11.9.08

459 - Mais sobre buracos negros


Diagrama: Wikipedia
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Mais sobre buracos negros

Por Paulo Heuser


Poucos sabem para o que serve o LHC – Grande Colisor de Hádrons -, e os que sabem, não sabem explicá-lo. Assim, o que for dito, cola. Esse é um dos aspectos interessantes da Física de Partículas. Os objetos dos estudos estão na escala nanoscópica, mas os efeitos da interação entre essas partículas podem ser percebidos amplamente na escala macroscópica. Vide o exemplo da bomba atômica, quando partículas são separadas e liberam enorme quantidade de energia. Outro exemplo macro vem do Sol, onde núcleos de átomos são fundidos.

Ontem assisti àquelas entrevistas de populares passantes. O sujeito vinha tranqüilo pela rua, pensando em pagar o carnê de qualquer coisa, quando surgiu a repórter de microfone na mão, escudada pelo câmera. A pergunta pegaria qualquer um no contrapé: você sabe o que é o Big Bang? A primeira vítima, uma dona de casa, respondeu à pergunta afirmando que era do lar, e apenas lhe diziam respeito as coisas do lar. O segundo entrevistado preferiu seguir a linha dos conflitos bélicos. Sabia que o Big Bang era uma guerra em alguma parte do mundo. Imagino que mais entrevistas levariam aos resultados mais inesperados.

Não sei onde anda o pessoal da publicidade. O que fazem os grandes patrocinadores, que ainda não ofereceram os hádrons que deram a primeira volta no anel do LHC? Estarão dormindo nos louros da vitória dos Jogos Olímpicos? Hádrons campeões chegam próximos à velocidade da luz porque vestem maiôs e sapatilhas das grifes corretas. Quanta receita potencial perdida!

Quando os publicitários acordarem deste hiato interolímpico, talvez enxerguem o potencial da coisa toda. Imagine só um sabão em pó contendo hádrons! Tudo bem que ninguém sabe o que são hádrons, mas quem lá sabe o que é lipolase? Trocam-se alhos por bugalhos, mas o que importa é que uma mensagem foi passada. O que dizer, então, do iogurte com hádrons ativos? E das pastilhas de menta com nanoburacos negros? Afinal, o que é um buraco negro? São perguntas que não têm resposta fácil, mas têm enorme potencial mercadológico. Pizza de brócolos com catupiri e borda de hádrons - receita para o sucesso. Os hádrons poderão ser subdivididos nos bárions e mésons, e estes nos píons e káons, todos com acento, proparoxítonas ou não. Aqui, pois em Portugal serão bariões, mesões, piões e kaões. O céu deixa de ser o limite, que agora está no nanomundo, inclusive nos xampus anticaspa com píons sedosos. Hádrons podem ser átomos de hidrogênio que perderam seu único, e até então fiel, elétron. Alguém dirá que o que sobra é apenas um íon miserável de hidrogênio, ou um próton. O menor átomo, e ainda assim capenga.

O aproveitamento publicitário da Física de Partículas não é novo, basta se dar uma olhada nas propagandas do período pós-Segunda Guerra Mundial. Tudo o que era bom era atômico e radioativo.

É na política que a Física de Partículas pode contribuir muito. Não tardará o discurso: “Os hádrons são nossos!”. O LHC utiliza um enorme acelerador de partículas. Não sei se ele carece de mãe, mas temos a Mãe do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. Acelerador de partículas e acelerador do crescimento, ambos são fontes de hipotéticos buracos negros que sugam todo dinheiro ao seu redor. Brincar de Deus custa caro.

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9.9.08

458 - Jean-Marc cavou um poço


Fonte: CERN
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Jean-Marc cavou um poço


Por Paulo Heuser


Não é apenas paranóia. É claro que há alguma paranóia por trás disso, mas não se trata apenas dela. O alarme mesmo veio após a entrevista com um renomado cientista que assegurou que o LHC – Grande Colisor de Hádrons – é inofensivo. A parte da entrevista que mais me assustou é aquela onde ele afirma que nada seria pior do que não acontecer nada. Ou seja, algo deverá acontecer. Esperam encontrar o tal do Bóson de Higgs, também conhecido como Partícula de Deus, apesar de completamente desconhecido. Porém, segundo o Dr. Bigbang, melhor criarem um buraco negro do que nada. Criando nada, como poderão justificar os zilhões de euros dos contribuintes gastos no projeto? Criando um buraco negro, nada terão de justificar, pois não haverá para quem.

Outra coisa que me preocupou naquela entrevista foi o tique nervoso do Dr. Bigbang. O canto direito da boca dele contraía-se espasmodicamente a cada vez que falava a palavra hádron. As 28 referências aos hádrons vieram acompanhadas pelos 28 espasmos bucais hipertróficos unilaterais. Cada espasmo bucal acarretou aparentes contrações dos músculos do pé esquerdo, o que poderia indicar espasmos bucopedais hipertróficos bilaterais. Coisa feia de se ver. Entre um espasmo e outro, o homem de jaleco branco falava da improbabilidade da ocorrência de algo errado, pelos simples fato de que ninguém até hoje ouviu falar de qualquer acidente com um equipamento como aquele. Se ouviu, não está mais aqui para dizê-lo. De qualquer forma, não lhe falta currículo. Ele completou sete pós-doutorados, em física de partículas, cursos onde se aprende que múons são vacas puntiformes elementares.

Pena que o Dr. Bigbang não seja um vidente. Se fosse, talvez visse o poço que o Jean-Marc está cavando no pequeno sítio agrícola localizado nas vizinhanças de Meyrin, Cantão de Genebra, Suíça. Jean-Marc até ouviu falar do túnel de 27 km que seus conterrâneos e os franceses cavaram, há muitos anos, que passa sob a pequena cidade. O poço de Jean-Marc já avançou muito. No ritmo em que a broca vai, espera encontrar água no dia 21 de outubro, a uns 100 metros de profundidade. Como todo suíço, Jean-Marc é metódico, e montou uma detalhada planilha de acompanhamento da escavação do seu poço.

Dr. Bigbang, por outro lado, está preocupado apenas com o cronograma de ativação do LHC. Estão resfriando o equipamento até a temperatura de apenas 2 Kelvin – 271ºC abaixo de zero, para iniciarem a circulação de um feixe de partículas, a partir de 10 de setembro de 2008. O renomado físico de partículas ri dos temores da população leiga e de meia-dúzia de colegas que acreditam que algo poderá sair muito errado. Ele tem absoluta convicção de que somente uma conjunção extremamente improvável de fatores poderá levar a um acidente cataclísmico. A probabilidade disso é completamente desprezível, algo em torno de um em 50 milhões.

Para que o experimento de 21 de outubro redunde em um evento fora de controle, será necessário, por exemplo, que uma broca penetre no túnel do acelerador no exato momento em que ocorrerá a colisão dos hádrons apropriados. A última vez que isso ocorreu foi há aproximadamente 13 bilhões de anos.

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