15.10.08

476 - Um mundo melhor

Foto: Paulo Heuser
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Um mundo melhor

Por Paulo Heuser


Por que viajar? Por que conhecer outros lugares? Há um sem número de razões, com certeza. Alguns fogem de algo ou de alguém. Outros viajam porque fogem da rotina. Pode-se viajar também através das páginas de um bom livro. Por que não comprar o livro durante uma viagem? Ah, que saudade dos livros que eu lia na rede. Rede que balouçava entre árvores defronte a casa sem muros nem cercas. Os únicos invasores eventuais eram o vento e a chuva.

À pergunta sobre as razões que me levaram a viajar, respondo sem pestanejar: paz e segurança. Se eu não viajar a Bogotá, Caracas, Nova Orleans ou ao Rio de Janeiro, estarei mais seguro do que estou aqui. Isso torna muito fácil encontrar um destino mais seguro. Bagdá é um lugar a se considerar. Mais segura do que as anteriores, Bagdá apresenta muitas atrações, desde a tecelagem persa até a explosão da fila do pão. A sensação de caminhar sem preocupação extremada é impagável. Ver uma senhora idosa sacando dinheiro num caixa automático, em plena rua, durante a noite, é ainda mais impagável. Esquecemo-nos dessas coisas que deveriam parecer naturais.

Embarquei nesta viagem por acaso e não me arrependi. Há muito eu não experimentava sensações tão boas. No princípio permaneci cético, pois os anos de desconfiança remeteram-me à cautela. Senti-me como devem ter se sentido os habitantes das cidades européias no final das grandes guerras. Aos poucos saí à luz. Agora me deixo levar pela deliciosa sensação de andar à noite pela cidade limpa. Cruzo pelos passantes que me cumprimentam, apesar de não me conhecerem pessoalmente. É ótima a sensação de ser notado e poder notar os demais sem medo. Não se faz necessária muita cordialidade, basta o reconhecimento de que há outras pessoas. Adentro restaurante sob uma chuva de cumprimentos, não apenas dos garçons, mas também dos freqüentadores. Alguns até sorriem! O jardim do restaurante dá para a rua, sem cercas, sem telas e sem pedintes. Que mundo é este, que só agora reencontro? Eu vivi nele, faz muito. Porém faz tanto, que eu já havia me esquecido dele.

Atravesso a rua na faixa para pedestres, e os carros param! A noite vai, e os carros param no sinal, mesmo não havendo outros. Aliás, não há tantos carros assim, pois o pessoal volta para casa de metrô. O problema dessas viagens é que elas terminam, sejam curtas ou longas. Aproveito cada minuto desta viagem, enquanto não termina o horário de propaganda eleitoral gratuita. Quando ele terminar, eu voltarei ao miserável mundo real do hiato intereleitoral.

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14.7.08

425 - Sanitários turcos



Foto: Wikipedia


Sanitários turcos

Por Paulo Heuser


Não gosto das continuações numeradas. Vi o anúncio do lançamento do filme Meu Primeiro Amor 2. Sendo dois, o filme deveria se chamar Meu Segundo Amor. Não há como ser duas vezes o primeiro. Assim, recusei-me a escrever Liminariana 2. Para quem não leu o um, que por sinal não foi numerado, por ser único naquela época, Liminariana tratava da saúde pública, na república homônima, uma democracia localizada ao sul do Pólo Norte, classificada pelo G8 como “potência emergente fortemente lastreada”, já que vem tentando emergir há muito tempo. É de lá que os sistemas públicos de saúde, de diversos países emergentes, importam o poderoso placebo farmacológico Exkrement II, ao custo de US$ 700 por comprimido, apoiados em liminares obtidas pelos advogados dos pacientes impacientes.

Liminariana voltou às manchetes porque a Milícia Liminariana – espécie de FBI local – começou a funcionar. Após investigarem muitos membros do Parlamento Liminariano, blindados pelo manto legislativo, descobriram que era muito mais fácil prenderem os grandes empresários envolvidos nos processos heterodoxos do relacionamento público-privado, ou seja, nas maracutaias. As prisões foram fartamente noticiadas, com imagens dos poderosos algemados. A celeridade cautelar fez com que as carceragens da Milícia Liminariana se parecessem com casas de encontros, pelo entra e sai das celebridades heterodoxas. A vantagem do prende e solta é a dupla, tripla ou até quádrupla satisfação sentida pelos cidadãos, ao verem os tubarões, antes intocáveis, serem presos, mesmo que temporariamente. Para os advogados, cada prende e solta representa renda adicional. Liminariana viveu dias de euforia, pois a população começou a acreditar na existência de justiça, mesmo que gaguejante. Os heterodoxos não gostaram. O uso de algemas comuns causou muita indignação. Serem presos em segredo, sem algemas, era uma coisa. Porém, aparecerem algemados, em todos os noticiários, era algo completamente diferente. Contudo, deixarem todo mundo saber que utilizariam sanitários turcos – buracos no chão -, foi a suprema humilhação. O cara andava de Mercedes, tinha iate em Mônaco e casa em Portofino, mas ficava de cócoras para fazer aquilo na cela. E, o que é pior, com todo mundo sabendo disso. Mesmo que batesse a maior prisão de ventre no sujeito, ninguém acreditaria na história. Um francês talvez não se importasse tanto. Para um liminariano, no entanto, era demais. O prende e solta provocou forte demanda nos serviços jurídicos de Liminária, a capital de Liminariana. A falta de planejamento jurídico começou a cobrar seu preço. A Milícia teimou em não divulgar o calendário das suas ações, deixando os heterodoxos em polvorosa.

Os advogados dos heterodoxos tentaram angariar alguma simpatia, por parte dos cidadãos comuns, deixando passar a idéia de que eles seriam os próximos a sentirem os rigores da lei. Eles seriam os próximos acocorados no sanitário turco. Na verdade, os advogados de Liminariana estavam lançando as sementes de um novo serviço, que, graças aos céus, ainda não foi lançado por aqui: o plano jurídico Prisão Feliz. Dividido em quatro categorias: Básico, Prata, Ouro e Platina, o Prisão Feliz é o equivalente jurídico do plano de saúde. Até mesmo o plano Básico já garante a prisão em cela com vaso sanitário, desses sobre os quais se pode sentar. E todo mundo saberá disso.

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11.6.08

411 - A guerra das mamonas



Batalha de La Lys, Flandres
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A guerra das mamonas

Por Paulo Heuser


Em Santa Cruz do Sul havia um terreno baldio, de área de pelo menos um hectare, junto ao centro da cidade, entre as ruas Marechal Deodoro e Tomás Flores. Para uma criança, aquilo era uma selva cruzada por um rio. Hoje desconfio que o rio era o esgoto. O terreno estava coberto pela vegetação, com muitas árvores, entre infinitos pés de mamona. A altura da vegetação aumentava a sensação de imensidão, pois, uma vez lá dentro, não era possível enxergar os limites do terreno. Havia trilhas em meio à floresta, abertas sabe-se lá por quem.

Como nem tudo são flores no paraíso, havia também a disputa pelo controle do terreno. Duas turmas disputavam o controle sobre aquele latifúndio urbano. Cada turma construía seu esconderijo no meio da selva, longe das trilhas, de modo a dificultar sua localização pelo inimigo. As regras do conflito territorial não eram muito claras. Todos sonhavam com as armadilhas pavorosas, preparadas pelos nativos africanos do cinema, como aqueles troncos cheios de pontas que perfuram todo o inimigo, e acabavam montando armadilhas menos mortais, preparadas com o subproduto da digestão humana. Menos mortal, porém igualmente cruel. O cuidado com a segurança do esconderijo se explicava, pela ferocidade dos conquistadores, que destruíam completamente o reduto inimigo. Não sobrava pedra sobre pedra, ainda mais que não se utilizavam pedras, apenas madeiras.

Os combates diretos, entre os membros das duas turmas, não eram muito comuns, porém ocorriam. Eram lutas sangrentas. Guerras de mamonas. Quem nunca levou uma bodocada de mamona na orelha não pode imaginar a dor que causa. O sujeito passa a odiar biodiesel e óleo de rícino.

Numa linda tarde de sol, as duas turmas se defrontaram, na única parte do terreno que apresentava vegetação rasteira, e permitia a visualização direta do inimigo. Guerreiro calejado, eu consegui uma tampa de tonel de metal, para utilizar como escudo. Foi uma maravilha. Avançava agachado, em meio à saraivada de mamonas, ouvindo o som dos obuses vegetais atingindo meu fantástico escudo. O que faria, quando chegasse lá, não sei. Contudo, avançar incólume dava uma sensação de poder. Não cheguei até o inimigo, pois me esqueci de proteger as mãos, que seguravam a tampa do tonel. Lá pelas tantas, alguém mandou uma bodocada certeira que atingiu meus dedos. Foi o suficiente para que eu largasse a tampa, ficando a descoberto. Foi hora de bater em retirada, sem olhar para trás.

O terreno baldio deu lugar às casas e a um supermercado. Com o tempo, todos cresceram, viraram adultos, e têm apenas as boas recordações deixadas pelas rusgas em meio à selva santacruzense.. Memórias que nem o Alzheimer apagará. Outros, menos afortunados, lutam suas guerras de mamonas depois de adultos. Em comum, com aquelas crianças, têm apenas uma coisa. Não sabem o que fazer quando chegam lá. Quando ninguém lhes atinge as mãos, derrubando seus escudos, eles chegam ao reduto do inimigo, escudados pelos discursos de campanha. Então, não deixam pedra sobre pedra. Deixarão apenas as péssimas recordações.


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10.6.08

410 - A goiabada


Foto: Wikipedia
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A goiabada

Por Paulo Heuser


08h03 – O agente Souza deixa a lanchonete com dois cafés pretos e duas rosquinhas. Após olhar insuspeitamente para todos os lados, ele entra pela porta traseira da caminhonete, em cuja lateral se lê: “Grampos Souza”. O agente Barbosa aceita de bom grado o café quente.

08:37 – O agente Barbosa cutuca o ombro do semi-adormecido agente Souza e avisa que captou uma chamada. Apertou os fones contra os ouvidos e verificou se o gravador estava funcionando.

- Trimmm, trimmm, trimmm, triiiimmm. Click. Alô? – voz de mulher ruiva, jovem, vestindo blusa azul-marinho e saia plissada branca. Ah, calçando sapatos vermelhos de salto 11.

- Oi, bem! – voz de homem na meia-idade, usando óculos brancos da moda, vestindo roupão com emblema de spa, pantufas de Mickey e gorro de lã.

- Oiii... – is desvanecentes, como que sugerindo algo proibido.

- Você conseguiu? – voz de quem ajeitava os óculos.

- Ahã. Consegui.... – is prolongados em biquinho de boca com batom rosa.

- (inaudível) – o agente Barbosa fecha os olhos e aperta mais os fones contra seus ouvidos.

- Ahã. Até que foi barato. Ele tentou resistir, disse que não aprovava esse tipo de coisa, que feria a ética, e todo aquele lero-lero.

- Parece ingênuo, mas não é!

O agente Souza liga para o chefe e avisa que pegaram algo muito interessante. Tão logo puderem, enviarão a fita e a transcrição. No gravador, o papo continua:

- Ahã. Tive de jogar um charme nele, para conseguir. Ele insistia naquela babaquice da ética, que não podia, etc e tal.

- Babaca. – voz de impaciência – como é que você vai mandar a goiabada?

O agente Souza ri. Cada nome que inventam, para referir à muamba! Já vira de tudo. Ia desde “a coisa” até “aquilo”. Goiabada era coisa inédita. Nunca grampeara alguém que comprara “goiabada”.

- Acho melhor mandar numa mala.

- Mala? Boa idéia! Não dará na vista, especialmente num spa. – diz o homem, enquanto ajeita o cinto do roupão.

- É, ninguém suspeitará da mala, especialmente aí, aonde chegam e saem hóspedes a toda hora. Bem, vou providenciar a remessa. Vão entregá-la às 17h.

- Ok, beijo.

- Click.

08h52 – O agente Souza transcreve o diálogo e envia ao chefe.

09h11 – O chefe liga para o gerente e relata o ocorrido.

12h04 – Uma equipe deixa a cidade em direção ao spa. São oito agentes vestindo roupas ninjas, armados até os dentes implantados. Aquele sujeito conseguira se internar no spa, alegando estresse pós-audiência, mas não escaparia tão fácil!

15h30 – A equipe monta campana junto à entrada do spa. O agente Souza sai da caminhonete para procurar rosquinhas e café.

16h25 – O agente Souza sai para comprar mais rosquinhas e café.

16h29 – Dona Bianca, da lanchonete, começa a fritar mais rosquinhas.

16h55 – Os agentes colocam as toucas ninjas.

17h03 – O carro preto pára defronte a entrada de serviço do spa. Dele desce um homem de aparência suspeita, que abre o porta-malas e retira uma pequena mala preta. Dirige-se à entrada de serviço e dá três batidas ritmadas na porta. Quando a porta se abre, os agentes caem sobre ela. O motorista do carro preto alega ser apenas um mensageiro. Sua missão é apenas entregar a mala ao hóspede do 213. O funcionário do spa, que abriu a porta, logo confessa que aceitou propina para dar acesso ao motorista. Diz que sustenta a sogra doente. Uma moça ruiva, muito bonita, havia lhe entregue 50 reais para facilitar as coisas. Ele relutou, a princípio, pois se julgava um homem de bem. Porém, o desespero lhe tirou do bom caminho.

17h29 – O agente Pantoja, chefe da equipe, chama o esquadrão antibombas. Afinal, ninguém sabe o conteúdo da mala. O que seria a tal de “goiabada”?

18h43 – Chega o esquadrão antibombas. O especialista de plantão manda isolar o local. Coloca um anteparo de sacos de areia, ao redor da mala, e ordena que disparem contra ela. Diversos tiros depois, nada acontece. Pé ante pé, o especialista chega próximo à mala, para inspeção visual. Conclui não haver bomba. O ilustre hóspede do 213 tenta escapar de fininho. É impedido.

18h47 – Os agentes forçam a fechadura da mala e conseguem abri-la. Está repleta de goiabada. Com furos de bala, em alguns pedaços.

19h01 – O celular do hóspede ilustre do 213 toca. O agente Barbosa consegue interceptar a ligação:

- E aí, bem, chegou? Essa sua mania de comer montes de goiabada, mesmo no spa, ainda vai lhe render encrenca.


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21.5.08

401 - Monarquistas, pelo amor de Deus!


Foto: Wikipedia
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Monarquistas, pelo amor de Deus!

Por Paulo Heuser


Lembro-me do referendo que escolheu o regime do governo deste Brasil moderno. As opções não contemplaram o regime em vigor, a república federativa cpista, que surgiu espontaneamente. Este regime não foi inventado aqui. O cpismo democrático é uma evolução moderna do macartismo norte-americano do pós-guerra. Se lá cassavam comunistas, aqui se cassam todos, uns aos outros, como cachorros correndo atrás do rabo, nos intermináveis espetáculos teatrais televisionados ao vivo, desde que não interrompam a transmissão do futebol ou das novelas. Estas passaram a incorporar doses de cpismo, levando realidade à ficção. As novelas modernas não são novelas, são representações adaptativas da realidade cotidiana que não se furtam a tentar alterá-la. O que hoje está nas manchetes, amanhã estará nas novelas das oito, porque as das seis são de época, de outras épocas, nunca desta. O cpismo invadiu as novelas. Quem zapeia entre os canais, não sabe mais o que é ficção e o que é realidade. Os autômatos telespectadores apenas internalizam o conceito e são levados por horas a fio, a navegar pela conversa mole perene, com eventuais brigas, daqui ou dali. Tentei assistir a um capítulo desses, não sei mais se da realidade ou da ficção, onde um pivô de escândalo falou durante horas, sobre nada, enquanto os seus inquisidores gaguejavam frases aleatórias sem sentido. O título deste texto é uma corruptela do título da peça de teatro Anarquistas Graças a Deus, baseada no livro homônimo de Zélia Gattai. Assisti à paça lá pelo início dos 80. Coincidentemente, o ator principal era o Antônio Fagundes, o mesmo da atual novela das oito. Lá pelas tantas, o ator conclamava o público a gritar um refrão que dizia que o governo era aquilo (algo não publicável). A sensação de gritá-lo, sem ser preso, era ótima. A maioria começava com murmúrios tímidos, que logo davam lugar aos gritos, em uníssono. O ator brincava com a platéia dizendo que poderiam voltar nos dias seguintes, para desopilar novamente. O finado Teatro Presidente, depois transformado em templo, quase vinha abaixo. E ainda não havíamos degustado completamente a liberdade que nos trouxe esta maravilhosa república federativa cpista. Curiosamente, o País vive um dos melhores momentos econômicos, e por que não dizer sociais, pelos quais já passou. Temo exercer algum exercício de lógica sobre esta questão. Concluiria, talvez, que o cpismo retira, do dia a dia, os responsáveis pelo atravancamento do País. Entretidos nos seus jogos políticos, não conseguem puxar o freio de mão do País. Noutro dia assisti a uma comédia, estilo abobrinha, sobre um candidato ao governo norte-americano que sugeria que os postulantes aos cargos eletivos vestissem trajes com os logotipos dos seus patrocinadores, como fazem os atletas profissionais, notadamente os do automobilismo. O filme não é grande coisa, mas a idéia é excelente. É óbvio que nem todos os atores das CPIs são ruins, apenas por estarem lá. Seria o mesmo que dizer que todos os austríacos que têm porão em casa são monstros. Porém, todos os austríacos estão sendo julgados pela mídia. Criaram Hitler e o Fritzl. Os bons pagam pelos ruins, frase óbvia. A coisa explode quando não há porões, tudo é feito à luz do dia.

Este texto tem apenas dois parágrafos. Propositadamente, para que sua leitura seja pesada, como é o assunto. Sonho com um novo referendo, onde conste como opção a monarquia, além da república federativa cpista. A corte seria menor do que a de hoje, com certeza. Poderíamos gritar refrões contra o monarca. Hoje não sabemos mais contra quem gritamos, pois todos parecem iguais. Longa vida ao rei, desde que ele não crie CRIs – Comissões Reais de Inquérito!



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14.11.07

A classe média


Vilanova - Tinta China (http://www.grafar.blogspot.com/)
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A classe média


Por Paulo Heuser


Linoberto jogou-se na cadeira do Bar Armazém e Borracharia 12 Irmãos, como fazia em todos os finais de tarde. Esticou os braços e as pernas, no alongamento inconsciente. Foi a senha para um dos 12 irmãos trazer o martelo de losna e carqueja. Aquela bebida deixaria qualquer um com os beiços virados para dentro, feito velha desdentada que chupou limão azedo. Todo mundo, menos o Linoberto e seus colegas de bar. Ele bebeu daquela coisa pela primeira vez quando completou 18 anos. A avô o levou ao 12 Irmãos e pediu dois tragos, solenemente. Reinou o silêncio, enquanto todos esperavam para ver a cara do Linoberto, após o primeiro gole. A reação foi aquela esperada. Desesperou-se, tanto pela queimação quanto pela amargura da bebida. Todos riram, inclusive o avô, e a vida voltou ao normal. Quem inventou a bebida foi o primeiro irmão, dos doze, já falecido. A tradição se manteve. Os fregueses pedem da “boa”. Agora é o sétimo irmão, dos 12, o encarregado pela “boa”.

Distraído pelo amargor do primeiro gole, Linoberto não chegou a perceber a entrada do estranho. O primeiro, desde que a vaca do cunhado dera cria. Não que o estranho anterior viesse ver o terneiro. É que o cunhado do Linoberto não pôde levar o leite, pela primeira vez em 11 anos. Então mandaram o estranho buscá-lo. E o estranho entrou no 12 Irmãos, pediu o mesmo que Linoberto bebia, todo mundo fez silêncio, na expectativa da cara do..., etc, etc. Pois esse novo estranho também perguntou o que Linoberto bebia e pediu o mesmo. Novo silêncio, todos riram, etc. O homem fez a esperada cara de desespero, tão esperada pelos freqüentadores. Essa cara só era vista quando alguém na vila completava 18 anos, ou quando aparecia um novo estranho, o que, pelo visto, não ocorria com muita freqüência.

- Ahnmf... Coisinha fortinha essa! – o estranho conseguiu falar, com a boca retorcida.

- É a especialidade da casa – disse Linoberto.

A conversa iniciou meio mole, com as trivialidades habituais. Linoberto ficou curioso. O que fazia ali aquele novo estranho, já que o seu cunhado não ficava doente desde o nascimento do terneiro.

- Vim mostrar-lhes a verdade. – disse o estranho, enquanto decidia se bebia outro gole da “boa”.

- Ah, já entendi! É um pregador. De qual igreja?

- Não tem nada a ver com igreja! Venho mostrar-lhes a dura realidade sociopolítica deste momento delicado da vida política nacional.

- Ah, agora entendi! Está vendendo plano de saúde... – Linoberto bebeu um longo gole, para espanto do estranho, que ainda não se recuperara do primeiro.

- Não! Venho lhes mostrar o caminho para a verdadeira revolução camponesa!

- Um vendedor de veneno, adubo, arado? - Linoberto estava cada vez mais curioso.

- Vim tirá-los das garras das elites dominantes. Notamos que vocês ignoram completamente o fato de estarem sendo explorados e escravizados pelas elites imperialistas retrógradas. – os olhos do estranho faiscavam.

- Olhe, moço. Nós podemos ser um pouco grossos, sem muito refinamento, completamente dispensável por aqui, mas não somos burros nem ignorantes. Temos antena parabólica, e vemos tudo que acontece depois do cinamomo.

- Antena parabólica? Isso é coisa da burguesia decadente! – a boca do estranho contorceu-se novamente, pois tomou outro gole da “boa”.

- Pode ser, mas a gente precisa ficar sabendo das coisas. Por isso mandamos os filhos à escola. Eu também estudei.

- Então, como podem ignorar a única verdade? Vocês passam fome, enquanto as elites se lambuzam naqueles festins decadentes dos capitalistas imperialistas, vassalos do Bush e do Sarkozy?

- Ninguém passa fome aqui. Nós comemos o que produzimos. Vocês que moram para lá do cinamomo é que passam fome, mesmo comendo. Vocês passam o dia tomando porcarias de refrigerantes, leite de vaca-química e cerveja de fábrica. Vocês comem verduras envenenadas e aqueles lanches, sabe-se lá do quê.
- Veja só o que você está bebendo. Lá há coisa semelhante?

O estranho concordou com Linoberto, pelo menos nesse ponto. Qualquer um que ousasse fabricar esse negócio, para lá do cinamomo, seria preso - elite, burguês ou proletário.

- Sua peremptória negação da única realidade autêntica, proletária, progressista, campesina e... e... democrática - vá lá -, me leva a conclusão que você não passa de outro classe média, único culpado pela manutenção do estado em que se encontra o País. Fonte e sorvedouro de todos os males. A classe média é composta pelos sociopatas que mantêm o colchão de proteção das elites imperialistas contra as ações progressistas das minorias majoritárias que buscam a revolução autêntica, agente restaurador da conformidade das instituições sociopolíticas, tão brutalmente diferenciadas, antes mesmo do descobrimento do Brasil!

- Não sei o que querem restaurar. As coisas para lá do cinamomo sempre foram uma bagunça, antes mesmo de plantarem o cinamomo.

O estranho ficou tão indignado, que bebeu o resto da “boa”, de um só gole. Saiu porta afora, iniciando um discurso defronte o 12 Irmãos. O terneiro, já crescido, mugiu. Linoberto foi para casa, preocupado. Relatou o ocorrido a Maria, sua mulher.

- Ficou muito preocupado, Lino?

- Fiquei, Maria. Fiquei...

- Por quê? O problema não está para lá do cinamomo?

- Hoje está. Mas estou com medo de que cortem o cinamomo, noite dessas.

- E aí as coisas mudarão, por aqui?

- Sim, Maria. Então seremos classe média.

- O que faremos, Lino?

- Sei não. Estive pensando, no caminho do 12 Irmãos até aqui. Hoje descobri que as coisas estão tão ruins, para lá do cinamomo, por nossa culpa. O estranho falou que somos o colchão imperialista acomodado. Somos culpados, desde sempre, pela desgraça dos outros, sei lá de que outros. Mas, não somos tão acomodados como ele pensa.

- Vamos trocar o colchão de molas por outro mais moderno, do tal viscoelástico!

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16.10.07

A vó do Mestre Yoda

Foto: Comitê Revolucionário. Fonte: Wikimédia
A avó do Mestre Yoda


Por Paulo Heuser


Mary-Joe Santos acordou subitamente, após 43 anos de coma profundo. Milagre? Provavelmente, pois nenhum médico apostaria nem uma ficha de um centavo na recuperação dela. Em épocas de menos aparelhos e mais sensatez, deixaram que a natureza seguisse seu curso. Porém, o corpo de Mary-Joe não se deu por vencido, como ela nunca se dera por vencida nas suas convicções políticas extremadas. Ela não foi vítima da repressão. Foi vítima daquela sandália fajuta. Avessa aos produtos de marca, fabricados pelos burgueses imperialistas, comprou um par de sandálias que soltaram as tiras. No momento em que ela galgava o monumento, para dar início ao protesto da UIES – a proscrita União Internacional dos Estudantes Stalinistas –, temida até na Albânia, pela incomum radicalização das idéias comunistas.

A tira da sandália fabricada pelo camarada João das Tiras soltou-se, bem no momento em que Mary-Joe galgava o bigode do homenageado no monumento. Seguiram-se cenas de comoção, quando os sete congressistas socorreram sua até então líder, mártir viva a partir de então. João das Tiras imolou-se em Saigon, em protesto contra os fabricantes de estátuas bigodudas imperialistas. Com Mary-Joe em coma e João das Tiras tombado em ação, os seis membros restantes da sigla revolucionária desistiram da militância. Um virou cirurgião plástico de militantes enrustidos, quatro estudaram direito e dedicaram-se ao direito trabalhista sindical – patronal. Um virou escritor e dedicou-se à biografia não autorizada – em coma – de Mary-Joe. Esse não era seu nome, na verdade. Chamava-se Maria Euzébia, na certidão de nascimento. Utilizava o codinome Mary-Joe para confundir os serviços de informações.

Mary-Joe acordou numa manhã de sábado, num hospital de uma nação amiga da causa revolucionária, para onde fora levada de carona, junto com uma turma de expatriados voluntários. Após aquele papo de praxe – onde estou, que dia é hoje, o que aconteceu, cadê o desgraçado do João das Tiras? – Mary-Joe começou a assimilar todas as novidades. Teve de ser ressuscitada, após olhar-se no espelho pela primeira vez, depois de 43 anos de coma profundo. Há coma raso? Aquela bela morena fogosa dos tempos da UIES se transformara na avó do Mestre Yoda. Não havia milímetro sem rugas naquele corpo encolhido e curvado pelos anos e pela doença. Recuperava-se rapidamente, após ouvir a boa nova: a Revolução vencera na pátria amada. Os imperialistas militaristas foram vencidos pelo voto e pelo clamor das massas estudantis de caras pintadas. Milhões foram às ruas, entoando frases de efeito. Os operários finalmente assumiram o poder, pelo voto. A flor, como maior refrão, venceu o canhão, conforme a previsão nos versos do poeta. Mary-Joe quase enfartou de alegria. Até perdoaria João das Tiras, se ele ainda estivesse vivo.

O que se seguiu, não deixou de ser triste. Buscaram Mary-Joe de jatinho executivo, emprestado por um rico empresário e fizeram-na visitar duas repúblicas nas escalas da volta. Andou em carro aberto, ao lado do sujeito que só vestia camisas vermelhas, única coisa vermelha por lá. Na chagada em casa, recepcionaram-na ministros e mandatários em finos ternos produzidos pela elite imperialista da moda. Operários de limusine conduziram-na à suíte presidencial do Decadent Luxury Pharaonic Towers Hotel, com vista para toda a capital. Mary-Joe não pregou o olho, naquela noite, entre lençóis egípcios de 2400 fios – contando apenas os do lado avesso. Beliscou-se para verificar se não acordara de um sono profundo para um pesadelo político. Que diabos de revolução comunista era aquela? Onde estavam os antigos camponeses, operários e estudantes? Onde foram parar as idéias? Ela via apenas os neojanotas enfiados em trajes decadentes. Até então, ficara apenas desesperada. O telefonema do ministro foi a pipa d’água no seu já transbordante dedal. Ele lhe comunicou que o governo lhe brindara com uma polpuda pensão vitalícia, como heroína da revolução, e que ela, de inhapa, fizera jus a um milhão de luvas, ou fosse lá o nome que dessem àquilo.

Mary-Joe imolou-se moralmente. Passou a ser a Euzébia Louca, representante da Associação Americana dos Caçadores de Veados, Bisões e Assemelhados. Veste Prada.


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24.4.07

Vocação Neurológica


Vocação Neurológica

Por Paulo Heuser


Armagedônio Ímpio viveu uma infância normal, excluídos alguns episódios um pouco estranhos. Coisa pouca. Nada que pudesse assustar àqueles que já o conheciam bem. Dissecava ratos vivos, movido pela curiosidade científica. Coisas da infância, diziam os pais. Não era muito comunicativo, em alguns períodos, excessivamente, em outros. Coisas da infância, diziam os pais. Os colegas não gostavam muito da maneira como ele jogava futebol, tanto que deixaram de convidá-lo. Tudo porque ele costumava sair correndo com a bola embaixo do braço. A devolvia. Furada, mas sempre devolvia. Coisas da infância, diziam os pais.

Quem reclamou primeiro foi a bibliotecária da escola. Armagedônio adorava livros. Pedia os clássicos bíblicos e os devorava, literalmente. Colocava uma régua, ao comprido, sobre as páginas, e rasgava tira por tira, comendo-as a seguir. Restavam apenas capa e lombada. Impressionada com a cena de blibliofagia explícita, Dona Marta comunicou o fato à direção da escola, que, por sua vez, chamou os pais. Coisas da infância, diziam os pais, que se comprometeram a repor a seção de livros ocos. Os colegas afastaram-se mais, quando Armagedônio começou a desfilar pelas ruas levando Canny pela coleira. Exibia orgulhoso as piruetas que o cão realizava. O ponto alto do espetáculo ocorria quando Canny subia pelas paredes. Nada extraordinário, considerando um animal imaginário. Coisas da infância, diziam os pais. Na época em que Armagedônio completou 18 anos.

Hora de servir à Pátria. Inexplicavelmente, Armagedônio foi recusado na seleção. O médico ficou muito impressionado com o traje temático apresentado pelo rapaz. Montara uma reluzente armadura medieval, a partir de sucata de dutos metálicos. Coisas da infância, diziam os pais. A coisa ofuscava, ao sol. Assim, comprovou-se a criatividade do rapaz. Haveria de seguir uma carreira voltada à criação.

A psicóloga que tentou determinar a vocação do Armagedônio ficou muito preocupada. Não pelo fato de ele ter chupado toda a tinta das quatro canetas esferográficas depositadas sobre a mesa. A gota d’água foi a descoberta feita por Armagedônio. Descobriu que o tapete branco de pele, da sala da psicóloga, era na realidade a terra prometida para sua coleção de pulgas, cuidadosamente trazidas numa caixa de sapatos. Coisas da infância, diziam os pais, mas concordaram em levá-lo ao psiquiatra. Após um sem número de antigos e modernos exames o médico concluiu que Armagedônio apresentava algum defeito nos genes ligados à esquizofrenia, coisas como NRG1 e erB64. Ou seja, não batia bem. Tudo muito técnico. Coisas da infância, diziam os pais. Com excesso de oligodendrócitos e falta de mielina, Armagedônio tentava encontrar algum rumo na vida. Passou por uma fase de rompantes verborrágicos espontâneos, quando discursava aleatoriamente, em praça pública, sobre o que lia nos jornais, antes de comê-los. Coisas da infância, diziam os pais.

Seus discursos não passaram despercebidos. Foram ouvidos. E lhe deram um futuro. Elegeu-se com mais de um milhão de votos.



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