26.4.09

515 - A base do triângulo

Foto: Paulo Heuser
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A base do triângulo

Paulo Heuser


Selmo e Telmo sobem a ladeira em direção a casa. Apesar de gêmeos, são completamente distintos. O primeiro é alto e magro, o segundo baixo e troncudo. Em comum têm a perna torta. Eles mancam ladeira acima em perfeito duplo ponto-e-vírgula sincronizado. Suas gravatas pretas oscilam conforme mancam. Pensando bem, eles têm mais em comum, como a roupa. Os gêmeos distintos e solteirões ainda são vestidos de forma idêntica pela mãe. Do que fazem, ninguém sabe. Da lenda urbana surgem as histórias mais absurdas e estranhas. Têm-nos por excêntricos e retardados.

É sempre a mesma coisa. Quando chegam à base da Ladeira, Selmo aumenta a passada, para que Telmo perca a cadência. Ele diverte-se com isso, pois Telmo compensa as passadas de Selmo com um estranho passo de ganso. Selmo inicia alguma conversa, para ver o baixinho Telmo perder o fôlego, devido ao esforço adicional da subida. Desta vez, não foi diferente.

- Você viu o jornal hoje, Telmo?

- Vi, Selmo.

- Que pouca vergonha, não achou?

- Achei, Selmo. A propósito, do que você está falando?

- Do Legislativo, Telmo, do Legislativo.

- Ah, pensei que era do bispo reprodutor paraguaio.

- Não, falo da vergonha dos homens que deveriam nos representar. Eles formam um dos Três Poderes. Ainda bem que os poderes são três, pois esse está roto e podre. Só servem para desperdiçar dinheiro e derrogar o que resta de leis neste País.

- É verdade, ainda bem que temos os outros dois.

- Bem nada! O Executivo está cheio de ministros que passam mais tempo dando explicações sobre seus gastos do que governando. Este cenário político lembra os filmes em que alguém é injustiçado até não agüentar mais. Então, dá um de Rambo e rebenta com tudo. E o Presidente, em meio à campanha, diz que no futebol é assim mesmo, tem briga todo santo dia. Até parece que alguém conspira contra a democracia!

- Verdade, Selmo. Ainda bem que há o terceiro poder, o Judiciário. Nessas horas, ele é a base do triângulo da democracia e garante a estabilidade das instituições.

Chegam à metade da ladeira, quando Selmo aumenta ainda mais as passadas. O já esbaforido Telmo reage de pronto:

- Você me respeite!

- Você é que deve me respeitar!

Seus gritos vão se desvanecendo, à medida que sobem a ladeira. O triângulo rola ladeira abaixo.

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23.8.08

447 - Puxa-puxa de Ijuí


Foto: Paulo Heuser
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Puxa-puxa de Ijuí

Por Paulo Heuser


Pela calmaria que se vê nas ruas, creio que esta será a eleição mais boca de urna de todos os tempos. O caixa ficou minguado, e a legislação não está ajudando muito. A simples proibição da afixação de propaganda nos postes transformou muitos candidatos a vereador em ilustríssimos desconhecidos. Aliás, eles já eram desconhecidos da população em geral. Apenas perpetuaram essa condição. Cidades grandes são, na verdade, complexos amontoados de gente, onde cada cidadão nunca cruzará pela maioria dos seus concidadãos. Portanto, muitos ficam sem saber em quem votar, especialmente aqueles que não são bem informados. Limitam-se a assistir aos programas de TV, geralmente dos estados do centro do País. Como aqui não podem votar no Datena, na Hebe, no Huck, ou na assassina da novela das oito, dependem da boca amiga na urna incerta. Três vivas à democracia, nos passos da Dança do Créu. É claro que a culpa pela desinformação não cabe apenas a um ou outro. Nem à democracia. Aparentemente, cabe a todos nós, que sofremos as conseqüências. Especialmente eu.

Esta campanha de boca em boca torna minha lagarteagem de rua um inferno. Outro dia, o clone da Whoopi Goldberg veio pedir voto. Aproveito a hora em que os outros almoçam para relaxar na praça. Então, eles aparecem. Os anônimos aduaneiros, já que a praça é a da Alfândega. O Nestor já anda meio incomodado, pois não querem pagar pelo seu voto.

O candidato anônimo anda sozinho, ou, no máximo, com mais um ou dois comparsas que carregam papéis e um modesto estandarte, que teima em ficar enrolado. Eles são a versão ao vivo dos operadores de telemarketing. O problema é exatamente este, eles estão lá em carne e osso, cara a cara. Com eles não funciona o argumento, que uso pelo telefone, alegando que o pai e a mãe não estão em casa, que o assunto deverá ser tratado com o Dr. Barbosa, no Setor de Enciclopédias, que lá não mora ninguém, etc. Também não dá para se sair correndo. Assim, há de se cortar o mal pela raiz, sendo chato.

Hoje a raiz veio junto. Quem já tem muitas horas de praça acha que já viu tudo, mas sempre há mais para ser visto. A abordagem de hoje foi feita por uma mulher na casa dos setenta, eu diria. Com certeza, ela só votaria por opção, não por obrigação. Era uma mulher um tanto rústica, com a aparência muito mal cuidada de quem trilhou outros caminhos ao realizar sinapses. Ou seja, aparentava ser doida varrida, daquele tipo que pára ao seu lado, sem nada falar, e fica a olhar de forma estranha. Então vem aquele constrangimento terrível. Interrompi a conversa que tabulava com outra pessoa, esperando pelo bote. Ela segurava meio pé de hibiscus, com raízes e tudo, numa das mãos, enquanto a outra empunhava sacos sabe-se lá do quê. Na cabeça, chamava a atenção o boné com a propaganda eleitoral de um candidato a governador nas Eleições de 1994. Ela quebrou o terrível silêncio, sibilando:

- Se fores para Ijuí, te faço puxa-puxa (?)!

Antes que alguém pudesse questioná-la, ela esclareceu:

- Não é chiclete de borracha (outro ?)!

Dito isto, seguiu, sorrindo um sorriso sem dentes. Ficamos a pensar que estas eleições terão bocas desdentadas de urna, mascando puxa-puxa que não é chiclete de borracha. Será alguma mensagem cifrada? Qual será o papel do meio hibiscus?

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11.5.08

395 - Sazonalidade democrática


Kim Jong-iI - Foto: Wikipedia
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Sazonalidade democrática

Por Paulo Heuser


O processo democrático não é perfeitamente contínuo. Apresenta descontinuidades periódicas. Há quem defenda a monarquia, por apresentar exatamente essa continuidade que falta à democracia. Como naquele regime de governo não há troca dos personagens, a cada quatro ou cinco anos, os projetos de longo prazo não sofrem interrupções ou atrasos. Outros, menos radicais, defendem as reeleições sem limites, que garantiriam a continuidade dos projetos. É o caso dos cubanos, por exemplo. Reconduziram o mesmo sujeito ao poder, durante décadas, garantindo a continuidade dos processos democráticos. Outro que ficou muito tempo no poder, de 1939 a 1973, foi o Chico, carinhosa alcunha do Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde Salgado Pardo de Andrade, o Generalíssimo Franco, da Espanha. A Iugoslávia teve o longo governo de Josip Broz Tito, entre 1945 e 1980. O português António de Oliveira Salazar esteve à frente do governo entre 1932 e 1968.

Todos esses governantes puderam mostrar a que vieram, pois não tiveram seus mandatos interrompidos a cada pouco. Kim Jong-iI, da Coréia do Norte, dá continuidade aos projetos sociais do seu pai e predecessor no poder, enquanto cultiva uma cabeleira peculiar. Esses exemplos de governos contínuos eram assunto na conversa do happy hour no Prantelha, restaurante dos poderosos de Brasília, numa quarta-feira, véspera de final de semana. Os interlocutores nem precisaram pedir. O garçom trouxe o de sempre: doses duplas de Johnnie Walker Violet Label. Como tira-gosto, caviar Almas beluga iraniano. O Jacuzeira comentava:

- O pior é que o País gasta uma fortuna a cada quatro anos. Desestabiliza tudo. Após as eleições, vêm as intermináveis choradeiras dos aliados, atrás de cargos. É o jardineiro da casa do coveiro do irmão do secretário do tesoureiro da campanha do aliado do vereador, e aí por diante. Leva-se três anos e meio para tentar acomodar esse pessoal todo, e mesmo assim sobram muitos. Os que sobram ameaçam contar aquela história da festa da sogra do candidato que gostava de vestir a roupa da nora, etc. Aí exoneramos um dos primeiros, que pisaram na bola, e começamos a acomodar os últimos, e assim vamos celeremente na direção da nova eleição, quando todos perderão seus cargos, começando tudo novamente, conforme as alianças do segundo turno.

O Butiazeira bebeu um gole do Johnnie Violet, deixou o uísque escorregar entre os dentes, e concordou:

- Nem me fale. Com essas alianças esquisitas que aparecem por aí, temos de engolir sapos de todos os matizes, credos, ideologias e gosto musical. Eu às vezes acho que deveríamos fazer um novo referendo para emplacar a monarquia. Elegeríamos um novo rei, que ficaria no poder até morrer, ou abdicar em nome de algum correligionário. Os projetos sociais tornar-se-iam perenes. E o puxa-saquismo eleitoral iria para a banha. Já pensou, que maravilha? Poderíamos fechar o Congresso e criar uma corte ao nosso gosto...

- Fechar o Congresso?!!! Você enlouqueceu, Butiazeira? – Jacuzeira chegou a tremer de susto.

- Ora, para que precisaríamos de um congresso, em meio à monarquia?

Jacuzeira fez sinal ao garçom, para servir outra dose dupla. Bebeu-a de um trago, para dizer:

- Para fazermos a única coisa importante do regime democrático: a CPI! Como faríamos CPIs sem congressistas? Aliás, o que mais há para se fazer?

Butiazeira pensou, por um momento, enquanto passava o dedo pela carta de vinhos, parando no Romanée-Conti Petrus 1982.

- Pensando bem, você tem razão. Esta droga de democracia interrompe as CPIs, a cada quatro anos, logo quando vão decolar! Assim não dá para se mostrar serviço...

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31.3.08

A perda do Pantoja

Foto: Radiobras
A perda do Pantoja

Por Paulo Heuser


O Pantoja acordou com uma certeza bem presente: ninguém se recordaria daquela efeméride. Povo de memória curta. Os mais velhos já a haviam esquecido. Os mais novos estudaram o assunto nas aulas de história, dando-lhe a mesma importância que deram a revolução mexicana de 1910. A coisa entrou por um ouvido, foi lembrada durante a prova e saiu pelo outro. Os personagens daquele ato se vão, aos poucos, levados pela vida ou pela morte. Seus gritos se desvaneceram, abafados pelos discursos da nova era. Os que se vão com a vida são aqueles que ontem gritavam palavras de ordem contra os atos que hoje perpetram ou apoiam, produtos de uma dialética harmônica que os leva aos extremos, ora na esquerda, ora na direita, passando por breves momentos pelo centro.

O café da manhã em família foi igual ao de qualquer outra segunda-feira. Nem a mulher do Pantoja, nem seu três filhos fizeram qualquer menção à data. Nem sequer dentro das próprias trincheiras ela seria lembrada. Será que o Travassos, velho colega de caserna, não ligaria neste ano? Nada no jornal, nada no noticiário. Esquecimento, apenas. Ele ficou tentado a puxar o assunto, mas se conteve. Ficou apenas sentado à mesa, de xícara na mão, com o olhar perdido em algum momento do passado. Não pode deixar de observar que a história é de cada um, e cada um a constrói conforme fez ou deixou de fazer. Somente podem compartilhar essas memórias aqueles que também compartilharam a vivência dos episódios. Mesmo assim, a percepção da história também é pessoal. Quem foi herói ontem poderá vir a ser vilão amanhã, e vice-versa. É tudo questão da releitura histórica, que acaba esquecida em alguma tese que junta pó na prateleira do autor.

Pantoja fez parte da história. Não se furtou ao dever quando chamado. Ainda se lembrava dos movimentos que eclodiram pelo País, exigindo o retorno das instituições políticas àquilo que julgavam mais adequado, como o pluripartidarismo e a tal de democracia. Ele abanava a cabeça, em sinal de desaprovação, enquanto afirmava: - Eles ainda se arrependerão!

O tempo passou, a democracia retornou, e tudo acabou bem para aqueles que antes gritavam palavras de ordem. Na nova era democrática havia partidos políticos para qualquer gosto e bolso. Só o Pantoja parecia insatisfeito. Seu neto Pedrinho notou que o avô andava meio cabisbaixo. Tímido, puxou a bainha da calça do Pantoja e lhe perguntou:

- Vovô, por que você está tão triste?

- Por causa da Revolução de 64, Pedrinho. Ninguém mais se lembra dela!

- Ela era boa, Vovô?

- O povo não gostou, mas pelo menos hoje seria feriado!

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14.9.07

Grundig


Foto: Paulo Heuser
Grundig

Por Paulo Heuser


Não sei até agora por que aceitei fazer uma hora feliz num mosquinha próximo da Volta do Mercado. Garantiram-me que lá serviriam um dos piores pastéis do Centro. Contudo, o pièce de résistance seria um exclusivo bauru de mocotó à senegalesa. O Brasil entraria com os ingredientes e o Senegal com o calor. Apertados ao redor daquela mesinha quadrada, com pés de cama de hotel de rodoviária do interior do Interior, procurávamos não grudar as mãos na toalha xadrez de plástico. Aquelas toalhas fazem as vezes de pega-moscas. Foi quando chegou o Grundig. Também pensei haver entendido mal, mas o homem chegou falando “grundig”, em meio a uma espécie de ranger de dentes. Fique tentado a chamá-lo de Telefunken, porém me avisaram que ele ficaria furioso, pois odiava concorrência. Pelo visto, Grundig era freguês contumaz, pois até as moscas o evitavam.

Antes que eu perguntasse, e criasse uma crise de relacionamento no mosquinha, me avisaram de que o Grundig falava daquele jeito estranho porque sua dentadura soltara-se há uns 20 anos. Ele falava ralando os dentes, para não perdê-los durante uma proparoxítona mais entusiasmada. Quase tudo que ele falava soava como “grundig”. O sujeito é famoso por saber das coisas dos bastidores. Ele sabe tudo que corre por baixo dos noticiários oficiais e das toalhas xadrezes de plástico. Grundig pediu um especial e uma fanta uva, antes de comentar, entre rangidos pavorosos dos dentes:

- Errr, grundig, vocês viram?

- Vimos o que, Grundig? O Calheiros?

- Err, não, isso foi ontem! Errr, grundig, falo da F1.

- Do quê?

- F1, McLaren, do escândalo com a Ferrari! Errr, grundig.

- Ah, esse escândalo.

- Sim, errr, já haviam eliminado a McLaren, deste e do próximo campeonato. Um inglês baixinho e barrigudo da Ferrari já ria, enquanto falava ao telefone, gritando:

- È finitto. Siamo campioni! – Terminou! Somos campeões.

Todos haviam ouvido a notícia, depois declarada falsa, sobre a eliminação da equipe inglesa. Grundig olhou para os lados, desconfiado, como se procurasse por agentes disfarçados do SNI. Olhava insistentemente para o cego que jogava videopôquer. Seria ele? O cachorro dele fornicava com a perna da máquina, o que era muito suspeito, em se tratando de uma cadela-guia de cego. Grundig baixou um pouco a cabeça e confidenciou:

- Errr... Outro sujeito da Ferrari gritou, em tom de chacota:

- Siamo salvati! Questo è il nostro ideale! – Estamos salvos! Este é o nosso objetivo!

- É isso! – gritou entusiasmado um gordão da McLaren, enquanto saía porta afora, sacando do celular. Ninguém entendeu nada, até o dia seguinte. Somente ele pescara as palavras grifadas: Ideale e Salvati.

- O avião chegou a Brasília ao cair da noite, e decolou antes das 22 horas, levando uma senhora a bordo. Quando a última sessão do julgamento da McLaren iniciou, ninguém contava com a entrada daquela mulher de olhos esbugalhados e dedo em riste, gritando palavras de ordem em todas as direções, avisando que todo mundo estaria liberado para votar em quem bem entendesse. Seja como for, o resultado do julgamento foi outro. A McLaren levou uma multa, mas continuará viva. Por via das dúvidas, levaram a mulher de volta, imediatamente. Havia mais a fazer em Brasília. Votariam a prorrogação da CPMF.

Grundig saboreou cada palavra, em meio ao ranger dos dentes de acrílico. Deliciou-se com o bauru, com cuidado, pois a mandíbula poderia conquistar autonomia. Bebeu a fanta uva no gargalo, enquanto o cego se metia na conversa:

- Bem, pelo menos venceu a democracia...
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