30.5.07

Atores da Vida Real


Atores da Vida Real

Por Paulo Heuser

Num mundo onde a miséria grassa, a mendicância tornou-se uma arte. Todo mendigo bem sucedido é um ótimo ator. Consegue exprimir dor e desespero como ninguém. Para superar a concorrência, apelam para efeitos dramáticos que toquem no fundo da alma das pessoas que ainda conseguem ser caridosas. Além dos verdadeiros mendigos, aqueles que foram jogados fora do nosso mundo social por deficiências físicas, mentais ou falta de competitividade social, há uma casta de fantásticos atores sociais especializados em subtrair algum de outrem.

O pedinte especialista conhece bem os segredos das artes cênicas. A começar pelo figurino. Roupas esportivas ou de vanguarda, mesmo quando sujas ou esfarrapadas, não causam boa (ou má?) impressão. Velhos ternos rasgados e pruridos dão melhores resultados, especialmente os de tamanho menor que o necessário. Calças e mangas curtas projetam humildade, condição necessária para despertar a comiseração.

A higiene pessoal também é fundamental. Devem parecer pobres, não sujos. Os muito sujos espantam os clientes pelo asco. Nada de perfumes, no entanto. Passarão uma imagem de perdulários. Perfume, bom ou vagabundo, é supérfluo. Os cabelos não podem se parecer com campos para criação de piolhos. Os curtos causam boa impressão. Nada de corte zero, porém, pois parece eliminação de pragas. Lenço no cabelo pega bem para as mulheres.

O toque pessoal deve ser evitado a qualquer custo. Ninguém gosta de ser tocado por um mendigo. Mãos espalmadas para coletar a féria também não fazem muito sucesso. O ideal é um prato ou bacia pequena. O prato sugerirá subliminarmente que as contribuições se destinarão à alimentação. Caso esta apareça em cena, apenas pão ou frutas, com exceção de abacaxis, cerejas ou morangos. Fruta de pedinte é banana ou, na melhor das hipóteses, laranja. O resto parecerá ostentativo, o que não é bom para os negócios. Sim, a mendicância é um negócio, como qualquer outro. Para o sucesso do empreendimento far-se-ão necessários a prospecção de mercado, planejamento estratégico, divulgação, e outras tantas coisas comuns aos negócios assim chamados de ortodoxos.

A escolha do ponto é fundamental. Os mais valiosos e disputados são aqueles ao lado de pontos turísticos e igrejas. Nesses locais o coração amolece e o bolso se escancara. Grandes catedrais são os pontos mais altos da carreira do mendigo de sucesso. Vi um rapaz defronte uma catedral que fatura grandes quantias todos os dias. Falta-lhe um dos braços, tragédia que se reverte um lucro, no caso. Um sujeito que trabalha, sem um dos braços, causa admiração, mas nada mais receberá do que um que tem os dois braços. Já na mendicância não. Quanto maior a deficiência, melhor será a féria, potencialmente. O rapaz da catedral ajoelha-se sobre uma almofada, frente ao templo, ficando imóvel, estático. Não fala, não geme nem suplica. O efeito cênico, no entanto, é impressionante. Chove moedas e cédulas a sua frente.

Também defronte uma catedral, havia um sujeito que deveria ser primo do Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame. Era a imagem que eu fazia do Quasímodo, apenas um pouco menos torto. De resto, inclusive dos olhos se revirando nas órbitas, era perfeito. Outro sucesso de carreira.

A campeã absoluta é uma senhora idosa que se move como uma lesma, em câmera lenta, curvada sobre uma bengala. Um capuz esconde as partes superiores do rosto, deixando visível apenas a boca, que murmura palavras inaudíveis. O posicionamento em quadra é perfeito. À noite, estranhos fenômenos ocorrem, pois ela se desloca quilômetros, de um ponto turístico para outro.

Desconfio até que já existam cursos de especialização em mendicância, nas faculdades de publicidade e propaganda. Se os há, esses três serão mestres.





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