17.8.09

542 - O sagu de Baco

Fonte: Wikipedia
.

O sagu de Baco

Paulo Heuser


O Zé não perdia o Menu Confiança, do GNT. Ele imitava “a sotaque” do Claude Troisgros como ninguém. Depois da saída do Renato Machado, do programa, deixou de assisti-lo. Porém, Zé virou um entendido, no bom sentido, em vinhos. Ele domina todo aquele esquema de harmonização, retrogosto e vade retro. Conseguiria enganar até o Robert Parker, especialista da maior revista internacional sobre o assunto, a Wine Spectator.

Aconteceu num sábado. Zé preparava-se para instalar uma prateleira, em casa, quando recebeu o telefonema de um amigo que precisava comprar um vinho para presentear uma pessoa do mais fino bom gosto. Zé avisou-lhe que não sairia muito barato. Vinho desse tipo era caro. Tudo bem, disse o amigo, que tinha muita pressa. Fazer o que, o enólogo televisivo saiu de casa vestido como estava, tênis furado, meias sem elástico, bermuda encardida e camiseta furada no sovaco. Traje de instalador de “partilera de táuba”. Vinho desses se compra nas lojas especializadas, disso o Zé sabia. Lugar fino aquele. Havia até manobrista. No interior, madeiras nobres, por todos os lados. O lugar cheirava a carvalho. A recepção, na entrada da loja, não foi das melhores. Uma moça loira, vestindo um traje impecavelmente cortado, sobre altos escarpins, o olhou, de cima a baixo, e vice-versa, fazendo cara de nojo.

- Pois não? – cara de mais nojo.

- Eu, bem, gostaria de comprar um bom vinho para presentear um amigo de gosto exigente.

- O senhor teria algo em mente? – cara de extremo nojo, talvez porque o dedão do Zé insistia em se insinuar para fora do pé direito do tênis.

Algo explodiu dentro do Zé, além do tênis. Até aquele momento, ele sentiu-se humilhado. A partir de então, transformou-se num vingador dos instaladores de “partileras de táuba”. Fez cara de simplacheirão e mandou:

- Bem, meu amigo gosta muito de sagu, eu queria um bom vinho para fazer sagu.

A cara de nojo transformou-se em cara de espanto. A moça sobre os finos escarpins não acreditava no que estava ouvindo. Como explicar àquele pobre coitado que aquela loja vendia apenas vinhos finos? Tentou.

- Oh, lamento, mas estamos em falta desse tipo de vinho. Talvez o senhor seja melhor servido num supermercado...

- Já tentei – disse ele -, mas somente encontrei argentinos e chilenos, além de miseráveis franceses da Provença, Rhône e Languedoc-Roussillon. Além do que, eu gostaria de surpreendê-lo. Ele já enjoou do sagu de vinhos de Bordô e da Borgonha. Nada de piemontês, também. Pensei em um espanhol, algo de La Rioja, um tempranillo, quem sabe?

A hesitante vendedora o levou até uma prateleira feita em madeiras finas e mostrou-lhe uma garrafa de um Marques de Riscal Reserva, de 2004, de 115 reais. Ele olhou, com visível desdém, e disse:

- Moça, o sujeito é exigente, ele não come qualquer sagu. Não teria um Gran Reserva?

Aparentando não acreditar no que estava acontecendo, ela mostrou-lhe um Riscal Gran Reserva, de 2002, de 230 reais a garrafa. Ele balançou a cabeça, como que avaliando o rótulo, e disse à moça que aquele servia. Ela ainda ofereceu-lhe um Baron Del Chirel Reserva, de 2002, de 400 reais a garrafa. Então, Zé fingiu espanto.

- Olhe moça, aí também já é desperdício. Fazer sagu com um vinho de 400 contos é exagero. Se ainda fosse para um quentão...


prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

23.12.08

499,9 - Vinálias elétricas

Foto: Desciclopédia
.

Vinálias elétricas

Por Paulo Heuser

 

Os antigos habitantes do Lácio – região central da Itália - comemoravam duas datas muito importantes para os apreciadores do vinho. Eram as Vinálias. A Vinália Rústica era comemorada em 19 de agosto e festejava o início da safra, enquanto a Vinália Urbana era comemorada em 23 de abril e festejava o vinho novo. A bebedeira era grande, nas duas comemorações, tanto que as virgens eram vigiadas com extremo cuidado, pelo temor da perda do seu diferencial que lhes permitiria ingressar na ordem das Virgens Vestais.

O vinho novo dos antigos habitantes do Lácio deve ter sido algo um tanto diferente dos vinhos da atualidade. Como me disse recentemente um enólogo, não há vinho ruim, existem propostas diferentes. Por vezes, elas me parecem diferentes demais. Contudo, creio que ele tem razão. Creio também que nos habituamos com determinadas uvas e determinadas técnicas de vinificação e criamos padrões de gosto. Quem se habitua aos vinhos mais complexos e envelhecidos estranha os vinhos muito jovens, pois nestes ainda não ocorreram processos químicos que demandam tempo, sítio e ambiente específicos. Os produtores de vinhos finos pesquisaram, durante séculos, as melhores castas, os melhores solos, as melhores madeiras para pipas e as melhores técnicas para a produção de grandes vinhos. Um bom vinho demanda paciência e arte. Tudo isso afasta a maioria dos potenciais consumidores, pois não basta gostar de vinho, há de se ter como comprá-lo. Creio que nunca me esquecerei da cena que presenciei num supermercado popular, faz alguns anos. Duas senhoras de aparência humilde, que levavam apenas gêneros de primeiríssima necessidade no carrinho, discutiam a exatidão da etiqueta afixada à prateleira de um vinho francês de 600 reais a garrafa. Aquele vinho não pertencia ao mundo delas, nem àquele supermercado.

Firulas à parte, a seção de ciência da Folha de São Paulo traz noticia que dá o que pensar. Os cientistas da Universidade Tecnológica do Sul da China descobriram que se pode apressar o amadurecimento do vinho jovem quando este é submetido a uma corrente elétrica, a partir de eletrodos de titânio. Dão choques no vinho. Isso dá medo. Já posso imaginar um gran cru da Borgonha chinesa, vendido em tetrapac e submetido à eletrocussão. Como serão os rótulos? Életrocuté dans le château chinois – Eletrocutado no castelo chinês? Os pesquisadores chineses afirmam que conseguiram melhorar muito seus vinhos, como direi, de proposta excessivamente diferente. Assim, aproximarão os consumidores menos favorecidos dos vinhos de proposta menos diferente. Não que eu possa comprar os bons vinhos franceses, mas gosto de saber que eles existem.

O que mais temo, é a velocidade vertiginosa da evolução dessas novas técnicas. Hoje, aplicam uma corrente elétrica ao vinho. Amanhã, quem sabe. Aplicarão choques no cliente, enquanto ele bebe o vinho. Just in time. Coisa de administração da produção. E nós, seremos insumos.


prheuser@gmail.com

www.pauloheuser.blogspot.com

www.sulmix.com.br


Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

27.10.08

482 - Pardon?


Foto: BBC
.

Pardon?

Por Paulo Heuser


Os que têm a sorte de percorrer o sul da França certamente ficam impressionados com a beleza da costa mediterrânea, que se estende desde Garavan, na região provençal dos Alpes Marítimos franceses, na Costa Azul, até Cerbère, nos Pirineus Orientais, junto à fronteira catalã da Espanha, na Costa Vermelha. O mar sempre apresenta coloração azul impressionante, ao longo dessa costa, muito ressaltada pelas pedras brancas. O sol completa o espetáculo, desde as agitadas praias orientais, como Nice e Cap Ferrat, até as aldeias de pescadores do extremo ocidental, como Cerbère. Esta se localiza ao lado da região administrativa francesa de Languedoc-Roussillon, célebre berço do Catarismo, seita religiosa que enfrentou a Igreja Católica e teve seu auge no Século XI.

Os cátaros rejeitaram muitos dos dogmas católicos e se recusaram à conversão. Sua doutrina se fundamentava, entre outras coisas, na crença de que o homem surgia do mal, mas poderia salvar-se mediante uma vida de boas ações. Também rejeitaram o poder papal e a discriminação da mulher na religião. Algo de sua doutrina foi incorporada pela Reforma Protestante. O Papa Inocêncio III, de forma nada inocente, promoveu a Cruzada Albigense – de Albi – e logrou a eliminação da heresia cátara, ao longo de 40 anos de perseguições e queima de fiéis na fogueira.

A região de Languedoc produz, desde muito, boa parte dos vinhos de mesa franceses. São os vinhos que os operários franceses consumiam durante as refeições (Midi-vin), elaborados, em sua maioria, a partir das uvas Aramon e Carignan, consideradas viníferas pobres. Os apreciadores dos vinhos finos das regiões de Bordô e da Borgonha torcem o nariz só de ouvir falar dos vinhos de Languedoc. Estes não são vinhos para aqueles que conseguem identificar traços de cerejas silvestres torradas da Tanzânia, no retrogosto, e aroma de bucha do canhão Berta, no buquê. São vinhos menos sofisticados e bem mais baratos que seus vizinhos de Bordô e da Borgonha.

Nos últimos 30 anos, algo mudou naquela região francesa. Muitos produtores de vinhos passaram a apostar nas uvas Cabernet Sauvignon, Syrah, Chardonnay, Viogner e Grenache, consideradas as melhores viníferas. Os resultados logo apareceram, e hoje há grandes vinhos de Languedoc. Alguns receberam mais de 90 pontos na escala da prestigiosa publicação Wine Spectator, que vai de zero a 100. Esta classe de vinhos – com gradação acima de 90 - certamente agrada aos que sabem reconhecer o aroma da bucha do canhão Berta. Contudo, os apreciadores de bons vinhos continuaram a torcer o nariz para a designação de origem da região de Languedoc-Roussillon.

Alguns produtores de Languedoc apelaram para o bom-humor e a criatividade. Criaram um rótulo realmente inusitado, no qual se lê: Vin de Merde – isso mesmo: Vinho de Merda. Tem até uma mosca no rótulo. Foi um sucesso absoluto, ainda mais por apenas sete reais a garrafa. Os cátaros cometem nova heresia. Só que desta vez ninguém vai queimá-los na fogueira.




prheuser@gmail.com
http://www.pauloheuser.blogspot.com/
http://www.sulmix.com.br/

Marcadores: , , , , , , , , ,

1.10.08

471 - As gêmeas do pudim


Foto: Comuna di Fara Veronese
.
As gêmeas do pudim

Por Paulo Heuser


Vicenza e Viterba Arrabiate são gêmeas idênticas e foram criadas como tal. Andam aí pela casa dos pré-setenta. Elas se vestem da mesma maneira e cultivam não só os mesmos hábitos, como também o mesmo marido. O corte do cabelo à Chanel combina com o queixo inusitadamente pontudo. As vi numa festa do interior do Interior. Elas se deliciavam comendo pudim de laranja. A semelhança entre elas era tamanha que se estendia aos gestos e à postura. Havia perfeito sincronismo nos seus movimentos, como se fossem atletas do nado sincronizado no seco. Ambas levavam a colher ao prato, ajudavam na pescaria com o polegar direito e levavam a colher à boca. Mastigavam sete vezes e engoliam. Tudo igualzinho, nos menores detalhes. Sorriam o tempo todo.

Enzio vive na Comuna de Fara, nas Colline Novarese – Colinas de Novara - da região italiana do Piemonte. Ele vem de uma linhagem de produtores de vinho que remonta aos tempos do Império Romano. A história conta que o Cônsul Silla venceu uma grande batalha naquela região e distribuiu as terras conquistadas entre os legionários que mais se destacaram no combate. Dentre eles estava o ancestral de Giuseppe – avô de Enzio -, que fundou a vinícola no final do Século XIX. Muito antes disso, gerações da família já produziam vinhos artesanais na região. A família orgulha-se muito do Gattinara Reserva, tinto feito com as uvas nebbiolo, vespolina e bonarda. Enzio sabe que cada safra é uma criança que deve ser concebida, cuidada e tratada de acordo com suas características próprias de solo, videira e clima. Nenhuma safra é igual à outra, o que aumento o desafio para obter a melhor mistura – assemblage – entre os vinhos resultantes de cada uva. Uma safra especialmente destacada do Gattinara Reserva foi a de 1997 - orgulho de Enzio.

Algumas caixas do Gattinara Reserva de 1997 cruzaram o Atlântico e chegaram ao Brasil. Domenico Tassa é um grande empresário que gosta de presentear seus clientes como brindes da terra do seu papai. O vinho italiano é um dos seus presentes prediletos. Ele arrematou cinco caixas do Gattinara Reserva de 1997 e as distribuiu entre seus clientes mais importantes. Uma delas coube a Vittorio Arrabiate.

Vicenza e Viterba pescaram o último pedaço de pudim do prato, com o auxílio dos polegares, em perfeito sincronismo.

- Bom! – disse Vicenza.

- Bom! – ecoou Viterba.

Entreolharam-se e disseram em uníssono:

- Bem melhor do que o sagu que fizemos com o vinho que o Vittorio ganhou!


prheuser@gmail.com
http://www.pauloheuser.blogspot.com/
http://www.sulmix.com.br/

Marcadores: , , , , , , , , , , ,

29.6.08

419 - Tolerância Zero!



Foto: Paulo Heuser
.
.
Tolerância Zero!

Por Paulo Heuser

Hoje me joguei cedo, na estrada, louco para provar meu primeiro bafômetro. Subi a Serra. Eu esperava dar a primeira baforada lá pela 116. Porém, não fui feliz. Será que eles não esperavam por alguém, tão cedo? Segui por Portão, Caí, e todas aquelas lombadas eletrônicas que lembram totens de jogos de boteco. Quando minhas filhas eram pequenas, ao verem as lombadas, gritavam: “Pai, quantos pontos fizemos?”.

Nada de bafômetros, morro acima. Lá em cima, quem saberia? Ninguém, pelo visto. Pedi informações em pelo menos meia dúzia de postos de gasolina. Ninguém sabia onde havia um bafômetro. O meio-dia passou, a fome bateu forte. Resolvi almoçar onde certamente haveria um bafômetro, perto do Vale dos Vinhedos.

O garçom trouxe um pão italiano de fazer qualquer estômago chorar de felicidade. Pedi pela água mineral, com gás, para não parecer básico demais. Na mesa ao lado, uma senhora de sotaque castelhano sorvia longos goles de uma caipiriña enorme. Seu acompanhante, um homem com os cabelos grisalhos no estilo motoqueiro sem capacete, pedia meia garrafa de vinho. E eu estava na base de pão e água. Não fui o único a evitar o vinho, pois noutra mesa, com pelo menos 12 pessoas, todos bebiam refrigerantes. Todas aquelas 12 crianças. Veio a sopa, o galeto e o spaghetti ai funghi, com água. H2O e CO2. Recusei o sagu de vinho, pedi cafezinho, a conta e um bafômetro. O garçom chamou o proprietário, que se debulhou em desculpas, pois não havia bafômetros – vi è una mancanza di bafometri! – ele gritava, com forte sotaque de tradutor do Google, gesticulando muito. Sugeriu que eu tentasse mais adiante, nas tendas de beira de estrada. O homem da meia garrafa pediu outra. Beberia menos, assim? Não beberia uma garrafa de vinho, beberia duas meias. Enfrentaria dois meios bafômetros? Aceitei o café. Quando a conta chegou, o homem das duas meias garrafas pediu outra meia, para a viagem. Já era o homem da garrafa e meia. Seguiu viagem.

Desci da Serra, procurando por algum anúncio que levasse aos bafômetros. Nada, apenas batatas da safra e morangos do próximo inverno. Parei ao lado de uma tenda e perguntei à senhora que vendia morangos orgânicos sobre a existência de algum bafômetro na região. Relutante, ela desconversou. Recomendou-me que procurasse a imprensa. Coincidência, ou não, naquele momento parou a caminhonete da equipe de reportagem, conferindo o preço da batata da safra. Fariam alguma matéria sobre a pressão da batata nos índices inflacionários. Abordei aquele que se parecia com um jornalista:

- Boa tarde, você saberia onde eu poderia encontrar um bafômetro?

Ele coçou a orelha, com a caneta, antes de responder:

- Bem, depende.

- Depende do quê?

- Não há mais muitas vagas, depende de onde você se encaixa...

- Encaixar, como?

- Eh, sabe como é, nós temos cotas para os noticiários. Já temos operários, estudantes, chefes insuspeitos de família, dondocas, executivos e advogados. No momento, procuramos desesperadamente por uma freira embriagada dirigindo uma Kombi lotada com órfãos afegãos. Dá capa.

- Comunzão, assim, nada feito?

- Não dá. A cota já está preenchida.

Cheguei em casa, sem bafômetro. Contudo, venci a prova. Sobrevivi. No noticiário, nada de freiras embriagadas dirigindo Kombis cheias de órfãos afegãos.

Marcadores: , , , , , ,

27.6.08

418 - A classe média VI - O Incidente Clotilde


Renault Dauphine - Foto: Wikipedia
.
.
A Classe Média VI - O Incidente Clotilde

Por Paulo Heuser


A Paróquia de Outro Lado do Cinamomo, primeiro - e único - distrito do município homônimo, deveria ser o lugar mais tranqüilo do mundo, para o exercício do sacerdócio. De vez em quando alguma alma nasce, outra sobe, ou alguém casa. O Padre Antão apreciava essa calmaria. Até que ocorreu o Incidente Clotilde.

Dona Clotilde é a versão feminina do carola. Organiza todas as festas da igreja, organiza grupos de senhoras, promove bingos, e, o que é mais importante, não perde missa. Até Padre Antão já faltou, por se encontrar acamado. Dona Clotilde, não. Ela nunca perdeu uma missa, nem mesmo no dia do nascimento de Maria, sua única filha, casada com o Linoberto. Naquele dia, Padre Antão rezou missa na casa da Dona Clotilde. Dizem por aí que o bispo quis entregar uma medalha à Dona Clotilde, quando da sua visita ao município. Só não o fez porque a comitiva não encontrou o Outro Lado do Cinamomo. Perderam-se em meio à estrada poeirenta e esburacada, indo dar em outro grotão. Linoberto achou melhor assim, pois a imprensa poderia expor aquele paraíso ao mundo. Então começariam as romarias e procissões que tirariam a calma do lugar. Restaram um bispo, com a fé um pouco abalada, e um governador, constrangido por não encontrarem o Outro Lado do Cinamomo, mesmo com a ajuda Dele e do GPS. Padre Antão crê que Ele quis assim, para preservar a paz do lugar. Quanto ao GPS, não opina, pois é coisa dos homens, e aos homens pertence.

Linoberto já ouvira falar da tal de Tolerância Zero com o álcool. Ouvira sobre ela no rádio. Ele achou melhor avisar ao irmão de plantão no Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos, para que não deixassem ninguém dirigir, caso houvessem bebido. O Sétimo Irmão, prefeito e plantonista do dia, não deu muita atenção ao fato, pois praticamente ninguém dirigia por lá. Faziam tudo a pé, de cavalo ou de carroça. Por via das dúvidas, Sétimo colocou um aviso sob o balcão: “Se beber, vá de carroça”. Avisado pelo Linoberto, Padre Antão fez um sermão temático, naquela sexta-feira, remetendo ao inferno os gambás do lugar. Depois, foi tomar um digestivo no 12 Irmãos. Na saída, aproveitou para levar um garrafão do vinho de missa, para a consagração do dia seguinte. As hóstias seriam preparadas pela Dona Clotilde, como de costume.

A encrenca sempre vinha do outro lado do cinamomo. Já fazia pelo menos seis meses, desde a visita do último estranho. O isolamento geográfico trazia algumas vantagens. O governo não investia em estradas. Em compensação, não conseguia mudar os costumes simples e tradicionais do lugar. Nem encontrá-lo, diga-se de passagem. Havia uma notória exceção. O Estranho. Ele conseguia achar o Outro Lado do Cinamomo, na condição de agente do governo. Versão campestre do Cavaleiro do Apocalipse, ele sempre trazia más novas. Dessa vez, não foi diferente. Ele veio acompanhado pela equipe da blitz contra o álcool. Trouxe consigo dois agentes da lei munidos de bafômetros. Um dos bafômetros se foi, no primeiro teste. Derreteu. Os agentes uniformizados postaram-se ao lado do Bar, Armazém e Borracharia 12 Irmãos e solicitaram um voluntário para a aferição da engenhoca. Os fregueses do 12 Irmãos, que estavam lá dentro, mandaram o Jacó “Bafo de Komodo”, homem rústico que se orgulhava de nunca haver escovado os dentes. O bafo do Jacó fede tanto, que ele foi proibido de freqüentar as festas dominicais da paróquia. Com ele lá, ninguém come. Seu apelido derivou do Dragão de Komodo, réptil que apresenta o pior bafo do planeta.

Os agentes da lei já haviam desistido de flagrar alguém com o bafômetro restante. Todos freqüentadores do 12 Irmãos saíam a pé, a cavalo ou de carroça, e curariam a ressaca em casa. Como a legislação não previa a fiscalização de cavalos e carroças, nada podia ser feito. A única pessoa que andava de carro era a Dona Clotilde, para preservar seus sapatos novos de missa. Quando o sino deu a décima segunda badalada, anunciando o fim da missa, Dona Clotilde entrou no seu flamante Renault Dauphine 1960, que um dia foi verde esmeralda, e arrancou, queimando óleo, para percorrer os 87 metros que separavam sua casa da igreja. Andou 21, até que parou, interceptada pela blitz dos estranhos.

Do alto dos seus 1,43 m de altura, pesando 37 quilos – andou exagerando nas cucas -, Dona Clotilde soprou com tudo, no bafômetro, após ouvir atentamente as explicações do agente. Qual não foi a surpresa de todos, quando o mostrador do aparelho indicou que ela superara em muito o máximo de álcool permitido – zero. Dona Clotilde foi autuada, teve o Dauphine apreendido e a carta de motorista confiscada. Recolhida ao xadrez temporário do Outro Lado do Cinamomo, a despensa do 12 Irmãos, Dona Clotilde aguardava transporte para o presídio regional.
Linoberto foi ao 12 Irmãos, tão logo Padre Antão mandou o sacristão avisá-lo do ocorrido com a beata número um da igreja, sua sogra. Ficar sem ela seria suportável, mas quem faria as hóstias, daí por diante?

- Você, de novo? – disse Linoberto, ao se deparar com o Estranho.

- Antes de qualquer coisa, saiba que ficamos constrangidos. Ninguém queria prender uma velha beata. Porém, besta lex, sed lex! – disse o estranho.

- Sim, já sei, a lei é besta, mas é a lei. Porém, não podem levar em conta que ele apenas consagrou, bebendo um gole de vinho do cálice da missa? Isso é algum crime?

- Entendo seu raciocínio, e concordo com ele. Porém, besta lex, sed lex!

Quando Linoberto chegou em casa, tarde da noite, Maria aguardava ansiosa, querendo notícias da mãe. Ele parecia cansado. Serviu-se de um copo da “boa” e suspirou.

- Como foi, Lino, a mãe vai presa?

- Não, Maria. Como era de se esperar, o carro do xadrez não achou o caminho até aqui, deu voltas por toda a região, até ficar sem gasolina. A única prova contra a Dona Clotilde era o tal do bafômetro. O Jacó deu um jeito. Soprou seu bafo fétido durante quase um minuto, num momento de distração dos agentes. O aparelho restou inutilizado. Sem provas, nem xilindró, sua mãe foi solta, e lhe devolveram o Dauphine.

- Ainda bem que tudo terminou bem, não é? – Maria estava visualmente aliviada.

- Nem tudo, Maria. Agora, o problema é o Padre Antão.

- O que houve com ele?

- Foi preso por vender bebida, ao lado da estrada, para a sua mãe.

- Mas ele não vendeu, fazia parte da missa!

- Sim, só que eles alegam que o dinheiro da sacolinha foi o pagamento pela bebida! Besta lex, sed lex!
.
.
.
.
Textos anteriores sobre A Classe Média:
prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br

Marcadores: , , , , , , , , , , , ,

13.9.07

Raízes

Foto: Paulo Heuser
Raízes

Por Paulo Heuser


O norte-americano Alex Haley escreveu o grande sucesso literário Negras Raízes (Roots, 1976), romanceando a saga da sua família, desde a Gâmbia, África Ocidental, até os dias de então, nos EUA. O personagem principal era um ancestral do autor, Kunta Kinte, que deve estar na memória de muita gente, após a longa série apresentada pela Rede Globo na década de 80. Alex Haley teve uma trabalheira enorme para localizar as raízes da sua família, pois não havia registros escritos. Teve de percorrer cidades e aldeias, ouvindo histórias de anciãos, à procura de elos que o ligassem ao passado.

Raízes não se movem, via de regra. Nós nos movemos, nos mudamos, somos mudados e escolhemos trilhas diversas como parreiras. Escolhemos caminhos conforme alternativas que surgem pela frente. Se parece haver mais luz à direita, vamos à direita. Cedo perdemos de vista as raízes. Mesmo estas, podem ter se originado de planta mais antiga, de outro lugar. Procurar nossas raízes, portanto, é apenas um ato simbólico, até porque necessitamos estabelecer referenciais de tempo e de ramos de família, já que somos a síntese genética de tribos diversas. Porém, por alguma razão, a procura de origens conforta o espírito, algo como um retorno à casa. Quando a casa não mais existe, restam o solo, a paisagem e o rio. Materializamos a busca às raízes. Faz bem, psicologicamente, encontrar raízes, mesmo que simbólicas.

Não tive o mesmo trabalho que Kunta Kinte teve, para procurar raízes. Vali-me de coisas às quais ele não teve acesso. Primeiro, há uma excelente base de dados genealógica da família, perfeitamente documentada. Não precisei ouvir dezenas de relatos de anciãos. Segundo, até o Google Earth sabia onde ficava aquela minúscula cidade às margens do Rio Mosela (Mosel, em alemão ou Moselle, em francês). Esse afluente do Reno serpenteia através da região do Hunsrück, no estado da Renânia-Palatinado (Rheinland-Pfalz), localizado no sudoeste da Alemanha. Serpenteia através de um vale pontilhado por pequenas e belas cidades medievais, às margens do rio, cercadas de parreirais de uva Riesling e caracterizadas pelas igrejas de torres pontudas. Pequenas cantinas familiares, onde predominam os vinhos brancos, espalham-se por toda parte.

Cheguei a Enkirch, na margem direita do Mosela, cidade de 1650 habitantes, sem saber o que procurar, já que tinha em mente a inexistência de parentes, nos dias de hoje. Um bombardeio durante a Segunda Grande Guerra destruíra o cemitério, resumindo as lápides ao pós-guerra. Descobri, no entanto, que a memória genética existe, pelo menos psicologicamente. Bebi da água e do vinho da região, dormi na casa da Frau Haussmann-Kanski, que me fez sentir em casa, conversei com pessoas alegres e amáveis. Provei do schnitzel com batatas, das geléias da região e até de uma curiosa e xaropenta aguardente de morangos. Curiosos, perguntavam-nos sobre a presença de brasileiros por lá, fora da rota turística convencional. Descobri também que o idioma do bisavô Philipp estava guardado, mas não morto. Consegui me comunicar razoavelmente bem, apesar de uma sutil diferença na pronúncia do “ch” como “sch”, que tornava os locais uma espécie de alemães cariocas, chiando. Pequena diferença do dialeto Hunsrückisch. Lá, o estrangeiro que consegue soletrar isso de olhos fechados, em menos de cinco minutos, ganha uma garrafa de aguardente de morangos. Havia um baile de sábado à noite, defronte ao Biergarten onde jantamos. As Polkas e marchas lá tocadas eram as mesmas tocadas nas nossas Oktoberfest. Também lá, o tempo parou.

Deixei Enkirch com a sensação de haver encontrado as raízes de alguma coisa. As raízes de um povo feliz, talvez. Materializei as lembranças, em forma de uma pedra e uma folha de parreira Riesling, que trouxemos na volta. Lembrei-me de Enkirch ao assistir ao programa Menu Confiança, da GNT, no qual o apresentador explora os vinhos de Bernkastel-Kues, apenas uma serpenteada abaixo, no Mosela.

Resta-me descobrir por que são tão felizes, já que eles também têm uma espécie de Senado, a Câmara-Alta.
.
.
.

Marcadores: , , , , , , , , ,