22.12.08

499,8 - Uma outra crônica de Natal

Foto: Paulo Heuser
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Outra crônica de Natal

Por Paulo Heuser

 

Eu não poderia deixar de escrever algo sobre o Natal. Não é a primeira vez que o faço. Portanto, devo evitar as eternas repetições. É óbvio que desejo um feliz Natal a todos, etc. Ainda mais eu, que vim de uma família que sempre cultuou o Natal. Herdamos a cultura dos nossos ancestrais que emigraram da Renânia e da Pomerânia, ambas no antigo Reino da Prússia. Deles herdamos o costume de enfeitar uma Árvore de Natal – Tannenbaum. Herdamos também o costume de montar o Presépio sob a árvore. Também não deixamos de preparar a bole, bebida feita a partir de frutas, vinho e espumante, de aparência inocente, própria para alegrar senhoras idosas incautas. A cultura do Natal nos é muito forte, desde os nossos obscuros ascendentes celtas, passando pelos católicos romanos até o Século XV, até os luteranos, a partir de então.

Confesso que não me encaixo muito bem no cenário moderno do Natal. O Natal de hoje é um espetáculo de vendas que inicia em janeiro e termina em dezembro, para recomeçar em janeiro, bem entendido. Graças à tecnologia, os pinheiros naturais vêm sendo poupados, dando lugar aos modernos Tannen-e-baum – árvores eletrônicas artificiais que dançam e tocam, da rumba à lambada tecno. O Natal daqui é algo semelhante ao Carnaval de lá. Há Carnaval de Páscoa, Carnaval de Natal, Carnaval de Finados e, até, Carnaval de Carnaval. O importante tornou-se a venda, seja lá do que for. Cheguei a acreditar no Papai Noel, confesso. Só vim descobrir que ele era produto da Coca-Cola – marca registrada – depois de muitos anos. Quem bolou aquela campanha deveria receber o Nobel Vitalício de Marketing.

O que somente confessei à analista, até agora, é que não fui às compras no novo shopping. Creio que ela não acreditou, apenas fingiu. Pior, não fui aos novos cinemas, com poltronas revestidas de couro, onde servem baldes de pipocas do tamanho de uma betoneira. Assim, perdi a pré-estréia do filme Rudolf II – a Vingança da Rena Assassina do Nariz de Sangue. Não ir ao novo shopping é como deixar de fumar. Os três primeiros dias são os piores. Depois, é só administrar a vitória diária. Olho-me no espelho e digo, convicto, que não irei ao shopping hoje. Hoje, não falo do amanhã, pois este ainda não chegou. Chegará manhã. Então, será hoje.

Até quando resistirei, não sei. Porém, sentir-me-ei seguro enquanto me lembrar do cheiro verde do Tannenaum montado na sala de estar da casa da família.

 

 

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28.11.08

495 - Do primeiro Boombzeer ninguém se esquece

Foto: Paulo Heuser
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Do primeiro Boombzeer ninguém se esquece

Por Paulo Heuser


- Benhê?

- O que foi, Benzinho?

- Benhê, você já pensou no seu presente de Natal?

- Ah, não, Benzinho. Você sabe que eu não sou muito ligado nesse troca-troca de presentes. O que vale mais é a companhia, a paz e aquela atmosfera com cheiro de pinheiro...

- Cheiro? Aquele pinheiro artificial fede a mofo, Benhê!

- Que seja, eu gosto mesmo assim.

- Ah, vai Benhê, pede alguma coisa, qualquer coisa.

- Sei lá, eu não preciso de nada agora...

- Vai Benhê! Pede qualquer coisa!

- Tá bom, um par de meias.

- Meias, de novo? Já estou cheia de lhe dar meias! Peça outra coisa, vai!

- Meias são qualquer coisa. Mas se é para contentá-la, tudo bem, pode ser uma furadeira nova.

- Outra furadeira? Eu já lhe dei três, pelo menos. Peça outra coisa, qualquer coisa.

- Tá bom, um quadro então.

- Quadro? Para o que você quer um quadro?

- Para fazer um furo na parede, para pendurá-lo. Assim poderei usar uma das três furadeiras que ganhei nos últimos Natais.

- Tá bom, eu pintarei meu auto-retrato, assim você poderá usar a furadeira.

- Ótimo, Benzinho!

- Benhê, você não vai me perguntar sobre o que eu quero ganhar do Papai Noel?

- Claro, Benzinho, o que você quer ganhar?

- Eu quero um Boombzeer...

- Bomba o quê?

- Não é bomba, Benzinho, é Boombzeer! B-u-m-b-z-i-r.

- O que é isso?

- Bem, o que é, eu não sei, mas todas minhas amigas disseram que ele é inesquecível.

- Ora, ligue e lhes pergunte o que é o tal de, como é mesmo?

- Boombzeer, Benhê, Boombzeer!

Intervalo para a ligação.

- E aí, Benzinho, descobriu?

- Não, nenhuma delas sabe, pois ainda não o ganharam. Mas foram unânimes em dizer que umas disseram às outras que ele é inesquecível!

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23.6.08

416 - Prazerosamente congelados

Foto: Paulo Heuser
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Prazerosamente congelados

Por Paulo Heuser


A racionalidade do ser humano é posta à prova em cada mudança de estação. Sabemos que, quando o inverno chega, esfria. Sempre foi assim. Pode mudar no futuro, mas o clima esfria no inverno e esquenta no verão. Contudo, todos parecem surpreendidos pelo frio. Quando os termômetros baixam dos 15 graus Celsius, começa a choradeira, como se os termômetros marcassem 15 Kelvin (-258 Cº). Cada inverno parece mais frio que os anteriores. Pelo menos, é o que dizem.

Num ponto parece que há unanimidade, quando o assunto é clima: todos parecem querer fugir do frio, na direção do calor. Os brasileiros sonham em morar no Nordeste, depois da aposentadoria. Querem morar onde há muito sol e calor. Deixarão o fio e a umidade para trás. Secarão o reumatismo ao sol.

Os europeus, que sofrem muito mais com o frio, fazem a mesma coisa, fogem do frio. Quem lucra com isso, são os países do Mediterrâneo. A cidade litorânea de Rimini, na Emiglia-Romana, costa adriática da Itália, é conhecida como “forno de microondas dos alemães”, que correm para lá e ficam cozinhando ao sol. As longas praias de areia, bem mais baratas do que as do outro lado da bota, na Costa Ligure do Mar Tirreno, enchem-se de alvos alemães, que não vêem a hora de se transformarem em algo com cor de lagosta cozida. Com bolhas, muitas bolhas. Faz bem, para o câncer de pele. Eles deixam para trás suas casas bolorentas e mal ventiladas, lagarteiam de dia e fazem farra à noite.

Até aqui, tudo parece bem racional, tirando a exposição ao sol de verão. O que mais me espanta, aqui, é a migração para a Serra, durante o auge do inverno, daqueles que se queixam tanto do frio. Um tanto de frio, aqui é ruim, lá é pouco. Vão curtir um friozinho, como dizem. É exatamente aí que começa a irracionalidade. Se sonham tanto com o calor, por que vão para o frio? Alguns dizem que vão pela sensação do aconchego proporcionado pelo frio. Procuram temperaturas extremamente baixas. Qualquer coisa acima de zero leva à frustração. Dançam de alegria, quando neva ou chove gelo. Inclusive aqueles que chegam nos ônibus de farofeiros, trajando camisa regata, bermudas e chapéu sombreiro. Basta que os informativos meteorológicos anunciem baixas temperaturas na Serra, para que os hotéis da região lotem.

Os restaurantes que servem pratos fumegantes, ao lado das lareiras, também fumegantes, são os preferidos pelos que querem curtir o frio. Os jantares estendem-se à espera da neve, que eventualmente cai. Tudo envolto pela atmosfera romântica, em meio à iluminação em tons quentes. Entendo o conceito, e concordo que é muito prazeroso passar bons momentos naquele clima, desde que ele fique do lado de fora.

O Bira Louco entende menos ainda, por que alguém pagaria para ser levado a um lugar ainda mais frio. Andando pela praça, meio torto, de sandálias havaianas amarelas e casaco de tricô colorido, ele tem certeza de que trocaria sua marquise daqui por alguma de Fortaleza, Natal, ou Rimini, se tivesse algum dinheiro. O que ele não sabe, é que aqueles que se divertem com o frio são os que podem pagar por ele. De graça, só sofrimento!

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18.3.08

Telequaresma



Bacalhau - Wikipedia


Telequaresma

Por Paulo Heuser


Mateus foi educado em Chattanooga, Tennessee, capital mundial da gagueira. Uma conseqüência óbvia da educação naquele país foi o empreendedorismo que tomou conta dele. A volta ao País foi triunfal, de canudo na mão, com MBA, MSC, PHD, MHO, CIF, AVC, FXU e VUE. Mateus desprezou ofertas de emprego dos mais respeitados conglomerados econômicos daqui e de lá. O rapaz era um empreendedor nato.

Empreendimentos bem sucedidos requerem pesquisa de mercado, coisa que Mateus tinha bem em mente. Outra coisa que ele aprendeu lá em Chattanooga, durante seu AVC em Marketing, foi que o maior inimigo de um empreendimento pode ser a cultura de povo. Muitos empreendedores fracassaram ao desprezar a tradição local. Os estudantes passam anos comendo Garbagys – salgadinhos de litotripsina transanodisada ß -, lá em Chattanooga, e depois tentam vendê-los aqui. O pessoal daqui prefere torresminho, amendoim ou caju. Um colega nipônico lançou sashimi de peru, marca Tencsguiven, no Japão, fracassando igualmente.

Mark Hethero foi o orientador do FXU do Mateus, que defendeu a dissertação A destruição sistêmica das tradições culturais enraigadas como ferramenta mercadológica alavancadora para a estruturação de nichos estratificados dos mercados globalizados nas comunidades neoceltas autônomas. Mateus provou que seria possível fazer com que os escoceses trocassem seus tradicionais kilts – saiotes xadrez – por calças em padrões florais, desde que convencidos de que seus testículos emanavam o gás CO2, causador do efeito estufa. Calças florais fariam a absorção imediata do gás.

Mateus já havia percebido, na prática, o que aprendera na teoria. Para destruir uma cultura era necessário começar por baixo, ou seja, pelas crianças. Elas ainda não internalizaram alguns comportamentos culturais, mantendo-se mais volúveis. Dessa forma um egresso de Chattanooga conseguiu tornar simples hambúrgueres no sonho de consumo de todas as crianças, bastando acrescentar brinquedos e embalagens diferenciadas. À medida que cresciam, as crianças transformaram-se em jovens, e estes em adultos que passaram a levar seus filhos para o templo dos hambúrgueres com embalagens diferenciadas. Estabeleceu-se o círculo vicioso.

A cultura local já estava toda desvirtuada. O marketing já havia transformado o Carnaval em festa de peão boiadeiro. O Natal virou um festival de vendas. O Greenpeace protestou contra a venda de ovos de chocolate da Páscoa, talvez temeroso de que os coelhos entrassem em extinção. Nenhum evento escapou da ação dos novos vendilhões do templo. Até a Sexta-Feira Santa, ou da Paixão, foi desvirtuada, mesmo não sendo uma efeméride festiva, muito antes pelo contrário. O dia de jejum e da abstinência transformou-se em data para refestelarem-se em orgias gastronômicas. Mateus percebeu a oportunidade apresentada pela mudança de hábito quando tentou comprar bacalhau na semana da Páscoa. Uma multidão impressionante invadia o mercado, engalfinhando-se em luta corpórea atrás dos peixes para qualquer gosto ou desgosto. Uma senhora que exigia peixe fresco, ao lado dos viveiros montados do lado de fora, acabou levando uma traíra viva, que se apressou em devorar a sacola, debatendo-se pela rua.

Mateus criou um novo produto, aproveitando a oportunidade: a Telequaresma. Ele vende kits para a Sexta-Feira, através de tele-entrega. Entrega caixas com conteúdos a escolha do freguês, inclusive o Abstinência Plus, contendo pão e água da bica. É o mais caro de todos.

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26.12.07

O ciclo da vida

Foto: Paulo Heuser
O ciclo da vida

Por Paulo Heuser


Passado mais um Natal, aproxima-se celeremente o Ano Novo. Henri Poincaré e Albert Einstein fritaram neurônios, concluindo que o tempo passa de forma diferente conforme a posição e a velocidade do observador. O tempo passa mais lentamente para quem está em maior velocidade em relação ao observador imóvel ou viajando em menor velocidade. O fenômeno passa a ser bem perceptível a partir de uma velocidade de dois terços da velocidade da luz. Nada que possa atrapalhar quem anda na freeway ou nas nossas ruas. Toda essa teoria está bem embasada, matematicamente, e provada experimentalmente, apesar das constantes tentativas de derrubá-la.

Todos já fomos crianças. Se não fomos, somos. A chegada do mês de dezembro altera de forma importante a vida das crianças. Vai-se a escola e aproxima-se o Natal. Dane-se o Ano Novo, o importante é o Natal. Por uma razão qualquer, que nem Poincaré nem Einstein conseguiram explicar, o tempo passa de forma diferente para as crianças. Pode ter algo a ver com o fato de elas estarem permanentemente em movimento, em alta velocidade. O tempo se arrasta quando esperam por algo e acelera violentamente quando estão a fazer algo que lhes agrada. O mês de dezembro não passa, pelo menos para as crianças afortunadas. Para as outras, tanto faz, pois o Natal é um dia como qualquer outro. Aquelas que terão um Natal com festa e presentes ficam na expectativa da chegada do dia. A situação piora quando entram em férias escolares, pois passam o dia contando cada segundo. O Tempo Atômico Internacional definiu um segundo como sendo nove bilhões e uns cacarecos vezes o período da luz emitida pelo isótopo 133 do Césio, no nível fundamental, passando do nível hiperfino F=4 para F=3, dado pela média de diversos relógios atômicos. Coisa simples, portanto. Porém, não há relógio atômico que meça a elasticidade temporal percebida pelas crianças. O isótopo 133 do Césio parece decair mais lentamente, cada vez mais lentamente, tendendo à aparente estabilidade quando a data tende ao dia 24 de dezembro. Aí pelo final da tarde desse dia o segundo parece alongar-se indefinidamente, como se o ponteiro fosse colado com chiclete ao mostrador. Matematicamente, Poincaré escreveria que o limite da duração do segundo, quando a hora tende ao momento da abertura dos presentes, é mais infinito. O tique-taque do relógio torna-se pastoso, com um tique aqui, um taque lá adiante, muito adiante, após o horizonte. Tudo parece voltar ao normal quando se abrem os presentes. Os tiques e os taques unem-se novamente e retornam à sua marcha inexorável em direção ao próximo dezembro.

O isótopo 133 do Césio se comporta de forma bem diferente para quem já deixou de ser criança. Mal deixamos de ver Papais-Noéis pendurados por todo o lado, já surgem os próximos, do próximo Natal. Quando o som de Jingle Bells começa a se desvanecer, volta com tudo, enchendo o ar com variantes nos mais diversos e impensáveis ritmos. Os adultos descobrem que já é Natal, novamente. Poincaré escreveria que o limite da duração do segundo, quando a hora tende ao momento da abertura dos presentes, é zero. Parece que o ponteiro dos segundos gira loucamente. Para os adultos a passagem do Natal anuncia a aproximação do Ano Novo, hora de purgar o passado e apostar tudo no futuro. Dia da remissão, das promessas e das esperanças. Afinal, no próximo ano tudo será diferente. Depois vem o Carnaval, e assim por diante, cada vez mais rápido. Fecha-se o ciclo da vida.

O que fazer? Ora, comemorar. Rápido, pois o próximo Natal já se avizinha.


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13.12.07

A invasão do mendigo

Foto: Paulo Heuser

A invasão do mendigo

Por Paulo Heuser


Pedro acordou sobressaltado. Acordou com a sensação de ter ouvido um ruído estranho, como um baque surdo. – Droga! – disse para si mesmo, já que Rita dormia em sono tão profundo como a Fossa das Filipinas. Ele esquecera-se novamente da garrafa pet de guaraná no frízer? Lembrou-se da última vez em que ouvira os ecos daquele baque surdo. Um petardo de guaraná explodiu, ao congelar, abriu a porta do frízer e espalhou meleca por todos os lados. Meio a contragosto, levantou-se para verificar os novos estragos. Foi com certa surpresa que parou diante do frízer fechado. Abriu a porta com cuidado. Nada de guaraná, nem inteiro, nem explodido. Acreditando ter sonhado com algo que provocara aquele ruído, retornou para a cama.

- Que foi, bem? – perguntou-lhe Rita, em meio à escuridão.

- Não sei, bem. Acordei com a sensação de haver ouvido em estrondo.

- Pensando bem, meu amor, também tive essa impressão. – disse ela, enquanto sentava-se na cama. – Vou beber água e darei uma checada em tudo. Pode ter sido o vento, fechando uma janela.

Exatos treze segundos depois, enfiava-se debaixo do lençol, cutucando o novamente adormecido Pedro. Cochichava quase aos gritos:

- Pedro, tem um mendigo pavoroso na sala!

Pedro acordou dando socos no ar, naquele estado em que consciente e inconsciente travam imensa batalha pelo controle da mente.

- Umpf! Gasph! O que foi?

- Pedro, tem um mendigo pavoroso na sala!

- Você sonhou, meu bem. Torne a dormir...

- Vá lá e olhe você mesmo! – cochichou ela, novamente aos berros.

- Ok, calma. Se for para tranqüilizá-la, eu vou.

Novos treze segundos decorreram, até que ele a encontrou sob o lençol da cama. Foi a vez dele, cochichar em pânico:

- Tem mesmo, bem. Eu vi!

- E agora, bem?

- Dê-me o telefone!

O teclado iluminado ajudou Pedro a discar o número de emergência, na memória nove.

Após muitos tututús de ocupado, uma voz distante atendeu:

- Pois não?

- Socorro, há um mendigo pavoroso na minha sala! Mandem alguém, urgente!

- O que ele está fazendo aí? - disse a voz calma.

- Não sei, estou escondido no meu quarto!

- O senhor deixou que ele entrasse?

- Não, não sei como ele entrou, pois o alarme não disparou e os cachorros não latiram!

- Entendo, senhor. Procure manter a calma e espere a chegada da viatura que chegara aí em, vejamos, 58 minutos, se não ocorrer outro chamado mais urgente.
- O que pode ser mais urgente do que isso?

- Bem, senhor, se o mendigo pavoroso estivesse com o senhor, no seu quarto, poderia ser bem pior.

Pedro aproveitou a espera para rastejar até o quarto do Pedrinho, ao lado. Pegou o menino adormecido no colo e retornou silenciosamente ao seu quarto. Passaram a ser três sob os lençóis, dois adultos apavorados e um menino dormindo.

O aparente silêncio foi rompido pela algazarra dos cães. O giroflex da viatura provocava efeitos luminosos de azul e vermelho. A porta da frente veio a baixo, pedalada pelo agente Rambo, que de pronto metralhou o criado mudo onde penduravam capas e chapéus.

- Chefe, estamos no local da invasão de domicílio. Encontramos um sujeito que diz ser o Papai Noel. Parecido, até que ele é. Vamos levá-lo ao plantão.

Pedrinho entrou na sala, acordado pelo barulho da confusão, e viu aquele velho parado no meio da sala, com as mãos para cima. Deu uma olhada dentro do saco que jazia ao lado do homem e sentenciou:

- É fajuto, é fajuto!

- Como você sabe? – perguntou-lhe o agente Rambo.

- Ora, aí só tem bonecas, bolas e carrinhos de brinquedo. Qualquer babaca sabe que as crianças não brincam mais!

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3.12.07

O mês da azia


O mês da azia

Por Paulo Heuser


Ah, dezembro, dezembro... Mês de alegria, do Papai Noel, do bate o sino pequenino até não agüentar mais, dos shoppings lotados e das festas de fim de ano. Mês dos amigos secretos, ou ocultos, conforme regionalismos. Ultimamente estamos mais para os inimigos ocultos, revelados diariamente pelos jornais. Mas, tudo bem. Vamos preservar o espírito da festa.

Das mais singelas festinhas de fim de expediente, no escritório, até os autênticos bailes nos salões de sociedade, aqueles que têm algo em comum, reúnem-se para a confraternização. Há a turma do escritório, a do vôlei, a da confraria dos circuncisados carecas, etc. Os líderes de qualquer ajuntamento humano devem promover festas de fim de ano, o que acaba causando inevitáveis conflitos nas agendas. Sempre ocorrem sobreposições, como aquela das festas da pet shop da tartaruga com a do desentupidor de fossa séptica. Fossa séptica é mais elegante que apenas fossa. Afinal, é séptica. Alguns têm a habilidade natural para conseguirem passar em todas as festas. Come um doguinho com pasteizinhos aqui, uma pizza ali e um churrasco acolá. Do café da manhã à ceia, estão ocupados durante todo o mês. Já há grupos agendando confraternizações nos domingos à noite, por falta de outra opção.

No estado em que o churrasco é o prato símbolo da culinária local, é normal que seja também o cardápio preferido das festividades de fim de ano. Tipicamente, o pessoal se reúne para um café da manhã com algo frito, numa manhã de sexta-feira de dezembro, promoção da associação dos contínuos do prédio. Ao meio-dia, tem o encontro na churrascaria próxima, que já está lotada com grupos de outras empresas. Carne gorda e uma cervejinha. Após a sobremesa, correm de volta ao escritório, pois a confraria das secretárias lituanas organizou uma troca de presentes de amigo secreto, regada a coca-cola e risoles de frango. À noite, vem o ponto alto do dia, por mais estranho que isso possa soar. Grande churrascada na casa do colega que gosta de assar touro no rolete. Começa a assar três dias antes do evento, terminando três dias depois do evento. Porém, não faltam pão e saladas, levados pelos convivas. Ops, me esqueci do happy hour do fornecedor de risoles para a festa das secretárias lituanas.

O sábado de dezembro inicia com um brunch – aquela coisa indefinida, entre café da manhã e almoço – às nove horas, na sede campestre da Sociedade Cultural, Desportiva e Beneficente da Liga das Senhoras Balonistas, promovido pela Confraria do Chucrute - Venha flutuar conosco! - dizem elas. Após todos aqueles pratos de variações de chucrute, hora do almoço promovido pelo pessoal do escritório da mulher, na casa do chefe. O patrão dela faz questão de assar a carne. Faz questão apenas do serviço, já que a despesa é rachada entre os funcionários e seus familiares. Como o patrão é exímio assador, e muito amigo de um importante açougueiro que só vende carne para gente importante, é ele quem escolhe a carne. Escolhe picanhas de terneiros precoces que se alimentaram apenas de mamão tailandês e patê de fígado de ganso da Normandia. Coisa finíssima. O chefe mantém em segredo a receita do tempero da carne. Ele mergulha a pobre picanha em uma mistura de molho de soja, óleo de gergelim, gengibre, vinagre balsâmico, açúcar, cravo e canela. - Nada de sal, pois ele desidrata o bicho - diz ele. A vantagem de ser chefe é essa. Ninguém reclama, nem faz careta. Engolem aquela coisa em meio aos mais sinceros elogios de crocodilo, enquanto bebem do pavoroso vinho que o chefe comprou de um sujeito que fabrica vinho bento. Não, não é em Bento. É bento, mesmo. Como o chefe gosta de elogios e de companhia, alonga o almoço até as 16 horas, quando todos correm para a casa de chá onde o pessoal da canastra das quintas-feiras realiza outro amigo secreto. Como ninguém é de ferro, e chá enferruja, rola solta a cerveja. Para beliscar, torta de morangos, merengue e nata light, feita de soja (ugh!).

Blurp! Tempo de passar na ducha para não perder a hora do grande evento, até então, a festa da empresa. Outro grande churrasco, preparado por uma equipe que iniciou os trabalhos ao meio-dia. Isto é, a hora em que abriram a primeira cerveja. Lá pelas 10 da noite começam a servir as duas opções de carne: costela crua ou maminha torrada. Vivas para a salada e o pão!

O pior do sábado, é que ele é seguido pelo domingo. E no domingo vale tudo, já que todos descansaram bastante no sábado. Portanto, o café da manhã no Sítio da Vovó Perneta começa bem cedo, com cucas recém assadas, omelete com bacon e sonhos delirantes de nata com coalho. A criançada, mais inteligente, dorme à sombra, enquanto papais e mamães são levados às atividades campeiras, pelas esforçadas recreacionistas. Ao meio-dia, novo churrasco. Dezesseis horas, hora de fugir rápido, pois o café colonial será servido no aconchegante restaurante para 700 convivas. Mais cucas, geléias, tortas, bolinhos fritos, lingüiças e qualquer outra coisa frita. – Blurp duplo, triplo! Jantar na associação dos Confrades Unidos das Confrarias Independentes Unidas. Churrasco! Que surpresa!

O melhor no domingo de dezembro é que existem apenas quatro, usualmente. Com algum esforço dos promotores de festa, poderão ser em número de seis ou sete. Haja azia!

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25.9.07

Ele voltou


Foto: Paulo Heuser
Ele voltou

Por Paulo Heuser


As frutas sazonais tinham outro sabor. Bergamotas, laranjas, morangos, uvas, melancias, todas tinham época. Foi-se a época em que havia época. As temporadas estendem-se até não haver mais interrupção. Comem-se uvas e morango durante todo o ano. As bergamotas ainda resistem à perenidade. As verdadeiras caducam. A disponibilidade de quase que qualquer tipo de frutas, o ano todo, tirou a graça de comê-las no início das temporadas. Os primeiros morangos eram vistos como tesouros. Encontráveis em cada esquina de avenida, durante meses a fio, perderam seu encanto. Aliás, a grande oferta tira o valor de qualquer coisa. Enjoamos delas.

Quem me incomoda mesmo, pelo excesso de disponibilidade, é o Papai Noel. Ouvia-se falar nele no Advento. Antes disso, e depois, só no sonho. E naquelas frases que os adultos usavam para ameaçar as crianças que já não acreditavam nele. Pois o Natal voltou, em pleno setembro. E veio com as tradicionais previsões de recordes de vendas. Junto com ele virão eternas músicas que encherão nossos ouvidos, até a exaustão. Dos mercados aos celulares, Jingle Bells e Noite Feliz ecoarão por toda parte. O sino pequenino triturará os nervos de todos, em Belém e aqui. Ontem ouvi o papo de duas pessoas que falavam da necessidade de organizarem a primeira festa de Natal da temporada, com amigos secretos, ocultos e tudo mais. A primeira, bem entendido.

Talvez seja a hora de inovar. Li um artigo que anunciava as cores do próximo Natal. Tons cítricos. Quem sabe teremos Papais Noéis vestidos de verde limão? É uma boa forma para se obrigar os entusiastas dos bonecos de sacada a trocá-los por novos. Afinal, Papais Noéis vestidos de vermelho estarão definitivamente fora de moda. Coisas de outros Natais. Poderão até guardá-los, para uso futuro, pois a moda volta. Em 2013 poderão voltar, após os amarelos, azuis e lilases. Talvez barbeados e calvos. Nada de barriga, também. Os Papais Noéis serão sarados e trocarão aqueles antiquados óculos de aros redondos pelos novos modelos italianos com hastes retas, após as orelhas. Moda é moda, mas que parecem quitandeiros com lápis em cada orelha, isso parecem.

As árvores de Natal da nova estação serão despojadas, evitando-se o uso do plástico. Nas roupas dos festeiros aparecerão o cinza e o branco. Isso me dá idéias. Sabe-se que as lojas de um e 99 compram estoques de elementos de decoração em verde e vermelho, cujos excedentes são vendidos antes do Carnaval. O que era guirlanda de Natal vira adereço de Carnaval. È uma reciclagem alegórica. Daí talvez venha a idéia dos tons cítricos. Têm mais a ver com as festas pagãs. Como o Papai Noel já é elemento pagão mesmo, poderíamos unificá-lo com os pierrôs. Às canções de Natal juntar-se-iam quadrilhas de rodeio, axé dance, e outras manifestações regionais. A festa começaria em setembro e continuaria até março. Ou melhor, continuaria pelo resto do ano, com as micaretas. Os Papais Noéis de rua poderiam adotar trajes mais arejados, como bermudas e camisetas, ensinando performances de mararena às criancinhas que prometeram estudar com afinco. No fundo, Noeletes fariam as vezes de dançarinas de corpo de dança, executando a dança do siri. Em meio às palmeiras artificiais decoradas com cocos coloridos.

O coelho da Páscoa? Por que não? Adentraremos abril! O Papai Noel tradicional combina bem com a Oktoberfest. Basta vesti-lo de bávaro, mesmo que seja com um chapéu verde-limão. Perenizamos o clima de festa. Qual das festas? Ora, todas, pois realmente não dá para se engolir um Papai Noel em setembro. Nem em outubro.
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