22.6.09

530 - Das gorjetas

Foto: Paulo Heuser
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Das gorjetas
Paulo Heuser

Vejo que a gorjeta tornar-se-á obrigatória, por lei. Se já não era de direito, era de fato. Ninguém sai do restaurante sem deixar algum. Os dez por cento farão parte do salário dos garçons. É justo, pensando bem. Se o dono do restaurante recolhe, tem de pagar ao empregado. Porém, fica um gostinho de jetom, emolumento recebido pelos parlamentares, por terem deixado de trabalhar. Eles ficam discutindo sua santidade recíproca e se esquecem de votar os projetos em pauta. Resultado: trabalham nas férias e ganham jetons. A gorjeta do garçom não deixa de ser remuneração pelo que já foi pago. Certo, estou sendo injusto com muitos garçons que merecem o adicional. Muitos prestam um ótimo serviço. O que dizer daqueles que conseguem trazer à mesa um cafezinho, sem molhar o pires? Heróis, heróis.

Há garçons e garçons, o que parece evidente e desnecessariamente óbvio. Contudo, uma classificação se faz evidente. O garçom de churrascaria de rodízio é um comunicador. Ele grita com os clientes, faz piada com a forma física deles, insinua que o vovô está gagá e que a menina encabulada flerta com o rufião da mesa ao lado. Chama de maricas os que recusam a aguardente de cobra curtida e pinga gordura e sangue sobre todos. Ele sempre acerta os fregueses. O papel de embrulho, que faz às vezes de tolha de mesa, sai incólume, mas a roupa dos fregueses vai direto para a lavanderia. Os espetos repletos de costelas e entrecotes viram floretes de uma luta entre garçom e cliente. Quando o cliente não agüenta mais, o garçom larga uma lasca de 530g de carne gorda no prato do pobre coitado e o desafia a liquidar o assunto. É o eterno conflito entre o capital (boi) e o trabalho (cliente).

Difíceis são os garçons estrábicos. Nunca se sabe para quem olham, quando tiram o pedido. Monótonos são os garçons de rodízio de mocotó. Completamente diferentes dos garçons de churrascaria de rodízio são os garçom de rodízio de galeto. O princípio é muito semelhante, mas a atitude é completamente diferente. Os últimos exercem uma profissão que tem mais a ver com a linha de produção e a cronoanálise, estudada por Frederik Taylor e Frank Gilbreth. Esses sujeitos estudaram, há quase dois séculos, como os clientes e garçons de uma galeteria produtiva devem se comportar. É uma ciência exata. Você e os frangos entram por uma ponta e você sai, empanturrado, pela outra. O garçom não pode transmitir emoções, pois estas podem retardar a linha de montagem, causando prejuízos. Piadas, então, nem sonhar!

Muitos vêm se queixar dos garçons franceses, que, por sinal, não devemos chamar de garçons. Monsieur é mais conveniente, principalmente quando o garçom é homem. Os garçons franceses só fazem questão de duas coisas: estarem a cavalo da situação e não servirem norte-americanos. Para satisfazer a primeira condição, faça-se de pobre coitado que não fala inglês, especialmente se você não falar inglês. Parecerá sincero. Diga logo, como puder, que você é brasileiro, antes que o confundam com um argelino recém-imigrado. Tudo muda, a cara carrancuda enche-se com um sorriso e eles falam:

- Ronaldaux, mulataux, caipirinaux e sambaux.

Pronto, você já foi aceito como avis rara, em terra de gente culta demais. Só não peça coca-cola, um dos maiores pecados que alguém pode cometer na França. Pode escarrar da Torre Eiffel, fazer pipi no Sena, comer sanduba no túmulo de Robespierre, porém, coca-cola, nunca! Se você não conseguir fazer nada disso, diga que veio de Emembaba. Eles acham exótico. Novamente, só não peça coca-cola. A propósito, se você for japonês, esqueça. Mesmo sem coca-cola, não será servido. Japoneses fotografam o garçom, sem autorização.

Se os garçons alemães não são simpáticos, tampouco são complicados. Oferecem-lhe a opção regional de comida típica: Sauerkraut, Wurst und gebratene Kartoffeln. É claro que o cardápio varia, de região para região. Se aquele é um prático típico da Baviera, Wurst, gebratene Kartoffeln und Sauerkraut é um prático típico da Baixa Francônia. Para quem gosta, ótimo. Só não peça chope, pois ninguém lá sabe o que é.

É na Itália que os garçons sabem exercer sua profissão com elegância e maestria. Não nos restaurantes ao ar livre da Praça de São Marcos, evidentemente. Um bom garçom italiano é mais do que o dono do restaurante. É a autoridade máxima, exercida com extrema elegância e firmeza, ao mesmo tempo. Será fácil agradá-lo, desde que não se peça o que está no cardápio. Deixe o pedido por conta dele, afinal, é ele que entende de comida. E prepare umas boas três horas para o almoço. Os garçons italianos ficam felizes quando descobrem que você é brasileiro. Dirão, via de regra, que a dançarina da boate do hotel também é. É difícil deixar de dar gorjeta aos garçons, a não ser que eles sejam espanhóis. Pedindo do cardápio, ou fora dele, você será xingado. Afinal, estará perturbando o local e sujando a louça, sem falar na cozinha.

Só temo que os nossos garçons imitem nossos parlamentares e criem uma nova comissão de serviços, de dez por cento, digamos, que poderão chamar de, como direi, gorjeta.

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20.1.09

499,499 - A classe média XVII: O terrorista


Foto: Paulo Heuser
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A classe média XVII – O terrorista

Por Paulo Heuser


A história iniciou como as 16 anteriores. O sol nasceu sobre o cinamomo, as vacas pulavam de galho em galho, enquanto os passarinhos pastavam alegremente. Padre Antão observava a falta de movimento, enquanto a beata Dona Clotilde fazia experimentos para tentar obter vinho de missa espumante. Beberia estrelas, caso conseguisse. O crescido terneiro mugia, sabia-se lá por que.

O primeiro a ver a coluna de poeira levantada pelo jipe do MINTE – Ministério do Terrorismo Estrangeiro - foi Padre Antão, que se pôs a tocar o sino, como de costume nessas ocasiões. Linoberto largou o que fazia na roça e correu para o Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, sede do Município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média não-estatística do IBGE. O sétimo dos 12 irmãos, o Prefeito, já esperava os visitantes à porta. Como sempre, a missão oficial veio capitaneada pelo Estranho – o único representante do Governo a encontrar o Lado de Cá do Cinamomo. O Estranho veio acompanhado do Chefe da Divisão de Importação de Terroristas Italianos, Signore Va Di Quattro, e do renomado escritor e ativista italiano Bracciolo Batticciola, recém-asilado pelo Governo, cujo pescoço andava a prêmio na Itália.

Feitas as apresentações de praxe, sentaram-se à mesa e beberam as protocolares doses da “boa”, a aguardente local. Até então, tudo igual à antes. Quattro e Batticciola quase morreram, etc, etc. Após as amenidades, o Estranho falou do motivo da vinda da missão oficial do MINTE:

- Bem, como vocês já devem ter ouvido falar, o Sr. Batticcila recebeu asilo político do Governo e poderá residir e trabalhar no País. Por questões de segurança, o local escolhido para sua residência foi o Lado de Cá do Cinamomo.

- Por quê? – interveio Linoberto.

- Nosso governo teme pela segurança do asilado, pois forças estrangeiras poderão eventualmente tentar seqüestrá-lo para sua extradição informal. Aqui ele ficará seguro, já que nenhum agente estrangeiro conseguirá encontrá-lo.

Padre Antão quebrou seu silêncio:

- Ora, o que esse homem poderá fazer aqui? Somos uma pacata comunidade de agricultores e alambiqueiros. Acredito na segunda oportunidade, para que um homem se regenere, mas o que esse escritor poderá fazer aqui?

O Estranho respondeu:

- Veja, o Sr. Batticciola é um intelectual revolucionário. Ele certamente poderá contribuir para o aperfeiçoamento das instituições sociais daqui.

- Como? – perguntou o Sétimo, o prefeito, até então calado.

Batticciola aproveitou a deixa e partiu para as explicações, num misto de português com italiano.

- Vedete, signori. Eu sou um agente do proletariado mundial e poderei libertá-los do jugo imperialista, através da dialética proletária armada! – ele sorria e esfregava as mãos, como que se deliciando com o que dizia.

- Que dialética é essa? – perguntou-lhe Linoberto.

- É mais rápida e direta do que a convencional. Todos expõem seus pontos de vista. Se concordarem com o meu, ótimo. Caso contrário, faço explodi-los. Crapooou! Capite? – entendem?

- Isso é terrorismo! – protestou Padre Antão.

- É uma forma de levar a voz do povo ao poder. Eu sou o povo. Portanto, sou o poder! – disse Batticciola, com evidente satisfação.

Linoberto expôs a opinião de todos residentes que lá estavam:

- Nós não podemos impedi-lo de viver aqui, já que o Governo lhe concedeu o asilo político. Queremos deixar claro, no entanto, que essa idéia não nos agrada nem um pouco.

Do lado de fora, o terneiro mugiu, talvez de contestação, talvez de proliferação.

Maria deixou o tear de lado quando percebeu que Linoberto limpava o barro das botas no estribo da entrada da casa. Ela já ouvira as fofocas sobre a chegada do Estranho.

- E então, Lino? Como foi? O tal terrorista virá morar aqui?

- Viria morar, Maria, viria.

O jipe do MINTE deixou outra coluna de poeira, que sumiu atrás do cinamomo.

Linoberto olhou Maria com misto de adoração e diversão. Ele adorava o jeito ansioso dela perguntar pelo que havia acontecido.

- Não vai mais, Lino? – Maria deu um pulinho enquanto falava.

- Não, Maria. Ele disse que queria fazer aqui o mesmo que fazia lá. Libertar-nos-ia da opressão dos poderosos imperialistas. Faria comícios, passeatas, greves e ataques às instituições que não representam o povo.

- Credo, Lino! Esse sujeito é muito perigoso! Como fizeram para que ele fosse embora?

- Ele quis. – Linoberto disse sorrindo. E concluiu:

- Quando ele percebeu que o Lado de Cá do Cinamomo não apresenta grandes desníveis econômicos e sociais, ficou desesperado e foi embora com o Estranho. É um revolucionário que não pode viver sem revolução. Prefere correr o risco de viver do lado de lá, onde poderá exercer sua militância. Ele disse que nunca poderia viver num lugar como o Lado de Cá. O que faria aqui? Contra o que lutaria? Aqui não há moinhos de vento.

O sol já se punha, enquanto o crescido terneiro mugia, talvez de emoção, talvez de perversão.

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24.9.08

467 - Um novo modelo mercadológico-eleitoral


Verona. Foto: Paulo Heuser
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Um novo modelo mercadológico-eleitoral

Por Paulo Heuser


As empresas arrendadoras de bens costumam registrar a parte imutável dos contratos de arrendamento mercantil (leasing) nos cartórios de notas. Essa prática permite a confecção de contratos bastante enxutos, pois o que é invariável apenas é referenciado na parte específica de cada negócio. Lembrei-me disso ao assistir ao programa eleitoral obrigatório.

Todos os candidatos a vereador repetem as mesmas coisas. Todos se posicionam contra a corrupção e a favor da segurança, da saúde e da educação. O problema é que lhes falta tempo após a ladainha imutável. Um partido nanico já adotou o jogral como forma de difundir suas idéias exclusivas. Cada candidato diz uma palavra. Lembra um pouco os jograis da Dona Camila, no jardim de infância. Só que no lugar dos versos há apenas uma palavra para cada candidato. Porém, ainda assim falta-lhes tempo, pois quando eles terminam a frase padrão, o tempo acabou.

A relação entre eleito e eleitor não deixa de ser um contrato, mesmo que celebrado de forma tão secreta. O termo “compra de votos” não está muito correto, pois o prazo é fixo: quatro anos. Mais correto seria chamá-lo de arrendamento mercantil do voto, pois há cláusula que permite renová-lo por mais períodos de quatro anos. Juntando nada com coisa nenhuma se poderia criar um novo modelo de propaganda eleitoral obrigatória, com evidentes vantagens mercadológico-eleitorais. Pactuadas e registradas as cláusulas pétreas da eterna ladainha, os candidatos poderiam exercer toda sua criatividade. Aqueles preciosos segundos poderiam servir para divulgar as propostas que diferenciariam aquele candidato de todos os outros.

Da Itália vêm belos exemplos da criatividade legislativa municipal. Proibiram o uso de tamancos na paradisíaca ilha de Capri. Nem pense em fazer castelos de areia nas praias de Eraclea. Dá multa. O pessoal deu asas às leis em Verona. Os flanelinhas veroneses são multados e perdem a féria. Os clientes das prostitutas da terra dos Montecchi e Capuleti levam pesadas multas. A sorte do Romeu de Shakespeare é que aquela Julieta era moça de família. A tragédia contemporânea será protagonizada pelo flanelinha descamisado Romeu que namora a prostituta Julieta que come sandubas junto aos monumentos históricos de Verona. Sim, comer junto aos monumentos e andar sem camisa em Verona também é proibido. Num recente episódio, os pais de um menino de quatro anos foram multados porque ele comia um sanduíche em área considerada histórica. Esse episódio gerou um comentário interessante por parte de um cidadão veronês: “boh, multare un bambino perché mangia un panino mi pare un’emerita cagata degna di un minorato mentale.. ma se la legge è cosi.. allora il minorato mentale non è solo chi la applica ma anche chi l’há fatta.” – “não sei, multar um menino porque come um sanduíche parece uma, digamos assim, mancada digna de um retardado mental.. mas se a lei é assim.. então o retardado mental não é apenas quem a aplica mas também quem a fez.”

Ao leste da Itália, na Romênia, há um mendigo de Bucareste que já acumula mais de um milhão de dólares em multas. Ele é multado diariamente por mendicância e perturbação da ordem. Será que ele hoje pede esmolas para tentar pagar as multas de ontem?

Fico a sonhar com as propostas que poderiam surgir no horário eleitoral obrigatório, se os candidatos não fossem obrigados a repetir aquela seqüência enfadonha de corrupção, educação, saúde e segurança. Poderiam propor a limitação do nível de ruído gerado pelos pernilongos, ou, quem sabe, um horário limitado para o canto dos sabiás.


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19.9.08

464 - O tesouro toscano


Foto: Paulo Heuser
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O tesouro toscano

Por Paulo Heuser


Para se conhecer uma terra, deve-se saboreá-la. Antes que alguém coma um punhado dela, esclareço: coma dos pratos típicos da região. A Toscana é uma região que merece ser conhecida não apenas pelas artes, mas também pela mesa. E haja mesa! Entre paisagens bucólicas, duomos, museus e torres retas ou tortas, a culinária toscana sobressai-se, e traz de arrasto os vinhos chianti e montalcini.

Uma das lembranças que tenho da infância é a do meu pai vindo à Capital. Ele dava uma passada no finado Armazém Riograndense, loja de especiarias que ficava na Otávio Rocha. Naqueles tempos pré-supermercado, os mercados vendiam arroz, feijão e batatas, tudo na tulha. Qualquer coisa diferente vinha do Armazém Riograndense. Acompanhei meu pai numa dessas incursões, quando ele comprou um vidro de champignons. Eu passei toda viagem de volta imaginando o sabor daquelas pequenas coisinhas levemente amareladas. Em casa, veio a prova. Foi ato solene. E foi uma das maiores decepções da minha vida. Achei pavoroso o gosto daquelas coisas. Com o tempo, pude provar os cogumelos Paris frescos que surgiram por aqui no final dos anos 70. E gostei. O que antes era estranho, passou a ser lugar comum. O consumo de cogumelos no Brasil é de 30g per capita ao ano. Na Itália ultrapassa 1,3 kg e na Alemanha alcança 4 kg ao ano por pessoa.

Um dos pratos típicos da toscana é o fungo (cogumelo) porcino – Boletus edulis -, considerado o Rei dos Cogumelos. Na França, onde também é apreciadíssimo, chama-se cèpe de Bordeaux. O porcino acompanha principalmente as massas e risotos, mas pode também ser encontrado nos molhos de carnes. Os italianos têm a felicidade de encontrá-los frescos, principalmente em outubro. Nós encontramos esses cogumelos apenas na forma desidratada, os funghi secchi porcini. Esses cogumelos apresentam aroma e sabor característicos, levemente adocicados. São completamente diferentes dos funghi secchi chilenos, de aparência escura e gosto mais amargo. Infelizmente, não se diferenciam somente em aroma e sabor, diferenciam-se muito também no preço. Esta é a má notícia. A boa, é que com 50g de funghi já se pode fazer um bom prato para seis pessoas, devido aos intensos aroma e sabor apresentados pelo cogumelo italiano.

Noite dessas tirei meu tesouro toscano do armário da cozinha. Foi trazido por alguém que cruzou o Mar Tirreno, o Oceano Atlântico e aquele brejo que fica atrás do Salgado Filho. Preparei apenas dois pratos, bavette al pesto genovese e penne ai funghi. Na Itália, seriam due primi piatti – dois primeiros pratos -, pois seriam seguidos pelos segundos pratos, à base de carne ou de frutos do mar. O interessante é observar que o primo não é o primeiro, pois antes servem os antipastti - entradas. Como o segundo prato, que é na verdade o terceiro, não é o último, depois dele servem os contorni – geralmente saladas -, e, ufa!, dessert – sobremesa. E lá se vão três ou quatro horas à mesa da mamma ou da nonna. Então é quase hora do jantar. Entende-se porque nada funciona na Itália aos domingos. Nem nos outros dias da semana, por sinal. Porém, me limitei a dois primi piatti. Servi primeiro o penne ai funghi secchi porcini, temeroso de que o manjericão do pesto matasse o sabor delicado do prato seguinte.

Cometi um pecado que me levaria à fogueira dos hereges, na opinião da nonna. Só que a nonna recebe a pensão dela em Euros. Eu, não. Com um número maior de convivas, estendi os funghi secchi porcini através de um recurso herege, porém válido. Acrescentei duas bandejas de cogumelos ostra (Pleurotus ostreatus), encontráveis em qualquer supermercado, a preços acessíveis. São cogumelos frescos, também conhecidos como shimeji branco. Eles apresentam aroma e sabor muito suaves, não competindo com os porcini. Porém, dão volume ao molho. Ninguém se queixou do resultado. Se interessar, segue a receita, só não deixem a nonna saber:

Ingredientes:

Massa de grano duro penne, ou outra da preferência;
50g de funghi secchi porcini;
2 bandejas de cogumelos ostra (shimeji branco) frescos;
1 cebola pequena;
2 dentes de alho;
Manteiga;
Azeite puro de oliva;
Salsinha;
Sal;
Pimenta do reino;
Creme de leite fresco (nata).


Modo de preparo:
Deixar os funghi secchi porcini de molho em água morna suficiente para encobri-los, para reidratá-los, por 30 minutos. Nesse ponto, o aroma já encherá o ambiente. Findo esse período, retirá-los da água e espremê-los com a mão, de modo que o excesso de líquido escorra no recipiente onde estiveram de molho. Pelo amor de Deus! Não jogue fora aquela água! Aquele é o pipi dos deuses! Esse líquido milagroso pode ter variados destinos, se coado através de um pano para retirar eventuais resquícios de terra trazidos pelos funghi. Eu optei, naquela noite, por preparar um creme de cogumelos, que servi como primo di tutti primi – primeiro dos primeiros. O sabor é incrível, ainda mais quando se pinga um pouco de azeite de oliva lá dentro.

Voltando à massa, picar bem a cebola e refogá-la na manteiga com um fio de azeite. Quando ela estiver no ponto de dourar, acrescentar o alho picado e pimenta do reino moída. Cuidado para não deixar o alho queimar. Em seguida, acrescentar os cogumelos, tanto os porcini como os shimeji, e deixar refogar por 3 minutos. Salgar a gosto. Se ficar muito seco, acrescentar um pouco da água onde os cogumelos foram reidratados (o pipi dos deuses). Acrescentar uma ou duas colheres de sopa do creme de leite fresco, conforme desejar um molho mais ou menos aveludado. O creme de leito fresco não talha ao ferver. Pronto. Acrescentar a massa cozida al dente, espalhar um pouco de salsinha e parmesão, ou grana, sobre o prato. A seguir, feche os olhos e vá comer numa mesa ao ar livre do Da Gherardo, na Via dell’Anfiteatro, em Lucca, na Toscana. Não estranhe se houver um chinês sentado ao lado. É o shimeji.



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23.6.08

416 - Prazerosamente congelados

Foto: Paulo Heuser
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Prazerosamente congelados

Por Paulo Heuser


A racionalidade do ser humano é posta à prova em cada mudança de estação. Sabemos que, quando o inverno chega, esfria. Sempre foi assim. Pode mudar no futuro, mas o clima esfria no inverno e esquenta no verão. Contudo, todos parecem surpreendidos pelo frio. Quando os termômetros baixam dos 15 graus Celsius, começa a choradeira, como se os termômetros marcassem 15 Kelvin (-258 Cº). Cada inverno parece mais frio que os anteriores. Pelo menos, é o que dizem.

Num ponto parece que há unanimidade, quando o assunto é clima: todos parecem querer fugir do frio, na direção do calor. Os brasileiros sonham em morar no Nordeste, depois da aposentadoria. Querem morar onde há muito sol e calor. Deixarão o fio e a umidade para trás. Secarão o reumatismo ao sol.

Os europeus, que sofrem muito mais com o frio, fazem a mesma coisa, fogem do frio. Quem lucra com isso, são os países do Mediterrâneo. A cidade litorânea de Rimini, na Emiglia-Romana, costa adriática da Itália, é conhecida como “forno de microondas dos alemães”, que correm para lá e ficam cozinhando ao sol. As longas praias de areia, bem mais baratas do que as do outro lado da bota, na Costa Ligure do Mar Tirreno, enchem-se de alvos alemães, que não vêem a hora de se transformarem em algo com cor de lagosta cozida. Com bolhas, muitas bolhas. Faz bem, para o câncer de pele. Eles deixam para trás suas casas bolorentas e mal ventiladas, lagarteiam de dia e fazem farra à noite.

Até aqui, tudo parece bem racional, tirando a exposição ao sol de verão. O que mais me espanta, aqui, é a migração para a Serra, durante o auge do inverno, daqueles que se queixam tanto do frio. Um tanto de frio, aqui é ruim, lá é pouco. Vão curtir um friozinho, como dizem. É exatamente aí que começa a irracionalidade. Se sonham tanto com o calor, por que vão para o frio? Alguns dizem que vão pela sensação do aconchego proporcionado pelo frio. Procuram temperaturas extremamente baixas. Qualquer coisa acima de zero leva à frustração. Dançam de alegria, quando neva ou chove gelo. Inclusive aqueles que chegam nos ônibus de farofeiros, trajando camisa regata, bermudas e chapéu sombreiro. Basta que os informativos meteorológicos anunciem baixas temperaturas na Serra, para que os hotéis da região lotem.

Os restaurantes que servem pratos fumegantes, ao lado das lareiras, também fumegantes, são os preferidos pelos que querem curtir o frio. Os jantares estendem-se à espera da neve, que eventualmente cai. Tudo envolto pela atmosfera romântica, em meio à iluminação em tons quentes. Entendo o conceito, e concordo que é muito prazeroso passar bons momentos naquele clima, desde que ele fique do lado de fora.

O Bira Louco entende menos ainda, por que alguém pagaria para ser levado a um lugar ainda mais frio. Andando pela praça, meio torto, de sandálias havaianas amarelas e casaco de tricô colorido, ele tem certeza de que trocaria sua marquise daqui por alguma de Fortaleza, Natal, ou Rimini, se tivesse algum dinheiro. O que ele não sabe, é que aqueles que se divertem com o frio são os que podem pagar por ele. De graça, só sofrimento!

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29.10.07

Rigatoni e biocombustível


Foto: Paulo Heuser
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Rigatoni e biocombustível


Por Paulo Heuser



A edição de 20 de outubro de 2007 do periódico La Repubblica, da Itália, publicou entrevista com o empresário Guido Barilla, da empresa de mesmo nome, sobre os motivos da alta de preços das massas, que teriam subido 15% desde dezembro de 2006. Barilla menciona os dois maiores culpados: a mudança climática e o presidente George Bush, dos EUA. O empresário apontou o aumento do preço da sêmola, devido às quebras nas últimas duas safras, como um dos fatores para explicar o aumento do preço da massa. Outro fator seria a utilização dos grãos para produção de biocombustíveis, seguindo a política de incentivos do presidente norte-americano.

Encontrei citação à essa reportagem num sítio italiano chamado
ecoblog. Além de reproduzirem a entrevista com Guido Barilla, alinham a política de Bush, Lula e Massimo D’Alema, Ministro de Negócios Estrangeiros da Itália, em oposição às opiniões do empresário e de Fidel Castro, que condenam o uso de grãos para produzirem combustíveis. Depois de razões e contra-razões, o que me chamou a atenção, no blog, foi a foto que adornava o artigo. Uma maravilhosa foto de três pedaços de rigatoni, sobre fundo vermelho. A foto é de minha autoria. Eu havia postado aquela foto na minha página de compartilhamento de fotografias no Flickr , apenas 36 horas antes. Quem a copiou, incluiu os créditos, é verdade, porém a utilizou para fins comerciais, já que aquele blog está forrado com publicidade.

Já posso imaginar a confusão enfrentada pelos consumidores de combustíveis, no futuro. O sujeito chegará ao posto de serviços e poderá escolher entre muitos tipos diferentes. Haverá diesel alla matriciana, diesel ai funghi, para carros antigos e gasolina all’arrabbiata, para quem quiser um desempenho mais quente do motor. Para os mais ecológicos, diesel all pesto, opção de combustível verde. Não abrirão mão da gasolina di grano duro, para os carros manterem desempenho al dente. E o empurrol de aditivos também se adaptará aos novos tempos e aos novos combustíveis. Motores que utilizarem aditivo de parmigiano reggiano, rodarão mais, no caso dos combustíveis vermelhos. Para o diesel all pesto, será indicado um aditivo pecorino. Os óleos minerais e sintéticos estarão com os dias contados. Os motores que utilizarão os biocombustíveis di grano duro usarão azeite de oliva. Da cozinha ao motor, ou vice-versa. Carros sofisticados exigirão lubrificante virgem extra, de baixíssima acidez. Já os um ponto zero, poderão levar um semi-oliva, batizado com óleo de soja. A oferta de marcas de lubrificantes saltará, da atual meia-dúzia, para aquele monte de marcas que há nos supermercados, em garrafas ou latas. Haverá degustação de lubrificantes para motores.

Fiquei meio chateado, já que o blog italiano utilizou minha foto para fins diversos daqueles a que a página no
Flickr se destina. Por isso não fiquei nem um pouco constrangido, quando acrescentei um comentário naquela postagem do blog italiano. Não só Guido Barilla constatou que a massa dele subiu 15%. Eu também. Quando comprei os rigatoni para fazer a foto, concordei com Guido, pois achei os rigatoni Barilla muito caros. Conforme postei comentário no ecoblog, a marca daquela massa da foto não é Barilla, é Zara.


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22.10.07

Fontana Rossa


Foto: Wikipedia
Fontana Rossa

Por Paulo Heuser


Olho para meu prato e vejo que algo realmente vai mal. Não é de hoje, por sinal. Em Pisa, na Itália, assisti à manifestação pacífica de um grupo de idosos que exigia a Itália para os italianos. – Fora com os estrangeiros! – gritavam eles. Tocavam tambores e discursavam contra a globalização. Referiam-se aos imigrantes, não aos turistas. Quase todo mundo gosta dos turistas que chegam, consomem e partem. Deixam o dinheiro, levam as tralhas. Desconfio que em Veneza, também na Itália, não há mais venezianos. Há apenas turistas e imigrantes. Tornou-se difícil encontrar lá alguém que fale italiano. Ouve-se inglês, japonês, chinês, somali, albanês, árabe, amárico, tigrinya e português. Há duas formas básicas de se diferenciarem os imigrantes dos turistas em Veneza. A primeira diz respeito à bandeira. Tome uma pequena bandeira colorida presa num pedaço de madeira e ande. Todos aqueles que seguirem atrás, são turistas. Não é um teste muito preciso, pois há os turistas independentes, não aderentes aos grupos, e há de se repetir o teste negativo com outras cores de bandeiras. O teste mais preciso é o da cadeia de consumo. É simples: quem consome é turista, quem provê é imigrante. Há um terceiro teste, ainda não homologado. É o teste do olhar abobalhado. Quem olha abobalhado, em todas as direções, é turista. Quem olha fixamente para o bolso do turista, é imigrante. Fácil assim. Câmeras fotográficas também dão alguns indícios quanto à natureza da estada. Ridículos chapéus em forma de guarda-sol com cata-vento também podem identificar, ou um turista japonês, ou um imigrante vendedor de chapéus ridículos. Agora, se alguém não consome nem provê, poderá ser um veneziano autêntico. O último foi visto em 1946.

Já na França, país que torpedeou a constituição européia unificada, há autênticos franceses natos. As mulheres francesas são as de mais fácil identificação. Andam com um cachorro e enfiam os sapatos dentro de sacos plásticos que protegem-nos contra os cocos dos cachorros dos outros franceses natos. Turistas e imigrantes não têm cachorros, salvo raras exceções. A forma como carregam o pão - a baghette – também trai os franceses natos. Eles carregam aquilo com pompa e circunstância. Os imigrantes não comem baghettes. Os turistas carregam baghettes como se carregassem bastões de líderes de torcidas norte-americanas. Há também na França um forte movimento contra os estrangeiros. Os imigrantes ameaçam os empregos inexistentes que pertenceriam aos franceses, caso existissem. Assim, se ainda houvesse emprego de cobrador – substituído pelas máquinas – provavelmente contratariam um imigrante, por salário menor do que aquele percebido por um francês. Coisas da automação e da globalização. Porém, na França há um certo horror dos turistas, também. Pudera, além dos bárbaros germânicos e anglo-saxônicos que pedem cerveja nos cafés, há outros que pedem rodízio de pizza e coca-cola para um autêntico maître francês. Este, por sua vez, transmitirá o pedido ao chef de cuisine – formado pela escola Cordon Bleu –, que mandará os turistas à invenção do Dr. Joseph Ignace Guillotin, respeitado cientista e médico da saúde pública francesa. O aparelho apelidado guilhotina, em sua homenagem, socializou as execuções promovidas durante a revolução francesa. Nada mais de forca para os pobres e machado para os ricos. O chef de cuisine fará uma pequena corruptela da Prece Revolucionária, de 1792: “Repleta teu cesto divino com a cabeça de turistas que bebem coca-cola... Santa Guilhotina, protetora dos patriotas, Rogai por nós. Santa Guilhotina, calafrio dos turistas, Protegei-nos!”.

Da Itália vem agora o protesto da desconhecidíssimo movimento revolucionário anarquista FTM Azionefuturista 2007. Isso parece nome de festival de música de San Remo televisionado pela tv do Berlusconi. O presidente, secretário geral, militante e terrorista de plantão da organização jogou corante vermelho na Fontana di Trevi, uma das principais atrações turísticas de Roma. Fico a imaginar o que aconteceria se alguém jogasse uma daquelas bandeirinhas coloridas, dos guias de turismo, dentro da fonte. Um banho coletivo, com certeza. Fico também a imaginar como um grupo anarquista escolhe seu líder, já que é anarquista. Repudiam toda a hierarquia que não é naturalmente aceita. E qual é? Por isso, os grupos anarquistas tendem a abrigar apenas um militante, o chefe, naturalmente aceito por ele mesmo.

Paciência. Olho para o prato e resolvo comer, antes que o joelho de porco e a polenta brustolata esfriem. Ou que o sushi esquente. Começo a entender o que leva à xenofobia, antes mesmo de derramarem o molho chimichurri sobre tudo.


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1.6.07

Da Hora e da Voz


Da Hora e da Voz

Por Paulo Heuser


Cresci ouvindo a Hora do Brasil. Todas as noites, religiosamente, ou melhor, militarmente, a coisa ia ao ar. E continua indo. Esse programa prestou grandes serviços às populações mais isoladas do país. Chato para uns, excelente para outros. O que foi estranho, na verdade, foi o desaparecimento do “em Brasília são 19 horas”. Hoje são apenas sete. Disseram que o povo não sabia contar até 19. Até sete, sabem. Depois de 1962 passou a chamar-se Voz do Brasil. Muita coisa mudou nesses anos. A linha austera e censurada do regime militar deu lugar ao Guarani forró de hoje. Carlos Gomes não está mais aí, para dizer se aplaude, se chora ou se apenas ri. A Hora do Brasil pegava o horário do jantar. Na hora do almoço, especialmente nos domingos, o ar enchia-se de musicas dos grandes maestros de vitrola, como Paul Mauriat e Ray Conniff, suavemente recomendáveis para uma boa digestão.

Viajando, lembrei-me da Hora/Voz do Brasil. Estando em outro país, cuja língua se estuda, nada melhor do que manter o rádio do carro ligado, enquanto se viaja. O ouvido começa a se familiarizar com a outra língua. Assim fiz na Itália. Os italianos costumam fazer um ritual de almoço com antepasto, primeiro prato, segundo prato, ..., ..., ... e sobremesa. Coisa longa, para lá de hora e meia. Imagino que muitos devem ouvir rádio, ou olhar TV, enquanto almoçam. Contrariando a folga do almoço, aproveitei para viajar exatamente na hora do almoço (pranzo). As estradas ficam bem mais vazias, o que é extremamente importante no Tirol, onde encontrar com um veículo vindo na direção contrária é uma experiência inesquecível.

Liguei o rádio do carro num modo de sintonia automática, deixando que escolhesse a emissora com melhor sinal. Por vezes, é sempre a mesma, operando em cadeia. O que no Tirol pode ser nenhuma, em alguns momentos. Notei que algumas rádios transmitem programas médicos, na hora do almoço. O fato teria passado despercebido, se não fosse a próstata. Não a minha, a do rádio. Ou melhor, a do programa de rádio. Segunda-feira, 12 horas (até 12 os italianos também sabem contar), subindo os Alpes, e a entrevistadora coleta, através do telefone, experiências com a próstata dos ouvintes. Terça-feira seria dia do apêndice? Não, terça-feira, 12 horas, descendo alguma montanha, lá está novamente a apresentadora da próstata. E os inúmeros relatos dos ouvintes. Sete ou oito interessantíssimos relatos sobre próstatas. Bem o que os ouvintes desejam ouvir na hora do almoço. Na quarta-feira, inovei. Almocei na hora do almoço. Num restaurante simples, mas correto, com uma TV de plasma na parede, apresentando algum programa sobre... próstata! Foi então que me caiu a ficha. Os italianos não têm Hora ou Voz da Itália. Eles têm a Hora da Próstata! – Ora Della Prostata.




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