7.4.09

513 - De coelhos e penas

Fonte: Wikipedia
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De coelhos e penas

Por Paulo Heuser


Quando eu era criança, o tal de Forte Apache virou coqueluche nacional. Coqueluche era uma doença que se espalhava feito moda, daí a expressão. Algo como dengue e febre amarela sem mosquitos. O Forte Apache era uma degeneração dos soldadinhos de chumbo das gerações anteriores. Além da paliçada, vendiam soldados norte-americanos e índios apaches de plástico. Os soldados eram os mocinhos, e os índios eram os bandidos, tudo de acordo com os filmes da época. O curioso é que os índios empunhavam os mesmos rifles empunhados pelos soldados, prova de que a venda de armamento para o inimigo não é novidade.

Venho me lembrando do Forte Apache quando ando pelo Centro. Lá há um grupo de índios, que descobri serem quéchuas, do Equador. Eles formam um conjunto que toca músicas muito melodiosas e vestem indumentárias cheias de penas, como os índios do finado Forte Apache. Esse espetáculo caiu no gosto do povo, e eles ficaram.

Com a proximidade da Páscoa, outros índios, estes daqui, vêm ao Centro para vender os ninhos que vêm da tradição céltica. Esses índios uniram-se aos quéchuas, em autêntica simbiose, na Praça da Alfândega, e passaram a vender os ninhos de Páscoa célticos, dos coelhos que põem ovos, ao som dos quéchuas que se parecem com índios do Forte Apache e tocam músicas melodiosas do Equador. É a globalização do paganismo pan-americano com o paganismo pan-europeu. O quadro é muito curioso, pois logo ao lado há um carrinho que vende músicas relaxantes cheias de trinados de pássaros. Essas músicas relaxantes relaxam durante as primeiras audições. Depois, tornam-se inertes. Por fim, convidam ao uso de uma espingarda que silencie toda aquela natureza sonora. O resultado geral daquilo é um tanto cacofônico, mas é cultura popular.

Estranhas misturas surgem também nas telas. Noutro dia passava Alien VS Predador 2. Fizeram demos e capetas de tribos alienígenas diferentes lutarem na mesma arena espacial. Cada um mostra o pior de si. Quanto mais nojento, melhor. Essas produções abrem caminho para outras, como O Pequeno Príncipe VS Freddy Krueger 3, Tomás de Torquemada VS Idi Amin Dada 5 e Bruno e Marrone VS Michael Jackson 8. Nada com nada, mas tudo é cultura! BBB9 VS Congresso Nacional?

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30.10.08

484 - A classe média XVI – Festum omnium sanctorum

Foto: Wikipedia
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A classe média XVI – Festum omnium sanctorum

Por Paulo Heuser


A chegada do Estranho foi surpresa, desta vez. Chegou sem avisar, pois o telefone do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos esteve novamente mudo. E surdo, a bem da verdade. O frenesi atual ficava por conta da beata Dona Clotilde, que preparava a chegada do Dia de Finados seguindo o de Todos os Santos. Padre Antão já fugia, quando a via chegar, pois não agüentava mais a tagarelice, principalmente depois que ela teve a idéia de organizar o tal de Necrotur, uma espécie de trilha no cemitério.

Padre Antão fugia pelos fundos da igreja quando passou o jipe do MINLE – Ministério das Línguas Estrangeiras. Além do Estranho, estavam a bordo um sujeito de terno azul-marinho e um jovem casal. Antes de se dirigir ao 12 Irmãos, sede do progressista Município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média não-estatística do IBGE, Padre Antão badalou o sino para chamar Linoberto, que se encontrava na roça.

O Estranho cumprimentou a todos e lhes apresentou os estranhos recém-chegados.

- Apresento-lhes o Secretário Nacional Para Assuntos Culturais Norte-Americanos, Mr. Jefferson Silva, e os estagiários em Cultura Neocéltica, Ms. Peggy-Anne Santos e Mr. John Roy Silveira. Eles estão difundindo o Halloween, e o Lado de Cá do Cinamomo é o último local a ser aculturado.

O recém-chegado Linoberto reagiu:

- Aculturado? O que você quer dizer com isso?

Mr. Silva interveio e tomou a palavra:

- Nós participarr do Programa de Aculturamento do Terceiro Mundo e estarr a implantarr hábitos do Primeiro Mundo nos países em desenvolvimento. Nós começarr com USAID e seguirr com margarina, sucrilhos e agora o Halloween, dia que só não serr mais importante do que o fórjulai – 4 de julho. Nós só desistirr da manteiga de amendoim. Quando nós implantarr o Halloween aqui, vocês ganharr Certificado de Conformidade ISO, SAE, PMP, ANSI, NRA e NBA. Tudo estarr conforme uma Portaria Ministerial.

- Para o que servirá isso? – perguntou o Sétimo, atual prefeito reeleito.

- Oh, com essa certificação os cidadãos do Çainamomo’s This Side poderão obterr vistos VIP para festejarr o Halloween no Disneyworld.

- Ampfhmf... – o Sétimo não conseguia parar de rir baixinho e cochichou para Linoberto: manda-o dizer que o rato roeu as roupas do rei...

Linoberto acreditou que, quanto antes fizessem o que os estranhos queriam, antes deles se livrariam.

- O que vocês desejam?

- Nós fazerr hoje uma demonstração de Noite de Halloween. Mr. Silveira e Ms. Santos trazerr fantasias e pedirr gostosuras. Eles vão baterr nas portas das casas, à noite, gritando a famosa frase: “- travessuras ou gostosuras!”, como vocês vêem nos filmes.

- Quais filmes? – perguntou o Sétimo.

Linoberto interrompeu-o:

- Isso é um evento norte-americano que nada tem a ver com nossa cultura local! Quem tem interesse nisso?

- Ora, a AELI – Associação das Escolas de Língua Inglesa -, é claro! Como vão montarr uma franquia aqui, se o povo não estiverr aculturado? Sem margarina, sucrilhos e Halloween, nada feito. Estão até abrindo mão da manteiga de amendoim, num gesto de extrema boa vontade. – disse Mr. Silva.

- Qual é a graça disso? – perguntou o Sétimo.

- Ora, eles irr fantasiados de bruxos e assustarr as pessoas! – respondeu Mr. Silva.

- Não acho uma boa idéia assustar as pessoas! – disse o Sétimo.

- Deixe-os, assim cumprirão logo a missão, e nos veremos livres... – foi a vez de Linoberto cochichar para o Sétimo e o Padre.

O jovem casal retirou um imenso baú do jipe e foram se vestir na sala ocupada pela Câmara dos Vereadores do Lado de Cá do Cinamomo. Mesmo quem já sabia que eles se fantasiariam de bruxos levou um susto. As fantasias e a maquiagem transformaram-nos completamente. O Sétimo olhou e não gostou. Não achava certo assustarem as pessoas dessa forma. Porém, foi voto vencido. Quando faziam os últimos arranjos, testando a iluminação da abóbora – gentilmente fornecida pela Prefeitura – o Sétimo resolveu praticar a hospitalidade do lugar, que já levara um ou outro ao hospital, longe dali, pois ali não havia nenhum. Enfim, Sétimo serviu-lhes generosas doses da “boa”, por conta do 12 Irmãos. O Estranho já nem estranhava mais a “boa”, habituado que estava. A reação do demais visitante, porém, foi bem diferente.

Mr. Silva tomou um gole da coisa e permaneceu sentado com o olhar fixo na parede. A seguir, tornou-se extremamente rubro, iniciando pelas orelhas e seguindo pelo resto do corpo. A vida deixou o olhar do homem. Dele teria se ouvido apenas um sibilo que deixava escapar entre os lábios cerrados, não fosse pelos urros liberados pelo jovem casal. Ms. Santos foi a primeira a levantar-se e sair correndo porta afora enquanto soltava um uivo de profundo lamento. A combinação da postura inusitada que ela assumiu, com o corpo inclinado para frente, somada à penumbra e a tênue névoa, criou uma atmosfera da charneca dos Baskerville. Ms. Santos personificou o infernal cão que aterrorizou a mansão imaginada por Sir Arthur Conan Doyle. A figura aproximando-se, precedida pelo pavoroso uivo, pegou o crescido terneiro desprevenido. O bicho mugiu desesperadamente e tentou sair do brejo. Ms. Santos caiu de cara na lama. Quando o bicho conseguiu sair do brejo, deu de frente com Mr. Silveira que vinha em louca corrida e ensaiava um ruído gutural. Novo susto, mútuo dessa vez. Os olhos do crescido terneiro refletiram a luz e brilharam naquele tom de vermelho que os olhos dos animais assumem quando no escuro. Homem e animal cruzaram em debandada, um entrando de cabeça no brejo, outro saindo. Ms. Santos e Mr. Silveira conseguiram sair do outro lado e sentaram-se sobre a relva.

Finalmente refeitos do susto, e da queimação na garganta, eles acharam melhor iniciar a demonstração do Halloween, antes que alguém mais lhes servisse outra bebida como aquela. Viram uma porteira aberta e entraram. A algazarra chamou a atenção do terceiro dos 12 Irmãos que se preparava para dormir, pois já passava das 19 horas. Ele arredou a cortina de bordado branco e vislumbrou a dupla que ensaiava gestos assustadores, completamente compatíveis com sua aparência reforçada pelo banho de lama. O Terceiro não teve dúvida. Com antevéspera de Finados não se brincava. Passou a mão na Morgana, o velho bacamarte que herdou do avô mercenário, e mandou fogo pela janela.

Maria chegou ao 12 Irmãos quando o jipe do MINLE já havia partiu em disparada, na direção da Capital, levando apenas o Estranho e Mr. Silva. No interior do bar-prefeitura, todos rolavam às gargalhadas.

- Onde foi parar o casalzinho? – perguntou Maria.

- Já devem ter cruzado pelo Cinamomo! – respondeu Linoberto, quando conseguiu segurar o riso.

Até a beata Dona Clotilde sacudia-se de tanto rir enquanto tomava um cálice de vinho de missa.
- O que houve com eles? – Maria nada entendia.

- Eles tomaram o primeiro gole da “boa” e foram berrando porta afora, até caírem no brejo. Quase mataram o terneiro de susto. Então, foram assustar o Terceiro, que os recebeu com um tiro de festim da Morgana, deixando-os ainda mais apavorados. Saíram correndo em direção à Capital.

O Terceiro parecia meio constrangido, quando disse:

- Puxa, deveriam ter me avisado de que era brincadeira de americano. Eu ouvi aquele berreiro todo, abri a cortina e dei de cara com aqueles dois que pareciam saídos do inferno. Ainda por cima, a mulher gritava que era uma era uma gostosura e que queria fazer travessura comigo. Eu, hein! Ela era uma bruxa! Mandei fogo, antes que a patroa reclamasse.

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5.12.07

A classe média IV - Cultura

Foto: Wikipedia
A classe média IV – Cultura

Por Paulo Heuser


O telefone tocou, no Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos. Tocou meio fanho, pois as aranhas haviam construído teias ao redor da campainha. O oitavo dos 12 irmãos atendeu, passando ao sétimo, o Prefeito.
- É para você!
- Quem é?
- Não sei, não entendi nada...
- Então, como sabe que é para mim?
- Por isso mesmo, quando ligam do Governo, nunca se entende.
- Como você sabe que é do Governo, se não se entende?
- De quem mais seria? Eles são os únicos que ainda tentam arrancar alguma coisa daqui. Os vendedores já desistiram, por causa da estrada. Aquele Estranho do Governo nunca mais voltou.
- Alô? – disse o sétimo
- Schhhhhhhbzzzzzziiiiióóóóó...
- Alôô!!!! – gritou o sétimo
- Mais schhhhhhhbzzzzzziiiiióóóóó entremeado com zóinzóinzóins. – sons que pareciam inspirados no original da Guerra dos Mundos (1953) de H.G. Wells.
- Droga, vou desligar! – desistiu o sétimo.
- Ih, vem estranho por aí. Estranho maiúsculo (do Governo), pelo visto. – disse o oitavo.
- Como você sabe? – o sétimo parecia intrigado.
- Da outra vez, também tentaram telefonar. Como não conseguiram, mandaram aquele Estranho do leite.
- É, você tem razão. Vou deixar o Linoberto de sobreaviso.

Ninguém estranhou a chegada do Estranho. O mesmo da outra vez, que foi direto à casa do Linoberto. Maria o recebeu, enquanto mandava o cunhado procurá-lo na roça. Naquele dia, Linoberto beberia da “boa” em casa. Ele cumprimentou o Estranho, preocupado com a possibilidade de haver algum problema com o leite.

- Algum problema com o leite de caixinha? – perguntou Linoberto.
- Não, não! Aquilo é página virada. O que me traz hoje aqui é a cultura.
- Ué, você não trabalhava com saúde?
- Também, porém minha ONG assumiu outro contrato com o Governo, na área da cultura. – respondeu-lhe o Estranho.
- Aceita um gole da “boa”?
- Não, melhor não. Mas fique à vontade. – A boca do Estranho contorceu-se, estranhamente.
- Pode falar. – Linoberto era todo ouvidos.
- Trago uma boa nova! O Governo está liberando uma verba substancial para a preservação da cultura. – o Estranho parecia entusiasmado.
- Isto é muito bom! – afirmou Linoberto.
- Basta que enquadremos seu município em uma das três classes de cultura. Para isso que estou aqui. Vocês se enquadrariam melhor como situacionistas, tucanos ou alienígenas?
- Bem, vivemos do lado de cá do cinamomo. – Linoberto ficou confuso.
- Mas, aqui não há cultura!
- Como não há? – Linoberto pareceu ainda mais confuso, lembrando-se da Festa do Terneiro Ensebado.

Estranhamente, e já crescido, o terneiro mugiu.

- Vocês aderiram ao Operário, ao Lorde da Sorbonne ou ao Gabeira?
- Ah, nenhum deles.
- Como? – o Estranho parecia perplexo.
- Nós temos a festa da igreja e a do Terneiro Ensebado.
- Bem, temos que enquadrá-los em um dos três grupos. – disse o Estranho.
- Já sei, Besta lex, sed lex! – A lei é besta, mas é a lei! – Linoberto sacudia a cabeça.
- Sim, não há como deixar de enquadrá-los em alguma das culturas previstas em lei, nem a possibilidade de não haver ninguém que se enquadre em alguma delas, por mais recursivo que esse raciocínio possa parecer.
- Já sei, Besta lex,.. – disse Linoberto. O Estranho apenas acenou afirmativamente.
- Há uma remota possibilidade, introduzida por um destaque de última hora. Posso tentar enquadrá-los nas minorias oprimidas, nas quais podem ser incluídas novas classes, desde que realmente e comprovadamente oprimidas.
- Oprimidas por quem?
- Isso não é relevante, basta serem oprimidos por alguém. – respondeu-lhe o Estranho.
- Bem, então está resolvido! – afirmou Linoberto, abrindo um grande sorriso.
O Estranho partiu, de cara meio amarrada. Maria veio sentar-se ao lado do marido, pousando sua mão sobre a dele.
- E aí, Lino? O que foi, desta vez?
- Eles queriam implantar aqui as culturas do outro lado do cinamomo.
- Queriam mudar a quermesse, Lino?
- Queriam, mas não conseguiram. Nos enquadrei numa nova espécie de minoria cultural.
- Qual foi, Lino?
- Bem, criamos uma minoria dos Oprimidos Pela União.

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