2.4.08

A irmandade da morte


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A irmandade da morte

Por Paulo Heuser


A história está recheada de eventos que envolveram sociedades secretas, irmandades, confrarias e quaisquer outros ajuntamentos de pessoas com interesses em comum. Muitas dessas sociedades permeiam a sociedade sem aparentá-lo. Algumas foram constituídas para praticar o bem, sem olhar para quem. Outras são sociedades de ajuda mútua, onde os membros prestam favores entre si. Há algumas que se destinam à realização de festas, e assim por diante. Soube de uma sociedade secreta de adoradores de pé-de-moleque (a rapadura), que não tinham a coragem de confessar publicamente sua adoração pelos amendoins com melado. Reúnem-se semanalmente para comer a iguaria.

Há confrarias públicas de bebedores de uísque, de fumadores de charutos, de cozinheiros, e de qualquer atividade que possa reunir aqueles que partilham de gostos comuns. Nunca antes naquele país houve tantas sociedades secretas como nos EUA. Frase confusa, porém politicamente atual. Os norte-americanos inserem-se nas irmandades enquanto estão na escola. Tornam-se sigma-kappa-phi, ou vice-versa. Faltam letras no alfabeto grego para tanta irmandade. Eles passam pelas cerimônias de iniciação, onde juram a fidelidade a qualquer coisa que move aquela entidade. É um ponto alto na vida social dos jovens daquele país. Neste País, os trotes universitários estão mais para jogarem ovos, ou caldo de peixe podre, nos calouros. Lá os filhos tendem a ingressar na mesma irmandade que seus antepassados freqüentaram durante o ensino superior. Aqui tentam criar a Irmandade do Caldo de Traíra Podre e a Irmandade dos Bombardeados com Ovos Podres de Carijó. Seus filhos serão bombardeados com o mesmo caldo de traíra podre e os mesmos ovos podres de carijó, quando ingressarem na universidade. É a tradição que se perpetua.

George Filho, assim como seu pai George Pai, freqüentou a conceituada Yale University, em New Haven, Connecticut. Ambos ingressaram na Ordem das Caveiras e Ossos, sociedade secreta criada em 1832. Diversas personalidades da vida pública norte-americana participaram dessa renomada sociedade secreta. Renomada e secreta, o que não deixa de ser curioso. George Pai quase iniciou uma guerra nuclear. George Filho começou guerras convencionais. Os membros dessa sociedade, também conhecida como Irmandade da Morte, são chamados bonesmen, o que poderíamos traduzir para ossudos, sem nenhuma tentativa de ridicularizá-los. São as natas da sociedade que se considera uma nata.

Apesar dos esforços de guerra do ossudo George Filho para convencer os muçulmanos da conveniência de se tornarem WARP – White American Republican (redneck) Protestants – Brancos americanos republicanos protestantes, eles não entendem esse esforço. Insistem em explodir-se por todo o lado. Sequer sonham em tornarem-se ossudos!

Os pensamentos de George Filho desviaram-se daqueles povos incompreensíveis quando a bolsa explodiu. Desta vez não foi a bomba na cesta de uma mulher suicida na fila do pão em Bagdá. Foi a bolsa do seu querido país, sede da sua secreta Irmandade da Morte. Nem o Alan Greenspan conseguiu salvar a aposentadoria das velhinhas que é aplicada na loteria dos papéis das saudáveis empresas WARP. Os bancos estremeceram, e não foram os da praça. George não sabia mais o que fazer. Derrotado na política externa, derrotado na economia interna, via modelos recusarem cachês em dólares. Essa foi a gota d’água! Então surgiu um conselho amigo, do Presidente Squid (Lula), daquele país cujo nome sempre esquece, mas sabe que fica próximo ao Orinoco. Squid insistia na aplicação de um pacote. Mesmo o cérebro privilegiado de George Filho conseguia entender que necessitavam urgentemente de um pacote. Mas qual pacote? A economia norte-americana não conseguia engolir pacotes facilmente. Squid prometeu mandar um pacote.

Quando o AirSquid pousou na Base Aérea de Andrews, perto de Washington DC, um imenso aparato de segurança estava preparado. Das entranhas da aeronave desceu apenas uma mala. Estaria nela o pacote salvador da economia do país das Caveiras e Ossos? Da porta da aeronave tupiniquim emergiu uma senhora baixinha: a Pack’s Mother – Mãe do PAC.

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29.11.07

O pesadelo



O Pesadelo, Henry Fuseli

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O pesadelo

Por Paulo Heuser


Pesadelo é como montanha russa. Podemos apenas rezar para que termine logo. O que incomoda mesmo nos pesadelos é o papel de meros passageiros, que assumimos. Os piores pesadelos ocorrem após os rodízios de pizza, já que dificilmente alguém comeria feijoada durante o jantar. Descobri que os mexilhões ao alho e óleo não causam pesadelos. Eles simplesmente impedem o sono. E sem sono, não há pesadelo. De qualquer forma, após o rodízio de pizzas aos 28 queijos, vem aquele sono irresistível.

Mal caímos no sono e já estamos descendo as Cataratas do Iguaçu a bordo de um pedalinho em forma de cisne, com o Pee-Wee Herman ao timão. E, como num pesadelo tudo sempre pode piorar, o aquecimento global secou as cataratas. Não há escapatória, sem acordarmos. Há pesadelos tão doidos que, mesmo dormindo, percebemos que estamos sonhando. Imagine o Chávez dançando uma valsa com o Evo, enquanto o Bush e o Ahmadinejad – do Irã – trocam receitas de bombas atômicas. Sabe como é, um prefere as de urânio, o outro, as de plutônio.

Estamos quase entrando no mês das compras de Natal. Milhões de consumidores natalinos só pensam na mesma coisa: comprar, comprar e comprar. E comprar. Poucos sabem sequer por que estão comprando. Mas, se todos compram, por que não comprar também? Todos vão às compras exatamente na hora em que também vamos. Essas coincidências são incríveis. Esse é um pesadelo acordado. Os pesadelos acordados podem ser minimizados, com algum planejamento. Contudo, podemos nos lembrar, na última hora, daquele celular de conta, por um real, para a vovó. Damos o celular, e a conta é por conta da vovó. Sábio presente, bolado por um grego chamado Odisseu. Da versão eqüina original, evoluiu para essa pequena maravilha da comunicação. O espírito do presente, porém, restou intacto.

Um célebre pesadelo acordado foi o grupo musical Menudo. Dizia-se que mesmo os homens mais treinados na tolerância à tortura confessariam qualquer coisa após ficarem trancados numa sala ouvindo Menudos ininterruptamente. Semelhante pesadelo ocorre nos bailes de Carnaval infantis, com o célebre Atirei o Pau no Gato, agora em versões politicamente corretas.

Meu mais novo pesadelo vem pela TV a cabo. Não consigo mais ligá-la. Suo frio, começo a tremer e desisto. Comprei uma antena interna, do camelô, aquela que tem um encaixe que não se encaixa em lugar nenhum, e passei a assistir à TV aberta. Troquei o Chávez pelo Chaves. Ambos são divertidos, porém o segundo não é perigoso. E não corro mais o risco de enlouquecer com o pesadelo da TV a cabo. Nem sei o nome daquela mulher que me enlouquece. Ela começa a falar quando aperto a tecla que liga o decodificador. Depois, não pára mais. Após a ducentésima quadragésima oitava vez que ela me mandou apertar a tecla vermelha após apertar... - Qual era mesmo? Ou seria a azul, após o asterisco? -, não suportei mais.
À medida que a repulsa provocada pela voz crescia, tentei diversas formas para abafá-la. Usei a clássica técnica adotada pelas crianças que não querem ouvir alguma coisa. Tapei os ouvidos e comecei a falar ininterruptamente, em voz alta. Porém, com as duas mãos ocupadas, não consegui apertar a tecla que me levaria a um canal seguro. Procurei alguma configuração que me permitisse atalhar diretamente a outro canal. Nada, em vão. Liguei fones de ouvido ao aparelho de som que, por sua vez, estava desgraçadamente ligado àquela caixinha de onde provém a tal da voz que nos instrui sem parar. Ouvi aquela voz amplificada, pesadelo também amplificado.

Por fim, comprei um daqueles abafadores acústicos para flanelinhas de Boeing 747. Funcionou, porém descobri um mundo silencioso que invariavelmente me levava ao sono recheado de pesadelos com mulheres que mandavam pressionar o * após do vermelho, ou seria o amarelo após o verde?


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20.11.07

A classe média II - O sindicato

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A classe média II – O sindicato


Por Paulo Heuser


Linoberto Classe Média viu-se novamente sentado numa das desconfortáveis cadeiras do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos. Viu-se, pois havia um espelho na parede oposta. O copo com a dose da “boa” repousava sobre a mesa, entre um e outro gole, prudentemente espaçados. Repetiu-se o ritual da chegada do estranho, o mesmo do colchão imperialista. O estranho pediu novamente o mesmo que Linoberto bebia, e assim por diante.

- E aí, já conseguiu mostrar a verdade para alguém?

- Quase, quase! Vocês são meio cabeças-duras, por aqui! – disse o estranho, enquanto fitava o copo, desconfiado.

- É que nós cultivamos a cultura dos nossos antepassados. Não gostamos de novidades. O que está para lá do cinamomo, não nos interessa muito, além do comércio.

O estranho fez uma careta estranha, talvez pela última frase do Linoberto, talvez pela amargura da “boa”. E continuou:

- Esse é o problema! Vocês impedem a revolução proletária! – O estranho elevou o tom de voz. O terneiro, já crescido, mugiu em resposta.

- Hoje ouvi no noticiário o tal de Jabor dizendo que nós somos a classe média confusa e desinformada. – disse Linoberto.

- Não gosto daquele jornalista, pois escreve textos contra a única verdade. É um servo do imperialismo bushista-sarkozysta. Porém, quanto à classe média, tem razão. Dou a mão à palmatória.

- Ou seja, apanhamos de cima e de baixo. – disse Linoberto.

- Pudera, vocês não são pobres nem ricos. Compram ingressos para o canadense Cirque du Soleil (cúmulo do bushismo-sarkozysmo) em prestações. Os proletários não vão, ficam manobrando os carros das elites que vão, e pagam à vista. Vocês vão ao bistrô do Pierre e perguntam se aceitam vale-refeição. Suas mulheres se enchem de cremes contra rugas, enquanto as elites mandam trocar a cara no Pitangy. Vocês põem o lixo em sacos de supermercado. Proletário junta o lixo, enquanto a elite joga fora lagosta vincenda hoje, em sacos de lixo com propaganda de uísque escocês. Vocês põem película escura no vidro do carro, para não serem multados por falar ao celular. Pobre anda de Kadet com todos os vidros abertos, bombando som, enquanto as elites andam com os vidros fechados, falando pelos handsfree.

O terneiro, já crescido, aproveitou a deixa, para mugir. O estranho começou a acreditar que aquilo fazia parte de uma espécie de claque para ridicularizá-lo.

- Pois aqui nós não temos dessas coisas, não. – disse Linoberto, enquanto saboreava mais um gole daquele elixir da amargura.

- Ah, não têm? E o que é aquele sujeito parado do outro lado do balcão? Proletário, não é! É um proprietário, com certeza! Portanto, membro da elite local, que explora a classe média como você, que impede a ascensão das minorias proletárias oprimidas, como aquele sujeito que você mantém trabalhando na sua terra, de sol a sol. – o estranho estava cada vez mais alterado.

O sexto dos 12 irmãos achou que o estranho passara da conta, expulsando-o do bar, restaurante e borracharia. Chamá-lo de proprietário, tudo bem. Porém, chamá-lo de elite local? Ele nem entendia direito o que seria isso. Por via das dúvidas, melhor mandá-lo pastar, desde que não incomodasse o terneiro, já crescido, que mugiu.

Linoberto chegou em casa, com aquele ar de preocupação que Maria bem conhecia. Vira aquela expressão por duas vezes, nos últimos 11 anos. A primeira, quando o terneiro nasceu e o cunhado não pode levar o leite para lá do cinamomo. A segunda, no dia em que o estranho chegou, lhes dizendo que fariam parte da classe média, o colchão de proteção das elites imperialistas degeneradas, bushistas-sarkozystas, com certeza.

- O que foi, Lino? O estranho, novamente?

- É Maria, o Sexto o botou para fora do bar, armazém e borracharia. Aí o estranho procurou teu pai para convencê-lo a fazer greve.

- Meu pai?

- Sim, ele disse que o teu pai é um proletário explorado pelas elites, através de nós, classe média, colchão imperialista decadente.

- Mas, meu pai trabalha na terra que nos deixou, conosco, como família!

- Sei, mas ele disse que isso não muda nada. Camponês sempre é explorado, parente ou não. Estava tentando convencê-lo a fundar um sindicato. Ele traria todo o material necessário, do outro lado do cinamomo.

- Meu pai não aceitou, não é?

- Não, Maria.

- Graças a Deus!

- Bem, tive de lhe fazer algumas concessões. A partir de amanhã, quando assinaremos o acordo coletivo de trabalho, o velho poderá fumar escondido quantas vezes quiser e poderá ir oito vezes por dia até o 12 Irmãos.

O terneiro, já crescido, mugiu.

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29.10.07

Rigatoni e biocombustível


Foto: Paulo Heuser
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Rigatoni e biocombustível


Por Paulo Heuser



A edição de 20 de outubro de 2007 do periódico La Repubblica, da Itália, publicou entrevista com o empresário Guido Barilla, da empresa de mesmo nome, sobre os motivos da alta de preços das massas, que teriam subido 15% desde dezembro de 2006. Barilla menciona os dois maiores culpados: a mudança climática e o presidente George Bush, dos EUA. O empresário apontou o aumento do preço da sêmola, devido às quebras nas últimas duas safras, como um dos fatores para explicar o aumento do preço da massa. Outro fator seria a utilização dos grãos para produção de biocombustíveis, seguindo a política de incentivos do presidente norte-americano.

Encontrei citação à essa reportagem num sítio italiano chamado
ecoblog. Além de reproduzirem a entrevista com Guido Barilla, alinham a política de Bush, Lula e Massimo D’Alema, Ministro de Negócios Estrangeiros da Itália, em oposição às opiniões do empresário e de Fidel Castro, que condenam o uso de grãos para produzirem combustíveis. Depois de razões e contra-razões, o que me chamou a atenção, no blog, foi a foto que adornava o artigo. Uma maravilhosa foto de três pedaços de rigatoni, sobre fundo vermelho. A foto é de minha autoria. Eu havia postado aquela foto na minha página de compartilhamento de fotografias no Flickr , apenas 36 horas antes. Quem a copiou, incluiu os créditos, é verdade, porém a utilizou para fins comerciais, já que aquele blog está forrado com publicidade.

Já posso imaginar a confusão enfrentada pelos consumidores de combustíveis, no futuro. O sujeito chegará ao posto de serviços e poderá escolher entre muitos tipos diferentes. Haverá diesel alla matriciana, diesel ai funghi, para carros antigos e gasolina all’arrabbiata, para quem quiser um desempenho mais quente do motor. Para os mais ecológicos, diesel all pesto, opção de combustível verde. Não abrirão mão da gasolina di grano duro, para os carros manterem desempenho al dente. E o empurrol de aditivos também se adaptará aos novos tempos e aos novos combustíveis. Motores que utilizarem aditivo de parmigiano reggiano, rodarão mais, no caso dos combustíveis vermelhos. Para o diesel all pesto, será indicado um aditivo pecorino. Os óleos minerais e sintéticos estarão com os dias contados. Os motores que utilizarão os biocombustíveis di grano duro usarão azeite de oliva. Da cozinha ao motor, ou vice-versa. Carros sofisticados exigirão lubrificante virgem extra, de baixíssima acidez. Já os um ponto zero, poderão levar um semi-oliva, batizado com óleo de soja. A oferta de marcas de lubrificantes saltará, da atual meia-dúzia, para aquele monte de marcas que há nos supermercados, em garrafas ou latas. Haverá degustação de lubrificantes para motores.

Fiquei meio chateado, já que o blog italiano utilizou minha foto para fins diversos daqueles a que a página no
Flickr se destina. Por isso não fiquei nem um pouco constrangido, quando acrescentei um comentário naquela postagem do blog italiano. Não só Guido Barilla constatou que a massa dele subiu 15%. Eu também. Quando comprei os rigatoni para fazer a foto, concordei com Guido, pois achei os rigatoni Barilla muito caros. Conforme postei comentário no ecoblog, a marca daquela massa da foto não é Barilla, é Zara.


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