9.9.08

458 - Jean-Marc cavou um poço


Fonte: CERN
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Jean-Marc cavou um poço


Por Paulo Heuser


Não é apenas paranóia. É claro que há alguma paranóia por trás disso, mas não se trata apenas dela. O alarme mesmo veio após a entrevista com um renomado cientista que assegurou que o LHC – Grande Colisor de Hádrons – é inofensivo. A parte da entrevista que mais me assustou é aquela onde ele afirma que nada seria pior do que não acontecer nada. Ou seja, algo deverá acontecer. Esperam encontrar o tal do Bóson de Higgs, também conhecido como Partícula de Deus, apesar de completamente desconhecido. Porém, segundo o Dr. Bigbang, melhor criarem um buraco negro do que nada. Criando nada, como poderão justificar os zilhões de euros dos contribuintes gastos no projeto? Criando um buraco negro, nada terão de justificar, pois não haverá para quem.

Outra coisa que me preocupou naquela entrevista foi o tique nervoso do Dr. Bigbang. O canto direito da boca dele contraía-se espasmodicamente a cada vez que falava a palavra hádron. As 28 referências aos hádrons vieram acompanhadas pelos 28 espasmos bucais hipertróficos unilaterais. Cada espasmo bucal acarretou aparentes contrações dos músculos do pé esquerdo, o que poderia indicar espasmos bucopedais hipertróficos bilaterais. Coisa feia de se ver. Entre um espasmo e outro, o homem de jaleco branco falava da improbabilidade da ocorrência de algo errado, pelos simples fato de que ninguém até hoje ouviu falar de qualquer acidente com um equipamento como aquele. Se ouviu, não está mais aqui para dizê-lo. De qualquer forma, não lhe falta currículo. Ele completou sete pós-doutorados, em física de partículas, cursos onde se aprende que múons são vacas puntiformes elementares.

Pena que o Dr. Bigbang não seja um vidente. Se fosse, talvez visse o poço que o Jean-Marc está cavando no pequeno sítio agrícola localizado nas vizinhanças de Meyrin, Cantão de Genebra, Suíça. Jean-Marc até ouviu falar do túnel de 27 km que seus conterrâneos e os franceses cavaram, há muitos anos, que passa sob a pequena cidade. O poço de Jean-Marc já avançou muito. No ritmo em que a broca vai, espera encontrar água no dia 21 de outubro, a uns 100 metros de profundidade. Como todo suíço, Jean-Marc é metódico, e montou uma detalhada planilha de acompanhamento da escavação do seu poço.

Dr. Bigbang, por outro lado, está preocupado apenas com o cronograma de ativação do LHC. Estão resfriando o equipamento até a temperatura de apenas 2 Kelvin – 271ºC abaixo de zero, para iniciarem a circulação de um feixe de partículas, a partir de 10 de setembro de 2008. O renomado físico de partículas ri dos temores da população leiga e de meia-dúzia de colegas que acreditam que algo poderá sair muito errado. Ele tem absoluta convicção de que somente uma conjunção extremamente improvável de fatores poderá levar a um acidente cataclísmico. A probabilidade disso é completamente desprezível, algo em torno de um em 50 milhões.

Para que o experimento de 21 de outubro redunde em um evento fora de controle, será necessário, por exemplo, que uma broca penetre no túnel do acelerador no exato momento em que ocorrerá a colisão dos hádrons apropriados. A última vez que isso ocorreu foi há aproximadamente 13 bilhões de anos.

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22.7.08

430 - A classe média VII: O Grande Colisor de Hádrons



Fonte: CERN
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A Classe Média VII – O Grande Colisor de Hádrons

Por Paulo Heuser


Linoberto jogou-se na cadeira do Armazém, Bar e Borracharia 12 Irmãos, no Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média. O sétimo irmão, dos 12, trouxe o copo da “boa”. Enquanto Linoberto tomava o primeiro gole, não pode deixar de ver que o Estranho estava sentado na mesa da direita. Era tudo que ele não queria ver, após um dia na lavoura. Sabia-se lá o que o Governo havia aprontado agora. Coisa boa, não havia de ser. O Estranho era o único estranho que sabia chegar até o Lado de Cá do Cinamomo, município mais isolado do País, desde que as forças progressistas assumiram as estradas. O Estranho chegara lá por engano, pela primeira vez, após ter violado em muitos decigramas a Tolerância Zero com o álcool. Desde aquele famigerado dia, sempre que o Governo desejava impor uma nova lei, enviava o Estranho.

Linoberto pensava no que seria, desta vez. Alguma nova lei besta, com certeza. Seus pensamentos foram interrompidos pela aproximação do Estranho, trazendo sua cadeira e seu copo da “boa”. Após seis visitas, ele já tolerava a pinga com carqueja e losna, que causava arrepios nas narinas dos inexperientes. O Estranho chegou, sorridente:

- Boa tarde, Linoberto! Como tem passado? – havia um estranho brilho de satisfação no olhar dele.

- Estive ótimo, até a sua chegada! – disse o ressabiado Linoberto.

- Quanta desconfiança! – disse o homem, sorrindo marotamente.

- Qual é a nova Besta lex, sed Lex? – A lei é besta, mas é a lei.

- Calma, Linoberto. Desta vez venho como representante do Ministério da Educação e Cultura. Estamos iniciando um programa de difusão da ciência, chamado Ciência Democrática Popular Revolucionária Campesina Operária. Levaremos os segredos do Universo, antes propriedade das elites, para todo o povo.

- Qual é a bomba, desta vez? – perguntou-lhe Linoberto, enquanto observava, com o canto do olho, um sujeito mais estranho, parado ao lado da camionete do Governo do Outro Lado do Cinamomo - a União, os Estados e todos os outros os outros municípios do País. O sujeito mostrava o olhar bestificado de quem nunca vira uma vaca, que, por sinal, mugia. Ele tentava medi-la, como se fosse a descoberta do século.

- Não é bomba, creia-me, Linoberto. Estamos apenas difundindo conhecimentos científicos para a população menos esclarecida.

- Está nos chamando de burros? – ofendeu-se Linoberto, enquanto a vaca mugia.

- Não, pelo amor de Deus, me referia a quem não tem tanto acesso à informação!

- Tudo bem, mas qual é a idéia?

- Bem, falei com o Sétimo – sétimo dos 12 Irmãos – que está exercendo o mandado de Prefeito, e ele me falou que você está acumulando também a Secretaria da Educação, Cultura e Entretenimento, além das de Obras e Fazenda, do Município do Lado de Cá do Cinamomo. Pois bem, trouxemos o Doutor Bárion Gluon, para realizar uma palestra científica extraordinária, de inclusão científica!

- Do que se trata? Algo sobre a ordenha mecânica? – perguntou-lhe Linoberto.

- Não, nada tão prosaico e inútil, cientificamente. O Dr. Bárion veio dar uma palestra sobre o LHC – Grande Colisor de Hádrons – instalado entre a França e a Suíça, pela Organização Européia de Pesquisa Nuclear.

- Sei, nos ensinará muita coisa útil para o desenvolvimento da agricultura familiar. – ironizou Linoberto.

- Bem, talvez o tema da palestra não seja exatamente o que vocês queriam ouvir, porém é a lei. Votaram a Lei da Inclusão Nuclear. Toda a população do País assistirá às palestras do famoso Dr. Bárion.

- Entendi, Besta Lex, sed Lex – a lei é besta, mas é a lei.

O Estranho tomou um gole da “boa”, concordando com Linoberto.

Já que era a lei, apesar de besta, Linoberto convocou a população do Lado de Cá do Cinamomo, para assistirem à palestra do renomado Dr. Bárion Gluon. O Padre Antão propagou a boa nova, em tese, durante a missa das seis. O Sétimo organizou as cadeiras, para a platéia, em filas sucessivas. Às sete em ponto, o Dr. Bárion estava postado junto ao balcão do bar, encarando aquela multidão de quinze pessoas – os doze irmãos, Padre Antão, Dona Clotilde e Linoberto. O Dr. Bárion chegou a cogitar o cancelamento da palestra, por falta de quórum, mas o Estranho lembrou-lhe que era a lei.

Dr. Bárion começou a preleção falando do valor do investimento.

- Já foram gastos oito bilhões de Euros!

O Sétimo não resistiu, e fez a primeira pergunta:

- Daria para comprar um trator novo, para a Prefeitura, com esse dinheiro?

- Daria para comprar mais de quarenta milhões de tratores! – divertiu-se o sábio doutor.

Satisfeito, com o silêncio gerado entre aquela multidão, Dr. Bárion continuou:

O Colisor de Hádrons tem extensão de 27 quilômetros, e está enterrado a cem metros, abaixo do solo! – ele parecia extasiado com as caras boquiabertas, em meio à platéia. O Sétimo moveu-se ruidosamente, sobre a cadeira. E não se conteve:

- Espera aí! Que porcaria é essa de rádron?

- Hádrons, senhor! – o doutor pareceu ofendido – Hádrons, por definição, são partículas que interagem fortemente com outros hádrons!

A esclarecedora explicação fez o queixo do Sétimo cair, mas ele não se deixou vencer tão facilmente:

- E que porcaria de colisor é essa? – ele tomou outro gole da “boa”, de sopetão.

- Colisor, senhor, é um acelerador de partículas que faz hádrons colidirem, em altíssima velocidade, liberando enormes quantidades de energia, gerando, inclusive, eventuais partículas que beiram a singularidade, ou seja, minúsculos buracos negros. Porém, não há o que temer, em relação a esses buracos negros, senhor.

O Sétimo ficou lá, parado, de boca aberta, quase representando uma singularidade bucal. Mas, não se furtou a expressar sua opinião sincera:

- Ora, fossa negra todo mundo tem em casa! Só que a gente não faz propaganda dela, deixando para os tatus-bola.

O Dr. Bárion fez cara de quem não entendeu. Aquela cara urbana de quem não conhece a singularidade sanitária do grotão.

Então, Padre Antão tentou quebrar o gelo, sentindo que a coisa iria enveredar por um caminho não tão científico.

- Doutor, qual é o propósito de tal experimento?

- Excelente pergunta, Padre! O colisor tentará observar os Bósons de Higgs!

Padre Antão tentou parecer esperto.

- Percebo...

- Percebe, nada! – gritou o enfurecido Sétimo – Para que serve essa porcaria, afinal? Fale como gente, homem!

Pela primeira vez, Dr. Bárion pareceu preocupado. O Sétimo ficara realmente perturbado. Era hora de usar a linguagem do povo:

- Bem, é para tentar encontrar a origem da massa...

Ele não conseguiu terminar a frase, interrompido pela gutural gargalhada do Sétimo. Ele sacudia-se na cadeira, dando verdadeiras barrigadas. Lágrimas de riso escorriam pelo rosto. Ele mal conseguiu articular a frase:

- Quiá, quiá, quiá! Gastaram mais de quarenta milhões de tratores, cavaram 27 quilômetros de fossas, de cem metros de fundura, para descobrirem o que todo mundo aqui sabe!

- Perdão, não entendi! – afirmou o espantado Dr. Bárion.

- Quiá, quiá, quiá! Todo mundo sabe que a massa vem da casa da Dona Tramontini, que mora atrás do cemitério! Ela é a única gringa da região!

O Dr. Bárion Gluon voltou para o Outro Lado do Cinamomo. Pensava em lecionar ponto-cruz, ponto-cheio e vagonite.

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