16.10.08

477 - A classe média XV - Um minuto

Foto: Wikipedia
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A classe média XV – Um minuto

Por Paulo Heuser


A chuva constante não dava trégua a Linoberto, e ele passou boa parte da manhã desatolando o crescido terneiro, que insistia em voltar ao brejo. Por outro lado, não havia como trabalhar na roça, pois estava tudo empapado. Nesses dias havia uma quietude anormal no emergente município do Lado de Cá do Cinamomo – o último bastião da classe média não-estatística do IBGE. Os únicos sons que eventualmente quebravam o silêncio vinham do sino da igreja, do veloz Renault Dauphine da beata Dona Clotilde ou dos mugidos extemporâneos do atolado e crescido terneiro. Os habitantes dedicavam-se às lides da casa e ao trato dos animais. Com aquela chuva, tanto os animais quanto as pessoas recolhiam-se ao aconchego de casa. Das chaminés saíam rolos de fumo, indicando que, ou acederam o fogão à lenha, ou alguém acendeu o palheiro de fumo em corda.

Linoberto largou o teimoso e crescido terneiro e foi até o Bar, Churrascaria e Borracharia 12 Irmãos, onde já se encontravam o Padre Antão e os 11 irmãos vivos do 12 Irmãos. O Sétimo – o prefeito – recebera ligação da Capital informando da chegada iminente do Estranho – o único representante do Governo capaz de encontrar o Lado de Cá do Cinamomo. A chegada estava prevista para as 11 horas, porém já era meio-dia e nada do homem, que certamente ficara preso em algum atoleiro na estrada infame. O grupo almoçou por ali mesmo. Foi somente às 14h27 que o jipe do MinCaC – Ministério dos Call Centers apareceu espalhando barro. Não só o jipe estava embarrado, condição estendida aos tripulantes. O Estranho veio acompanhado do Secretário Nacional de Temporização do Atendimento – Sr. Fernando Orlando.

Após as apresentações iniciais, o Sétimo serviu o resto do almoço aos visitantes. O Fernando Orlando olhava desconfiado para o prato e perguntou sobre aquele cilindro recoberto com pequenas pastilhas amarelas.

- É milho. – respondeu-lhe o Sétimo.

- Ah, bem que achei estas coisinhas amarelas familiares, mas o que é o cilindro do meio?

- É um sabugo! –respondeu-lhe Linoberto, enquanto o Sétimo tentava descobrir o que seria um cilindro.

- E para que serve?

O Sétimo já ia discorrer sobre as múltiplas utilidades do sabugo, mas foi interrompido pelo Linoberto.

- Dá suporte ao milho, digamos assim.

- Oh, que coisa inteligente! – assombrou-se Fernando Orlando.

Após mais algumas singelas explicações a respeito daqueles grãos pretos servidos com o arroz, o homem usou o enorme guardanapo xadrez que cobria a mesa e revelou o motivo da sua visita:

- O Ministro assinou portaria limitando o tempo de acesso aos call centers em um minuto! Estamos fazendo a divulgação da portaria porque soubemos que o Diário Oficial não chega aqui.

- Chega, trazido pelo rapaz que leva o leite à Capital. – disse o Sétimo, e completou: - Mas é muito chato. Está cheio de coisas miúdas que sempre dizem a mesma coisa.

- Bem, de qualquer forma, vocês terão de estar adaptando seus call centers à nova realidade. Além do tempo, deverão estar observando outras normativas sobre os menus de opções e o atendimento humano!

- Isso é um refrigerante? – perguntou o Sétimo.

Do brejo veio um longo mugido do crescido e atolado terneiro, talvez de frustração, talvez de imobilização.

Linoberto esperou o fim do longo mugido e falou:

- Não temos call centers do Lado de Cá do Cinamomo.

- Percebo. Vocês estão chamando os call centers de CACs. – disse Fernando Orlando.

- Não, nós não temos nenhum tipo de atendimento por telefone.

- Impossível! Como vocês estão pedindo pizzas? – o homem não cabia no seu gerúndico espanto.

- Nós não pedimos pizzas, as fazemos em casa.

- Como vocês movimentam seus cartões de crédito?

- Aqui não tem cartão de crédito. – disse o Sétimo – Aqui chamamos de caderneta do armazém. Como o único armazém é este, o caderno é meu. Quando querem movimentar, eu escrevo.

- E os serviços das operadoras de telefonia? – o homem já demonstrava nervosismo.

- Aqui só há esse telefone do balcão do 12 Irmãos. Quando estraga, o que acontece o tempo todo, o rapaz do leite pede o conserto lá na Capital. – disse o Sétimo.

Fernando já estava demonstrando irritação por não conseguir finalizar sua missão de enquadramento do Lado de Cá do Cinamomo na nova portaria ministerial.

- Devo lembrá-los de que a multa para quem ultrapassar o minuto poderá chegar a um milhão de reais!

- Certo, porém não há o que enquadrar nessa portaria. – alegou Linoberto.

- Lamento, mas uma portaria é uma portaria e deve ser aplicada!

- Entendi. A portaria é besta, mas é uma portaria. – disse Linoberto.

Maria ouvia o mugido ao longe, quando Linoberto chegou a casa. Ela ouvira falar da reunião no 12 Irmãos e esperava notícias.

- E então, Lino? Corremos algum risco com a tal de portaria?

- Corríamos. Agora, não mais.

- O que houve?

- Eu perguntei ao sujeito do Ministério e ao Estranho sobre a fiscalização da nova portaria. Ele disse que qualquer cidadão poderá denunciar a violação da portaria ao SNDC, ao MP, ao Procon ou à DP.

- Nossa, quanta sigla! E daí, Lino?

- Eu lhes perguntei sobre as penalidades aplicáveis àqueles órgãos, caso não atendam em um minuto.

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25.9.08

468 - A classe média XIV - O dia em que o mundo deveria ter acabado



Fonte: Wikipedia
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A classe média XIV – O dia em que o mundo deveria ter acabado

Por Paulo Heuser


Padre Antão tentava descobrir o que seriam as hóstias diet mencionadas na carta recebida da Capital. Tampouco entendera o que seriam as hóstias sabor pizza mencionadas na correspondência anterior. Quem entendia de hóstias era a beata Dona Clotilde. Era da casa dela que saíam as ditas cujas. O padre jogou a carta no arquivo, junto com as anteriores que ofereciam vinho de missa sem álcool. Se o Jota lá de cima quisesse que o vinho não tivesse álcool, teriam servido suco de uva aos treze à mesa. A liturgia da Paróquia do Município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe média não-estatística, não agregava modernidades dessa espécie. Noutro dia chegara uma carta oferecendo um purificador de água benta. Se for benta, por que purificá-la?

O crescido terneiro mugiu, talvez de purificação, talvez de fermentação.

Às 11 horas o padre dirigiu-se ao Bar, Restaurante e Borracharia 12 Irmãos, onde o Estranho era esperado. Traria comunicado urgente do MINES – Ministério da Especulação. Pontual feito relógio quebrado, o jipe do MINES adentrou a vila, espalhando barro para todos os lados. A bordo, além do Estranho, dois homens de terno e gravata. Eles entraram no 12 Irmãos e foram recebidos pelo Sétimo, o Prefeito, os 10 irmãos sobreviventes - secretários e vereadores -, pelo Padre Antão e pelo Linoberto, atual Secretário Especial Para Assuntos Estranhos. O Sétimo serviu da “boa”, para todos os presentes. Cortesia da casa, insistiu ele.

- O que os traz para o Lado de Cá do Cinamomo? – perguntou Linoberto.

- Em primeiro lugar, eu gostaria de lhes apresentar o Mr. Alan Shitspan, representante do governo norte-americano, e o Sr. Macro Econômio, Ministro da Especulação do Governo. Vamos diretamente ao assunto que nos trouxe até aqui. Como vocês já devem ter visto, houve um movimento atípico por parte dos agentes financeiros norte-americanos, que apontam para uma não-realização do retorno dos dividendos das ações. – respondeu-lhe o Estranho.

O representante do MINES tomou a palavra:

- Estamos aqui para tranqüilizá-los. Viemos pessoalmente porque não foi possível contatar qualquer agente intermediário do mercado. Não há corretoras de valores mobiliários por aqui?
- Não, não há, pois o pessoal não aplica em ações. – disse Linoberto.

- Não é possível, nem em fundos de ações? – os engravatados estavam perplexos.

- Não, não há nem banco por aqui.
- (?) – Os visitantes pareciam não acreditar.

- Mas, mas, como vocês pagam suas contas? Onde depositam o dinheiro? – até o Estranho olhava estranhamente, enquanto o crescido terneiro mugia, talvez de captação, talvez de liquidação.

- O rapaz do leite movimenta as contas da Prefeitura, lá na cidade, e aqui, não há contas. Pagamos em dinheiro ou mercadorias. – Linoberto divertia-se com o olhar de espanto deles.

- Vocês trocam commodities (mercadorias)? – Mr. Shitspan formulava as perguntas traduzidas pelo Econômio.

- Sim, aqui chamamos isso de escambo.

- Bem, de qualquer forma, estamos aqui para tranqüilizá-los em nome do Governo e do governo norte-americano. O Governo garante que não seremos atingidos pela crise! – continuou Econômio.

- Então por que estão aqui? – perguntou-lhe marotamente Linoberto.

- Para garantir, em caso de um impossível reflexo local do cenário norte-americano, que nada atingirá nossa economia. Nós garantimos. - Econômio começou a transpirar.

- Repito, nada poderá nos atingir, pois essa crise ficará circunscrita ao mercado global, no qual não estamos inseridos, de forma nenhuma!

O Sétimo interveio:

- Ah, o rapaz do leite também nasceu com aquele negócio meio apertado, então fizeram a tal de circunscrita nele. – ele mostrou que estava por dentro do assunto.

Nem o Estranho nem o Econômio conseguiram traduzir isso para o Mr. Shitspan.

- Vocês não participam de nenhum pregão? – Econômio insistia.

O Sétimo já se sentia mais à vontade para opinar. Era sempre assim, ele começava meio tímido e depois ia liberando o verbo, agregando muito à conversa.

- A gente guarda alguns no almoxarifado, para quando alguém precisa pregar o telhado. Senão, o rapaz do leite compra na cidade e traz.

Mr. Shitspan já estava impaciente, pois a tradução simultânea falhava.

- Não posso acreditar que vocês não investem em SAs, pois todo mundo faz isso! – Econômio já aparentava indignação.

- Ésse o quê? – perguntou o cada vez mais à vontade Sétimo.

- SA - Sociedade Anônima! – o homem de terno estava próximo de perder a paciência.

- Ah, não, nós até tínhamos a SCELCC – Sociedade Cultural Esportiva do Lado de Cá do Cinamomo -, mas não foi adiante, pois o pessoal não se interessou. – o Sétimo fora presidente da SCELDCC.

O Estranho havia distribuído em guia para investimento seguro na bolsa de valores. O Sétimo colocou os óculos e leu em voz alta e arrastada:

- Valor venal. Venal. – ele parecia ponderar a expressão, quando lhe ocorreu algo, pois levantou as sobrancelhas, enquanto exclamava:

- Ah, foi aquela pereba que o rapaz do leite pegou no dia em que dormiu na cidade. Foi uma doença venal, coisa muito feia de se ver. O bicho pingava e ele gemia.

O crescido terneiro mugiu, talvez de aplicação, talvez de indexação.

Mr. Shitspan exigiu explicações dos seus anfitriões, pois nada entendia, e precisava retornar aos EUA para fazer o relatório ao Barrac O’Brama. Não as obteve antes de o Sétimo ler outra coisa no livrinho da bolsa.

- Underwriting, como é que se pronuncia isso? – ele ouviu a resposta e arriscou umas três vezes, antes de tentar novamente:

- Anderrráitin... Esse é o barulho que a moça da margarina fazia quando lançava pela janela, enjoada que estava. Parece que ela teve gêmeos.

Ao meio-dia interromperam a reunião para o almoço de negócios. Arroz, feijão, carne de panela e salada. Mr. Shitspan perguntava o que era aquilo, que ele nunca havia comido.

- É comida. – respondeu-lhe o Estranho.

Linoberto encontrou Maria ao lado da paróquia. Ela o esperou com aquele sorriso que fazia a vida valer a pena. O Sol já varria a meia-tarde e dava brilho especial aos cabelos dela, que balançavam ao vento.

- E ai, Lino, qual foi o assunto de hoje?

- O Estranho trouxe mais dois estranhos, um era do Governo, outro do governo dos EUA. Eles vieram falar da crise que destruiu a economia deles.

- O que eles queriam?

- O estranho do Governo queria nos tranqüilizar. Disse que a crise de lá não chegara até aqui.

- Você acha que chegará?

- Alguma coisa deve chegar. Talvez comprem menos leite, mas no geral, não devemos sofrer muito, desde que não façamos negócios com o outro lado do cinamomo. Eles têm um jeito estranho de fazer negócios. É uma espécie de loteria em que compram e vendem papéis que nada valem. Depois, choram como crianças quando descobrem que os papéis não valem nada.

- Gente esquisita, não é, Lino?

- É, Maria, temos que manter o cinamomo de pé, assim eles não contaminam nossa economia.

- O que o norte-americano veio fazer aqui?

- Não sei, mas pelo que sei de inglês, o homem queria voltar logo à Capital para telefonar ao tal de Barrac O’Brama, para avisá-lo de que encontrou um novo modelo econômico que resolverá todos os problemas deles.

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23.8.08

448 - A classe média XI - O estrangeiro


Cachaçaria Fingerhut. Foto: Paulo Heuser
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A classe média XI – O Estrangeiro

Por Paulo Heuser


A vida corria tranqüila, no Lado de Cá do Cinamomo. Nada denunciava o que estava por vir. Aquele dia seria diferente de qualquer outro, e seria contado em prosa - pois em verso seria coisa de frouxo - para as gerações seguintes.

O crescido terneiro mugia de tédio, quando Padre Antão foi se espreguiçar defronte a igreja. Dona Clotilde vinha levantando poeira, a bordo do seu poderoso Renault Dauphine, que um dia foi verde esmeralda, percorrendo intrepidamente os 87 metros que separam sua casa da Paróquia do Lado de Cá do Cinamomo.

- OVNI, OVNI, OVNI!!! – gritava o sétimo dos 12 irmãos, proprietários do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, enquanto apontava para o céu. Padre Antão olhou na direção para onde o Sétimo apontava, sobre o telhado do salão paroquial, e viu algo que refletia o sol da manhã. Algo metálico, com certeza. O padre apressou-se em buscar o binóculo Carl Zeiss, que seu avô trouxera como lembrança das trincheiras da Alsácia. Através de uma pequena área clara, em meio aos fungos que dominavam as lentes, Padre Antão conseguiu vislumbrar algo que se assemelhava com um balão prateado. Sob ele, dependurava-se uma espécie de cabine esférica, fazendo as vezes de gôndola. A nuvem da poeira levantada pelo bólido da Dona Clotilde encobriu a cena.

- Não é um OVNI! É um balão! – declarou Padre Antão.

Quando a poeira assentou, já se via o balão em detalhes, inclusive a bandeira dos EUA que cobria a lateral da cabine esférica. Logo pareceu evidente que a trajetória o levaria ao alambique do Sétimo, que saiu em louca disparada, temendo pelo pior.

O crescido terneiro mugia, talvez de admiração, talvez de apreensão.

Padre Antão passou a tocar o sino da igreja, chamando o pessoal que estava na roça, como Linoberto. Para alívio de todos, principalmente dos 12 irmãos, a cabine do balão passou raspando sobre o telhado do alambique, indo estatelar-se no potreiro do Sétimo. O pessoal apareceu de todas as direções. Aquilo era um grande evento, sem dúvida. Muitos deles nunca haviam visto um balão. Ainda mais assim, todo prateado.

A abertura da porta da cabine ofuscou muita abertura de porta de nave de ET. “Fsssss...”. A equalização das pressões interna e externa foi audível. Todos recuaram, quando um homem vestindo traje prateado surgiu pela porta. O Sétimo não se conteve:

- Cuidado, pode ser um ET americano! O homem sorria e mostrava as palmas das mãos. Linoberto pensou que o Estrangeiro os considerava aborígenes, pois fazia o gesto intergaláctico de paz.

- Mim Steve! – disse o sorridente Estrangeiro.

- Mim Linoberto! – devolveu-lhe o próprio.

Linoberto e o Padre Antão arranhavam o inglês de colégio, suficiente para entabularem uma conversa sem pronomes pessoais regidos de preposição. O Estrangeiro explicou que tentava dar a volta ao mundo, quando uma corrente de altitude falhou, e ele acabou no chão. Ele tentou comunicação por rádio, com sua base, em Chattanooga Tennessee, mas não teve êxito, pois estava muito baixo. Linoberto tranqüilizou-o, pois o rapaz do leite iria à cidade, e lhe daria uma carona. De lá o Estrangeiro poderia chamar a equipe de socorro, para transportarem a cabine. O invólucro do balão estava perdido, pelos inúmeros rasgos. O Estrangeiro doou o balão à igreja. Padre Antão ficou muito feliz, pois Dona Clotilde poderia confeccionar diversas roupas, para darem aos pobres, no dia em que encontrassem algum do Lado de Cá do Cinamomo.

O rapaz do leite fez um mapa para que o Estrangeiro pudesse voltar ao Lado de Cá do Cinamomo, quando sua equipe chegasse. A cabine de vôo virou atração turística. Contaram mais de dez visitas, somente na primeira semana. Decorrido esse prazo, Linoberto ficou preocupado. Por que o Estrangeiro demorava tanto a voltar? Talvez sua equipe demorasse. O homem parecia ter gostado dali, pois chegara a provar da “boa”, produto do alambique que quase destruíra inadvertidamente. Será que o rapaz do leite errara o mapa?

Decorridas duas semanas, Linoberto já pensava em tentar alguma comunicação com o Governo. Pareceram adivinhar seus pensamentos, pois o Estranho apareceu no horizonte, acompanhado de uma tropa, a bordo de um grande caminhão do Exército. Dirigiram-se diretamente ao 12 Irmãos, onde o Estranho estranhamente recusou a “boa”. Ele confidenciou ao Linoberto que não podia beber em serviço, diante das testemunhas do Exército.

- Sua vinda tem algo a ver com o balão? – Linoberto juntara alhos com bugalhos.

- Sim, completamente! – o Estranho olhava estranhamente para o copo servido a sua frente. Quando viu que os soldados olhavam pela janela, procurando a origem daqueles estranhos mugidos, ele entornou o copo, de um só gole. Uma imensa sensação de queimadura tomou conta das suas mucosas superiores.

- Vieram buscar a cabine? – Linoberto estranhou a ausência do dono dela.

- Sim, será apreendida como objeto de descaminho. O americano já foi preso.

- Por quê? – Linoberto tentava adivinhar qual era o argumento besta que havia enquadrado o Estrangeiro em algum artigo de alguma nova lei besta.

- Por ordem, ele introduziu aeronave no País, sem pagamento das taxas e emolumentos de importação, e ele cometeu crime contra a segurança nacional, ao introduzir e divulgar em território nacional mapa ou qualquer documento que o retrate ou descreva sem parte dele integrante!

- Você está falando do mapa que o rapaz do leite traçou, para que o Estrangeiro pudesse voltar, e pegar sua cabine? – Linoberto ficou boquiaberto.

O crescido terneiro mugiu, talvez de indignação, talvez de obnunciação.

- Sim, aquele mapa só apresenta o Lado de Cá do Cinamomo e a Capital. Falta-lhe todo o resto do País, inclusive, ou melhor, exclusive, a Amazônia. Ou seria exclusive, inclusive? Bem seja como for, a CPI das ONGs constatou que “tais informações enganosas são capazes de gerar desgaste nas relações bilaterais dos países afetados, bem como percepções mutuamente enganosas acerca das expectativas e da forma como os atores estatais se enxergam” (sic).

- Saúde! - desejou o Sétimo.

- Como, saúde? – nem Linoberto, nem o Estranho haviam entendido.

- Bem, ele está com soluço, não viu o sic? – Eles fingiram não ouvir a resposta, e o estrangeiro continuou:

- Estamos aqui também para intimá-los a hastear a Bandeira diariamente, conforme determinação normativa de que a regra seja cumprida em todos os núcleos habitacionais da Amazônia Legal.

- Mas, aqui não é a Amazônia Legal! – protestou Linoberto.

- Não é, mais foi incluída no substitutivo do Sen. Epitáfio Chaleira, por se tratar de área inatingível do Território Nacional, como as reservas indígenas já que ninguém mais consegue chegar até aqui.

- Que coisa mais besta! – reagiu Linoberto.

- Sim, Besta Lex, sed Lex!

O crescido terneiro mugiu, talvez de abnuição, talvez de abobalhação.

Maria ordenhava a vaca Antonieta, quando Linoberto chegou.

- Que confusão, Lino!

- É, a coisa ficou preta para o lado do Estrangeiro. Pelo visto, vão expulsá-lo do outro lado do cinamomo. Melhor assim, pois ele corre o risco de pegar quatro anos de prisão por causa do raio do mapa que o rapaz do leite fez.

- Parece coisa daquele filme, passado naquela praia daquela ilha onde plantavam aquele fumo diferente. – Maria cantarolou a música Voices.

- Teremos de hastear a bandeira todos os dias, no 12 Irmãos, em obediência a nova lei besta. O Sétimo até gostou desta, pois ele aparecerá todos os dias nas cerimônias de hasteamento e arriamento, a preparar-se para a Eleição.

- E o balão? O Estranho levou?

- Não, Maria. O Sétimo juntou coisa alguma com coisa nenhuma e teve o primeiro lampejo de raciocínio lógico em toda a sua vida. Ele pegou o gancho da lei do Sen. Epitáfio Chaleira e questionou a presença de tropas, e do próprio Estranho, em reserva territorial. Se tivermos de fazer a mesma coisa que os núcleos habitacionais indígenas fazem, teremos também os mesmos direitos. O Estranho consultou o pessoal do Minterra – Ministério dos Territórios Amazônicos e eles confirmaram que ninguém pode entrar aqui, sem autorização, nem o Sting, nem o Papa.

- Eles poderão voltar para buscar o balão, depois que arrumarem autorização?

- Poderão, mas o Sétimo preparará um processo a ser protocolado junto ao Minterra, que deverá tramitar durante anos, de gabinete em gabinete. Até lá, o Sétimo terá feito bom uso dele.

- Como, Lino?

- Ele pretende fazer umas mudanças na cabine, e utilizá-la como caldeira do alambique. Poderá aumentar muito a produção da “boa”.

O crescido terneiro mugiu, talvez de obcecação, talvez de obduração.


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27.6.08

418 - A classe média VI - O Incidente Clotilde


Renault Dauphine - Foto: Wikipedia
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A Classe Média VI - O Incidente Clotilde

Por Paulo Heuser


A Paróquia de Outro Lado do Cinamomo, primeiro - e único - distrito do município homônimo, deveria ser o lugar mais tranqüilo do mundo, para o exercício do sacerdócio. De vez em quando alguma alma nasce, outra sobe, ou alguém casa. O Padre Antão apreciava essa calmaria. Até que ocorreu o Incidente Clotilde.

Dona Clotilde é a versão feminina do carola. Organiza todas as festas da igreja, organiza grupos de senhoras, promove bingos, e, o que é mais importante, não perde missa. Até Padre Antão já faltou, por se encontrar acamado. Dona Clotilde, não. Ela nunca perdeu uma missa, nem mesmo no dia do nascimento de Maria, sua única filha, casada com o Linoberto. Naquele dia, Padre Antão rezou missa na casa da Dona Clotilde. Dizem por aí que o bispo quis entregar uma medalha à Dona Clotilde, quando da sua visita ao município. Só não o fez porque a comitiva não encontrou o Outro Lado do Cinamomo. Perderam-se em meio à estrada poeirenta e esburacada, indo dar em outro grotão. Linoberto achou melhor assim, pois a imprensa poderia expor aquele paraíso ao mundo. Então começariam as romarias e procissões que tirariam a calma do lugar. Restaram um bispo, com a fé um pouco abalada, e um governador, constrangido por não encontrarem o Outro Lado do Cinamomo, mesmo com a ajuda Dele e do GPS. Padre Antão crê que Ele quis assim, para preservar a paz do lugar. Quanto ao GPS, não opina, pois é coisa dos homens, e aos homens pertence.

Linoberto já ouvira falar da tal de Tolerância Zero com o álcool. Ouvira sobre ela no rádio. Ele achou melhor avisar ao irmão de plantão no Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, para que não deixassem ninguém dirigir, caso houvessem bebido. O Sétimo Irmão, prefeito e plantonista do dia, não deu muita atenção ao fato, pois praticamente ninguém dirigia por lá. Faziam tudo a pé, de cavalo ou de carroça. Por via das dúvidas, Sétimo colocou um aviso sob o balcão: “Se beber, vá de carroça”. Avisado pelo Linoberto, Padre Antão fez um sermão temático, naquela sexta-feira, remetendo ao inferno os gambás do lugar. Depois, foi tomar um digestivo no 12 Irmãos. Na saída, aproveitou para levar um garrafão do vinho de missa, para a consagração do dia seguinte. As hóstias seriam preparadas pela Dona Clotilde, como de costume.

A encrenca sempre vinha do outro lado do cinamomo. Já fazia pelo menos seis meses, desde a visita do último estranho. O isolamento geográfico trazia algumas vantagens. O governo não investia em estradas. Em compensação, não conseguia mudar os costumes simples e tradicionais do lugar. Nem encontrá-lo, diga-se de passagem. Havia uma notória exceção. O Estranho. Ele conseguia achar o Outro Lado do Cinamomo, na condição de agente do governo. Versão campestre do Cavaleiro do Apocalipse, ele sempre trazia más novas. Dessa vez, não foi diferente. Ele veio acompanhado pela equipe da blitz contra o álcool. Trouxe consigo dois agentes da lei munidos de bafômetros. Um dos bafômetros se foi, no primeiro teste. Derreteu. Os agentes uniformizados postaram-se ao lado do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos e solicitaram um voluntário para a aferição da engenhoca. Os fregueses do 12 Irmãos, que estavam lá dentro, mandaram o Jacó “Bafo de Komodo”, homem rústico que se orgulhava de nunca haver escovado os dentes. O bafo do Jacó fede tanto, que ele foi proibido de freqüentar as festas dominicais da paróquia. Com ele lá, ninguém come. Seu apelido derivou do Dragão de Komodo, réptil que apresenta o pior bafo do planeta.

Os agentes da lei já haviam desistido de flagrar alguém com o bafômetro restante. Todos freqüentadores do 12 Irmãos saíam a pé, a cavalo ou de carroça, e curariam a ressaca em casa. Como a legislação não previa a fiscalização de cavalos e carroças, nada podia ser feito. A única pessoa que andava de carro era a Dona Clotilde, para preservar seus sapatos novos de missa. Quando o sino deu a décima segunda badalada, anunciando o fim da missa, Dona Clotilde entrou no seu flamante Renault Dauphine 1960, que um dia foi verde esmeralda, e arrancou, queimando óleo, para percorrer os 87 metros que separavam sua casa da igreja. Andou 21, até que parou, interceptada pela blitz dos estranhos.

Do alto dos seus 1,43 m de altura, pesando 37 quilos – andou exagerando nas cucas -, Dona Clotilde soprou com tudo, no bafômetro, após ouvir atentamente as explicações do agente. Qual não foi a surpresa de todos, quando o mostrador do aparelho indicou que ela superara em muito o máximo de álcool permitido – zero. Dona Clotilde foi autuada, teve o Dauphine apreendido e a carta de motorista confiscada. Recolhida ao xadrez temporário do Outro Lado do Cinamomo, a despensa do 12 Irmãos, Dona Clotilde aguardava transporte para o presídio regional.
Linoberto foi ao 12 Irmãos, tão logo Padre Antão mandou o sacristão avisá-lo do ocorrido com a beata número um da igreja, sua sogra. Ficar sem ela seria suportável, mas quem faria as hóstias, daí por diante?

- Você, de novo? – disse Linoberto, ao se deparar com o Estranho.

- Antes de qualquer coisa, saiba que ficamos constrangidos. Ninguém queria prender uma velha beata. Porém, besta lex, sed lex! – disse o estranho.

- Sim, já sei, a lei é besta, mas é a lei. Porém, não podem levar em conta que ele apenas consagrou, bebendo um gole de vinho do cálice da missa? Isso é algum crime?

- Entendo seu raciocínio, e concordo com ele. Porém, besta lex, sed lex!

Quando Linoberto chegou em casa, tarde da noite, Maria aguardava ansiosa, querendo notícias da mãe. Ele parecia cansado. Serviu-se de um copo da “boa” e suspirou.

- Como foi, Lino, a mãe vai presa?

- Não, Maria. Como era de se esperar, o carro do xadrez não achou o caminho até aqui, deu voltas por toda a região, até ficar sem gasolina. A única prova contra a Dona Clotilde era o tal do bafômetro. O Jacó deu um jeito. Soprou seu bafo fétido durante quase um minuto, num momento de distração dos agentes. O aparelho restou inutilizado. Sem provas, nem xilindró, sua mãe foi solta, e lhe devolveram o Dauphine.

- Ainda bem que tudo terminou bem, não é? – Maria estava visualmente aliviada.

- Nem tudo, Maria. Agora, o problema é o Padre Antão.

- O que houve com ele?

- Foi preso por vender bebida, ao lado da estrada, para a sua mãe.

- Mas ele não vendeu, fazia parte da missa!

- Sim, só que eles alegam que o dinheiro da sacolinha foi o pagamento pela bebida! Besta lex, sed lex!
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11.12.07

A classe média V - O presente de Natal



Fonte: Wikipedia


A classe média V – O presente de Natal

Por Paulo Heuser


Linoberto recebeu a notícia da chegada do Estranho enquanto tentava desatolar o já crescido terneiro que mugia desesperadamente. Ele já nem considerava mais o Estranho tão antipático. Chegava a ter um pouco de pena dele. Afinal, ele não tivera culpa por aceitar aquele emprego na tal da ONG Vaca Feliz, contratada pelo governo. Com a crise que nunca terminava, do lado de lá do cinamomo, qualquer emprego era emprego.

Encontraram-se no Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos. O copo da “boa” já esperava Linoberto. Cumprimentaram-se, trocaram amenidades sobre o já crescido terneiro, o estado da estrada e a proximidade do Natal. Linoberto encerrou a fase da firula quando perguntou ao estranho sobre a razão da nova visita.

- Seu Linoberto, venho como representante da ONG Vaca...

- Sei, sei, Vaca Feliz, contratada pelo governo para...O que é, desta vez?

- Bem, Seu Linoberto, desta vez venho falar com o Secretário Municipal da Educação e Cultura, cargo que o senhor também acumula, pelo que me disse o Prefeito.

- Sou todo ouvidos. – disse Linoberto, enquanto o já crescido terneiro mugia.

O Estranho tomou fôlego e continuou:

- Tenho a satisfação de lhe comunicar que o Governo está liberando verba para a introdução do ensino do idioma uzbeque, no Ensino Fundamental!

- Céus, onde se fala isso? – perguntou o intrigado e espantado Linoberto.

- Ora, no Uzbequistão! – o Estranho parecia não entender a ignorância do Secretário da Educação e Cultura do lado de cá do cinamomo.

- Certo, mas por que alguém aqui deveria aprender esse uzbe... Como é mesmo?

- Uzbeque!

- Nós já ensinamos inglês e espanhol aos alunos. Ficaria pesado, mais um idioma.

- Bem, Seu Linoberto, não se trata de uma nova língua. Deverão substituir uma das línguas estrangeiras já administradas. A lei não prevê a inclusão de nova disciplina.

- Já sei, a lei é besta, mas é a lei!

- Exatamente, tirou as palavras da minha boca. – disse o Estranho, enquanto o já crescido terneiro mugia de felicidade, livre do atoleiro.

- Só não entendi o porquê dessa língua em especial. Não podemos optar pelo ensino do idioma francês, ou do alemão?

- Bem, err... É porque os manuais dos kits estão escritos em uzbeque, na verdade...

- Kits? Quais kits?

- Os kits dos jogos para presente de Natal das crianças.

- Continuo a não entender, por que comprariam brinquedos com manuais escritos numa língua dessas?

- Não foram comprados, foram dados em pagamento...

- Pagamento do quê?

- Da dívida externa do Uzbequistão.

- Não sabia que havíamos emprestado alguma coisa para eles.

- Não emprestamos, na verdade. Foi a Bolivária quem emprestou.

- E o que nós tempos a ver com isso?

- Ora, o Uzbequistão pagou em kits a divida externa da Bolivária.

- Continuo não vendo o que nós temos a ver com isso!

- Bem, os bolivarianos nos indenizaram por algumas desapropriações, pagando em kits. Como era pegar ou largar, pegamos. Melhor alguns kits uzbeques na mão do que dólares voando. Como havia uma certa dificuldade para utilizá-los, pelo desconhecimento da língua, elaboramos uma lei para introduzir o ensino do idioma uzbeque.

- Hum, entendi. Para carnearem o porco vocês derrubaram o matadouro.

- (?) – o Estranho pareceu não entender a analogia.

- São muitos kits?

- Não muitos. Não passam de 18 milhões.

- Não podemos recusar os kits e deixar de substituir os idiomas já ministrados?

- Não, besta lex, sed lex. A única condição, prevista em lei, que dispensa as aulas de uzbeque é a de as crianças já dominarem essa língua, a ponto de conseguirem utilizar os kits. Nós escolhemos aleatoriamente duas crianças matriculadas na escola e lhes entregamos um kit. Se conseguirem ler as instruções e utilizá-los, a condição legal está satisfeita.

Quando o Estranho partiu, contrariado, o já crescido terneiro mugiu. Linoberto pagou pirulitos xaropentos, em forma de apitos, daquele tipo que só se via ainda do lado de cá do cinamomo, para as duas crianças que saíram correndo ladeira abaixo, felizes com seus kits.

Linoberto chegou em casa cansado, mas satisfeito. Contou o ocorrido a Maria.

- E aí, Lino, as crianças terão que aprender essa língua estranha?

- Não, Maria. Encontrei um modo de contornar a situação e ainda por cima dar um presente de Natal para as crianças. Pedi para ver um dos tais kits. Quando botei o olho nele, me caiu a solução. Pedi ao padre que mandasse duas crianças da oitava série até o 12 Irmãos.

- E aí, Lino? Elas conseguiram ler as instruções?

- Não foi preciso. O tal kit era um jogo pega-varetas.


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21.11.07

A classe média III - Besta lex, sed lex!



Foto: Wikipedia

A classe média III – Besta lex, sed lex!


Por Paulo Heuser




Foi na terça-feira. Já crescido, o terneiro mugia alegremente. Linoberto não percebeu a chegada do novo estranho, o terceiro em onze anos, pois estava ocupado com as lides campeiras, não necessariamente campesinas. Aquele não era um estranho qualquer. Era um estranho oficial, enviado pelo Governo. Um Estranho (maiúsculo), portanto. Esse não bebia, pois estava em missão oficial. Aguardava a chegada do Linoberto, sentado na sombra sob a parreira. O sol já nem incomodava mais, pois já se punha, prevendo a volta do Linoberto. Ele passara, como de hábito, pelo Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos.

O Estranho estivera na prefeitura. O prefeito, sétimo irmão dos 12, ouviu todo o palavrório oficial, não entendeu nada, e mandou o Estranho falar com o Secretário de Administração e Outros Assuntos Extraordinários em Geral: Linoberto. A presença de alguém do governo era um assunto definitivamente extraordinário. Fazia 11 anos desde a última vez em que tentaram trazer alguém do Governo, por ocasião do nascimento do terneiro. Mandaram convite oficial para a festa. Não veio nem resposta. E agora surgia alguém, espontaneamente.

- Boa tarde, Seu Linoberto! Sou representante da ONG Vaca Feliz e fui enviado pelo órgão que trata da saúde da população. – disse o Estranho, apresentando um vistoso crachá.

Linoberto chegou a acreditar, por um femtossegundo, que finalmente conseguiriam verba para contratar um veterinário. Porém, a esperança desvaneceu-se logo, mesmo antes do homem continuar a falar. Lembrou-se de que não acreditava mais em Papai Noel. Seus pensamentos voltaram da Lapônia, quando o Estranho voltou a falar.

- O senhor deve ter acompanhado o noticiário sobre a fraude do leite, pois vejo que tem antena parabólica.

- Sim. – respondeu-lhe enquanto começava a pensar onde o Estranho queria chegar.

- Pois então, Seu Linoberto, descobrimos que vocês bebem do próprio leite que produzem aqui. Soubemos através do rapaz que leva o leite de vocês para a indústria.

- Claro, o leite fresco é outra coisa! Dá para bebê-lo ainda morno. Melhor que isso, só se for com pão com banha!

- O Governo está preocupado com a saúde de vocês, Seu Linoberto. Por isso estou aqui. Nossa ONG foi contatada para elaborar, aprovar e fazer cumprir a Lei de Responsabilidade Láctea. – o Estranho manteve tom de seriedade.

- Que lei é essa? – perguntou Linoberto, intrigado?

- É a lei que regula o consumo de leite. Para garantir a saúde da população, só é permitido o consumo de leite de caixinha.

Como que percebendo a gravidade da situação, o terneiro, já crescido, mugiu.

- Mas essa lei é muito besta! – Linoberto não se conteve.

- Besta lex, sed lex! – A lei é besta, mas é a lei! – disse o Estranho, deixando transparecer a desaprovação da conduta de Linoberto.

- Ora, o leite foi adulterado depois que saiu dos produtores. A maracutaia foi feita para lá do cinamomo. Aqui nós só tomamos leite da vaca que conhecemos, olho no olho.

- Olhares enganam! A vaca pode estar enganando vocês...

- É, e ela vai misturar soda cáustica e água oxigenada no leite? – Linoberto estava realmente indignado.

- Nunca se sabe, nunca se sabe. Pode haver um complô conta vocês... sussurrou o estranho, em tom de conspiração. E continuou:

- De qualquer forma, lei é lei. Terão de cumpri-la. O governo está disponibilizando uma verba para auxiliá-los na compra do leite de caixinha para os carentes. A única forma que o Governo encontrou para garantir a qualidade do leite foi essa. Todos deverão beber do leite padronizado e aprovado pela fiscalização na fábrica.

- Mas, aqui não há carentes, todo mundo é da classe média. O carente mais próximo está do outro lado do cinamomo.

Já crescido, o terneiro mugiu novamente.

- O senhor parece não entender, numa típica atitude de classe média. Se a lei diz que há carentes, é porque há carentes. Ponto. Se o município não cadastrar pelo menos um carente no programa, estarão descumprindo a lei. E há severas penalidades para os refratários. Besta lex, sed lex!

Linoberto precisava de tempo para pensar. Pediu a Maria que trouxesse uma garrafa da “boa”, para oferecerem ao Estranho.

- O que é isso? Estou em serviço, portanto não bebo! – o Estranho parecia indignado.

- Ora, é apenas um licorzinho digestivo, de losna e carqueja, coisa local, boa para as vísceras. Além do quê, o sol já se pôs, portanto o senhor já deve ter saído do serviço.

- Bem, pensando assim, que mal faz? – o Estranho pareceu aliviado.

O alívio desfez-se no primeiro gole. – a expressão mudou do alívio ao desespero. Enquanto o Estranho tentava se recompor, Linoberto pensou numa saída para aquele problema importado do lado de lá do cinamomo.

Alívio é o que transpareceu no rosto de Linoberto, quando o Estranho partiu, aparentemente satisfeito, apesar da boca torta, ao som do mugido do já crescido terneiro. Maria, que perdera o final da conversa, pois fora tratar os animais, perguntou ao marido sobre o estrebuchar do problema.

- E aí, Lino, como é que vamos nos livrar dessa? – ela parecia preocupada, apesar da expressão tranqüilizadora do marido.

- Foi meio complicado, mas logo vi que precisávamos resolver o problema de trás para diante. Primeiro, cadastrei o estranho (minúsculo), o do sindicato, como carente. Com aquele discurso contra as elites, colchão imperialista da classe media, etc, o Estranho acreditou na condição de carente do estranho. Atendida a lei, nesse aspecto, concordei em receber a verba para o leite de caixinha.

- Mas, teremos de tomar aquela droga? – Maria parecia perplexa.

- Não necessariamente. Com a verba para o leite de caixinha, compraremos o produto direto da fábrica. Aí abriremos as caixinhas e derramaremos tudo nos tarros onde levamos o leite para a fábrica, vendendo-lhes de volta, in natura, como se fosse leite das nossas vacas.

- Maria parecia meio confusa:

- Mas, quem abrirá as caixinhas?

- Contratei o estranho (minúsculo), o do sindicato. Ele andava rondando o sacristão, tentando convencê-lo a fundar o sindicato dos sacristãos. Foi bom para todo mundo. O sacristão está badalando sossegado, o padre ficou aliviado e o estranho conseguiu um emprego. Além disso, a lei será cumprida, o João Louco ganhará um bom dinheiro, o Estranho não voltará e o Governo terá cumprido sua missão. Sem falar da ONG, que receberá pelo serviço.

- O que faremos com o leite das vacas? – perguntou Maria.

- Ora, vamos bebê-lo!

Já crescido, o terneiro mugiu. Besta lex, sed lex!

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20.11.07

A classe média II - O sindicato

Foto: Wikipedia

A classe média II – O sindicato


Por Paulo Heuser


Linoberto Classe Média viu-se novamente sentado numa das desconfortáveis cadeiras do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos. Viu-se, pois havia um espelho na parede oposta. O copo com a dose da “boa” repousava sobre a mesa, entre um e outro gole, prudentemente espaçados. Repetiu-se o ritual da chegada do estranho, o mesmo do colchão imperialista. O estranho pediu novamente o mesmo que Linoberto bebia, e assim por diante.

- E aí, já conseguiu mostrar a verdade para alguém?

- Quase, quase! Vocês são meio cabeças-duras, por aqui! – disse o estranho, enquanto fitava o copo, desconfiado.

- É que nós cultivamos a cultura dos nossos antepassados. Não gostamos de novidades. O que está para lá do cinamomo, não nos interessa muito, além do comércio.

O estranho fez uma careta estranha, talvez pela última frase do Linoberto, talvez pela amargura da “boa”. E continuou:

- Esse é o problema! Vocês impedem a revolução proletária! – O estranho elevou o tom de voz. O terneiro, já crescido, mugiu em resposta.

- Hoje ouvi no noticiário o tal de Jabor dizendo que nós somos a classe média confusa e desinformada. – disse Linoberto.

- Não gosto daquele jornalista, pois escreve textos contra a única verdade. É um servo do imperialismo bushista-sarkozysta. Porém, quanto à classe média, tem razão. Dou a mão à palmatória.

- Ou seja, apanhamos de cima e de baixo. – disse Linoberto.

- Pudera, vocês não são pobres nem ricos. Compram ingressos para o canadense Cirque du Soleil (cúmulo do bushismo-sarkozysmo) em prestações. Os proletários não vão, ficam manobrando os carros das elites que vão, e pagam à vista. Vocês vão ao bistrô do Pierre e perguntam se aceitam vale-refeição. Suas mulheres se enchem de cremes contra rugas, enquanto as elites mandam trocar a cara no Pitangy. Vocês põem o lixo em sacos de supermercado. Proletário junta o lixo, enquanto a elite joga fora lagosta vincenda hoje, em sacos de lixo com propaganda de uísque escocês. Vocês põem película escura no vidro do carro, para não serem multados por falar ao celular. Pobre anda de Kadet com todos os vidros abertos, bombando som, enquanto as elites andam com os vidros fechados, falando pelos handsfree.

O terneiro, já crescido, aproveitou a deixa, para mugir. O estranho começou a acreditar que aquilo fazia parte de uma espécie de claque para ridicularizá-lo.

- Pois aqui nós não temos dessas coisas, não. – disse Linoberto, enquanto saboreava mais um gole daquele elixir da amargura.

- Ah, não têm? E o que é aquele sujeito parado do outro lado do balcão? Proletário, não é! É um proprietário, com certeza! Portanto, membro da elite local, que explora a classe média como você, que impede a ascensão das minorias proletárias oprimidas, como aquele sujeito que você mantém trabalhando na sua terra, de sol a sol. – o estranho estava cada vez mais alterado.

O sexto dos 12 irmãos achou que o estranho passara da conta, expulsando-o do bar, restaurante e borracharia. Chamá-lo de proprietário, tudo bem. Porém, chamá-lo de elite local? Ele nem entendia direito o que seria isso. Por via das dúvidas, melhor mandá-lo pastar, desde que não incomodasse o terneiro, já crescido, que mugiu.

Linoberto chegou em casa, com aquele ar de preocupação que Maria bem conhecia. Vira aquela expressão por duas vezes, nos últimos 11 anos. A primeira, quando o terneiro nasceu e o cunhado não pode levar o leite para lá do cinamomo. A segunda, no dia em que o estranho chegou, lhes dizendo que fariam parte da classe média, o colchão de proteção das elites imperialistas degeneradas, bushistas-sarkozystas, com certeza.

- O que foi, Lino? O estranho, novamente?

- É Maria, o Sexto o botou para fora do bar, armazém e borracharia. Aí o estranho procurou teu pai para convencê-lo a fazer greve.

- Meu pai?

- Sim, ele disse que o teu pai é um proletário explorado pelas elites, através de nós, classe média, colchão imperialista decadente.

- Mas, meu pai trabalha na terra que nos deixou, conosco, como família!

- Sei, mas ele disse que isso não muda nada. Camponês sempre é explorado, parente ou não. Estava tentando convencê-lo a fundar um sindicato. Ele traria todo o material necessário, do outro lado do cinamomo.

- Meu pai não aceitou, não é?

- Não, Maria.

- Graças a Deus!

- Bem, tive de lhe fazer algumas concessões. A partir de amanhã, quando assinaremos o acordo coletivo de trabalho, o velho poderá fumar escondido quantas vezes quiser e poderá ir oito vezes por dia até o 12 Irmãos.

O terneiro, já crescido, mugiu.

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