2.9.08

454 - A classe média XII: O grampo

Foto: Wikipedia


A classe média XII – O grampo

Por Paulo Heuser


Há apenas um telefone no Lado de Cá do Cinamomo, instalado no Bar, Churrascaria e Borracharia 12 Irmãos, que também acumula a função de sede do executivo do esquecido município, último bastião da classe média clássica. A classe média clássica difere da classe média moderna pelo fato de que esta é estatística, enquanto aquela é posicional, situando-se entra a classe rica e a classe pobre. Outra definição comumente aceita descreve a classe média clássica como aquela que consegue satisfazer suas necessidades de acesso à saúde, ao ensino, à cultura, ao lazer e à habitação. A classe média moderna – ou estatística - é a outra.

A vida corria solta. Os primeiros sons da primavera já se faziam presentes, na figura dos sabiás que cantavam desde o raiar da manhã. Os joões-de-barro iniciavam a reforma das suas casas sobre o campanário da paróquia. Aquela manhã transbordava dos cheiros da natureza, inclusive daquele emanado pelo chiqueiro detrás do 12 Irmãos.

Em sintonia total com o ambiente, o crescido terneiro mugia, talvez de gabação, talvez de tabaqueação.

O som de um motor distante quebrou a harmonia reinante. Como o Renault Dauphine da Dona Clotilde já estava estacionado ao lado da igreja, e o rapaz do leite já havia seguido para o lado de lá do cinamomo, só havia uma explicação. O som anunciava a chegada do Estranho, o único representante do governo a encontrar o Lado de Cá do Cinamomo. A poeira levantada pelo jipe da equipe do MI0 – Ministério da Inteligência Zero – se fez presente antes do veículo.

O Estranho veio acompanhado de dois sujeitos em ternos pretos, com cabelos cortados à escovinha, óculos escuros e fones no ouvido direito. Eles tentavam insistentemente comunicar-se com alguém, aparentemente sem êxito. O Estranho lhes explicou que as ondas de rádio não se davam muito bem do Lado de Cá do Cinamomo.

Antevendo problemas, Padre Antão tocou o carrilhão de apenas um sino, o único do País com estas características. A intenção dele era chamar o Linoberto, agricultor e Secretário de Assuntos de Inteligência, para verificar o que os estranhos pretendiam. Linoberto deixou a roça, ao ouvir o sino, e seguiu diretamente ao 12 Irmãos, onde o Sétimo tentava inutilmente servir doses da “boa” – cachaça do seu alambique – aos recém-chegados. O Estranho olhava para o líquido azulado, com evidente desejo, mas o recusou, por se encontrar em serviço. Olhou para o relógio e verificou que em 1h37 poderia fazer a pausa para o almoço. Então, não estaria em serviço. Linoberto arrastou uma cadeira e sentou à mesa da comitiva do Governo.

Do lado de fora, para espanto dos estranhos, o crescido terneiro mugia, talvez de chateação, talvez de hipertensão.

Linoberto serviu-se de um trago da “boa” enquanto cumprimentava os agentes Tom e Joe – codinomes, com certeza.

- Recebemos uma denúncia de grampo no telefone da Prefeitura. – O Estranho limitou-se a dizer.

- Denúncia, de quem? – Lino parecia surpreso.

- Essa informação é secreta! – cortou o agente Tom.

- E irrelevante! – completou o agente Joe.

O Estranho olhava de forma estranha para o copo do Linoberto. Falou, sem tirar os olhos da bebida:

- Ora, a origem da denúncia não importa. O que importa é que há uma forte evidência testemunhal de que o grampo existe.

- E daí, se houver? Isso não atrapalha ninguém!

- Atrapalha a Lei. O art. 5°. O que se fala ao telefone não pode ser grampeado. Além do que, Dormientibus non succurrit jus! – O direito não socorre os que dormem! (?)

- Certo, pressupondo que há um grampo no telefone da Prefeitura, que também é o telefone deste bar, o que vocês propõem?

- Uma varredura! – disse o agente Tom.

- Completa! – completou o agente Joe.

- Bem, fiquem à vontade.

Linoberto voltou à roça. Os agentes Tom e Joe abriram duas imensas malas, de onde tiraram engenhocas eletrônicas para varredura de escutas telefônicas. Aparelhos sofisticadíssimos. Talvez demais, pois não conseguiam adaptá-los ao telefone de magneto do 12 Irmãos. Aquele telefone tocava, de vez em quando. Porém, ao atendê-lo, só se ouvia chiados estranhos, como o “Shhhhuóóóóiiiiinnnxxxxrrrrr”. O toque, no passado, prenunciava a chegada do Estranho, pois o Governo tentava contato através dele. Os agentes Tom e Joe acreditavam que o estranho chiado indicava a presença de grampos.

Linoberto passou no 12 Irmãos, antes de voltar para casa, para fazer a hora feliz. Maria ainda costurava jaquetas com o tecido doado pelo norte-americano do balão.

- Eu soube que o Estranho andou por aí, Lino.

- Foi, Maria?

- O que foi desta vez?

- Segundo eles, receberam uma denúncia de grampo no telefone do 12 Irmãos.

- Mas, aquele telefone não funciona há anos!

- Por isso mesmo creio que foi coisa do rapaz do leite, que resolveu pregar uma peça no Estranho.

- E então, o que aconteceu?

- Aconteceu um milagre, Maria. O Padre Antão até vai rezar uma missa especial.

- Como, um milagre?

- É, Maria. Os tais dos agentes do Governo seguiram o fio do telefone e descobriram não apenas um grampo. Eles acharam muitos grampos. O Sétimo prendia as toalhas de mesa lavadas, no fio do telefone, com um monte de grampos.

- Mas, onde está o milagre? - Perguntou-lhe Maria, quando conseguiu conter o riso.

- Bem, retirados as toalhas e os grampos, o telefone funcionou. Aparentemente, havia um curto circuito provocado pelas toalhas e pelos arames que o Sétimo estendeu para esticar os fios.

O crescido terneiro mugiu, talvez de isolação, talvez de modulação.

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17.7.08

427 - Uma questão de óptica



Madonna des Kanonikus - Georg van der Paele de Jan van Eyck
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Uma questão de óptica

Por Paulo Heuser


Boa parte da percepção do mundo ao nosso redor ocorre através dos nossos olhos. Sendo assim, devo perceber um mundo meio tordo, e fora de foco, pois o Criador não estava exatamente num bom dia, quando criou meus olhos. Talvez isso explique por que vejo o mundo de forma diferente, quando comparado com aquele visto por outras pessoas. O astigmatismo nem incomoda muito. Porém, combinado com a presbiopia e a hipermetropia, torna a leitura em grande desafio. E me leva à percepção de coisas que os outros não vêem. Uma questão de óptica, sem dúvida.

Estudei óptica, com direito aos experimentos de laboratório. A primeira grande dúvida que surge é: será óptica ou ótica? Logo aprendemos que a óptica diz respeito à visão, e a ótica à audição. O laboratório de óptica, curiosamente, era escuro. Usávamos a ótica para realizar experimentos de óptica, já que o único sentido útil, no escuro, era a audição, além do tato, é claro. Além de apagarem todas as luzes, tapavam todas as frestas por onde pudesse entrar luz externa. Outra coisa curiosa era o roteiro do experimento, impresso no papel com caracteres Times New Roman, tamanho 8. Muito bom para ser lido no escuro - pelos morcegos, bem entendido. Lá, os óculos podiam ser dispensados. Nada se enxergava, com ou sem eles. Para não dizer que o experimento era lazer, trabalhamos com laser. Um professor mais distraído poderia se esquecer de avisar os seus alunos do perigo de se olhar para uma fonte de luz coerente, como o laser. A luz dele frita o fundo do olho. Uma questão de óptica, sem dúvida.

Hoje, numa roda de conversa jogada fora, descobri que realmente tenho uma visão distorcida do mundo que me cerca. Fui um dos poucos que acharam engraçado o episódio do delegado que foi fazer um curso. Poderiam encontrar uma explicação mais digerível, para retirá-lo de cena. Desse jeito, ficou difícil de engolir. Está certo, o homem exagerou. Chamou a Globo e mandou algemar os detidos. Foi uma festa para os olhos do povo, mas fica difícil imaginar o Pitta ou o Dantas fugindo a pé, ou se engalfinhando em luta corporal com os agentes. Vá lá que o delegado vai ao curso, mas que ficou esquisito, ah, isso ficou. A história dos trechos da gravação, piorou mais ainda. Agora, até os grampeados estão loucos para divulgar os grampos, com a alegação de que não é possível provar o que não está grampeado (?), mesmo que em pedaços.

Disseram-me que não vejo os fatos pelo outro ângulo. Falta-me óptica. Eu deveria olhar o problema pelos dois lados, assumindo que o problema tem apenas dois lados, naturalmente. Seriam os lados do bem e do mal? Do branco e do preto? Cada lado é apenas uma visão, pelo outro lado, dele mesmo? Uma questão de óptica, sem dúvida.

Contudo, se o soneto – o afastamento - já pareceu esquisito, a emenda – o fica delegado - foi ainda pior. Há coisas que não têm conserto. Quando se quebram, deixe estar. Não importa por que lado eu olhe, me dá uma tremenda vontade de rir, para não chorar. O riso é o outro lado do choro. Uma questão fisiológica, sem dúvida.

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10.6.08

410 - A goiabada


Foto: Wikipedia
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A goiabada

Por Paulo Heuser


08h03 – O agente Souza deixa a lanchonete com dois cafés pretos e duas rosquinhas. Após olhar insuspeitamente para todos os lados, ele entra pela porta traseira da caminhonete, em cuja lateral se lê: “Grampos Souza”. O agente Barbosa aceita de bom grado o café quente.

08:37 – O agente Barbosa cutuca o ombro do semi-adormecido agente Souza e avisa que captou uma chamada. Apertou os fones contra os ouvidos e verificou se o gravador estava funcionando.

- Trimmm, trimmm, trimmm, triiiimmm. Click. Alô? – voz de mulher ruiva, jovem, vestindo blusa azul-marinho e saia plissada branca. Ah, calçando sapatos vermelhos de salto 11.

- Oi, bem! – voz de homem na meia-idade, usando óculos brancos da moda, vestindo roupão com emblema de spa, pantufas de Mickey e gorro de lã.

- Oiii... – is desvanecentes, como que sugerindo algo proibido.

- Você conseguiu? – voz de quem ajeitava os óculos.

- Ahã. Consegui.... – is prolongados em biquinho de boca com batom rosa.

- (inaudível) – o agente Barbosa fecha os olhos e aperta mais os fones contra seus ouvidos.

- Ahã. Até que foi barato. Ele tentou resistir, disse que não aprovava esse tipo de coisa, que feria a ética, e todo aquele lero-lero.

- Parece ingênuo, mas não é!

O agente Souza liga para o chefe e avisa que pegaram algo muito interessante. Tão logo puderem, enviarão a fita e a transcrição. No gravador, o papo continua:

- Ahã. Tive de jogar um charme nele, para conseguir. Ele insistia naquela babaquice da ética, que não podia, etc e tal.

- Babaca. – voz de impaciência – como é que você vai mandar a goiabada?

O agente Souza ri. Cada nome que inventam, para referir à muamba! Já vira de tudo. Ia desde “a coisa” até “aquilo”. Goiabada era coisa inédita. Nunca grampeara alguém que comprara “goiabada”.

- Acho melhor mandar numa mala.

- Mala? Boa idéia! Não dará na vista, especialmente num spa. – diz o homem, enquanto ajeita o cinto do roupão.

- É, ninguém suspeitará da mala, especialmente aí, aonde chegam e saem hóspedes a toda hora. Bem, vou providenciar a remessa. Vão entregá-la às 17h.

- Ok, beijo.

- Click.

08h52 – O agente Souza transcreve o diálogo e envia ao chefe.

09h11 – O chefe liga para o gerente e relata o ocorrido.

12h04 – Uma equipe deixa a cidade em direção ao spa. São oito agentes vestindo roupas ninjas, armados até os dentes implantados. Aquele sujeito conseguira se internar no spa, alegando estresse pós-audiência, mas não escaparia tão fácil!

15h30 – A equipe monta campana junto à entrada do spa. O agente Souza sai da caminhonete para procurar rosquinhas e café.

16h25 – O agente Souza sai para comprar mais rosquinhas e café.

16h29 – Dona Bianca, da lanchonete, começa a fritar mais rosquinhas.

16h55 – Os agentes colocam as toucas ninjas.

17h03 – O carro preto pára defronte a entrada de serviço do spa. Dele desce um homem de aparência suspeita, que abre o porta-malas e retira uma pequena mala preta. Dirige-se à entrada de serviço e dá três batidas ritmadas na porta. Quando a porta se abre, os agentes caem sobre ela. O motorista do carro preto alega ser apenas um mensageiro. Sua missão é apenas entregar a mala ao hóspede do 213. O funcionário do spa, que abriu a porta, logo confessa que aceitou propina para dar acesso ao motorista. Diz que sustenta a sogra doente. Uma moça ruiva, muito bonita, havia lhe entregue 50 reais para facilitar as coisas. Ele relutou, a princípio, pois se julgava um homem de bem. Porém, o desespero lhe tirou do bom caminho.

17h29 – O agente Pantoja, chefe da equipe, chama o esquadrão antibombas. Afinal, ninguém sabe o conteúdo da mala. O que seria a tal de “goiabada”?

18h43 – Chega o esquadrão antibombas. O especialista de plantão manda isolar o local. Coloca um anteparo de sacos de areia, ao redor da mala, e ordena que disparem contra ela. Diversos tiros depois, nada acontece. Pé ante pé, o especialista chega próximo à mala, para inspeção visual. Conclui não haver bomba. O ilustre hóspede do 213 tenta escapar de fininho. É impedido.

18h47 – Os agentes forçam a fechadura da mala e conseguem abri-la. Está repleta de goiabada. Com furos de bala, em alguns pedaços.

19h01 – O celular do hóspede ilustre do 213 toca. O agente Barbosa consegue interceptar a ligação:

- E aí, bem, chegou? Essa sua mania de comer montes de goiabada, mesmo no spa, ainda vai lhe render encrenca.


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