16.10.07

A vó do Mestre Yoda

Foto: Comitê Revolucionário. Fonte: Wikimédia
A avó do Mestre Yoda


Por Paulo Heuser


Mary-Joe Santos acordou subitamente, após 43 anos de coma profundo. Milagre? Provavelmente, pois nenhum médico apostaria nem uma ficha de um centavo na recuperação dela. Em épocas de menos aparelhos e mais sensatez, deixaram que a natureza seguisse seu curso. Porém, o corpo de Mary-Joe não se deu por vencido, como ela nunca se dera por vencida nas suas convicções políticas extremadas. Ela não foi vítima da repressão. Foi vítima daquela sandália fajuta. Avessa aos produtos de marca, fabricados pelos burgueses imperialistas, comprou um par de sandálias que soltaram as tiras. No momento em que ela galgava o monumento, para dar início ao protesto da UIES – a proscrita União Internacional dos Estudantes Stalinistas –, temida até na Albânia, pela incomum radicalização das idéias comunistas.

A tira da sandália fabricada pelo camarada João das Tiras soltou-se, bem no momento em que Mary-Joe galgava o bigode do homenageado no monumento. Seguiram-se cenas de comoção, quando os sete congressistas socorreram sua até então líder, mártir viva a partir de então. João das Tiras imolou-se em Saigon, em protesto contra os fabricantes de estátuas bigodudas imperialistas. Com Mary-Joe em coma e João das Tiras tombado em ação, os seis membros restantes da sigla revolucionária desistiram da militância. Um virou cirurgião plástico de militantes enrustidos, quatro estudaram direito e dedicaram-se ao direito trabalhista sindical – patronal. Um virou escritor e dedicou-se à biografia não autorizada – em coma – de Mary-Joe. Esse não era seu nome, na verdade. Chamava-se Maria Euzébia, na certidão de nascimento. Utilizava o codinome Mary-Joe para confundir os serviços de informações.

Mary-Joe acordou numa manhã de sábado, num hospital de uma nação amiga da causa revolucionária, para onde fora levada de carona, junto com uma turma de expatriados voluntários. Após aquele papo de praxe – onde estou, que dia é hoje, o que aconteceu, cadê o desgraçado do João das Tiras? – Mary-Joe começou a assimilar todas as novidades. Teve de ser ressuscitada, após olhar-se no espelho pela primeira vez, depois de 43 anos de coma profundo. Há coma raso? Aquela bela morena fogosa dos tempos da UIES se transformara na avó do Mestre Yoda. Não havia milímetro sem rugas naquele corpo encolhido e curvado pelos anos e pela doença. Recuperava-se rapidamente, após ouvir a boa nova: a Revolução vencera na pátria amada. Os imperialistas militaristas foram vencidos pelo voto e pelo clamor das massas estudantis de caras pintadas. Milhões foram às ruas, entoando frases de efeito. Os operários finalmente assumiram o poder, pelo voto. A flor, como maior refrão, venceu o canhão, conforme a previsão nos versos do poeta. Mary-Joe quase enfartou de alegria. Até perdoaria João das Tiras, se ele ainda estivesse vivo.

O que se seguiu, não deixou de ser triste. Buscaram Mary-Joe de jatinho executivo, emprestado por um rico empresário e fizeram-na visitar duas repúblicas nas escalas da volta. Andou em carro aberto, ao lado do sujeito que só vestia camisas vermelhas, única coisa vermelha por lá. Na chagada em casa, recepcionaram-na ministros e mandatários em finos ternos produzidos pela elite imperialista da moda. Operários de limusine conduziram-na à suíte presidencial do Decadent Luxury Pharaonic Towers Hotel, com vista para toda a capital. Mary-Joe não pregou o olho, naquela noite, entre lençóis egípcios de 2400 fios – contando apenas os do lado avesso. Beliscou-se para verificar se não acordara de um sono profundo para um pesadelo político. Que diabos de revolução comunista era aquela? Onde estavam os antigos camponeses, operários e estudantes? Onde foram parar as idéias? Ela via apenas os neojanotas enfiados em trajes decadentes. Até então, ficara apenas desesperada. O telefonema do ministro foi a pipa d’água no seu já transbordante dedal. Ele lhe comunicou que o governo lhe brindara com uma polpuda pensão vitalícia, como heroína da revolução, e que ela, de inhapa, fizera jus a um milhão de luvas, ou fosse lá o nome que dessem àquilo.

Mary-Joe imolou-se moralmente. Passou a ser a Euzébia Louca, representante da Associação Americana dos Caçadores de Veados, Bisões e Assemelhados. Veste Prada.


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