5.3.09

507 - O Terceiro Reinado

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O Terceiro Reinado

Por Paulo Heuser


Contam que esta ocorreu na Praça da Alfândega. Em meio àqueles grupos que lá se reúnem, para trocarem conversa fiada, havia verdadeira indignação com o desempenho dos parlamentares do País. A gota d’água foi a eleição do ex-presidente Collor para a presidência da Comissão de Infra-estrutura do Senado. Escaparam da Rainha das ONGs para caírem nas mãos do Caçador de Marajás. Ao cair da noite, no Bar do Jacó, o grupo se reuniu para a hora feliz, e o assunto foi o mesmo. Lá pelas tantas, o Tonhão traduziu o pensamento geral:

- A culpa é do Congresso!

O assentimento foi geral. Até o Perninha rompeu o seu folclórico silêncio e anuiu:

- É verdade!

Tonhão foi além e concluiu:

- A culpa não é somente do Congresso e sim do sistema de governo. Esta república presidencialista dá nisso!

Estabeleceu-se acalorada discussão a respeito da melhor forma de governo. Os parlamentaristas foram arrasados pelo argumento da similaridade entre congresso e parlamento. No fundo, seria a mesma coisa.

- Fazer o quê? – Tonhão soltou um imenso suspiro enquanto fazia sinal ao Jacó para que trouxesse outra cerveja.

- Monarquia! – exclamou Mortiço.

A reação dos demais não foi instantânea, talvez pela surpresa. Ficaram alguns instantes a remoer aquela palavra.

- Isso é coisa de país de velho! – exclamou Tonhão. E sempre tem o parlamento que...

- Monarquia totalitarista! – interrompeu Mortiço.

Novo silêncio. Após digerirem a idéia, e o picadinho trazido pelo Jacó, a maioria começou a vê-la com simpatia, mas não tiveram coragem para concordar.

- Com rei que manda em tudo, pode tudo, quando quer e como quer? – perguntou Tonhão, enquanto polia o caroço de uma azeitona magra.

- É, com rei déspota e totalitarista. Nada pode ser pior que isso que está posto. Vá lá, pode ter um Conselho Real, dos mais chegados, para darem uns pitacos.

- Onde encontraríamos alguém tão brilhante, íntegro e nobre a ponto de se tornar rei?

- Basta um idiota que possa ser mandado pelo Conselho Real. – disse Mortiço.

- O Nestor! – sugeriu Perninha – Ele se referia ao mendigo de plantão da Praça da Alfândega, que caiu nessa vida após ter investido todas as economias da vida em linhas telefônicas para aluguel. Com a queda do monopólio estatal, Nestor viu-se na miséria e ficou desmiolado. Suas frases mais complexas se resumiam a “uh” e “hum”.

Quando Jacó expulsou todos, às 21 horas, já havia ocorrido o Baile do Bar do Jacó – versão inversa do Baile da Ilha Fiscal de 9 de novembro de 1889. Em vez dos 800 kg de camarão, consumiram 800 g de mortadela; em vez das 1200 latas de aspargos, consumiram dois vidros de pepinos; em vez dos 10000 litros de cerveja, bem, consumiram 10000 litros de cerveja; em vez de marcarem o fim do Segundo Reinado, o de D. Pedro II, marcaram o início do Terceiro Reinado, o de Nestor I, o Idiota.

Nestor I, o Idiota, adorou a idéia. Passou de mendigo a rei, e as reuniões com o Conselho Real passaram e ocorrer no Bar do Jacó, rebatizado Palácio Real. A notícia espalhou-se, de bar em bar, e logo o Reino da Alfândega incorporou o Mercado Público e o resto do Centro. A partir daí a coisa espalhou-se como rastilho de pólvora e tomou Brasília. O Rio de Janeiro ansiava pela volta da realeza. Petrópolis transformou-se numa espécie de San Marino sul-americana. Afinal, a antiga família real tinha lá seus direitos.

O reino ia de vento em popa, depois do fechamento do Congresso. Nestor I, o Idiota, cumpria bem seu papel e apenas dizia “uh” e “hum”, enquanto o Conselho Real governava, de fato. Entre rodadas de cerveja e picadinho de mortadela, pepinoe azeitona magra, exaravam as ordens que guiavam o reino.

O cargo acabou subindo à cabeça de Nestor I, o Idiota. Ele quis uma coroa e uma liteira. Perninha tirou de letra e conseguiu o material emprestado de uma escola de samba. Foi muito isopor e remendo. Nestor I, o Idiota, caiu do carro alegórico e repetiu D. Pedro II, quando este tropeçou no Baile da Ilha Fiscal: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu.”. Ela não caiu, mas mudou. Nestor I, o Idiota, bateu a cabeça, quando caiu, e deixou de ser tão idiota. A pancada fê-lo voltar à consciência. Nestor I, o Idiota, falou algo além de “uh” e “hum”.

A reunião do recém-dissolvido Conselho Real pereceu um velório. Ninguém abria a boca. O picadinho de mortadela e pepino não teve o mesmo sabor. Enquanto Nestor I, o ex-Idiota, discursava sobre um palanque, lá pelos lados do Mercado, Mortiço se lamentou:

- Putz! Vá lá, que proclamasse a república e abdicasse, mas reabrir o congresso e chamar eleições, ah, isso passou dos limites!

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21.5.08

401 - Monarquistas, pelo amor de Deus!


Foto: Wikipedia
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Monarquistas, pelo amor de Deus!

Por Paulo Heuser


Lembro-me do referendo que escolheu o regime do governo deste Brasil moderno. As opções não contemplaram o regime em vigor, a república federativa cpista, que surgiu espontaneamente. Este regime não foi inventado aqui. O cpismo democrático é uma evolução moderna do macartismo norte-americano do pós-guerra. Se lá cassavam comunistas, aqui se cassam todos, uns aos outros, como cachorros correndo atrás do rabo, nos intermináveis espetáculos teatrais televisionados ao vivo, desde que não interrompam a transmissão do futebol ou das novelas. Estas passaram a incorporar doses de cpismo, levando realidade à ficção. As novelas modernas não são novelas, são representações adaptativas da realidade cotidiana que não se furtam a tentar alterá-la. O que hoje está nas manchetes, amanhã estará nas novelas das oito, porque as das seis são de época, de outras épocas, nunca desta. O cpismo invadiu as novelas. Quem zapeia entre os canais, não sabe mais o que é ficção e o que é realidade. Os autômatos telespectadores apenas internalizam o conceito e são levados por horas a fio, a navegar pela conversa mole perene, com eventuais brigas, daqui ou dali. Tentei assistir a um capítulo desses, não sei mais se da realidade ou da ficção, onde um pivô de escândalo falou durante horas, sobre nada, enquanto os seus inquisidores gaguejavam frases aleatórias sem sentido. O título deste texto é uma corruptela do título da peça de teatro Anarquistas Graças a Deus, baseada no livro homônimo de Zélia Gattai. Assisti à paça lá pelo início dos 80. Coincidentemente, o ator principal era o Antônio Fagundes, o mesmo da atual novela das oito. Lá pelas tantas, o ator conclamava o público a gritar um refrão que dizia que o governo era aquilo (algo não publicável). A sensação de gritá-lo, sem ser preso, era ótima. A maioria começava com murmúrios tímidos, que logo davam lugar aos gritos, em uníssono. O ator brincava com a platéia dizendo que poderiam voltar nos dias seguintes, para desopilar novamente. O finado Teatro Presidente, depois transformado em templo, quase vinha abaixo. E ainda não havíamos degustado completamente a liberdade que nos trouxe esta maravilhosa república federativa cpista. Curiosamente, o País vive um dos melhores momentos econômicos, e por que não dizer sociais, pelos quais já passou. Temo exercer algum exercício de lógica sobre esta questão. Concluiria, talvez, que o cpismo retira, do dia a dia, os responsáveis pelo atravancamento do País. Entretidos nos seus jogos políticos, não conseguem puxar o freio de mão do País. Noutro dia assisti a uma comédia, estilo abobrinha, sobre um candidato ao governo norte-americano que sugeria que os postulantes aos cargos eletivos vestissem trajes com os logotipos dos seus patrocinadores, como fazem os atletas profissionais, notadamente os do automobilismo. O filme não é grande coisa, mas a idéia é excelente. É óbvio que nem todos os atores das CPIs são ruins, apenas por estarem lá. Seria o mesmo que dizer que todos os austríacos que têm porão em casa são monstros. Porém, todos os austríacos estão sendo julgados pela mídia. Criaram Hitler e o Fritzl. Os bons pagam pelos ruins, frase óbvia. A coisa explode quando não há porões, tudo é feito à luz do dia.

Este texto tem apenas dois parágrafos. Propositadamente, para que sua leitura seja pesada, como é o assunto. Sonho com um novo referendo, onde conste como opção a monarquia, além da república federativa cpista. A corte seria menor do que a de hoje, com certeza. Poderíamos gritar refrões contra o monarca. Hoje não sabemos mais contra quem gritamos, pois todos parecem iguais. Longa vida ao rei, desde que ele não crie CRIs – Comissões Reais de Inquérito!



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11.5.08

395 - Sazonalidade democrática


Kim Jong-iI - Foto: Wikipedia
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Sazonalidade democrática

Por Paulo Heuser


O processo democrático não é perfeitamente contínuo. Apresenta descontinuidades periódicas. Há quem defenda a monarquia, por apresentar exatamente essa continuidade que falta à democracia. Como naquele regime de governo não há troca dos personagens, a cada quatro ou cinco anos, os projetos de longo prazo não sofrem interrupções ou atrasos. Outros, menos radicais, defendem as reeleições sem limites, que garantiriam a continuidade dos projetos. É o caso dos cubanos, por exemplo. Reconduziram o mesmo sujeito ao poder, durante décadas, garantindo a continuidade dos processos democráticos. Outro que ficou muito tempo no poder, de 1939 a 1973, foi o Chico, carinhosa alcunha do Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde Salgado Pardo de Andrade, o Generalíssimo Franco, da Espanha. A Iugoslávia teve o longo governo de Josip Broz Tito, entre 1945 e 1980. O português António de Oliveira Salazar esteve à frente do governo entre 1932 e 1968.

Todos esses governantes puderam mostrar a que vieram, pois não tiveram seus mandatos interrompidos a cada pouco. Kim Jong-iI, da Coréia do Norte, dá continuidade aos projetos sociais do seu pai e predecessor no poder, enquanto cultiva uma cabeleira peculiar. Esses exemplos de governos contínuos eram assunto na conversa do happy hour no Prantelha, restaurante dos poderosos de Brasília, numa quarta-feira, véspera de final de semana. Os interlocutores nem precisaram pedir. O garçom trouxe o de sempre: doses duplas de Johnnie Walker Violet Label. Como tira-gosto, caviar Almas beluga iraniano. O Jacuzeira comentava:

- O pior é que o País gasta uma fortuna a cada quatro anos. Desestabiliza tudo. Após as eleições, vêm as intermináveis choradeiras dos aliados, atrás de cargos. É o jardineiro da casa do coveiro do irmão do secretário do tesoureiro da campanha do aliado do vereador, e aí por diante. Leva-se três anos e meio para tentar acomodar esse pessoal todo, e mesmo assim sobram muitos. Os que sobram ameaçam contar aquela história da festa da sogra do candidato que gostava de vestir a roupa da nora, etc. Aí exoneramos um dos primeiros, que pisaram na bola, e começamos a acomodar os últimos, e assim vamos celeremente na direção da nova eleição, quando todos perderão seus cargos, começando tudo novamente, conforme as alianças do segundo turno.

O Butiazeira bebeu um gole do Johnnie Violet, deixou o uísque escorregar entre os dentes, e concordou:

- Nem me fale. Com essas alianças esquisitas que aparecem por aí, temos de engolir sapos de todos os matizes, credos, ideologias e gosto musical. Eu às vezes acho que deveríamos fazer um novo referendo para emplacar a monarquia. Elegeríamos um novo rei, que ficaria no poder até morrer, ou abdicar em nome de algum correligionário. Os projetos sociais tornar-se-iam perenes. E o puxa-saquismo eleitoral iria para a banha. Já pensou, que maravilha? Poderíamos fechar o Congresso e criar uma corte ao nosso gosto...

- Fechar o Congresso?!!! Você enlouqueceu, Butiazeira? – Jacuzeira chegou a tremer de susto.

- Ora, para que precisaríamos de um congresso, em meio à monarquia?

Jacuzeira fez sinal ao garçom, para servir outra dose dupla. Bebeu-a de um trago, para dizer:

- Para fazermos a única coisa importante do regime democrático: a CPI! Como faríamos CPIs sem congressistas? Aliás, o que mais há para se fazer?

Butiazeira pensou, por um momento, enquanto passava o dedo pela carta de vinhos, parando no Romanée-Conti Petrus 1982.

- Pensando bem, você tem razão. Esta droga de democracia interrompe as CPIs, a cada quatro anos, logo quando vão decolar! Assim não dá para se mostrar serviço...

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