16.1.08

Anphitheatrum Flavium

Foto: Paulo Heuser
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Amphitheatrum Flavium

Por Paulo Heuser


Quem chega a Paris, quer ver a Torre Eiffel, quem chega a Roma, quer ver o Coliseu. Quem chega pelo metrô, descendo na estação Colosseo, sobe ansioso o lance de escadas que leva a Piazza Del Colosseo – Praça do Coliseu. Ao deixar a estação, os turistas vêem o cartão postal de Roma. Está lá, do outro lado da avenida. Lá os temidos motoristas romanos mudam um pouco seu comportamento. Sensibilizam-se com aqueles pobres coitados estrangeiros que insistem em atravessar a Via dei Fori Imperiali sem olhar para os lados. A construção iniciou em 72 d.C., durante o império de Vespasiano e foi concluída em 80 d.C., por Tito.

A vizinhança do Coliseu é tão ou mais fantástica do que o próprio. Do Arco de Constantino ao Foro Romano, cada passo é um mergulho na história. A vista do Foro a partir da Casa das Vestais é impressionante. O Templo de César, o Circo Máximo, o Templo de Saturno, de Antonio e Faustina, o Arco de Tito, tudo está concentrado no centro de Roma. Poderíamos perambular durante meses por ali, sempre descobrindo algo novo, muito velho. Dos arcos externos do Coliseu vê-se o monumento a Vittorio Emanuele II, muito mais recente, mas igualmente impressionante.

Quem viveu a época dos grandes épicos cinematográficos, como eu, lembra-se do Coliseu de Roma como arena de lutas. O povão ficava sentado naquelas arquibancadas, dividido conforme a cor do cartão de crédito, enquanto os leões devoravam cristãos e os gladiadores se matavam na arena. Spartacus (1960) de Stanley Kubrick, com Kirk Douglas, foi um clássico cinematográfico sobre gladiadores. Os gladiadores foram escravos que sonhavam com a liberdade, conseguida após vencerem as lutas no Coliseu. Eram zeros à esquerda que podiam ser alçados ao sucesso, graças ao gládio. Os combates faziam parte da política panis et circensis – pão e circo -, concebida para distrair o povo. Segundo os filmes de época, o destino dos gladiadores incapacitados pelos ferimentos era decidido pelo imperador, que sinalizava ao vencedor após consultar o público presente. Como o público queria mesmo ver sangue, o final era previsível. O Coliseu chegou a abrigar 50 mil espectadores, número muito expressivo até nos dias de hoje. Cinqüenta mil pessoas certamente têm poder de opinião.

Chegamos a 2008 d.C., e o Coliseu ainda está de pé. Meio descascado e faltando alguns pedaços, porém de pé. Alguns sentem estranhas sensações ao percorrer aquelas arquibancadas. Sentem-se parte da história. Ouvem sons vindos de quase dois mil anos atrás. Quem percorre as ruínas do Foro Romano, com seus palácios e templos, tem mais paz. Há menos turistas andando por lá. Na Colina Palatina, local do nascimento de Roma, pode-se ficar quase sozinho. Menos turistas se aventuram por lá, talvez pela ausência de lojas de lembranças ou de cafés. Sentado sobre uma pedra, observando o Circo Máximo, me ocorreu que a história se perpetua. Foram-se as lutas de gládio, proibidas por Constantino I, ficou o Big Brother Brasil, com seus paredões. Se você deseja que o gladiador 1 morra, disque qualquer-coisa-1. Se deseja que o gladiador 2 morra, disque qualquer-outra-coisa-2. Só não deixe ambos viverem. O público não gosta de finais muito felizes, passando a exigir mais pão. Procuro a tecla correspondente ao Foro Romano, no controle remoto, mas não consigo localizá-la.


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22.10.07

Fontana Rossa


Foto: Wikipedia
Fontana Rossa

Por Paulo Heuser


Olho para meu prato e vejo que algo realmente vai mal. Não é de hoje, por sinal. Em Pisa, na Itália, assisti à manifestação pacífica de um grupo de idosos que exigia a Itália para os italianos. – Fora com os estrangeiros! – gritavam eles. Tocavam tambores e discursavam contra a globalização. Referiam-se aos imigrantes, não aos turistas. Quase todo mundo gosta dos turistas que chegam, consomem e partem. Deixam o dinheiro, levam as tralhas. Desconfio que em Veneza, também na Itália, não há mais venezianos. Há apenas turistas e imigrantes. Tornou-se difícil encontrar lá alguém que fale italiano. Ouve-se inglês, japonês, chinês, somali, albanês, árabe, amárico, tigrinya e português. Há duas formas básicas de se diferenciarem os imigrantes dos turistas em Veneza. A primeira diz respeito à bandeira. Tome uma pequena bandeira colorida presa num pedaço de madeira e ande. Todos aqueles que seguirem atrás, são turistas. Não é um teste muito preciso, pois há os turistas independentes, não aderentes aos grupos, e há de se repetir o teste negativo com outras cores de bandeiras. O teste mais preciso é o da cadeia de consumo. É simples: quem consome é turista, quem provê é imigrante. Há um terceiro teste, ainda não homologado. É o teste do olhar abobalhado. Quem olha abobalhado, em todas as direções, é turista. Quem olha fixamente para o bolso do turista, é imigrante. Fácil assim. Câmeras fotográficas também dão alguns indícios quanto à natureza da estada. Ridículos chapéus em forma de guarda-sol com cata-vento também podem identificar, ou um turista japonês, ou um imigrante vendedor de chapéus ridículos. Agora, se alguém não consome nem provê, poderá ser um veneziano autêntico. O último foi visto em 1946.

Já na França, país que torpedeou a constituição européia unificada, há autênticos franceses natos. As mulheres francesas são as de mais fácil identificação. Andam com um cachorro e enfiam os sapatos dentro de sacos plásticos que protegem-nos contra os cocos dos cachorros dos outros franceses natos. Turistas e imigrantes não têm cachorros, salvo raras exceções. A forma como carregam o pão - a baghette – também trai os franceses natos. Eles carregam aquilo com pompa e circunstância. Os imigrantes não comem baghettes. Os turistas carregam baghettes como se carregassem bastões de líderes de torcidas norte-americanas. Há também na França um forte movimento contra os estrangeiros. Os imigrantes ameaçam os empregos inexistentes que pertenceriam aos franceses, caso existissem. Assim, se ainda houvesse emprego de cobrador – substituído pelas máquinas – provavelmente contratariam um imigrante, por salário menor do que aquele percebido por um francês. Coisas da automação e da globalização. Porém, na França há um certo horror dos turistas, também. Pudera, além dos bárbaros germânicos e anglo-saxônicos que pedem cerveja nos cafés, há outros que pedem rodízio de pizza e coca-cola para um autêntico maître francês. Este, por sua vez, transmitirá o pedido ao chef de cuisine – formado pela escola Cordon Bleu –, que mandará os turistas à invenção do Dr. Joseph Ignace Guillotin, respeitado cientista e médico da saúde pública francesa. O aparelho apelidado guilhotina, em sua homenagem, socializou as execuções promovidas durante a revolução francesa. Nada mais de forca para os pobres e machado para os ricos. O chef de cuisine fará uma pequena corruptela da Prece Revolucionária, de 1792: “Repleta teu cesto divino com a cabeça de turistas que bebem coca-cola... Santa Guilhotina, protetora dos patriotas, Rogai por nós. Santa Guilhotina, calafrio dos turistas, Protegei-nos!”.

Da Itália vem agora o protesto da desconhecidíssimo movimento revolucionário anarquista FTM Azionefuturista 2007. Isso parece nome de festival de música de San Remo televisionado pela tv do Berlusconi. O presidente, secretário geral, militante e terrorista de plantão da organização jogou corante vermelho na Fontana di Trevi, uma das principais atrações turísticas de Roma. Fico a imaginar o que aconteceria se alguém jogasse uma daquelas bandeirinhas coloridas, dos guias de turismo, dentro da fonte. Um banho coletivo, com certeza. Fico também a imaginar como um grupo anarquista escolhe seu líder, já que é anarquista. Repudiam toda a hierarquia que não é naturalmente aceita. E qual é? Por isso, os grupos anarquistas tendem a abrigar apenas um militante, o chefe, naturalmente aceito por ele mesmo.

Paciência. Olho para o prato e resolvo comer, antes que o joelho de porco e a polenta brustolata esfriem. Ou que o sushi esquente. Começo a entender o que leva à xenofobia, antes mesmo de derramarem o molho chimichurri sobre tudo.


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10.7.07

Travessia pelas trevas


Travessia pelas trevas

Por Paulo Heuser


O guia de turismo Lonely Planet, sobre a Itália, diz textualmente que somente um louco destemido deve se aventurar a dirigir em Roma. Esse guia, e outras fontes semelhantes, dão suas razões:

Os romanos convergem sem ligar as setas de direção;

Não respeitam a distância mínima do veículo que vai à frente;

Não respeitam faixas para pedestres;

Nem sempre respeitam as vias preferenciais;

Fecham os veículos que ultrapassam;

Buzinam e xingam Deus e a mãe;

Andam em ziguezague;

Excedem a velocidade permitida;

Não respeitam a sinalização de tráfego;

Estacionam onde não é permitido;

O autêntico motorista romano desconhece os espelhos retrovisores.

Ou seja, lá nos sentimos em casa! Voltamos ao aconchego do nosso trânsito. Os romanos também devem sentir-se em casa, quando dirigem por aqui - Sto a casa!. Estranharão os xingamentos, com certeza. Aqui são menos religiosos. Estranharão outro aspecto onde nossos esquemas de trânsito diferem.

O mesmo guia Lonely Planet dá dicas aos loucos que, mesmo avisados, insistem em dirigir na Cidade Eterna, com seus eternos congestionamentos. O guia estabelece uma regra básica para sair vivo de Roma: estabelecer contato visual com o motorista ou com o pedestre. Como princípio, não param nas faixas de pedestre, principalmente para pessoas idosas, inválidos, crianças ou mulheres grávidas. Na França se vê mulheres com carrinhos de bebê atravessando na faixa de pedestres sem olhar para os lados, em sinal de profunda crença nas instituições.
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Voltando à Itália, há uma espécie de código paralelo de trânsito, que estabelece a preferência mediante troca de olhares. O pedestre pode aventurar-se na faixa desde que consiga olhar diretamente para os olhos do motorista, olho no olho. Por incrível que pareça, funciona. Eles param, quando encarados. Funciona também entre veículos, nos cruzamentos. Quem olhar primeiro, tem a preferência, por uma minúscula fração de tempo. Por isso, nunca tente olhar ao mesmo tempo, dá colisão. Como acontece com todas as regras tácitas, não se deve acreditar piamente nelas. Porém, nunca tente atravessar a rua em Roma sem olhar diretamente para os motoristas. Eles não perdoam tal falta de conhecimento das regras de etiqueta viária. Por via das dúvidas, atravesse quando não vier veículo algum e prefira andar de metro ou o trem, nos quais não é necessário encarar o condutor.

Um romano não atravessaria ruas movimentadas por aqui. Ficaria horas tentando encarar os motoristas escondidos por detrás dos vidros escuros.
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