27.6.08

418 - A classe média VI - O Incidente Clotilde


Renault Dauphine - Foto: Wikipedia
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A Classe Média VI - O Incidente Clotilde

Por Paulo Heuser


A Paróquia de Outro Lado do Cinamomo, primeiro - e único - distrito do município homônimo, deveria ser o lugar mais tranqüilo do mundo, para o exercício do sacerdócio. De vez em quando alguma alma nasce, outra sobe, ou alguém casa. O Padre Antão apreciava essa calmaria. Até que ocorreu o Incidente Clotilde.

Dona Clotilde é a versão feminina do carola. Organiza todas as festas da igreja, organiza grupos de senhoras, promove bingos, e, o que é mais importante, não perde missa. Até Padre Antão já faltou, por se encontrar acamado. Dona Clotilde, não. Ela nunca perdeu uma missa, nem mesmo no dia do nascimento de Maria, sua única filha, casada com o Linoberto. Naquele dia, Padre Antão rezou missa na casa da Dona Clotilde. Dizem por aí que o bispo quis entregar uma medalha à Dona Clotilde, quando da sua visita ao município. Só não o fez porque a comitiva não encontrou o Outro Lado do Cinamomo. Perderam-se em meio à estrada poeirenta e esburacada, indo dar em outro grotão. Linoberto achou melhor assim, pois a imprensa poderia expor aquele paraíso ao mundo. Então começariam as romarias e procissões que tirariam a calma do lugar. Restaram um bispo, com a fé um pouco abalada, e um governador, constrangido por não encontrarem o Outro Lado do Cinamomo, mesmo com a ajuda Dele e do GPS. Padre Antão crê que Ele quis assim, para preservar a paz do lugar. Quanto ao GPS, não opina, pois é coisa dos homens, e aos homens pertence.

Linoberto já ouvira falar da tal de Tolerância Zero com o álcool. Ouvira sobre ela no rádio. Ele achou melhor avisar ao irmão de plantão no Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, para que não deixassem ninguém dirigir, caso houvessem bebido. O Sétimo Irmão, prefeito e plantonista do dia, não deu muita atenção ao fato, pois praticamente ninguém dirigia por lá. Faziam tudo a pé, de cavalo ou de carroça. Por via das dúvidas, Sétimo colocou um aviso sob o balcão: “Se beber, vá de carroça”. Avisado pelo Linoberto, Padre Antão fez um sermão temático, naquela sexta-feira, remetendo ao inferno os gambás do lugar. Depois, foi tomar um digestivo no 12 Irmãos. Na saída, aproveitou para levar um garrafão do vinho de missa, para a consagração do dia seguinte. As hóstias seriam preparadas pela Dona Clotilde, como de costume.

A encrenca sempre vinha do outro lado do cinamomo. Já fazia pelo menos seis meses, desde a visita do último estranho. O isolamento geográfico trazia algumas vantagens. O governo não investia em estradas. Em compensação, não conseguia mudar os costumes simples e tradicionais do lugar. Nem encontrá-lo, diga-se de passagem. Havia uma notória exceção. O Estranho. Ele conseguia achar o Outro Lado do Cinamomo, na condição de agente do governo. Versão campestre do Cavaleiro do Apocalipse, ele sempre trazia más novas. Dessa vez, não foi diferente. Ele veio acompanhado pela equipe da blitz contra o álcool. Trouxe consigo dois agentes da lei munidos de bafômetros. Um dos bafômetros se foi, no primeiro teste. Derreteu. Os agentes uniformizados postaram-se ao lado do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos e solicitaram um voluntário para a aferição da engenhoca. Os fregueses do 12 Irmãos, que estavam lá dentro, mandaram o Jacó “Bafo de Komodo”, homem rústico que se orgulhava de nunca haver escovado os dentes. O bafo do Jacó fede tanto, que ele foi proibido de freqüentar as festas dominicais da paróquia. Com ele lá, ninguém come. Seu apelido derivou do Dragão de Komodo, réptil que apresenta o pior bafo do planeta.

Os agentes da lei já haviam desistido de flagrar alguém com o bafômetro restante. Todos freqüentadores do 12 Irmãos saíam a pé, a cavalo ou de carroça, e curariam a ressaca em casa. Como a legislação não previa a fiscalização de cavalos e carroças, nada podia ser feito. A única pessoa que andava de carro era a Dona Clotilde, para preservar seus sapatos novos de missa. Quando o sino deu a décima segunda badalada, anunciando o fim da missa, Dona Clotilde entrou no seu flamante Renault Dauphine 1960, que um dia foi verde esmeralda, e arrancou, queimando óleo, para percorrer os 87 metros que separavam sua casa da igreja. Andou 21, até que parou, interceptada pela blitz dos estranhos.

Do alto dos seus 1,43 m de altura, pesando 37 quilos – andou exagerando nas cucas -, Dona Clotilde soprou com tudo, no bafômetro, após ouvir atentamente as explicações do agente. Qual não foi a surpresa de todos, quando o mostrador do aparelho indicou que ela superara em muito o máximo de álcool permitido – zero. Dona Clotilde foi autuada, teve o Dauphine apreendido e a carta de motorista confiscada. Recolhida ao xadrez temporário do Outro Lado do Cinamomo, a despensa do 12 Irmãos, Dona Clotilde aguardava transporte para o presídio regional.
Linoberto foi ao 12 Irmãos, tão logo Padre Antão mandou o sacristão avisá-lo do ocorrido com a beata número um da igreja, sua sogra. Ficar sem ela seria suportável, mas quem faria as hóstias, daí por diante?

- Você, de novo? – disse Linoberto, ao se deparar com o Estranho.

- Antes de qualquer coisa, saiba que ficamos constrangidos. Ninguém queria prender uma velha beata. Porém, besta lex, sed lex! – disse o estranho.

- Sim, já sei, a lei é besta, mas é a lei. Porém, não podem levar em conta que ele apenas consagrou, bebendo um gole de vinho do cálice da missa? Isso é algum crime?

- Entendo seu raciocínio, e concordo com ele. Porém, besta lex, sed lex!

Quando Linoberto chegou em casa, tarde da noite, Maria aguardava ansiosa, querendo notícias da mãe. Ele parecia cansado. Serviu-se de um copo da “boa” e suspirou.

- Como foi, Lino, a mãe vai presa?

- Não, Maria. Como era de se esperar, o carro do xadrez não achou o caminho até aqui, deu voltas por toda a região, até ficar sem gasolina. A única prova contra a Dona Clotilde era o tal do bafômetro. O Jacó deu um jeito. Soprou seu bafo fétido durante quase um minuto, num momento de distração dos agentes. O aparelho restou inutilizado. Sem provas, nem xilindró, sua mãe foi solta, e lhe devolveram o Dauphine.

- Ainda bem que tudo terminou bem, não é? – Maria estava visualmente aliviada.

- Nem tudo, Maria. Agora, o problema é o Padre Antão.

- O que houve com ele?

- Foi preso por vender bebida, ao lado da estrada, para a sua mãe.

- Mas ele não vendeu, fazia parte da missa!

- Sim, só que eles alegam que o dinheiro da sacolinha foi o pagamento pela bebida! Besta lex, sed lex!
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28.4.08

390 - Sobe!

Imagem: NASA
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Sobe!

Por Paulo Heuser


O Zé chegava em casa, no típico fim de dia. Desviou dos cocôs de cachorro, no passeio, sorriu para o porteiro, verificou a caixa de correio e entrou no elevador. Quando pressionou o botão do quinto andar, a luz acendeu, e logo apagou. - Droga de elevador - pensou ele. Nova tentativa, mesmo resultado. A luz vermelha acendia, para apagar em seguida. Praguejando, ele insistiu. Ficou apertando o botão, até que o elevador entendeu sua intenção de subir. Com a luz do botão apagada, que fosse. O elevador finalmente se moveu. Cinco andares não era muito. Zé acompanhou indiferente a mudança dos números no indicador do andar. Dois, três, quatro, seis... Naquele catatonismo pós-expediente, ele não percebeu imediatamente a ausência do cinco. Percebeu que algo não estava certo quando o indicador virou no dez. Havia apenas nove andares no prédio. – Droga de manutenção! – exclamou. Quando o mostrador indicou a passagem do nonagésimo nono andar, a luz vermelha do alarme de perigo acendeu na cabeça do Zé. Pensando melhor, não era apenas o indicador que parecia errado, pois o tempo de percurso estava anormalmente longo. Aqueles segundos, ele não sabia exatamente quantos, transformavam-se em longos minutos, sem perspectiva de um fim próximo.

Zé tentou ligar para o porteiro, a partir do celular. Recebeu um indicativo de ausência de sinal, enquanto o mostrador indicava que haviam ultrapassado o nongentésimo andar. Resignado, ele pressionou o botão de alarme. Ouviu apenas o som de uma sirene muito distante, que se afastava cada vez mais. O mostrador passou a exibir 1k, quando passaram pelo nongentésimo nonagésimo nono andar. – Finalmente parou – pensou ele, pois os números indicados pararam de crescer. Aquele 1k ficou estático. Por algum tempo, até que mudou para 1,1k. Não havia parado. Apenas mudou a escala, medindo de mil em mil andares. Zé dormiu encolhido no canto do elevador, tiritando de frio.

O mostrador não indicava andar nenhum, quando a porta do elevador se abriu. – Consertaram esta droga! – pensou Zé, enquanto tentava adaptar os olhos àquela luz muito intensa, do lado de fora, onde um dos vultos dizia:

- Outro, chegou outro!

- Como é que este veio? – perguntou o segundo vulto ao primeiro.

- De elevador...

- De elevador? Mas, como?

- Deu problema no quinto andar e alguém se esqueceu de tirar a ponte. Veio direto.

- Menos mal, há como mandá-lo de volta. Ainda bem que este não veio de balões de aniversário!

- Desce!

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