4.5.09

517 - Sem intervalos

Foto: Wikipedia
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Sem intervalos
Paulo Heuser

Não sei se o problema sou eu, ou se as coisas estão cada vez mais confusas aí fora. As manchetes estão ficando cada vez mais estranhas.

Um bispo declara que gays podem se tornar padres, desde que adotem o celibato. Ora, se adotarem o celibato, que diferença fará a orientação sexual? Casal homossexual quer registrar gêmeos com duas mães. Cada criança terá uma mãe? Um homem chamado Elvis Presley trocará de nome. Quatro jogadores estão pendurados na Copa do Brasil. Garota de 18 anos seria pivô da separação de Berlusconi. Itamaraty não foi avisado do cancelamento da visita do Irã. Dois homens invadem delegacia e prendem policiais em cela. Egito ordena sacrifício de porcos. Os loucos estão por todos os lados. Essa não chega a ser novidade. Ministro da Agricultura quer comer porco no rolete com Lula. Projeto quer proibir fiscalização às escondidas na Capital. Marcha da Maconha está programada para o próximo sábado na Capital. Essa fechará o Salgado Filho. PT apóia o PMDB. Bruno e Marrone me mandaram um torpedo, às três da matina, para que eu não me esquecesse do show deles. Os remeto a arder no mármore do inferno. Que comam arroz de leite pelo resto das suas vidas terrenas! E depois, também!

Se isso não for um sinal do fim dos tempos, sou mico de circo, com febre amarela e tudo. Uma ou duas dessas manchetes podem até passar despercebidas, mas o conjunto da obra impressiona. A mais correta delas é aquela que anuncia que os loucos estão por todos os lados. Verdade, basta olhar ao redor.

Da TV por assinatura vem a insistente chamada de um programa chamado Deus versus Satanás, sem intervalos. Isto mesmo, sem intervalos. Coisa direta, uma hora de luta. O que fariam no intervalo? Repetiriam os melhores lances do primeiro turno, com o Galvão Bueno? Passariam mensagens do patrocinador? Resta saber quem seria esse patrocinador. Depois, viria o segundo turno das eleições.

Se nada disso convence os incrédulos, há um forte sinal de que estamos rumando em direção ao Apocalipse, ou equivalente. É outra dessas manchetes que podem passar despercebidas. O governo devolverá impostos cobrados indevidamente sobre o abono de férias! Com intervalos, naturalmente.

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7.4.09

513 - De coelhos e penas

Fonte: Wikipedia
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De coelhos e penas

Por Paulo Heuser


Quando eu era criança, o tal de Forte Apache virou coqueluche nacional. Coqueluche era uma doença que se espalhava feito moda, daí a expressão. Algo como dengue e febre amarela sem mosquitos. O Forte Apache era uma degeneração dos soldadinhos de chumbo das gerações anteriores. Além da paliçada, vendiam soldados norte-americanos e índios apaches de plástico. Os soldados eram os mocinhos, e os índios eram os bandidos, tudo de acordo com os filmes da época. O curioso é que os índios empunhavam os mesmos rifles empunhados pelos soldados, prova de que a venda de armamento para o inimigo não é novidade.

Venho me lembrando do Forte Apache quando ando pelo Centro. Lá há um grupo de índios, que descobri serem quéchuas, do Equador. Eles formam um conjunto que toca músicas muito melodiosas e vestem indumentárias cheias de penas, como os índios do finado Forte Apache. Esse espetáculo caiu no gosto do povo, e eles ficaram.

Com a proximidade da Páscoa, outros índios, estes daqui, vêm ao Centro para vender os ninhos que vêm da tradição céltica. Esses índios uniram-se aos quéchuas, em autêntica simbiose, na Praça da Alfândega, e passaram a vender os ninhos de Páscoa célticos, dos coelhos que põem ovos, ao som dos quéchuas que se parecem com índios do Forte Apache e tocam músicas melodiosas do Equador. É a globalização do paganismo pan-americano com o paganismo pan-europeu. O quadro é muito curioso, pois logo ao lado há um carrinho que vende músicas relaxantes cheias de trinados de pássaros. Essas músicas relaxantes relaxam durante as primeiras audições. Depois, tornam-se inertes. Por fim, convidam ao uso de uma espingarda que silencie toda aquela natureza sonora. O resultado geral daquilo é um tanto cacofônico, mas é cultura popular.

Estranhas misturas surgem também nas telas. Noutro dia passava Alien VS Predador 2. Fizeram demos e capetas de tribos alienígenas diferentes lutarem na mesma arena espacial. Cada um mostra o pior de si. Quanto mais nojento, melhor. Essas produções abrem caminho para outras, como O Pequeno Príncipe VS Freddy Krueger 3, Tomás de Torquemada VS Idi Amin Dada 5 e Bruno e Marrone VS Michael Jackson 8. Nada com nada, mas tudo é cultura! BBB9 VS Congresso Nacional?

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