20.1.09

499,499 - A classe média XVII: O terrorista


Foto: Paulo Heuser
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A classe média XVII – O terrorista

Por Paulo Heuser


A história iniciou como as 16 anteriores. O sol nasceu sobre o cinamomo, as vacas pulavam de galho em galho, enquanto os passarinhos pastavam alegremente. Padre Antão observava a falta de movimento, enquanto a beata Dona Clotilde fazia experimentos para tentar obter vinho de missa espumante. Beberia estrelas, caso conseguisse. O crescido terneiro mugia, sabia-se lá por que.

O primeiro a ver a coluna de poeira levantada pelo jipe do MINTE – Ministério do Terrorismo Estrangeiro - foi Padre Antão, que se pôs a tocar o sino, como de costume nessas ocasiões. Linoberto largou o que fazia na roça e correu para o Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, sede do Município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média não-estatística do IBGE. O sétimo dos 12 irmãos, o Prefeito, já esperava os visitantes à porta. Como sempre, a missão oficial veio capitaneada pelo Estranho – o único representante do Governo a encontrar o Lado de Cá do Cinamomo. O Estranho veio acompanhado do Chefe da Divisão de Importação de Terroristas Italianos, Signore Va Di Quattro, e do renomado escritor e ativista italiano Bracciolo Batticciola, recém-asilado pelo Governo, cujo pescoço andava a prêmio na Itália.

Feitas as apresentações de praxe, sentaram-se à mesa e beberam as protocolares doses da “boa”, a aguardente local. Até então, tudo igual à antes. Quattro e Batticciola quase morreram, etc, etc. Após as amenidades, o Estranho falou do motivo da vinda da missão oficial do MINTE:

- Bem, como vocês já devem ter ouvido falar, o Sr. Batticcila recebeu asilo político do Governo e poderá residir e trabalhar no País. Por questões de segurança, o local escolhido para sua residência foi o Lado de Cá do Cinamomo.

- Por quê? – interveio Linoberto.

- Nosso governo teme pela segurança do asilado, pois forças estrangeiras poderão eventualmente tentar seqüestrá-lo para sua extradição informal. Aqui ele ficará seguro, já que nenhum agente estrangeiro conseguirá encontrá-lo.

Padre Antão quebrou seu silêncio:

- Ora, o que esse homem poderá fazer aqui? Somos uma pacata comunidade de agricultores e alambiqueiros. Acredito na segunda oportunidade, para que um homem se regenere, mas o que esse escritor poderá fazer aqui?

O Estranho respondeu:

- Veja, o Sr. Batticciola é um intelectual revolucionário. Ele certamente poderá contribuir para o aperfeiçoamento das instituições sociais daqui.

- Como? – perguntou o Sétimo, o prefeito, até então calado.

Batticciola aproveitou a deixa e partiu para as explicações, num misto de português com italiano.

- Vedete, signori. Eu sou um agente do proletariado mundial e poderei libertá-los do jugo imperialista, através da dialética proletária armada! – ele sorria e esfregava as mãos, como que se deliciando com o que dizia.

- Que dialética é essa? – perguntou-lhe Linoberto.

- É mais rápida e direta do que a convencional. Todos expõem seus pontos de vista. Se concordarem com o meu, ótimo. Caso contrário, faço explodi-los. Crapooou! Capite? – entendem?

- Isso é terrorismo! – protestou Padre Antão.

- É uma forma de levar a voz do povo ao poder. Eu sou o povo. Portanto, sou o poder! – disse Batticciola, com evidente satisfação.

Linoberto expôs a opinião de todos residentes que lá estavam:

- Nós não podemos impedi-lo de viver aqui, já que o Governo lhe concedeu o asilo político. Queremos deixar claro, no entanto, que essa idéia não nos agrada nem um pouco.

Do lado de fora, o terneiro mugiu, talvez de contestação, talvez de proliferação.

Maria deixou o tear de lado quando percebeu que Linoberto limpava o barro das botas no estribo da entrada da casa. Ela já ouvira as fofocas sobre a chegada do Estranho.

- E então, Lino? Como foi? O tal terrorista virá morar aqui?

- Viria morar, Maria, viria.

O jipe do MINTE deixou outra coluna de poeira, que sumiu atrás do cinamomo.

Linoberto olhou Maria com misto de adoração e diversão. Ele adorava o jeito ansioso dela perguntar pelo que havia acontecido.

- Não vai mais, Lino? – Maria deu um pulinho enquanto falava.

- Não, Maria. Ele disse que queria fazer aqui o mesmo que fazia lá. Libertar-nos-ia da opressão dos poderosos imperialistas. Faria comícios, passeatas, greves e ataques às instituições que não representam o povo.

- Credo, Lino! Esse sujeito é muito perigoso! Como fizeram para que ele fosse embora?

- Ele quis. – Linoberto disse sorrindo. E concluiu:

- Quando ele percebeu que o Lado de Cá do Cinamomo não apresenta grandes desníveis econômicos e sociais, ficou desesperado e foi embora com o Estranho. É um revolucionário que não pode viver sem revolução. Prefere correr o risco de viver do lado de lá, onde poderá exercer sua militância. Ele disse que nunca poderia viver num lugar como o Lado de Cá. O que faria aqui? Contra o que lutaria? Aqui não há moinhos de vento.

O sol já se punha, enquanto o crescido terneiro mugia, talvez de emoção, talvez de perversão.

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23.8.08

448 - A classe média XI - O estrangeiro


Cachaçaria Fingerhut. Foto: Paulo Heuser
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A classe média XI – O Estrangeiro

Por Paulo Heuser


A vida corria tranqüila, no Lado de Cá do Cinamomo. Nada denunciava o que estava por vir. Aquele dia seria diferente de qualquer outro, e seria contado em prosa - pois em verso seria coisa de frouxo - para as gerações seguintes.

O crescido terneiro mugia de tédio, quando Padre Antão foi se espreguiçar defronte a igreja. Dona Clotilde vinha levantando poeira, a bordo do seu poderoso Renault Dauphine, que um dia foi verde esmeralda, percorrendo intrepidamente os 87 metros que separam sua casa da Paróquia do Lado de Cá do Cinamomo.

- OVNI, OVNI, OVNI!!! – gritava o sétimo dos 12 irmãos, proprietários do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, enquanto apontava para o céu. Padre Antão olhou na direção para onde o Sétimo apontava, sobre o telhado do salão paroquial, e viu algo que refletia o sol da manhã. Algo metálico, com certeza. O padre apressou-se em buscar o binóculo Carl Zeiss, que seu avô trouxera como lembrança das trincheiras da Alsácia. Através de uma pequena área clara, em meio aos fungos que dominavam as lentes, Padre Antão conseguiu vislumbrar algo que se assemelhava com um balão prateado. Sob ele, dependurava-se uma espécie de cabine esférica, fazendo as vezes de gôndola. A nuvem da poeira levantada pelo bólido da Dona Clotilde encobriu a cena.

- Não é um OVNI! É um balão! – declarou Padre Antão.

Quando a poeira assentou, já se via o balão em detalhes, inclusive a bandeira dos EUA que cobria a lateral da cabine esférica. Logo pareceu evidente que a trajetória o levaria ao alambique do Sétimo, que saiu em louca disparada, temendo pelo pior.

O crescido terneiro mugia, talvez de admiração, talvez de apreensão.

Padre Antão passou a tocar o sino da igreja, chamando o pessoal que estava na roça, como Linoberto. Para alívio de todos, principalmente dos 12 irmãos, a cabine do balão passou raspando sobre o telhado do alambique, indo estatelar-se no potreiro do Sétimo. O pessoal apareceu de todas as direções. Aquilo era um grande evento, sem dúvida. Muitos deles nunca haviam visto um balão. Ainda mais assim, todo prateado.

A abertura da porta da cabine ofuscou muita abertura de porta de nave de ET. “Fsssss...”. A equalização das pressões interna e externa foi audível. Todos recuaram, quando um homem vestindo traje prateado surgiu pela porta. O Sétimo não se conteve:

- Cuidado, pode ser um ET americano! O homem sorria e mostrava as palmas das mãos. Linoberto pensou que o Estrangeiro os considerava aborígenes, pois fazia o gesto intergaláctico de paz.

- Mim Steve! – disse o sorridente Estrangeiro.

- Mim Linoberto! – devolveu-lhe o próprio.

Linoberto e o Padre Antão arranhavam o inglês de colégio, suficiente para entabularem uma conversa sem pronomes pessoais regidos de preposição. O Estrangeiro explicou que tentava dar a volta ao mundo, quando uma corrente de altitude falhou, e ele acabou no chão. Ele tentou comunicação por rádio, com sua base, em Chattanooga Tennessee, mas não teve êxito, pois estava muito baixo. Linoberto tranqüilizou-o, pois o rapaz do leite iria à cidade, e lhe daria uma carona. De lá o Estrangeiro poderia chamar a equipe de socorro, para transportarem a cabine. O invólucro do balão estava perdido, pelos inúmeros rasgos. O Estrangeiro doou o balão à igreja. Padre Antão ficou muito feliz, pois Dona Clotilde poderia confeccionar diversas roupas, para darem aos pobres, no dia em que encontrassem algum do Lado de Cá do Cinamomo.

O rapaz do leite fez um mapa para que o Estrangeiro pudesse voltar ao Lado de Cá do Cinamomo, quando sua equipe chegasse. A cabine de vôo virou atração turística. Contaram mais de dez visitas, somente na primeira semana. Decorrido esse prazo, Linoberto ficou preocupado. Por que o Estrangeiro demorava tanto a voltar? Talvez sua equipe demorasse. O homem parecia ter gostado dali, pois chegara a provar da “boa”, produto do alambique que quase destruíra inadvertidamente. Será que o rapaz do leite errara o mapa?

Decorridas duas semanas, Linoberto já pensava em tentar alguma comunicação com o Governo. Pareceram adivinhar seus pensamentos, pois o Estranho apareceu no horizonte, acompanhado de uma tropa, a bordo de um grande caminhão do Exército. Dirigiram-se diretamente ao 12 Irmãos, onde o Estranho estranhamente recusou a “boa”. Ele confidenciou ao Linoberto que não podia beber em serviço, diante das testemunhas do Exército.

- Sua vinda tem algo a ver com o balão? – Linoberto juntara alhos com bugalhos.

- Sim, completamente! – o Estranho olhava estranhamente para o copo servido a sua frente. Quando viu que os soldados olhavam pela janela, procurando a origem daqueles estranhos mugidos, ele entornou o copo, de um só gole. Uma imensa sensação de queimadura tomou conta das suas mucosas superiores.

- Vieram buscar a cabine? – Linoberto estranhou a ausência do dono dela.

- Sim, será apreendida como objeto de descaminho. O americano já foi preso.

- Por quê? – Linoberto tentava adivinhar qual era o argumento besta que havia enquadrado o Estrangeiro em algum artigo de alguma nova lei besta.

- Por ordem, ele introduziu aeronave no País, sem pagamento das taxas e emolumentos de importação, e ele cometeu crime contra a segurança nacional, ao introduzir e divulgar em território nacional mapa ou qualquer documento que o retrate ou descreva sem parte dele integrante!

- Você está falando do mapa que o rapaz do leite traçou, para que o Estrangeiro pudesse voltar, e pegar sua cabine? – Linoberto ficou boquiaberto.

O crescido terneiro mugiu, talvez de indignação, talvez de obnunciação.

- Sim, aquele mapa só apresenta o Lado de Cá do Cinamomo e a Capital. Falta-lhe todo o resto do País, inclusive, ou melhor, exclusive, a Amazônia. Ou seria exclusive, inclusive? Bem seja como for, a CPI das ONGs constatou que “tais informações enganosas são capazes de gerar desgaste nas relações bilaterais dos países afetados, bem como percepções mutuamente enganosas acerca das expectativas e da forma como os atores estatais se enxergam” (sic).

- Saúde! - desejou o Sétimo.

- Como, saúde? – nem Linoberto, nem o Estranho haviam entendido.

- Bem, ele está com soluço, não viu o sic? – Eles fingiram não ouvir a resposta, e o estrangeiro continuou:

- Estamos aqui também para intimá-los a hastear a Bandeira diariamente, conforme determinação normativa de que a regra seja cumprida em todos os núcleos habitacionais da Amazônia Legal.

- Mas, aqui não é a Amazônia Legal! – protestou Linoberto.

- Não é, mais foi incluída no substitutivo do Sen. Epitáfio Chaleira, por se tratar de área inatingível do Território Nacional, como as reservas indígenas já que ninguém mais consegue chegar até aqui.

- Que coisa mais besta! – reagiu Linoberto.

- Sim, Besta Lex, sed Lex!

O crescido terneiro mugiu, talvez de abnuição, talvez de abobalhação.

Maria ordenhava a vaca Antonieta, quando Linoberto chegou.

- Que confusão, Lino!

- É, a coisa ficou preta para o lado do Estrangeiro. Pelo visto, vão expulsá-lo do outro lado do cinamomo. Melhor assim, pois ele corre o risco de pegar quatro anos de prisão por causa do raio do mapa que o rapaz do leite fez.

- Parece coisa daquele filme, passado naquela praia daquela ilha onde plantavam aquele fumo diferente. – Maria cantarolou a música Voices.

- Teremos de hastear a bandeira todos os dias, no 12 Irmãos, em obediência a nova lei besta. O Sétimo até gostou desta, pois ele aparecerá todos os dias nas cerimônias de hasteamento e arriamento, a preparar-se para a Eleição.

- E o balão? O Estranho levou?

- Não, Maria. O Sétimo juntou coisa alguma com coisa nenhuma e teve o primeiro lampejo de raciocínio lógico em toda a sua vida. Ele pegou o gancho da lei do Sen. Epitáfio Chaleira e questionou a presença de tropas, e do próprio Estranho, em reserva territorial. Se tivermos de fazer a mesma coisa que os núcleos habitacionais indígenas fazem, teremos também os mesmos direitos. O Estranho consultou o pessoal do Minterra – Ministério dos Territórios Amazônicos e eles confirmaram que ninguém pode entrar aqui, sem autorização, nem o Sting, nem o Papa.

- Eles poderão voltar para buscar o balão, depois que arrumarem autorização?

- Poderão, mas o Sétimo preparará um processo a ser protocolado junto ao Minterra, que deverá tramitar durante anos, de gabinete em gabinete. Até lá, o Sétimo terá feito bom uso dele.

- Como, Lino?

- Ele pretende fazer umas mudanças na cabine, e utilizá-la como caldeira do alambique. Poderá aumentar muito a produção da “boa”.

O crescido terneiro mugiu, talvez de obcecação, talvez de obduração.


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19.8.08

446 - Classe média X - A grande revolução

Luiz Vaz de Camões
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A classe média X – A grande reforma

Por Paulo Heuser


Linoberto desatolava o terneiro mugidor, quando viu o jipe enlameado que trazia o cada vez mais familiar Estranho – único representante do Poder Central a encontrar o caminho para o Lado de Cá do Cinamomo - último bastião da classe média. O barro voava para todos os lados, denunciando um motorista mais afeito ao asfalto do outro lado do cinamomo. Numa das raras comunicações com o governo do estado, informaram da impossibilidade das máquinas melhorarem a estrada, pelo simples fato de não conseguirem encontrá-la.

O Estranho desceu sorridente do jipe que trazia identificação do Ministério da Cultura. Ele trouxe um passageiro, homem de estatura média, cabelos castanhos, aparência comum e vestido discretamente. Aguardaram que Linoberto acabasse de desatolar o terneiro, que mugiu de alívio, e acompanharam-no ao Bar Restaurante e Borracharia 12 Irmãos, onde já lhes esperava uma garrafa da “boa”. Linoberto não se conteve, e atropelou o protocolo:

- O que foi desta vez? Seremos forçados a aprender uma dança típica do Quirguistão, só porque aprovaram uma lei para tanto?

- Calma, Linoberto. Nada disso. Antes de mais nada, deixe-me apresentá-lo ao Secretário Extraordinário Para Assuntos Lingüísticos, Sr. Manuel Vaz Cascais.

- Prazer! – Linoberto apertou a mão dele, com firmeza, enquanto pensava que, pela aparência, o sujeito nada apresentava de extraordinário.

- Przer! – o nada extraordinário lhe devolveu o cumprimento, com forte sotaque d’além Atlântico.

- Português? – Linoberto ficou curioso.

- Não, na vrdad não! Sou brsleiro.

- Mas, por que fala desse jeito?

- Bem, stou a me prprar para rprsntar o gverno na rnião dos países de poplação lsófna. Assm, já stou a trnar o staque.

- Ele não fala o Português daqui? – Linoberto olhava para o Estranho, que consultava um livro intitulado Dicionário Português-Português.

- É um pouco diferente, mas dá para se entender. – disse o Estranho – Depois de algum tempo, e de ler os 8816 versos dos Lusíadas.

- Bem, sja cmo for, stá a contcer a VII Cmeira – Cimeira - dã Cmnidade de Países de Lngua Prtguesa. Como o gverno prtguês crou um fundo de 30 mlhões de Euros, stamos prveitando pr dvlgar a rforma rtogrfica da Lngua Prtguesa.

Por incrível que pareça, Linoberto começou a entender o homem. Havia uma regra que permitia a tradução do português para o português. Era suficiente acrescentar algumas vogais em meio às primeiras consoantes. Ele passou a traduzir o que o lusófono falava, para o Sétimo, que acumulava os cargos de Prefeito do Lado de Cá do Cinamomo, garçom e borracheiro do 12 Irmãos. O Sétimo confundiu cimeira com cinamomo.

- Onde eles falam essa língua, também tem cinamomo?

Linoberto tentava descobrir qual seria a nova lei idiota que haviam votado do outro lado do cinamomo.

- Certo, mas o que nós temos a ver com isso, do Lado de Cá do Cinamomo?

- Exclente prgunta, gajo! – o Vaz Cascais ficou tão entusiasmado que o terneiro mugiu em resposta. Um mugido estranho, sem vogais. Apenas “Mmmmmmmm!”.

- O Gvrno Brsleiro assnou o Trtado dã Rforma Rtogrfica dã Lngua Prtguesa. Todos trão dã prnder a scrver dã frma pdrnizada.

O Sétimo parecia entusiasmado:

- Eles darão curso dessa língua, de graça? Aí estava uma realização a ser colocada no seu currículo, para a próxima eleição.

- Todos terão de reaprender nossa língua. Todos os livros serão reescritos, usando a nova Língua Portuguesa, que será escrita por 210 milhões de pessoas no mundo, que têm o português como língua pátria – foi a vez do Estranho se entusiasmar.
- Todos falarão a mesma língua, no Brasil, em Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Linoberto logo percebeu que Portugal seria o grande beneficiado, pois venderia mais livros ao Brasil. Os outros apenas fariam número, pois sua população, ou é analfabeta, ou não tem recursos para comprar livros. E o Brasil pagará a conta, é claro.

- Que coisa mais besta! – Linoberto não se conteve.

- Besta lex, sed lex! – A lei é besta, mas é a lei! – afirmou o estranho.

Quando Linoberto chegou a casa, Maria esperava na porta.

- E aí, Lino, soube que o estranho esteve aqui, e trouxe um estrangeiro com ele.

- Era um estrangeiro de idéias, vendendo uma ridícula reforma ortográfica, fruto de um tratado que seremos forçados a engolir, graças à outra lei besta.

- Por que nós, Lino, se os do lado de lá do cinamomo nunca nos encontram para outras coisas.

- Porque aqui não tem a tal de Internet.

- Não entendi a relação. – Maria franziu a testa.

- É simples, Maria. Aqui o pessoal ainda sabe ler e escrever. O pessoal do lado de lá do cinamomo já não sabe ler muito bem. Os que ainda poderiam saber, não usam mais a Língua Portuguesa. Eles usam uma linguagem truncada, o Internetiquês, de onde os acentos e as vogais sumiram faz muito tempo. Outros vão ao shopping, aproveitar que é time de sales off, e aproveitam para fazer um upgrade do ROI – Return Of Investiment. Tudo dentro do budget, é claro. Por isso nos escolheram, para iniciar a conversão dos professores.

- E agora, Lino? O que acontecerá se converterem professores e o tal do tratado não der certo?

- Não vai dar problema. Falei com o Sétimo e pedi para mandarem o Décimo para aprender a nova ortografia. Aquele que dá aulas de História Antiga.

- O que caiu do cinamomo?

- Esse mesmo. Depois do tombo de cabeça, ele perdeu a memória recente. Não se lembra de nada que aconteceu no dia anterior. Os alunos dele adoram essa característica. A reforma ortográfica entrará por um ouvido, e sairá pelo outro. Ele não consegue aprender nada novo, por isso dá aulas de História Antiga.

- E então, Lino?

- Então os do outro lado do cinamomo, deverão adiar novamente a implantação dessa besteira. E nós escreveremos num dialeto português que só será conhecido do Lado de Cá do Cinamomo.


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14.8.08

441 - A classe média IX - A revolta dos Bichos


Foto: Paulo Heuser
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A classe média IX – A revolta dos bichos


Por Paulo Heuser



O Estranho – único funcionário público do País a encontrar o caminho para o município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média – já se tornou figura familiar no Bar, Restaurante e Churrascaria 12 Irmãos. Ele tem mexido os pauzinhos na Capital, tentando fixar residência no Lado de Cá, pois não suporta mais a viagem que se vê obrigado a empreender, uma vez por mês, para assegurar o cumprimento da Lei institucionalizada do outro lado do cinamomo. Não fosse a dificuldade em se encontrar o lugar, outros poderiam vir. Porém, algum dom inato deu ao Estranho a mesma capacidade, para encontrar o caminho, que as aves migratórias apresentam. Por outro lado, não há dom que faça alguém suportar a estrada, se é que se pode chamar aquilo de estrada. É uma estreita e sinuosa sucessão de pedras e buracos enormes, ora subindo verticalmente, ora descendo. Cada motorista do carro oficial – este trocado a cada viagem – recebe uma semana de folga, ao retornar. Alguns pedem licença saúde, quando ameaçados de retorno ao Lado de Cá do Cinamomo.

A chegada do Estranho foi ruidosa. Chegou a bordo de um veículo utilitário da Patram – Patrulha Ambiental, com direito a giroflex e sirene. Ele veio acompanhado de dois agentes ambientais uniformizados, vestindo uniforme de combate e tocas ninjas. Pararam defronte ao 12 Irmãos e um deles rolou pela grama, enquanto empunhava um fuzil de assalto, apontado para o bar. O outro gritava: - go, go, go! No momento em que o segundo agente pedalava a porta do 12 Irmãos, esta abriu-se, pois o sétimo dos 12 viera ver o que estava acontecendo. O agente estatelou-se entre os assustados freqüentadores que curtiam a hora feliz, à tardinha – 16h00 Hora Zulu, como diriam os agentes. O crescido terneiro mugiu, talvez de susto, talvez de emoção.O Sétimo foi algemado, antes que pudesse contar até um. Linoberto veio ligeiro, da roça, alertado pela inusitada sirene, coisa nunca ouvida do Lado de Cá do Cinamomo.

O Estranho entrou visivelmente constrangido no 12 Irmãos. Antes que alguém pudesse perguntar sobre a razão da prisão, o Estranho se antecipou:

- Os 12 irmãos serão presos por infringirem o Decreto 24.645 e a Lei 9.605. Recebemos uma denúncia do Serviço de Vigilância Por Satélite, do Minam – Ministério do Ambiente – e da ONG que fiscaliza a apresentação de animais em espetáculos.
Onze dos 12 irmãos já estavam algemados, quando Linoberto chegou. O Décimo Segundo havia ido à latrina, fugindo com ela nas costas. Procurou refúgio na igreja, junto ao Padre Antão.

- O que eles fizeram, para serem presos? – perguntou Linoberto.

- Eles mantiveram animais em ambiente anti-higiênico e os usaram num espetáculo, sem autorização do Minam!

- Quais animais?

- Três porcos, que, por sinal, serão transferidos para um zoológico, tão logo a Unidade Móvel de Resgate da Fauna consiga chegar até aqui.

- Mas, os porcos estão no chiqueiro! – argumentou Linoberto.

- É um lugar muito sujo, completamente anti-higiênico. Sinto muito, não posso fazer nada, pois lei é lei!

- Sei, Besta Lex, sed Lex! – A lei é besta, mas é a lei!- E quanto a esse suposto espetáculo? – Linoberto não se lembrava de algum circo ter algum dia chegado ao Lado de Cá do Cinamomo.

- Foi no domingo passado, às 15h31, Hora Zulu, defronte à igreja. Havia mais de 40 pessoas presentes. Tenho aqui comigo esta foto comprobatória.

- Mas, isso foi o concurso anual do Porco Gordo!

- A lei é clara, quanto à permissão para a participação de animais em espetáculos!

- Sei, Besta Lex, sed Lex! – A lei é besta, mas é a lei!

O crescido terneiro mugiu, talvez de indignação, talvez de estupefação.

Maria ficou aliviada, quando viu Linoberto subindo pelo potreiro, em direção a casa. Ela estava morta de curiosidade, pois o assunto já havia corrido de boca em latrina. Havia pouco, o Décimo Segundo passara defronte a porteira, carregando a latrina.

- Os 12 estão presos?- Não, tiveram de soltá-los.

- Por quê?

- Bem, em primeiro lugar, os fregueses do 12 Irmãos ameaçaram jogar os agentes no chiqueiro, pois não restaria ninguém para tocar o bar. Depois, o Padre Antão descobriu que haviam criado uma lei que dá foro especial para todos os detentores de cargos públicos, como os 12 irmãos, já que o Sétimo é prefeito e os demais são vereadores. O juiz que poderia mandar prendê-los resolveu liberá-los, pois o Presídio da Capital está interditado devido a uma grande revolta dos presos. Por último, o telefone por satélite do Estranho tocou.

- Era da Capital?

- Era, Maria. Era o Ministro da Segurança, em pessoa. Ele mandou a equipe tocar direto para o Presídio da Capital, aquele onde estourou a rebelião dos presos.

- Mas, a equipe do Estranho não é da Patrulha Ambiental? – Maria ficou intrigada.

- É verdade, mas os presos exigem receber o mesmo tratamento dado aos animais!

O crescido terneiro mugiu, talvez de admiração, talvez de resignação.





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7.8.08

438 - A classe Média VIII - A queda do cinamomo


Foto: Wikipedia
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A classe média VIII – A queda do cinamomo

Por Paulo Heuser


O pacato município do Lado de Cá do Cinamomo não ouvia o sino da igreja, fora dos horários litúrgicos, há muitos anos. Nem Padre Antão lembrava-se da última vez. O sino limitava-se ao anúncio das missas, das horas de entrada e saída da roça, e dos óbitos, todos os três, registrados nesta década. O toque às 16h49 causou o retorno prematuro do pessoal da roça. E o mugido do crescido terneiro. Linoberto não precisou observar a sombra projetada pelos pés de milho, para constatar que ainda não chegara a hora usual do retorno para casa, antecedido pela passagem no Bar, Churrascaria e Borracharia 12 Irmãos.

Quando Linoberto chegou ao 12 Irmãos, este estava às moscas. Eufemismo desnecessário, pois o bar sempre estava cheio de moscas. Havia apenas um cartaz, aviso para que todos se dirigissem ao cinamomo que deu nome ao Município, ao lado da pinguela. Quando chegaram lá, havia grande agitação. Dona Clotilde, beata e ex-presidiária, por ter sido flagrada após consagrar com o vinho de missa, brandia uma foice, na direção de um homem vestindo macacão, e empunhando a motosserra. Padre Antão, revivendo Eúde – Juízes 3.27 - estava sobre um galho do cinamomo, tocando a versão moderna da Trombeta de Gideão, enquanto conclamava o povo do Lado de Cá do Cinamomo para abraçarem a árvore ameaçada. Os 12 irmãos formaram uma corrente ao redor do caule.

Linoberto não entendia o que provocara tamanha convulsão, pois não sabia que o Ministério da Estatística havia decretado o fim da árvore. O agora crescido terneiro mugia desesperadamente, contagiado pelo caos reinante. Linoberto sentiu uma mão colocar-se cuidadosamente sobre o seu ombro. Era o Estranho, único representante do Governo que conseguia encontrar a pinguela que dá passagem ao Lado de Cá do Cinamomo. Era exatamente esse cinamomo, que dava nome ao Município, que dificultava a visualização da pinguela.

- O que, afinal, está havendo aqui? – perguntou Linoberto.

O estranho fez sinal para que o agente da motosserra desligasse a máquina, e acompanhou Linoberto ao 12 Irmãos. Padre Antão, Dona Clotilde, e seis dos 12 irmãos ficaram ao lado do cinamomo, em vigília cívico-eclesiástica.

- Linoberto, sinto muito pela confusão que causamos, mas estamos apenas cumprindo um Decreto Ministerial. – O Estranho parecia especialmente estranho, constrangido mesmo.

- Decreto? Não é uma Lei Besta, desta vez – Besta Lex, sed Lex! – A lei é besta, mas é a lei?

- Não, Linoberto, desta vez é um Decreto, do próprio Ministério!

- Entendi: Bestum decretum, sed decretum! – O decreto é besta, mas é o decreto!

- Ora, Linoberto, devemos apenas cortar o cinamomo...

- Mas, este é o problema! O cinamomo é o que nos resguarda dos do lado de lá do cinamomo. Sem ele, todos poderão cruzar a pinguela. Em pouco tempo, isto aqui deixará de ser o último bastião da classe média!

O Estranho já não estranhava mais a “boa”, bebendo um longo trago, sem fazer caretas.

- Eu sei que vocês gostam muito desse cinamomo, mas ele está atrapalhando a estatística.

- Por quê? – Linoberto não entendia por que o tal do ministério queria pôr abaixo o cinamomo. – É ele que nos mantém como minoria.

- Ahá! Agora nós chegamos ao fulcro do problema! Vocês não são mais a minoria! O Ministério da Estatística decretou o fim da classe média como minoria. Agora, vocês fazem parte da maioria! Portanto, não poderão ficar separados do resto do País. Vocês ficarão diluídos nessa formidável classe média global! Basta que arranquemos o maldito cinamomo!

O crescido terneiro mugiu, solenemente.

- Estranho, você nos conhece há muito, e já deve ter percebido que isto aqui é o último reduto da classe média, mais por questões de atitude do que de renda. Essas atitudes certamente têm a ver com a distribuição de renda, mas a simples derrubada do cinamomo, e a conseqüente invasão do Lado de Cá do Cinamomo, não nos trará nenhum benefício, muito antes pelo contrário. Basta uma olhada superficial, no que acontece no lado de lá do cinamomo, para se constatar que algo está errado com a estatística de vocês. Ou, aquele não é o tipo de classe média com a qual sonhamos!

O piloto da motosserra fez uma careta pavorosa, ao provar da “boa”. Em solidariedade, o crescido terneiro mugiu.

- Mas, os números falam por si só, Linoberto! Veja só o Índice de Gini, que indica a distribuição de renda. Melhoramos 6,5%!

- Pode ser, mas não é o que se vê, andando pelas ruas do lado de lá do cinamomo...

- O que é visto, não tem valor estatístico! O que importa é o que é tabulado, planilhado, calculado, impresso e divulgado!

O crescido terneiro mugiu.

Linoberto chegou em casa após o pôr-do-sol. Maria só havia deixado a guarda do cinamomo quando o Estranho e o piloto de motosserra sumiram no horizonte, em meio a uma enorme nuvem de poeira. Até o sol nascer, a árvore estaria a salvo, pois nem o Estranho se aventurava por aquela estrada, à noite.

- E aí, Lino, como ficou a história?

- Tudo bem, nós vencemos, por enquanto.

- Como foi, Lino? O cinamomo ficará? – Maria não continha a ansiedade.

- Sim, Maria, ficará. Por enquanto, está protegido.

- Como conseguiram?

- Bem, Maria. Enquanto o Estranho discursava sobre aquelas estatísticas deles, eu escrevi um decreto, no papel da mesa, e declarei o cinamomo tombado como peça do patrimônio histórico e cultural do Lado de Cá do Cinamomo. Como acumulo o cargo de Secretário De Patrimônio Histórico e Cultural, tenho poder para tanto.

- E eles têm de obedecer ao decreto?

- Têm, Maria, pois eles mesmos aprovaram uma lei que protege tudo aquilo que é fruto da manifestação religiosa ou cultural. Por via das dúvidas, o Padre Antão abençoou o cinamomo.

Maria ficou quieta, pensativa, por um momento. Olhando para o ocaso, disse:

- Entendo por que é ruim deixarmos de ser minoria. A história mostra que, há 508 anos, a maioria só se rala, no País.

- Bestum decretum, sed decretum!, apoiado pela Besta Lex, sed Lex! Lutamos com as armas deles!


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22.7.08

430 - A classe média VII: O Grande Colisor de Hádrons



Fonte: CERN
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A Classe Média VII – O Grande Colisor de Hádrons

Por Paulo Heuser


Linoberto jogou-se na cadeira do Armazém, Bar e Borracharia 12 Irmãos, no Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média. O sétimo irmão, dos 12, trouxe o copo da “boa”. Enquanto Linoberto tomava o primeiro gole, não pode deixar de ver que o Estranho estava sentado na mesa da direita. Era tudo que ele não queria ver, após um dia na lavoura. Sabia-se lá o que o Governo havia aprontado agora. Coisa boa, não havia de ser. O Estranho era o único estranho que sabia chegar até o Lado de Cá do Cinamomo, município mais isolado do País, desde que as forças progressistas assumiram as estradas. O Estranho chegara lá por engano, pela primeira vez, após ter violado em muitos decigramas a Tolerância Zero com o álcool. Desde aquele famigerado dia, sempre que o Governo desejava impor uma nova lei, enviava o Estranho.

Linoberto pensava no que seria, desta vez. Alguma nova lei besta, com certeza. Seus pensamentos foram interrompidos pela aproximação do Estranho, trazendo sua cadeira e seu copo da “boa”. Após seis visitas, ele já tolerava a pinga com carqueja e losna, que causava arrepios nas narinas dos inexperientes. O Estranho chegou, sorridente:

- Boa tarde, Linoberto! Como tem passado? – havia um estranho brilho de satisfação no olhar dele.

- Estive ótimo, até a sua chegada! – disse o ressabiado Linoberto.

- Quanta desconfiança! – disse o homem, sorrindo marotamente.

- Qual é a nova Besta lex, sed Lex? – A lei é besta, mas é a lei.

- Calma, Linoberto. Desta vez venho como representante do Ministério da Educação e Cultura. Estamos iniciando um programa de difusão da ciência, chamado Ciência Democrática Popular Revolucionária Campesina Operária. Levaremos os segredos do Universo, antes propriedade das elites, para todo o povo.

- Qual é a bomba, desta vez? – perguntou-lhe Linoberto, enquanto observava, com o canto do olho, um sujeito mais estranho, parado ao lado da camionete do Governo do Outro Lado do Cinamomo - a União, os Estados e todos os outros os outros municípios do País. O sujeito mostrava o olhar bestificado de quem nunca vira uma vaca, que, por sinal, mugia. Ele tentava medi-la, como se fosse a descoberta do século.

- Não é bomba, creia-me, Linoberto. Estamos apenas difundindo conhecimentos científicos para a população menos esclarecida.

- Está nos chamando de burros? – ofendeu-se Linoberto, enquanto a vaca mugia.

- Não, pelo amor de Deus, me referia a quem não tem tanto acesso à informação!

- Tudo bem, mas qual é a idéia?

- Bem, falei com o Sétimo – sétimo dos 12 Irmãos – que está exercendo o mandado de Prefeito, e ele me falou que você está acumulando também a Secretaria da Educação, Cultura e Entretenimento, além das de Obras e Fazenda, do Município do Lado de Cá do Cinamomo. Pois bem, trouxemos o Doutor Bárion Gluon, para realizar uma palestra científica extraordinária, de inclusão científica!

- Do que se trata? Algo sobre a ordenha mecânica? – perguntou-lhe Linoberto.

- Não, nada tão prosaico e inútil, cientificamente. O Dr. Bárion veio dar uma palestra sobre o LHC – Grande Colisor de Hádrons – instalado entre a França e a Suíça, pela Organização Européia de Pesquisa Nuclear.

- Sei, nos ensinará muita coisa útil para o desenvolvimento da agricultura familiar. – ironizou Linoberto.

- Bem, talvez o tema da palestra não seja exatamente o que vocês queriam ouvir, porém é a lei. Votaram a Lei da Inclusão Nuclear. Toda a população do País assistirá às palestras do famoso Dr. Bárion.

- Entendi, Besta Lex, sed Lex – a lei é besta, mas é a lei.

O Estranho tomou um gole da “boa”, concordando com Linoberto.

Já que era a lei, apesar de besta, Linoberto convocou a população do Lado de Cá do Cinamomo, para assistirem à palestra do renomado Dr. Bárion Gluon. O Padre Antão propagou a boa nova, em tese, durante a missa das seis. O Sétimo organizou as cadeiras, para a platéia, em filas sucessivas. Às sete em ponto, o Dr. Bárion estava postado junto ao balcão do bar, encarando aquela multidão de quinze pessoas – os doze irmãos, Padre Antão, Dona Clotilde e Linoberto. O Dr. Bárion chegou a cogitar o cancelamento da palestra, por falta de quórum, mas o Estranho lembrou-lhe que era a lei.

Dr. Bárion começou a preleção falando do valor do investimento.

- Já foram gastos oito bilhões de Euros!

O Sétimo não resistiu, e fez a primeira pergunta:

- Daria para comprar um trator novo, para a Prefeitura, com esse dinheiro?

- Daria para comprar mais de quarenta milhões de tratores! – divertiu-se o sábio doutor.

Satisfeito, com o silêncio gerado entre aquela multidão, Dr. Bárion continuou:

O Colisor de Hádrons tem extensão de 27 quilômetros, e está enterrado a cem metros, abaixo do solo! – ele parecia extasiado com as caras boquiabertas, em meio à platéia. O Sétimo moveu-se ruidosamente, sobre a cadeira. E não se conteve:

- Espera aí! Que porcaria é essa de rádron?

- Hádrons, senhor! – o doutor pareceu ofendido – Hádrons, por definição, são partículas que interagem fortemente com outros hádrons!

A esclarecedora explicação fez o queixo do Sétimo cair, mas ele não se deixou vencer tão facilmente:

- E que porcaria de colisor é essa? – ele tomou outro gole da “boa”, de sopetão.

- Colisor, senhor, é um acelerador de partículas que faz hádrons colidirem, em altíssima velocidade, liberando enormes quantidades de energia, gerando, inclusive, eventuais partículas que beiram a singularidade, ou seja, minúsculos buracos negros. Porém, não há o que temer, em relação a esses buracos negros, senhor.

O Sétimo ficou lá, parado, de boca aberta, quase representando uma singularidade bucal. Mas, não se furtou a expressar sua opinião sincera:

- Ora, fossa negra todo mundo tem em casa! Só que a gente não faz propaganda dela, deixando para os tatus-bola.

O Dr. Bárion fez cara de quem não entendeu. Aquela cara urbana de quem não conhece a singularidade sanitária do grotão.

Então, Padre Antão tentou quebrar o gelo, sentindo que a coisa iria enveredar por um caminho não tão científico.

- Doutor, qual é o propósito de tal experimento?

- Excelente pergunta, Padre! O colisor tentará observar os Bósons de Higgs!

Padre Antão tentou parecer esperto.

- Percebo...

- Percebe, nada! – gritou o enfurecido Sétimo – Para que serve essa porcaria, afinal? Fale como gente, homem!

Pela primeira vez, Dr. Bárion pareceu preocupado. O Sétimo ficara realmente perturbado. Era hora de usar a linguagem do povo:

- Bem, é para tentar encontrar a origem da massa...

Ele não conseguiu terminar a frase, interrompido pela gutural gargalhada do Sétimo. Ele sacudia-se na cadeira, dando verdadeiras barrigadas. Lágrimas de riso escorriam pelo rosto. Ele mal conseguiu articular a frase:

- Quiá, quiá, quiá! Gastaram mais de quarenta milhões de tratores, cavaram 27 quilômetros de fossas, de cem metros de fundura, para descobrirem o que todo mundo aqui sabe!

- Perdão, não entendi! – afirmou o espantado Dr. Bárion.

- Quiá, quiá, quiá! Todo mundo sabe que a massa vem da casa da Dona Tramontini, que mora atrás do cemitério! Ela é a única gringa da região!

O Dr. Bárion Gluon voltou para o Outro Lado do Cinamomo. Pensava em lecionar ponto-cruz, ponto-cheio e vagonite.

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5.12.07

A classe média IV - Cultura

Foto: Wikipedia
A classe média IV – Cultura

Por Paulo Heuser


O telefone tocou, no Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos. Tocou meio fanho, pois as aranhas haviam construído teias ao redor da campainha. O oitavo dos 12 irmãos atendeu, passando ao sétimo, o Prefeito.
- É para você!
- Quem é?
- Não sei, não entendi nada...
- Então, como sabe que é para mim?
- Por isso mesmo, quando ligam do Governo, nunca se entende.
- Como você sabe que é do Governo, se não se entende?
- De quem mais seria? Eles são os únicos que ainda tentam arrancar alguma coisa daqui. Os vendedores já desistiram, por causa da estrada. Aquele Estranho do Governo nunca mais voltou.
- Alô? – disse o sétimo
- Schhhhhhhbzzzzzziiiiióóóóó...
- Alôô!!!! – gritou o sétimo
- Mais schhhhhhhbzzzzzziiiiióóóóó entremeado com zóinzóinzóins. – sons que pareciam inspirados no original da Guerra dos Mundos (1953) de H.G. Wells.
- Droga, vou desligar! – desistiu o sétimo.
- Ih, vem estranho por aí. Estranho maiúsculo (do Governo), pelo visto. – disse o oitavo.
- Como você sabe? – o sétimo parecia intrigado.
- Da outra vez, também tentaram telefonar. Como não conseguiram, mandaram aquele Estranho do leite.
- É, você tem razão. Vou deixar o Linoberto de sobreaviso.

Ninguém estranhou a chegada do Estranho. O mesmo da outra vez, que foi direto à casa do Linoberto. Maria o recebeu, enquanto mandava o cunhado procurá-lo na roça. Naquele dia, Linoberto beberia da “boa” em casa. Ele cumprimentou o Estranho, preocupado com a possibilidade de haver algum problema com o leite.

- Algum problema com o leite de caixinha? – perguntou Linoberto.
- Não, não! Aquilo é página virada. O que me traz hoje aqui é a cultura.
- Ué, você não trabalhava com saúde?
- Também, porém minha ONG assumiu outro contrato com o Governo, na área da cultura. – respondeu-lhe o Estranho.
- Aceita um gole da “boa”?
- Não, melhor não. Mas fique à vontade. – A boca do Estranho contorceu-se, estranhamente.
- Pode falar. – Linoberto era todo ouvidos.
- Trago uma boa nova! O Governo está liberando uma verba substancial para a preservação da cultura. – o Estranho parecia entusiasmado.
- Isto é muito bom! – afirmou Linoberto.
- Basta que enquadremos seu município em uma das três classes de cultura. Para isso que estou aqui. Vocês se enquadrariam melhor como situacionistas, tucanos ou alienígenas?
- Bem, vivemos do lado de cá do cinamomo. – Linoberto ficou confuso.
- Mas, aqui não há cultura!
- Como não há? – Linoberto pareceu ainda mais confuso, lembrando-se da Festa do Terneiro Ensebado.

Estranhamente, e já crescido, o terneiro mugiu.

- Vocês aderiram ao Operário, ao Lorde da Sorbonne ou ao Gabeira?
- Ah, nenhum deles.
- Como? – o Estranho parecia perplexo.
- Nós temos a festa da igreja e a do Terneiro Ensebado.
- Bem, temos que enquadrá-los em um dos três grupos. – disse o Estranho.
- Já sei, Besta lex, sed lex! – A lei é besta, mas é a lei! – Linoberto sacudia a cabeça.
- Sim, não há como deixar de enquadrá-los em alguma das culturas previstas em lei, nem a possibilidade de não haver ninguém que se enquadre em alguma delas, por mais recursivo que esse raciocínio possa parecer.
- Já sei, Besta lex,.. – disse Linoberto. O Estranho apenas acenou afirmativamente.
- Há uma remota possibilidade, introduzida por um destaque de última hora. Posso tentar enquadrá-los nas minorias oprimidas, nas quais podem ser incluídas novas classes, desde que realmente e comprovadamente oprimidas.
- Oprimidas por quem?
- Isso não é relevante, basta serem oprimidos por alguém. – respondeu-lhe o Estranho.
- Bem, então está resolvido! – afirmou Linoberto, abrindo um grande sorriso.
O Estranho partiu, de cara meio amarrada. Maria veio sentar-se ao lado do marido, pousando sua mão sobre a dele.
- E aí, Lino? O que foi, desta vez?
- Eles queriam implantar aqui as culturas do outro lado do cinamomo.
- Queriam mudar a quermesse, Lino?
- Queriam, mas não conseguiram. Nos enquadrei numa nova espécie de minoria cultural.
- Qual foi, Lino?
- Bem, criamos uma minoria dos Oprimidos Pela União.

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21.11.07

A classe média III - Besta lex, sed lex!



Foto: Wikipedia

A classe média III – Besta lex, sed lex!


Por Paulo Heuser




Foi na terça-feira. Já crescido, o terneiro mugia alegremente. Linoberto não percebeu a chegada do novo estranho, o terceiro em onze anos, pois estava ocupado com as lides campeiras, não necessariamente campesinas. Aquele não era um estranho qualquer. Era um estranho oficial, enviado pelo Governo. Um Estranho (maiúsculo), portanto. Esse não bebia, pois estava em missão oficial. Aguardava a chegada do Linoberto, sentado na sombra sob a parreira. O sol já nem incomodava mais, pois já se punha, prevendo a volta do Linoberto. Ele passara, como de hábito, pelo Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos.

O Estranho estivera na prefeitura. O prefeito, sétimo irmão dos 12, ouviu todo o palavrório oficial, não entendeu nada, e mandou o Estranho falar com o Secretário de Administração e Outros Assuntos Extraordinários em Geral: Linoberto. A presença de alguém do governo era um assunto definitivamente extraordinário. Fazia 11 anos desde a última vez em que tentaram trazer alguém do Governo, por ocasião do nascimento do terneiro. Mandaram convite oficial para a festa. Não veio nem resposta. E agora surgia alguém, espontaneamente.

- Boa tarde, Seu Linoberto! Sou representante da ONG Vaca Feliz e fui enviado pelo órgão que trata da saúde da população. – disse o Estranho, apresentando um vistoso crachá.

Linoberto chegou a acreditar, por um femtossegundo, que finalmente conseguiriam verba para contratar um veterinário. Porém, a esperança desvaneceu-se logo, mesmo antes do homem continuar a falar. Lembrou-se de que não acreditava mais em Papai Noel. Seus pensamentos voltaram da Lapônia, quando o Estranho voltou a falar.

- O senhor deve ter acompanhado o noticiário sobre a fraude do leite, pois vejo que tem antena parabólica.

- Sim. – respondeu-lhe enquanto começava a pensar onde o Estranho queria chegar.

- Pois então, Seu Linoberto, descobrimos que vocês bebem do próprio leite que produzem aqui. Soubemos através do rapaz que leva o leite de vocês para a indústria.

- Claro, o leite fresco é outra coisa! Dá para bebê-lo ainda morno. Melhor que isso, só se for com pão com banha!

- O Governo está preocupado com a saúde de vocês, Seu Linoberto. Por isso estou aqui. Nossa ONG foi contatada para elaborar, aprovar e fazer cumprir a Lei de Responsabilidade Láctea. – o Estranho manteve tom de seriedade.

- Que lei é essa? – perguntou Linoberto, intrigado?

- É a lei que regula o consumo de leite. Para garantir a saúde da população, só é permitido o consumo de leite de caixinha.

Como que percebendo a gravidade da situação, o terneiro, já crescido, mugiu.

- Mas essa lei é muito besta! – Linoberto não se conteve.

- Besta lex, sed lex! – A lei é besta, mas é a lei! – disse o Estranho, deixando transparecer a desaprovação da conduta de Linoberto.

- Ora, o leite foi adulterado depois que saiu dos produtores. A maracutaia foi feita para lá do cinamomo. Aqui nós só tomamos leite da vaca que conhecemos, olho no olho.

- Olhares enganam! A vaca pode estar enganando vocês...

- É, e ela vai misturar soda cáustica e água oxigenada no leite? – Linoberto estava realmente indignado.

- Nunca se sabe, nunca se sabe. Pode haver um complô conta vocês... sussurrou o estranho, em tom de conspiração. E continuou:

- De qualquer forma, lei é lei. Terão de cumpri-la. O governo está disponibilizando uma verba para auxiliá-los na compra do leite de caixinha para os carentes. A única forma que o Governo encontrou para garantir a qualidade do leite foi essa. Todos deverão beber do leite padronizado e aprovado pela fiscalização na fábrica.

- Mas, aqui não há carentes, todo mundo é da classe média. O carente mais próximo está do outro lado do cinamomo.

Já crescido, o terneiro mugiu novamente.

- O senhor parece não entender, numa típica atitude de classe média. Se a lei diz que há carentes, é porque há carentes. Ponto. Se o município não cadastrar pelo menos um carente no programa, estarão descumprindo a lei. E há severas penalidades para os refratários. Besta lex, sed lex!

Linoberto precisava de tempo para pensar. Pediu a Maria que trouxesse uma garrafa da “boa”, para oferecerem ao Estranho.

- O que é isso? Estou em serviço, portanto não bebo! – o Estranho parecia indignado.

- Ora, é apenas um licorzinho digestivo, de losna e carqueja, coisa local, boa para as vísceras. Além do quê, o sol já se pôs, portanto o senhor já deve ter saído do serviço.

- Bem, pensando assim, que mal faz? – o Estranho pareceu aliviado.

O alívio desfez-se no primeiro gole. – a expressão mudou do alívio ao desespero. Enquanto o Estranho tentava se recompor, Linoberto pensou numa saída para aquele problema importado do lado de lá do cinamomo.

Alívio é o que transpareceu no rosto de Linoberto, quando o Estranho partiu, aparentemente satisfeito, apesar da boca torta, ao som do mugido do já crescido terneiro. Maria, que perdera o final da conversa, pois fora tratar os animais, perguntou ao marido sobre o estrebuchar do problema.

- E aí, Lino, como é que vamos nos livrar dessa? – ela parecia preocupada, apesar da expressão tranqüilizadora do marido.

- Foi meio complicado, mas logo vi que precisávamos resolver o problema de trás para diante. Primeiro, cadastrei o estranho (minúsculo), o do sindicato, como carente. Com aquele discurso contra as elites, colchão imperialista da classe media, etc, o Estranho acreditou na condição de carente do estranho. Atendida a lei, nesse aspecto, concordei em receber a verba para o leite de caixinha.

- Mas, teremos de tomar aquela droga? – Maria parecia perplexa.

- Não necessariamente. Com a verba para o leite de caixinha, compraremos o produto direto da fábrica. Aí abriremos as caixinhas e derramaremos tudo nos tarros onde levamos o leite para a fábrica, vendendo-lhes de volta, in natura, como se fosse leite das nossas vacas.

- Maria parecia meio confusa:

- Mas, quem abrirá as caixinhas?

- Contratei o estranho (minúsculo), o do sindicato. Ele andava rondando o sacristão, tentando convencê-lo a fundar o sindicato dos sacristãos. Foi bom para todo mundo. O sacristão está badalando sossegado, o padre ficou aliviado e o estranho conseguiu um emprego. Além disso, a lei será cumprida, o João Louco ganhará um bom dinheiro, o Estranho não voltará e o Governo terá cumprido sua missão. Sem falar da ONG, que receberá pelo serviço.

- O que faremos com o leite das vacas? – perguntou Maria.

- Ora, vamos bebê-lo!

Já crescido, o terneiro mugiu. Besta lex, sed lex!

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20.11.07

A classe média II - O sindicato

Foto: Wikipedia

A classe média II – O sindicato


Por Paulo Heuser


Linoberto Classe Média viu-se novamente sentado numa das desconfortáveis cadeiras do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos. Viu-se, pois havia um espelho na parede oposta. O copo com a dose da “boa” repousava sobre a mesa, entre um e outro gole, prudentemente espaçados. Repetiu-se o ritual da chegada do estranho, o mesmo do colchão imperialista. O estranho pediu novamente o mesmo que Linoberto bebia, e assim por diante.

- E aí, já conseguiu mostrar a verdade para alguém?

- Quase, quase! Vocês são meio cabeças-duras, por aqui! – disse o estranho, enquanto fitava o copo, desconfiado.

- É que nós cultivamos a cultura dos nossos antepassados. Não gostamos de novidades. O que está para lá do cinamomo, não nos interessa muito, além do comércio.

O estranho fez uma careta estranha, talvez pela última frase do Linoberto, talvez pela amargura da “boa”. E continuou:

- Esse é o problema! Vocês impedem a revolução proletária! – O estranho elevou o tom de voz. O terneiro, já crescido, mugiu em resposta.

- Hoje ouvi no noticiário o tal de Jabor dizendo que nós somos a classe média confusa e desinformada. – disse Linoberto.

- Não gosto daquele jornalista, pois escreve textos contra a única verdade. É um servo do imperialismo bushista-sarkozysta. Porém, quanto à classe média, tem razão. Dou a mão à palmatória.

- Ou seja, apanhamos de cima e de baixo. – disse Linoberto.

- Pudera, vocês não são pobres nem ricos. Compram ingressos para o canadense Cirque du Soleil (cúmulo do bushismo-sarkozysmo) em prestações. Os proletários não vão, ficam manobrando os carros das elites que vão, e pagam à vista. Vocês vão ao bistrô do Pierre e perguntam se aceitam vale-refeição. Suas mulheres se enchem de cremes contra rugas, enquanto as elites mandam trocar a cara no Pitangy. Vocês põem o lixo em sacos de supermercado. Proletário junta o lixo, enquanto a elite joga fora lagosta vincenda hoje, em sacos de lixo com propaganda de uísque escocês. Vocês põem película escura no vidro do carro, para não serem multados por falar ao celular. Pobre anda de Kadet com todos os vidros abertos, bombando som, enquanto as elites andam com os vidros fechados, falando pelos handsfree.

O terneiro, já crescido, aproveitou a deixa, para mugir. O estranho começou a acreditar que aquilo fazia parte de uma espécie de claque para ridicularizá-lo.

- Pois aqui nós não temos dessas coisas, não. – disse Linoberto, enquanto saboreava mais um gole daquele elixir da amargura.

- Ah, não têm? E o que é aquele sujeito parado do outro lado do balcão? Proletário, não é! É um proprietário, com certeza! Portanto, membro da elite local, que explora a classe média como você, que impede a ascensão das minorias proletárias oprimidas, como aquele sujeito que você mantém trabalhando na sua terra, de sol a sol. – o estranho estava cada vez mais alterado.

O sexto dos 12 irmãos achou que o estranho passara da conta, expulsando-o do bar, restaurante e borracharia. Chamá-lo de proprietário, tudo bem. Porém, chamá-lo de elite local? Ele nem entendia direito o que seria isso. Por via das dúvidas, melhor mandá-lo pastar, desde que não incomodasse o terneiro, já crescido, que mugiu.

Linoberto chegou em casa, com aquele ar de preocupação que Maria bem conhecia. Vira aquela expressão por duas vezes, nos últimos 11 anos. A primeira, quando o terneiro nasceu e o cunhado não pode levar o leite para lá do cinamomo. A segunda, no dia em que o estranho chegou, lhes dizendo que fariam parte da classe média, o colchão de proteção das elites imperialistas degeneradas, bushistas-sarkozystas, com certeza.

- O que foi, Lino? O estranho, novamente?

- É Maria, o Sexto o botou para fora do bar, armazém e borracharia. Aí o estranho procurou teu pai para convencê-lo a fazer greve.

- Meu pai?

- Sim, ele disse que o teu pai é um proletário explorado pelas elites, através de nós, classe média, colchão imperialista decadente.

- Mas, meu pai trabalha na terra que nos deixou, conosco, como família!

- Sei, mas ele disse que isso não muda nada. Camponês sempre é explorado, parente ou não. Estava tentando convencê-lo a fundar um sindicato. Ele traria todo o material necessário, do outro lado do cinamomo.

- Meu pai não aceitou, não é?

- Não, Maria.

- Graças a Deus!

- Bem, tive de lhe fazer algumas concessões. A partir de amanhã, quando assinaremos o acordo coletivo de trabalho, o velho poderá fumar escondido quantas vezes quiser e poderá ir oito vezes por dia até o 12 Irmãos.

O terneiro, já crescido, mugiu.

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14.11.07

A classe média


Vilanova - Tinta China (http://www.grafar.blogspot.com/)
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A classe média


Por Paulo Heuser


Linoberto jogou-se na cadeira do Bar Armazém e Borracharia 12 Irmãos, como fazia em todos os finais de tarde. Esticou os braços e as pernas, no alongamento inconsciente. Foi a senha para um dos 12 irmãos trazer o martelo de losna e carqueja. Aquela bebida deixaria qualquer um com os beiços virados para dentro, feito velha desdentada que chupou limão azedo. Todo mundo, menos o Linoberto e seus colegas de bar. Ele bebeu daquela coisa pela primeira vez quando completou 18 anos. A avô o levou ao 12 Irmãos e pediu dois tragos, solenemente. Reinou o silêncio, enquanto todos esperavam para ver a cara do Linoberto, após o primeiro gole. A reação foi aquela esperada. Desesperou-se, tanto pela queimação quanto pela amargura da bebida. Todos riram, inclusive o avô, e a vida voltou ao normal. Quem inventou a bebida foi o primeiro irmão, dos doze, já falecido. A tradição se manteve. Os fregueses pedem da “boa”. Agora é o sétimo irmão, dos 12, o encarregado pela “boa”.

Distraído pelo amargor do primeiro gole, Linoberto não chegou a perceber a entrada do estranho. O primeiro, desde que a vaca do cunhado dera cria. Não que o estranho anterior viesse ver o terneiro. É que o cunhado do Linoberto não pôde levar o leite, pela primeira vez em 11 anos. Então mandaram o estranho buscá-lo. E o estranho entrou no 12 Irmãos, pediu o mesmo que Linoberto bebia, todo mundo fez silêncio, na expectativa da cara do..., etc, etc. Pois esse novo estranho também perguntou o que Linoberto bebia e pediu o mesmo. Novo silêncio, todos riram, etc. O homem fez a esperada cara de desespero, tão esperada pelos freqüentadores. Essa cara só era vista quando alguém na vila completava 18 anos, ou quando aparecia um novo estranho, o que, pelo visto, não ocorria com muita freqüência.

- Ahnmf... Coisinha fortinha essa! – o estranho conseguiu falar, com a boca retorcida.

- É a especialidade da casa – disse Linoberto.

A conversa iniciou meio mole, com as trivialidades habituais. Linoberto ficou curioso. O que fazia ali aquele novo estranho, já que o seu cunhado não ficava doente desde o nascimento do terneiro.

- Vim mostrar-lhes a verdade. – disse o estranho, enquanto decidia se bebia outro gole da “boa”.

- Ah, já entendi! É um pregador. De qual igreja?

- Não tem nada a ver com igreja! Venho mostrar-lhes a dura realidade sociopolítica deste momento delicado da vida política nacional.

- Ah, agora entendi! Está vendendo plano de saúde... – Linoberto bebeu um longo gole, para espanto do estranho, que ainda não se recuperara do primeiro.

- Não! Venho lhes mostrar o caminho para a verdadeira revolução camponesa!

- Um vendedor de veneno, adubo, arado? - Linoberto estava cada vez mais curioso.

- Vim tirá-los das garras das elites dominantes. Notamos que vocês ignoram completamente o fato de estarem sendo explorados e escravizados pelas elites imperialistas retrógradas. – os olhos do estranho faiscavam.

- Olhe, moço. Nós podemos ser um pouco grossos, sem muito refinamento, completamente dispensável por aqui, mas não somos burros nem ignorantes. Temos antena parabólica, e vemos tudo que acontece depois do cinamomo.

- Antena parabólica? Isso é coisa da burguesia decadente! – a boca do estranho contorceu-se novamente, pois tomou outro gole da “boa”.

- Pode ser, mas a gente precisa ficar sabendo das coisas. Por isso mandamos os filhos à escola. Eu também estudei.

- Então, como podem ignorar a única verdade? Vocês passam fome, enquanto as elites se lambuzam naqueles festins decadentes dos capitalistas imperialistas, vassalos do Bush e do Sarkozy?

- Ninguém passa fome aqui. Nós comemos o que produzimos. Vocês que moram para lá do cinamomo é que passam fome, mesmo comendo. Vocês passam o dia tomando porcarias de refrigerantes, leite de vaca-química e cerveja de fábrica. Vocês comem verduras envenenadas e aqueles lanches, sabe-se lá do quê.
- Veja só o que você está bebendo. Lá há coisa semelhante?

O estranho concordou com Linoberto, pelo menos nesse ponto. Qualquer um que ousasse fabricar esse negócio, para lá do cinamomo, seria preso - elite, burguês ou proletário.

- Sua peremptória negação da única realidade autêntica, proletária, progressista, campesina e... e... democrática - vá lá -, me leva a conclusão que você não passa de outro classe média, único culpado pela manutenção do estado em que se encontra o País. Fonte e sorvedouro de todos os males. A classe média é composta pelos sociopatas que mantêm o colchão de proteção das elites imperialistas contra as ações progressistas das minorias majoritárias que buscam a revolução autêntica, agente restaurador da conformidade das instituições sociopolíticas, tão brutalmente diferenciadas, antes mesmo do descobrimento do Brasil!

- Não sei o que querem restaurar. As coisas para lá do cinamomo sempre foram uma bagunça, antes mesmo de plantarem o cinamomo.

O estranho ficou tão indignado, que bebeu o resto da “boa”, de um só gole. Saiu porta afora, iniciando um discurso defronte o 12 Irmãos. O terneiro, já crescido, mugiu. Linoberto foi para casa, preocupado. Relatou o ocorrido a Maria, sua mulher.

- Ficou muito preocupado, Lino?

- Fiquei, Maria. Fiquei...

- Por quê? O problema não está para lá do cinamomo?

- Hoje está. Mas estou com medo de que cortem o cinamomo, noite dessas.

- E aí as coisas mudarão, por aqui?

- Sim, Maria. Então seremos classe média.

- O que faremos, Lino?

- Sei não. Estive pensando, no caminho do 12 Irmãos até aqui. Hoje descobri que as coisas estão tão ruins, para lá do cinamomo, por nossa culpa. O estranho falou que somos o colchão imperialista acomodado. Somos culpados, desde sempre, pela desgraça dos outros, sei lá de que outros. Mas, não somos tão acomodados como ele pensa.

- Vamos trocar o colchão de molas por outro mais moderno, do tal viscoelástico!

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