24.9.08

467 - Um novo modelo mercadológico-eleitoral


Verona. Foto: Paulo Heuser
.
Um novo modelo mercadológico-eleitoral

Por Paulo Heuser


As empresas arrendadoras de bens costumam registrar a parte imutável dos contratos de arrendamento mercantil (leasing) nos cartórios de notas. Essa prática permite a confecção de contratos bastante enxutos, pois o que é invariável apenas é referenciado na parte específica de cada negócio. Lembrei-me disso ao assistir ao programa eleitoral obrigatório.

Todos os candidatos a vereador repetem as mesmas coisas. Todos se posicionam contra a corrupção e a favor da segurança, da saúde e da educação. O problema é que lhes falta tempo após a ladainha imutável. Um partido nanico já adotou o jogral como forma de difundir suas idéias exclusivas. Cada candidato diz uma palavra. Lembra um pouco os jograis da Dona Camila, no jardim de infância. Só que no lugar dos versos há apenas uma palavra para cada candidato. Porém, ainda assim falta-lhes tempo, pois quando eles terminam a frase padrão, o tempo acabou.

A relação entre eleito e eleitor não deixa de ser um contrato, mesmo que celebrado de forma tão secreta. O termo “compra de votos” não está muito correto, pois o prazo é fixo: quatro anos. Mais correto seria chamá-lo de arrendamento mercantil do voto, pois há cláusula que permite renová-lo por mais períodos de quatro anos. Juntando nada com coisa nenhuma se poderia criar um novo modelo de propaganda eleitoral obrigatória, com evidentes vantagens mercadológico-eleitorais. Pactuadas e registradas as cláusulas pétreas da eterna ladainha, os candidatos poderiam exercer toda sua criatividade. Aqueles preciosos segundos poderiam servir para divulgar as propostas que diferenciariam aquele candidato de todos os outros.

Da Itália vêm belos exemplos da criatividade legislativa municipal. Proibiram o uso de tamancos na paradisíaca ilha de Capri. Nem pense em fazer castelos de areia nas praias de Eraclea. Dá multa. O pessoal deu asas às leis em Verona. Os flanelinhas veroneses são multados e perdem a féria. Os clientes das prostitutas da terra dos Montecchi e Capuleti levam pesadas multas. A sorte do Romeu de Shakespeare é que aquela Julieta era moça de família. A tragédia contemporânea será protagonizada pelo flanelinha descamisado Romeu que namora a prostituta Julieta que come sandubas junto aos monumentos históricos de Verona. Sim, comer junto aos monumentos e andar sem camisa em Verona também é proibido. Num recente episódio, os pais de um menino de quatro anos foram multados porque ele comia um sanduíche em área considerada histórica. Esse episódio gerou um comentário interessante por parte de um cidadão veronês: “boh, multare un bambino perché mangia un panino mi pare un’emerita cagata degna di un minorato mentale.. ma se la legge è cosi.. allora il minorato mentale non è solo chi la applica ma anche chi l’há fatta.” – “não sei, multar um menino porque come um sanduíche parece uma, digamos assim, mancada digna de um retardado mental.. mas se a lei é assim.. então o retardado mental não é apenas quem a aplica mas também quem a fez.”

Ao leste da Itália, na Romênia, há um mendigo de Bucareste que já acumula mais de um milhão de dólares em multas. Ele é multado diariamente por mendicância e perturbação da ordem. Será que ele hoje pede esmolas para tentar pagar as multas de ontem?

Fico a sonhar com as propostas que poderiam surgir no horário eleitoral obrigatório, se os candidatos não fossem obrigados a repetir aquela seqüência enfadonha de corrupção, educação, saúde e segurança. Poderiam propor a limitação do nível de ruído gerado pelos pernilongos, ou, quem sabe, um horário limitado para o canto dos sabiás.


prheuser@gmail.com
http://www.pauloheuser.logspot.com/
http://www.sulmix.com.br/

Marcadores: , , , , , , ,

28.8.08

451 - O voto na praça


Foto: Paulo Heuser
.
O voto na praça

Por Paulo Heuser

Corre por aí, à boca pequena, que isto ocorreu no início de agosto. Na reunião do conselho do Partido, já tarde na noite, o pessoal que trabalhava na campanha dos candidatos a vereadores queixava-se da dificuldade em se fazer campanha, frente à escassez geral de dinheiro, tempo na TV, espaço físico para afixar propaganda, além dos candidatos sem apelo algum. O corpo a corpo estava difícil. A maioria nem olhava para os candidatos, e os que aceitavam santinhos jogavam-nos fora logo a seguir, sem ao menos lê-los.

Todos olhavam para o Bocão da Urna, maior especialista do Partido, quando se trata de convencimento de eleitores sem candidato. Ele falava da necessidade de arregimentarem mais candidatos que chamassem a atenção do eleitorado. O prazo legal para a inscrição estava se esgotando. Bocão mostrou alguns vídeos do horário político da eleição anterior. Com aquela fração de minuto, disponível para cada candidato, o que se via e ouvia era algo como:

- MeunomeéCandidoAtoevouresolverasegurançaasaúdeea
educaçãovote99999!

Os candidatos também não ajudavam muito no aspecto físico. Todos eram comuns demais, como se fizessem parte do povo. Poderiam passar por vizinhos dos eleitores. O pessoal gosta de votar nos candidatos que se sobressaem, de alguma forma. Em outros tempos, quando havia fartura, era mais fácil fixar a imagem de alguém na cabeça do eleitor. Do jeito que ficou, terão de disputar os eleitores a tapa, na boca da urna. Em algumas seções haverá mais “orientadores” do que eleitores.

Bocão deixou a sede, a pé, e aventurou-se a caminhar pelo Centro, na companhia da Eufrázia, secretária do Partido. Talvez esta fosse a razão da aparente imunidade aos assaltos que experimentaram. Para quem não estava habituado, Eufrázia aparentava ter fugido da tela do King Kong. Ela se parecia com a irmã gêmea dele. Quando cruzavam corajosamente a Praça da Alfândega, Eufrázia soltou um grito pavoroso, enquanto saltava dois metros para trás. Bocão foi além, pulando sobre os ombros da Eufrázia. A razão do susto não era um assaltante, como seria de se esperar. Era o Nestor, expoente máximo da mendicância alfandegária. Eles se depararam com aquela figura estranha, balbuciando o tradicional me-dá-me-dá. Ao lado dele descansava a mulher número 2. O Nestor realmente estava feio. Talvez não fosse feio, enquanto abonado, mas ficou. Os anos de praça deixaram sua marca. O que assustava mesmo eram os olhos esbugalhados, destacados pela fuligem que tomava conta do seu rosto. Ele tinha algo de felino, pois fugia d’água como tal. Algo refeitos do susto, Bocão e Eufrázia seguiram na direção da Rua da Praia, supostamente mais segura.

Subitamente, Bocão vislumbrou a oportunidade que deixavam para trás.

- É ele, Eufrázia!

- Ele... quem? – disse Eufrázia, enquanto arredava os pêlos da testa.

- É ele, o Candidato! Aquele sujeito não passa despercebido nem no manicômio forense.

Na manhã seguinte, Eufrázia trouxe o pessoal do Partido à praça, à procura do Nestor. Encontraram-no atrás da escultura Teorema, de Bruno Giorgi, sua residência diurna. Ele descansava da labuta noturna. Estariam diante do mais novo candidato a vereador. Bocão já havia planejado tudo. Nestor apareceria, durante os sete segundos - espaço reservado para cada candidato -, e pediria o voto:

- Ãh, me-dá-me-dá-me-dá-...-me-dá!

Para não perderem nenhum me-dá, Nestor seguraria uma placa com seu número e a sigla do Partido. Que impacto causaria tal aparição! Ele atrairia todos os votos de protesto, de solidariedade, de antipatia e de qualquer outro sentimento não retratado na mesmice dos demais candidatos. Ao candidato a prefeito, bastaria aparecer ao lado do Nestor nos palanques. Estaria fatalmente eleito.

Não deu, desta vez. Nestor teria de reaprender a ler, tarefa para longo prazo. Mas, para 2012, quem sabe? Já há gente pisoteando os canteiros que rodeiam o Teorema. Alguns pensam em 2010, pois talvez ele não chegue vivo a 2012.

Marcadores: , , , , , ,

23.8.08

447 - Puxa-puxa de Ijuí


Foto: Paulo Heuser
.
.
Puxa-puxa de Ijuí

Por Paulo Heuser


Pela calmaria que se vê nas ruas, creio que esta será a eleição mais boca de urna de todos os tempos. O caixa ficou minguado, e a legislação não está ajudando muito. A simples proibição da afixação de propaganda nos postes transformou muitos candidatos a vereador em ilustríssimos desconhecidos. Aliás, eles já eram desconhecidos da população em geral. Apenas perpetuaram essa condição. Cidades grandes são, na verdade, complexos amontoados de gente, onde cada cidadão nunca cruzará pela maioria dos seus concidadãos. Portanto, muitos ficam sem saber em quem votar, especialmente aqueles que não são bem informados. Limitam-se a assistir aos programas de TV, geralmente dos estados do centro do País. Como aqui não podem votar no Datena, na Hebe, no Huck, ou na assassina da novela das oito, dependem da boca amiga na urna incerta. Três vivas à democracia, nos passos da Dança do Créu. É claro que a culpa pela desinformação não cabe apenas a um ou outro. Nem à democracia. Aparentemente, cabe a todos nós, que sofremos as conseqüências. Especialmente eu.

Esta campanha de boca em boca torna minha lagarteagem de rua um inferno. Outro dia, o clone da Whoopi Goldberg veio pedir voto. Aproveito a hora em que os outros almoçam para relaxar na praça. Então, eles aparecem. Os anônimos aduaneiros, já que a praça é a da Alfândega. O Nestor já anda meio incomodado, pois não querem pagar pelo seu voto.

O candidato anônimo anda sozinho, ou, no máximo, com mais um ou dois comparsas que carregam papéis e um modesto estandarte, que teima em ficar enrolado. Eles são a versão ao vivo dos operadores de telemarketing. O problema é exatamente este, eles estão lá em carne e osso, cara a cara. Com eles não funciona o argumento, que uso pelo telefone, alegando que o pai e a mãe não estão em casa, que o assunto deverá ser tratado com o Dr. Barbosa, no Setor de Enciclopédias, que lá não mora ninguém, etc. Também não dá para se sair correndo. Assim, há de se cortar o mal pela raiz, sendo chato.

Hoje a raiz veio junto. Quem já tem muitas horas de praça acha que já viu tudo, mas sempre há mais para ser visto. A abordagem de hoje foi feita por uma mulher na casa dos setenta, eu diria. Com certeza, ela só votaria por opção, não por obrigação. Era uma mulher um tanto rústica, com a aparência muito mal cuidada de quem trilhou outros caminhos ao realizar sinapses. Ou seja, aparentava ser doida varrida, daquele tipo que pára ao seu lado, sem nada falar, e fica a olhar de forma estranha. Então vem aquele constrangimento terrível. Interrompi a conversa que tabulava com outra pessoa, esperando pelo bote. Ela segurava meio pé de hibiscus, com raízes e tudo, numa das mãos, enquanto a outra empunhava sacos sabe-se lá do quê. Na cabeça, chamava a atenção o boné com a propaganda eleitoral de um candidato a governador nas Eleições de 1994. Ela quebrou o terrível silêncio, sibilando:

- Se fores para Ijuí, te faço puxa-puxa (?)!

Antes que alguém pudesse questioná-la, ela esclareceu:

- Não é chiclete de borracha (outro ?)!

Dito isto, seguiu, sorrindo um sorriso sem dentes. Ficamos a pensar que estas eleições terão bocas desdentadas de urna, mascando puxa-puxa que não é chiclete de borracha. Será alguma mensagem cifrada? Qual será o papel do meio hibiscus?

Marcadores: , , , ,

14.8.08

442 - Whoopi Goldberg e os metamateriais



Fonte: Wikipedia
.
.
Whoopi Goldberg e os metamateriais

Por Paulo Heuser


Por vezes, fatos isolados nada significam. Contudo, quando relacionados, podem significar muito, muito mesmo. Ontem me caiu diante os olhos um resumo de trabalhos publicados nas edições de 13 de agosto, da revista Nature, e de 15 de agosto, da revista Science. Ambos tratam de algo que mexe com a imaginação. Os autores do primeiro trabalho são Shuang Zhang e Thomas Zentgraf, da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os autores do segundo trabalho são Zhaowei Liu e Yongmin Liu, da mesma universidade. Os trabalhos tratam dos metamateriais, que apresentam propriedades extraordinárias para curvar feixes de luz. Antes que alguém pense em desenvolver lanternas que iluminem objetos depois da esquina, esses materiais têm aplicação certa na microscopia ótica, pois permitirão o desenvolvimento de aparelhos que permitirão “ver” objetos menores do que o comprimento de onda da luz visível, como vírus e cadeias de DNA.

Se essa aplicação não excita muito quem não vive da microscopia, há outra, um pouco mais distante no tempo, que certamente mudará muita coisa neste nosso mundo visível. As propriedades singulares dos metamateriais permitirão, eventualmente, o desenvolvimento da camuflagem completa, ou invisibilidade. Orientada através de dispositivos utilizando cobertura de metamateriais, a luz fluirá ao redor dos corpos, como a água flui ao redor de uma pedra num rio. A visão do observador será a do que está atrás do objeto. Da teoria à prática há um longo caminho, com certeza. Porém, Nature e Science não costumam publicar apenas sonhos. Se os trabalhos estão lá, é porque há sustentação científica suficiente. Será uma questão de tempo. Quem viver, verá.

Eu não relacionei logo a camuflagem perfeita com a Whoopi Goldberg. Depois, ligando as coisas, lembrei-me do papel dela como Guinan, no seriado Jornada Nas Estrelas - A Nova Geração. Os Klingons tinham uma nave com capacidade de camuflagem, através da invisibilidade. A realidade vai, lentamente, ao encontro da ficção. E a Whoopi Goldberg veio ao meu encontro. Se não era ela, era um clone perfeito. Pegou-me no contrapé. Eu estava naquele estado semicataléptico pós-almoço, parado na praça, quando ela chegou, cheia de adesivos e botões de campanha eleitoral. Pensei imediatamente que o Obama e o McCain estivessem estendendo seu território eleitoral, o que me levou a dizer:

- Mim não votarr lá!

Então ela explicou-me que era candidata a vereadora, aqui, e pediu meu voto. A Whoopi eu ainda conhecia, mesmo que só através das telas, mas quem seria esse clone perfeito? Nunca a vira mais gorda, a não ser nas telas. Pedir voto desse jeito é coisa de candidata a miss do grêmio do colégio. Algo como:

- Vota em mim, tio?

Foi então que juntei Klingons, Whoopi, Zhang e Zhaowei. Além das aplicações científicas e bélicas da camuflagem, teremos a camuflagem eleitoral. Vestiremos o manto da invisibilidade cívica, como aquele da Mulher Maravilha, que nos permitirá lagartear na praça, após o almoço, sem sofrermos o assédio de Whoopies e Klingons.



prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br

Marcadores: , , , , , , , , , ,

26.3.08

A santidade presumida


Foto: www.camara.gov.br

A santidade presumida

Por Paulo Heuser


Tenho ouvido com certa freqüência comentários sobre a avidez dos empresários pelo lucro. Há quem reclame deles por só pensarem nisso. Ora, se o desempenho das empresas é medido pelo balanço, e o desempenho dos executivos é medido pelo resultado da empresa, é de se esperar que eles corram como desesperados atrás dos lucros. De outra forma, poderíamos taxá-los de incompetentes, coisa que os acionistas não perdoariam. São as regras do jogo em curso.


Há duas instituições que podem limitar os ganhos das empresas. Uma é o estado, através de legislação reguladora e da política fiscal. Outra é o mercado. Se os consumidores acreditarem que os preços são exagerados, deixarão de consumir o produto, desde que este não esteja inserido em algum esquema monopolista ou oligopolista. Esta é a teoria. Na prática as coisas não são tão bonitinhas, pois o estado é regulado pelas leis que são feitas pelos representantes dos segmentos que têm interesses, digamos assim. A política fiscal, por outro lado, deixa de fora quem realmente deveria pagar os impostos. E, finalmente, os monopólios e oligopólios estão aí, em todas as áreas. O sabão Cracrá sabor cheddar é fabricado pela mesma empresa que fabrica o queijo processado Crocró sabor coco e o creme dental Crecré sabor glicerina. A matéria prima é a mesma, mudam a embalagem e o sabor. Tudo bem regulamentado e fiscalizado, hipoteticamente.


O que causa mais espanto é o pessoal que reclama da avidez dos políticos por dinheiro. A única diferença entre os empresários e os políticos é a da santidade presumida dos últimos. Muitos são empresários, bem sucedidos ou não, que abandonam sua vida privada para sacrificarem-se na vida pública, em troca da satisfação que sentem em ajudar o próximo.


Há duas instituições que limitam seus ganhos. Uma é o estado, através de legislação reguladora e da política fiscal. Outra é o mercado. Se os consumidores (eleitores) acreditarem que os preços (ganhos) são exagerados, deixarão de consumir (votar) o produto (candidato), desde que este não esteja inserido em algum esquema monopolista ou oligopolista (alianças partidárias). Esta é a teoria. Na prática as coisas não são tão bonitinhas, pois o estado é regulado pelas leis que são feitas pelos próprios políticos, que têm interesses, digamos assim. A política fiscal, novamente, deixa de fora quem realmente deveria pagar os impostos. E, finalmente, os monopólios e oligopólios estão aí, em todas as áreas. O candidato Cracrá do PATO é apoiado pelo candidato Crocró do PILA, que também apóia o candidato Crecré do PECO. A matéria prima é a mesma, mudam a embalagem e o sabor. Tudo bem regulamentado e fiscalizado, hipoteticamente.


No final de contas, o mercado vota no que ganha mais. Afinal, reclamam do quê?



prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br




Marcadores: , , , , , ,

15.10.07

O processo do Anacleto

O processo do Anacleto


Por Paulo Heuser



Anacleto assistia ao documentário sobre a procriação dos dinossauros, quando a porta veio abaixo. Quatro homens vestindo longas capas pretas e chapéus da mesma cor vieram atrás da porta que desabou. Petrificado no sofá, Anacleto foi incapaz de qualquer reação. Sequer conseguiu balbuciar algo. Foi o sujeito da direita quem se aproximou, exibindo rapidamente uma carteira funcional com um vistoso brasão dourado.

- Sr. Antenor?
- Sim...
- Acompanhe-nos, por favor!
- Mas, quem são vocês?
- O senhor não está em condições de perguntar nada!
- Mas...

Anacleto desistiu de argumentar quando se viu arrastado para um furgão preto que os esperava defronte a porta. Rodaram em silêncio durante uns 20 minutos, encerrando a pequena viagem depois que o furgão adentrou o pátio de um prédio de aparência sinistra.

Ainda em silêncio, conduziram-no até uma sala completamente vazia, sem janelas e iluminada por uma lâmpada que não produzia mais do que 25W. Ele perdeu a noção do tempo que ficou ali parado, fitando aquela porta lisa. Não sabe se foram minutos, horas ou dias. Após o fim da eternidade a porta abriu-se sem aviso prévio. Recebeu um copo d’água, permitiram-lhe ir ao toalete, impecavelmente branco, e conduziram-no à sala onde havia uma pequena mesa retangular e duas cadeiras de madeira, de espaldar reto. Numa delas sentava-se um dos sujeitos, que o fitava sem expressão aparente. Anacleto sentou-se na cadeira vazia e, ante o silêncio do outro, puxou a conversa:

- O que foi que eu fiz de errado?

Após um silêncio aparentemente interminável, o outro respondeu:

- Isso é o que nós queremos ouvir do senhor.
- Mas, eu não fiz nada...
- Certo, talvez esse seja o ponto, o senhor não fez nada...
- Mas, eu não entendo o que... o que eu deveria fazer?
- Bem, vemos um progresso aqui. O senhor admite nada ter feito?
- Sim, mas eu não... de que sou acusado?
- Serei franco, senhor! Não deveria dizer-lhe, porém o senhor é suspeito de não-aderência. É uma acusação muito séria.
- Não-aderência a quê? – Anacleto sentia-se atordoado, impotente.

O homem de preto pensou um pouco, como que ponderando a conveniência da continuação daquele diálogo, olhou desconfiado para os lados e respondeu:

- Ao Patrocinador.
- Quem? – Anacleto nada entendia. – Isto é um programa de pegadinhas?
- Não, senhor. É o Patrocinador, o senhor sabe muito bem. Não se finja de rogado!
- Mas, o que foi que eu fiz?
- Ok, comecemos pelo telefonema que o senhor deu à emissora!
- Ora, eu apenas me queixei do pouco espaço que restou na tela para se ver o filme. Eles encheram tudo com logotipos e frases! Aquilo me incomoda...
- Não é apenas esse o ponto, há outras suspeitas contra o senhor...
- Quais?
- Responda, quem é a bonita sulista que faz exames de balística em C.S.I. Miami?
- O que é isso?

O sujeito deixou a prancheta de anotações cair ruidosamente sobre a mesa, parecendo exasperado:

- O senhor quer que eu acredite que não assiste aos melhores seriados da tv?
- Ora, não gosto de seriados. Gostava de Guerra, sombra e água fresca, mas desses modernos, não gosto.
- Pois esse é o ponto, como o senhor espera que o Patrocinador possa ajudá-lo, se o senhor não se ajuda? Nós colecionamos evidências do seu modo errado de viver!
- Quais? – disse Anacleto, atônito.
- O senhor come comida orgânica ou fast food?
- Nem uma, nem outra, como apenas comida comum...
O sujeito balançava a cabeça, em reprovação, enquanto anotava algo na prancheta.
- O senhor assiste aos filmes comerciais de Hollywood ou prefere os filmes de arte nacionais?
- Na verdade, gosto do cinema europeu...

Nova atitude de reprovação, enquanto o homem de preto rabiscava raivosamente.

- O senhor é tucano ou petista?
- Bem, nem um, nem outro...
- O senhor não assiste a nenhum comercial??? – gritou o homem de preto, exasperado – não sabe como exercer a cidadania? O senhor faz alguma idéia do quanto gastamos com publicidade? Para quê? Para que um biltre pusilânime como o senhor ponha tudo a perder?
- Afinal, quem é esse tal de Patrocinador?
- Ora, é o homem que manda, o que diz o que você deve consumir, o que está certo hoje e o que estará, amanhã!
- É um ministro, o Presidente?
- Não, esses são apenas consumidores, como você e eu.
- O que devo fazer para poder sair daqui?

O homem de preto abriu um amplo sorriso, colocando a mão no ombro do Anacleto, em evidente sinal de aprovação.

- Agora sim, o senhor mostra sinais de aderência, de pleno exercício da cidadania. Bem, a partir de hoje o senhor comerá, ou churros sabor pizza de strogonoff de frango, ou alpiste orgânico. Votará de acordo com as pesquisas. Ouvirá todos os sucessos das duplas Pulguêncio/Piorrécio e Vacâncio/Ternécio. Assistirá à maratona C.S.I. Miami. Também comerá caranguejo ao martelo na sessão de cinema, enquanto toca a buzina de nevoeiro para torcer pelo herói bonitinho. Então o senhor se tornará um aderente, um Cidadão, com cê maiúsculo.

- A minha vida se transformará num inferno! – gritou Anacleto, desesperado.
- Bem, essa é exatamente a idéia do Patrocinador...


prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br


Marcadores: , , , , , , ,