, o Casto, fundou a Abadia dos Corpos Santos do Monastério de Somorrostro. Já no Século XII, Afonso VIII criou lá o aglomerado que deu origem à cidade de Santander, na região espanhola da Cantábria. Não longe dali, no Século XV, nasceu Tomás de Torquemada, que veio a ser conhecido como o Martelo dos Hereges, e tornou-se o inquisidor-mor dos reinos de Castela e Aragão. Finalmente, no Século XIX, alguém teve a idéia de fundar um banco, na Cantábria, com as graças da rainha Isabel II.

Torquemada destacou-se nas lides de combate aos hereges. São-lhe atribuídos 2200 autos-de-fé, as cerimônias públicas de humilhação e penitência dos hereges. O homem trabalhava incansavelmente. Contudo, apesar de implacável, Tomás também sabia ser piedoso. Ele estrangulava os que confessavam as heresias, antes de queimá-los. Como ele trabalhou bem demais, digamos assim, acabou perdendo parte do seu poder, devido à intervenção do Papa Alexandre VI.

Números romanos à parte, até aqui, há história. A partir daqui, especulação. Uma antiga lenda cantábrica fala de uma descoberta arqueológica, feita no Real Monastério de Santo Tomás, em Ávila, local onde Torquemada passou seus últimos dias. Sob um degrau da escada que sobe ao coro, junto ao Claustro do Silêncio, foram encontrados escritos, atribuídos a Torquemada, que levariam à construção de uma fabulosa máquina de tortura de hereges. Na época da descoberta não havia tecnologia para implementá-la, o que somente veio a ocorrer no Século XXI. O Banco da Cantábria aplicou esse artefato no seu relacionamento com os potenciais clientes, hereges ou não, numa estranha, pavorosa e inovadora estratégia de marketing. O Martelo Automático dos Hereges liga aleatoriamente para números telefônicos. A novidade está aí. Quando alguém atende, nada falam. Fica apenas o silêncio. Os hereges, ou não, recebem muitas chamadas, dia e noite. As mais torturantes são as de sábado pela manhã, bem cedinho. O sujeito está lá, aquecido na cama, pretendendo varar a manhã nublada no aconchego, e o telefone toca. É o Martelo Automático dos Hereges. Nada há a fazer, senão esperar pela conclusão do auto-de-fé automático. Os antigos duravam dois anos, o que não traz muito alento.

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