27.10.08

482 - Pardon?


Foto: BBC
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Pardon?

Por Paulo Heuser


Os que têm a sorte de percorrer o sul da França certamente ficam impressionados com a beleza da costa mediterrânea, que se estende desde Garavan, na região provençal dos Alpes Marítimos franceses, na Costa Azul, até Cerbère, nos Pirineus Orientais, junto à fronteira catalã da Espanha, na Costa Vermelha. O mar sempre apresenta coloração azul impressionante, ao longo dessa costa, muito ressaltada pelas pedras brancas. O sol completa o espetáculo, desde as agitadas praias orientais, como Nice e Cap Ferrat, até as aldeias de pescadores do extremo ocidental, como Cerbère. Esta se localiza ao lado da região administrativa francesa de Languedoc-Roussillon, célebre berço do Catarismo, seita religiosa que enfrentou a Igreja Católica e teve seu auge no Século XI.

Os cátaros rejeitaram muitos dos dogmas católicos e se recusaram à conversão. Sua doutrina se fundamentava, entre outras coisas, na crença de que o homem surgia do mal, mas poderia salvar-se mediante uma vida de boas ações. Também rejeitaram o poder papal e a discriminação da mulher na religião. Algo de sua doutrina foi incorporada pela Reforma Protestante. O Papa Inocêncio III, de forma nada inocente, promoveu a Cruzada Albigense – de Albi – e logrou a eliminação da heresia cátara, ao longo de 40 anos de perseguições e queima de fiéis na fogueira.

A região de Languedoc produz, desde muito, boa parte dos vinhos de mesa franceses. São os vinhos que os operários franceses consumiam durante as refeições (Midi-vin), elaborados, em sua maioria, a partir das uvas Aramon e Carignan, consideradas viníferas pobres. Os apreciadores dos vinhos finos das regiões de Bordô e da Borgonha torcem o nariz só de ouvir falar dos vinhos de Languedoc. Estes não são vinhos para aqueles que conseguem identificar traços de cerejas silvestres torradas da Tanzânia, no retrogosto, e aroma de bucha do canhão Berta, no buquê. São vinhos menos sofisticados e bem mais baratos que seus vizinhos de Bordô e da Borgonha.

Nos últimos 30 anos, algo mudou naquela região francesa. Muitos produtores de vinhos passaram a apostar nas uvas Cabernet Sauvignon, Syrah, Chardonnay, Viogner e Grenache, consideradas as melhores viníferas. Os resultados logo apareceram, e hoje há grandes vinhos de Languedoc. Alguns receberam mais de 90 pontos na escala da prestigiosa publicação Wine Spectator, que vai de zero a 100. Esta classe de vinhos – com gradação acima de 90 - certamente agrada aos que sabem reconhecer o aroma da bucha do canhão Berta. Contudo, os apreciadores de bons vinhos continuaram a torcer o nariz para a designação de origem da região de Languedoc-Roussillon.

Alguns produtores de Languedoc apelaram para o bom-humor e a criatividade. Criaram um rótulo realmente inusitado, no qual se lê: Vin de Merde – isso mesmo: Vinho de Merda. Tem até uma mosca no rótulo. Foi um sucesso absoluto, ainda mais por apenas sete reais a garrafa. Os cátaros cometem nova heresia. Só que desta vez ninguém vai queimá-los na fogueira.




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20.7.08

428 - Bonjour, monsieur!

Villefranche-sur-Mer. Foto: Paulo Heuser
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Bonjour, monsieur!

Por Paulo Heuser


Aquele telefone da Sibéria tocou. Ele ficava mudo, horas, dias, semanas e meses. Porém, tocou. Eu nem sabia que ele estava funcionando, pois se calara há muito tempo. Repentinamente, tocou. Eu não percebi logo o toque, pois não estava acostumado com ele. Pensei tratar-se de telefone de vizinho. Mas não, era o meu. Demorei a encontrá-lo. Daí que perdi a chamada. Era do estrangeiro. Fiquei muito preocupado, pois tenho parente no estrangeiro. Seriam más notícias? Para ligarem para aquele número, que nem mesmo eu sei, boa coisa não seria. Perdida a ligação, como saberia?

Liguei para minha parenta. Não havia sido ela. Quem seria? Há golpe do falso seqüestro em outros países, ou é um privilégio daqui? Ele tocou, novamente. Corri para atender. Tarde demais.

Ele tocou às cinco da matina. Cheguei tarde, novamente. Quem raios ligaria às cinco da matina, se não fosse algo realmente importante? Permaneci em semivigília, esperando que o telefone da Sibéria tocasse novamente. Às sete horas, me rendi. Babei direto. A posição de vigília deu lugar à cabeça pendente, escorrendo baba. Acordei a tempo. O estranho telefone tocava novamente. Cheguei a tempo de atendê-lo. Ansioso, gritei alô. Um alô que não conseguia disfarçar a ansiedade. Quem seria, o que seria, por que seria? Só consegui ouvir o “- Bonjour, monsieur”, nada mais. Após, veio o tom de queda da ligação. França, Bélgica, Luxemburgo, Canadá, Guiana, de onde diabos seria?

Revisei minha lista de contatos na França, e reduzi minha lista a apenas uma possível candidata. Uma única pessoa que mora na França. Ela mora em Villefranche-sur-Mer, ao lado de Nice, na Côte D’Azur, antes de se chegar a Mônaco. Um lugar onde devem ter jogado anilina no mar, de tão azul que é. Seria ela? Precisaria de ajuda do Brasil? Ou seria aquele simpático casal de Reims, que um dia me ajudou? Pensando bem, não poderiam ser eles. Ninguém tem o meu número da Sibéria.

Esqueci-me do assunto, até que o telefone da Sibéria tocou novamente, às cinco horas de ontem. É muito elegante ser acordado em francês. Contudo, esperava dormir um pouco mais, especialmente no sábado. Atendi, e ouvi algo mais, dessa vez. “- Bonjour, monsieur, vous avez oublié...”. A ligação caiu novamente. Corri ao meu livro de Francês Para Telefone da Sibéria e descobri que a gentil senhora francófona me avisava de que eu havia esquecido algo. Ficaria grato, se ela me dissesse o que eu havia esquecido, e onde.

De súbito, percebi que eu estava bancando o idiota, coisa que eu faria o tempo todo, segundo minha mulher. O que eu teria a ver com aquilo? Aquela mulher que fosse francofonar com outro. Resolvi ignorar completamente o assunto, até que o telefone da Sibéria tocou novamente. “- Bonjour, monsieur, vous avez oublié votre brosse à dents”. Assim, tudo mudou. Desfrancofonando a frase, descobri que eu havia esquecido minha escova de dentes. Em Mônaco. Graças ao meu dicionário para viajantes, consegui traduzir quase tudo. Escapou apenas uma palavra. O que será Catchiolá?

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