17.8.09

542 - O sagu de Baco

Fonte: Wikipedia
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O sagu de Baco

Paulo Heuser


O Zé não perdia o Menu Confiança, do GNT. Ele imitava “a sotaque” do Claude Troisgros como ninguém. Depois da saída do Renato Machado, do programa, deixou de assisti-lo. Porém, Zé virou um entendido, no bom sentido, em vinhos. Ele domina todo aquele esquema de harmonização, retrogosto e vade retro. Conseguiria enganar até o Robert Parker, especialista da maior revista internacional sobre o assunto, a Wine Spectator.

Aconteceu num sábado. Zé preparava-se para instalar uma prateleira, em casa, quando recebeu o telefonema de um amigo que precisava comprar um vinho para presentear uma pessoa do mais fino bom gosto. Zé avisou-lhe que não sairia muito barato. Vinho desse tipo era caro. Tudo bem, disse o amigo, que tinha muita pressa. Fazer o que, o enólogo televisivo saiu de casa vestido como estava, tênis furado, meias sem elástico, bermuda encardida e camiseta furada no sovaco. Traje de instalador de “partilera de táuba”. Vinho desses se compra nas lojas especializadas, disso o Zé sabia. Lugar fino aquele. Havia até manobrista. No interior, madeiras nobres, por todos os lados. O lugar cheirava a carvalho. A recepção, na entrada da loja, não foi das melhores. Uma moça loira, vestindo um traje impecavelmente cortado, sobre altos escarpins, o olhou, de cima a baixo, e vice-versa, fazendo cara de nojo.

- Pois não? – cara de mais nojo.

- Eu, bem, gostaria de comprar um bom vinho para presentear um amigo de gosto exigente.

- O senhor teria algo em mente? – cara de extremo nojo, talvez porque o dedão do Zé insistia em se insinuar para fora do pé direito do tênis.

Algo explodiu dentro do Zé, além do tênis. Até aquele momento, ele sentiu-se humilhado. A partir de então, transformou-se num vingador dos instaladores de “partileras de táuba”. Fez cara de simplacheirão e mandou:

- Bem, meu amigo gosta muito de sagu, eu queria um bom vinho para fazer sagu.

A cara de nojo transformou-se em cara de espanto. A moça sobre os finos escarpins não acreditava no que estava ouvindo. Como explicar àquele pobre coitado que aquela loja vendia apenas vinhos finos? Tentou.

- Oh, lamento, mas estamos em falta desse tipo de vinho. Talvez o senhor seja melhor servido num supermercado...

- Já tentei – disse ele -, mas somente encontrei argentinos e chilenos, além de miseráveis franceses da Provença, Rhône e Languedoc-Roussillon. Além do que, eu gostaria de surpreendê-lo. Ele já enjoou do sagu de vinhos de Bordô e da Borgonha. Nada de piemontês, também. Pensei em um espanhol, algo de La Rioja, um tempranillo, quem sabe?

A hesitante vendedora o levou até uma prateleira feita em madeiras finas e mostrou-lhe uma garrafa de um Marques de Riscal Reserva, de 2004, de 115 reais. Ele olhou, com visível desdém, e disse:

- Moça, o sujeito é exigente, ele não come qualquer sagu. Não teria um Gran Reserva?

Aparentando não acreditar no que estava acontecendo, ela mostrou-lhe um Riscal Gran Reserva, de 2002, de 230 reais a garrafa. Ele balançou a cabeça, como que avaliando o rótulo, e disse à moça que aquele servia. Ela ainda ofereceu-lhe um Baron Del Chirel Reserva, de 2002, de 400 reais a garrafa. Então, Zé fingiu espanto.

- Olhe moça, aí também já é desperdício. Fazer sagu com um vinho de 400 contos é exagero. Se ainda fosse para um quentão...


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23.12.08

499,9 - Vinálias elétricas

Foto: Desciclopédia
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Vinálias elétricas

Por Paulo Heuser

 

Os antigos habitantes do Lácio – região central da Itália - comemoravam duas datas muito importantes para os apreciadores do vinho. Eram as Vinálias. A Vinália Rústica era comemorada em 19 de agosto e festejava o início da safra, enquanto a Vinália Urbana era comemorada em 23 de abril e festejava o vinho novo. A bebedeira era grande, nas duas comemorações, tanto que as virgens eram vigiadas com extremo cuidado, pelo temor da perda do seu diferencial que lhes permitiria ingressar na ordem das Virgens Vestais.

O vinho novo dos antigos habitantes do Lácio deve ter sido algo um tanto diferente dos vinhos da atualidade. Como me disse recentemente um enólogo, não há vinho ruim, existem propostas diferentes. Por vezes, elas me parecem diferentes demais. Contudo, creio que ele tem razão. Creio também que nos habituamos com determinadas uvas e determinadas técnicas de vinificação e criamos padrões de gosto. Quem se habitua aos vinhos mais complexos e envelhecidos estranha os vinhos muito jovens, pois nestes ainda não ocorreram processos químicos que demandam tempo, sítio e ambiente específicos. Os produtores de vinhos finos pesquisaram, durante séculos, as melhores castas, os melhores solos, as melhores madeiras para pipas e as melhores técnicas para a produção de grandes vinhos. Um bom vinho demanda paciência e arte. Tudo isso afasta a maioria dos potenciais consumidores, pois não basta gostar de vinho, há de se ter como comprá-lo. Creio que nunca me esquecerei da cena que presenciei num supermercado popular, faz alguns anos. Duas senhoras de aparência humilde, que levavam apenas gêneros de primeiríssima necessidade no carrinho, discutiam a exatidão da etiqueta afixada à prateleira de um vinho francês de 600 reais a garrafa. Aquele vinho não pertencia ao mundo delas, nem àquele supermercado.

Firulas à parte, a seção de ciência da Folha de São Paulo traz noticia que dá o que pensar. Os cientistas da Universidade Tecnológica do Sul da China descobriram que se pode apressar o amadurecimento do vinho jovem quando este é submetido a uma corrente elétrica, a partir de eletrodos de titânio. Dão choques no vinho. Isso dá medo. Já posso imaginar um gran cru da Borgonha chinesa, vendido em tetrapac e submetido à eletrocussão. Como serão os rótulos? Életrocuté dans le château chinois – Eletrocutado no castelo chinês? Os pesquisadores chineses afirmam que conseguiram melhorar muito seus vinhos, como direi, de proposta excessivamente diferente. Assim, aproximarão os consumidores menos favorecidos dos vinhos de proposta menos diferente. Não que eu possa comprar os bons vinhos franceses, mas gosto de saber que eles existem.

O que mais temo, é a velocidade vertiginosa da evolução dessas novas técnicas. Hoje, aplicam uma corrente elétrica ao vinho. Amanhã, quem sabe. Aplicarão choques no cliente, enquanto ele bebe o vinho. Just in time. Coisa de administração da produção. E nós, seremos insumos.


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12.6.07

Lembranças Psicóticas

Lembranças Psicóticas

Por Paulo Heuser


Aconteceu em Chalôns-sur-Saône, na Borgonha. Chegamos ao hotel de beira de estrada ao cair da noite, pouco antes das 21 horas. Estacionamento vazio, ninguém à vista. Estaria fechado? Sabia tratar-se de um hotel cuja portaria fecha depois de determinado horário, passando ao atendimento automatizado. Apesar do aparente abandono, a porta abriu-se. Entrei. Meu boa-noite foi respondido pelo resmungo de boca cheia de alguém que jantava, na sala ao lado. Veio mastigando, com o guardanapo ainda enfiado no colarinho. Esfregando as mãos, engoliu, depois sorriu. Sim, havia quarto vago. Todos - pensei cá comigo. Jurei ouvir uma voz abafada de mulher, idosa, vinda da sala de onde ele saíra. Murmurava que não queria... estranhos, seria isso? O chamou de Norton?

Norton perguntou sobre o jantar. Apontou para as máquinas que preparariam o melhor jantar que um autêntico chef de cuisine mecânico poderia preparar, por apenas quatro euros. Poupamos as moedas e apelamos para os sandubas comprados com o cru da Borgonha. A máquina do chef parecia torcer o nariz para as máquinas de refrigerantes e vomititos, ao lado - Le petit vomitite avec cocá-colá.

Esse sujeito me era familiar. Já o vira antes, com certeza. Alias, não só ele, tudo parecia muito familiar, autêntico déjà vu. Dos mais autênticos, pois estávamos na França.

Feita a burocracia, chegamos ao quarto, finalmente. Espartanamente suficiente. Ficamos na extremidade do corredor, o que aumentou a sensação de isolamento. Norton estava a 100 metros de nós, três andares abaixo. Por que nos colocara no terceiro andar de um hotel vazio e sem elevador? O calor sufocante exigiu que ligássemos o ar-condicionado. Aparelho muito silencioso, justiça seja feita. Pena que não funcionava. Saía apenas um ventinho morno. Tentei daqui, tentei dali, e nada. Não saía ar frio. Não houve solução, senão percorrer o longo corredor e descer os lances de escada, atrás do Norton. Cheguei à portaria vazia. Apenas o chef de cuisine automático e seus acompanhantes exóticos estavam parados na entrada. Reparei que havia vomititos sabor de pizza com molho de churrasco. No balcão, tentei um ãmr-ãmr, caprichando no sotaque. Nada. Bati no balcão, assoviei, bati palmas, no melhor estilo “Seu Norton está?”, como eu fazia na infância, quando ia comprar ovos na casa da Dona Ata. Nada. Talvez as palmas sem sotaque não surtissem efeito. Será que o Norton fora embora a pé? Não havia outro carro, quando chegamos, e não parecia haver linha de ônibus que passasse por ali. Norton deveria estar por ali, mas onde? De onde o conhecia? Sem resposta a nenhuma das questões, voltei ao quarto. No caminho, passei por um quarto que não tinha número na porta. Era uma porta lisa. Encostei o ouvido nela. Pude ouvir vozes, havia alguém lá dentro. Uma parecia ser a voz do Norton, a outra, da velha.

Bati de leve, na porta. Bati com mais vontade. Sem resposta, fiz aquilo que não deveríamos fazer, mas fazemos. Abri um pouco a porta. Em meio à penumbra, consegui ver a silhueta do Norton, sentado ao pé da cama. Falava algo à velha deitada. Envergonhado, fechei novamente a porta, sem fazer ruído algum.

Já que estávamos sozinhos mesmo, abri a janela e a porta, deixando o vento passar pelo quarto. Norton não viria até ali. Nada como um banho, antes de me deitar. Fechei a cortina de plástico e me ensaboava, enquanto pensava de onde conheceria o Norton. A lembrança me caiu sobre a cabeça como um piano de cauda cai sobre uma cristaleira. Não era Norton! Era Norman - Norman Bates! Estávamos no Bates Motel! E eu estava no banho...


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