20.2.07

Virgílio e as Saturnais Romanas

Virgílio e as Saturnais Romanas

Por Paulo Heuser

Entra carnaval, sai carnaval, e não consigo me esquecer do Virgílio. Um sujeito que gosta menos do carnaval do que eu. E olhe que eu realmente não gosto do carnaval. Virgílio e eu temos algo em comum: gostamos apenas dos feriados, especialmente daqueles que caem nas terças-feiras. O vi num bar, faz alguns anos. Era um sábado de carnaval e o Corso do Caronte descia a ladeira ao som dos atabaques, matracas e outras coisas terminadas em gô. A folia corria solta. Menos na mesa do Virgílio. Aquela mesa era um oásis de paz em meio ao deserto da loucura. Virgílio bebericava vinho tinto enquanto devorava a Divina Comédia de Dante Alighieri.


Ah, como é difícil descrevê-la
Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga
que a sua simples lembrança me traz de volta o medo.

Mastigava a segunda estrofe do Inferno, quando o corso passou. Passou e parou, pois aquele corso catava os díspares, os antifoliões, na momesca missão de curá-los, intestiná-los na folia. Não sei o que atraiu a atenção do corso, se foi a mesa com apenas um ocupante, se foi o cálice de vinho tinto ou se foi o livro. Seja como for, Virgílio foi marcado como alvo da atenção dos curandeiros da apatia e da tristeza alheias.

Um casal desceu cambaleante, do primeiro carro. Seus corações batiam fortes, rápidos, pela influência do álcool e da dança. Dançavam e pulavam há horas, não se lembrando exatamente desde quando. Sentaram-se sorridentes à mesa do Virgílio, enquanto do corso vinham recomendações de pressa. Não podiam parar. A festa continuaria, seguindo até onde o calendário permitisse. Foi ela, uma loira vistosa emoldurada pelo decote vistoso, que derramava seios vistosos sobre a mesa, quem primeiro falou:

- O que é isso homem?

- Um livro – respondeu Virgílio, sem tirar os olhos dele.

- Não falo dele, falo dessa coisa que você está bebendo...

- Vinho – disse Virgílio, sem poder deixar de notar os seios esparramados sobre sua mesa.

- Ficou louco, cara? – gritou o homem fantasiado de Cérbero – No carnaval se bebe cerveja!

- Gosto do vinho. – disse Virgílio, enquanto imaginava se o vinho escorreria para o meio do decote dela, caso o derrubasse. Fingiu não ouvir os protestos dos foliões e continuou:

- Bebo o vinho que eu quero, não preciso prestar contas aos patrocinadores cervejeiros nem aos banqueiros, zoófilos ou não.

A essas alturas parte do corso desembarcara para ajudar o casal interceptador. Chegaram a tempo de ouvir Virgílio, já aos berros:

- Não preciso freqüentar os camarotes milionários daqueles que venderam a festa do povo aos poderosos. Não preciso seguir os caminhões elétricos da Ivonete Sangragalo ou do ministro. Não preciso apodrecer assistindo aos englobados desfiles das escolas de samba. Não preciso sequer sonhar com a volta das Saturnais Romanas. Entre 17 e 23 de dezembro, em homenagem a Saturno, elas permitiam ao povo a desobediência das leis e dos costumes. O que são sete dias contra os 365 da Saturnal Brasileira? Por detrás das máscaras escondem-se aqueles que vendem descaradamente a alegria do povo. Máscaras da morte!

- Venha, Beatriz – gritavam os outros -, enquanto retomavam o corso. Ela ficou – a loira de seios derramados. Seu parceiro se foi, com o corso. Foram descendo a ladeira, entoando marchas já não tão alegres. Algo mudara. Sobre a mesa, o livro folheado pelo vento mostrava outra estrofe:


Eu sou Beatriz, que pede que tu vás
Venho do céu e para o céu voltarei
Foi o amor que me trouxe e é ele quem me faz falar


E-mail: prheuser@gmail.com

1 Comments:

At sexta-feira, 12 abril, 2013, Blogger Paulo da Mata said...

Bela crônica, Herr Heuser! Cê leva jeito, sô!
Paulo

 

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