5.3.09

507 - O Terceiro Reinado

Foto: Wikipedia
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O Terceiro Reinado

Por Paulo Heuser


Contam que esta ocorreu na Praça da Alfândega. Em meio àqueles grupos que lá se reúnem, para trocarem conversa fiada, havia verdadeira indignação com o desempenho dos parlamentares do País. A gota d’água foi a eleição do ex-presidente Collor para a presidência da Comissão de Infra-estrutura do Senado. Escaparam da Rainha das ONGs para caírem nas mãos do Caçador de Marajás. Ao cair da noite, no Bar do Jacó, o grupo se reuniu para a hora feliz, e o assunto foi o mesmo. Lá pelas tantas, o Tonhão traduziu o pensamento geral:

- A culpa é do Congresso!

O assentimento foi geral. Até o Perninha rompeu o seu folclórico silêncio e anuiu:

- É verdade!

Tonhão foi além e concluiu:

- A culpa não é somente do Congresso e sim do sistema de governo. Esta república presidencialista dá nisso!

Estabeleceu-se acalorada discussão a respeito da melhor forma de governo. Os parlamentaristas foram arrasados pelo argumento da similaridade entre congresso e parlamento. No fundo, seria a mesma coisa.

- Fazer o quê? – Tonhão soltou um imenso suspiro enquanto fazia sinal ao Jacó para que trouxesse outra cerveja.

- Monarquia! – exclamou Mortiço.

A reação dos demais não foi instantânea, talvez pela surpresa. Ficaram alguns instantes a remoer aquela palavra.

- Isso é coisa de país de velho! – exclamou Tonhão. E sempre tem o parlamento que...

- Monarquia totalitarista! – interrompeu Mortiço.

Novo silêncio. Após digerirem a idéia, e o picadinho trazido pelo Jacó, a maioria começou a vê-la com simpatia, mas não tiveram coragem para concordar.

- Com rei que manda em tudo, pode tudo, quando quer e como quer? – perguntou Tonhão, enquanto polia o caroço de uma azeitona magra.

- É, com rei déspota e totalitarista. Nada pode ser pior que isso que está posto. Vá lá, pode ter um Conselho Real, dos mais chegados, para darem uns pitacos.

- Onde encontraríamos alguém tão brilhante, íntegro e nobre a ponto de se tornar rei?

- Basta um idiota que possa ser mandado pelo Conselho Real. – disse Mortiço.

- O Nestor! – sugeriu Perninha – Ele se referia ao mendigo de plantão da Praça da Alfândega, que caiu nessa vida após ter investido todas as economias da vida em linhas telefônicas para aluguel. Com a queda do monopólio estatal, Nestor viu-se na miséria e ficou desmiolado. Suas frases mais complexas se resumiam a “uh” e “hum”.

Quando Jacó expulsou todos, às 21 horas, já havia ocorrido o Baile do Bar do Jacó – versão inversa do Baile da Ilha Fiscal de 9 de novembro de 1889. Em vez dos 800 kg de camarão, consumiram 800 g de mortadela; em vez das 1200 latas de aspargos, consumiram dois vidros de pepinos; em vez dos 10000 litros de cerveja, bem, consumiram 10000 litros de cerveja; em vez de marcarem o fim do Segundo Reinado, o de D. Pedro II, marcaram o início do Terceiro Reinado, o de Nestor I, o Idiota.

Nestor I, o Idiota, adorou a idéia. Passou de mendigo a rei, e as reuniões com o Conselho Real passaram e ocorrer no Bar do Jacó, rebatizado Palácio Real. A notícia espalhou-se, de bar em bar, e logo o Reino da Alfândega incorporou o Mercado Público e o resto do Centro. A partir daí a coisa espalhou-se como rastilho de pólvora e tomou Brasília. O Rio de Janeiro ansiava pela volta da realeza. Petrópolis transformou-se numa espécie de San Marino sul-americana. Afinal, a antiga família real tinha lá seus direitos.

O reino ia de vento em popa, depois do fechamento do Congresso. Nestor I, o Idiota, cumpria bem seu papel e apenas dizia “uh” e “hum”, enquanto o Conselho Real governava, de fato. Entre rodadas de cerveja e picadinho de mortadela, pepinoe azeitona magra, exaravam as ordens que guiavam o reino.

O cargo acabou subindo à cabeça de Nestor I, o Idiota. Ele quis uma coroa e uma liteira. Perninha tirou de letra e conseguiu o material emprestado de uma escola de samba. Foi muito isopor e remendo. Nestor I, o Idiota, caiu do carro alegórico e repetiu D. Pedro II, quando este tropeçou no Baile da Ilha Fiscal: “O monarca escorregou, mas a monarquia não caiu.”. Ela não caiu, mas mudou. Nestor I, o Idiota, bateu a cabeça, quando caiu, e deixou de ser tão idiota. A pancada fê-lo voltar à consciência. Nestor I, o Idiota, falou algo além de “uh” e “hum”.

A reunião do recém-dissolvido Conselho Real pereceu um velório. Ninguém abria a boca. O picadinho de mortadela e pepino não teve o mesmo sabor. Enquanto Nestor I, o ex-Idiota, discursava sobre um palanque, lá pelos lados do Mercado, Mortiço se lamentou:

- Putz! Vá lá, que proclamasse a república e abdicasse, mas reabrir o congresso e chamar eleições, ah, isso passou dos limites!

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3.12.08

498 - A mulher que varre


Foto: Wikipedia
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A mulher que varre

Por Paulo Heuser


Era uma mulher. Tanto faz, poderia ser um homem. Ela varria a calçada perigosamente coberta pelas milhares de flores do ipê-amarelo da primavera. Flor de ipê na calçada é a beleza que dá tombo. Ela varria paralelamente à rua, no centro da calçada, e deixava um trilho vazio atrás de si. Não havia nada nem ninguém que escapasse das vassouradas rítmicas e furiosas. A mulher magra e mal-cuidada andava curvada para frente, com os cabelos em desalinho amarrados em rabo, no topo da cabeça. O movimento ritmado da vassoura era acompanhado pelo movimento dos cabelos, em estranha harmonia. A quem passava, ela respondia, mesmo antes de qualquer pergunta:

- Varro porque me mandaram varrer. Não olho o que varro, apenas varro. Fui paga para varrer, portanto varro. Quem ficar no caminho, varrido será!

Varre há muito. Só trocaram o nome das flores, a da caliandra deu lugar a do ipê, que deu lugar a do jacarandá, que deu lugar a da caliandra. Outros nomes, mesma flor, apesar de diferentes. É a flor que dá tombo. A mulher continuou varrendo as flores da primavera da república que nunca vê verão. Ela varre as flores, desde a Velha República, as comunistas à esquerda, as integralistas à direita. Nada lhe escapa. Varreu as flores da Intentona, as do Plano Cohen e as do Estado Novo. Vez por outra, ela deixa escapar frases desconexas, do nada:

- O Brasil está em pé, vigilante e disposto a tudo empenhado na conquista de seu destino imortal!

Sempre houve flores a varrer, flores que dão tombo se não varridas. Ela não sabia para onde varrer as flores do Eixo e deixou a cobra fumar. As flores da República Nova ficaram para trás, as de Vargas para um lado, as de Dutra para outro. Em 50, varreu as espinhosas flores do Maracanazo. Em 54, varreu as flores do luto, na calçada do Catete. Em 55, varreu 50 anos em 5, e passou, em 60, às novas calçadas cobertas pelas caliandras da República do cerrado. Nova casa, novas flores, porém as mesmas, as que dão tombo se não varridas.

E assim ela seguiu a varrer. Aquilo não se parece apenas com um emprego, e sim uma compulsão. O que leva aquela mulher a varrer daquele jeito? Apenas o salário? Não. Há algo mais. Como que a responder, ela passou a cantar:

Varre, varre, varre, varre vassourinha
varre, varre a bandalheira
que o povo já tá cansado
de sofrer dessa maneira
Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!

Varreu biquínis para um lado, Che Guevara o para outro. Não lhe escaparam as flores do parlamentarismo nem do presidencialismo. De Goulart a Magalhães Pinto, a vassoura continuou a varrer impiedosamente as flores da nova Arena e do MDB. AI-5 e Araguaia, tudo ficou no caminho da mulher que varria porque a mandaram varrer. Em 68, varreu à esquerda as flores proibidas de Geraldo Vandré, para não dizer que não falava de flores, e varreu à direita, em 70, as flores ufanistas de Dom e Ravel enquanto cantava:

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul-anil
Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil

A incansável vassoura seguiu pelos 80, abrindo um trilho sem flores através dos formidáveis anos 80, com Maluf à direita, e o finado Tancredo à esquerda. Varrida a ditadura, surgiram as flores da Nova República e da Constituição Cidadã. A mulher que varria tropeçou, pois não sabia para onde varrer as flores do impedimento de Collor, clamadas tanto pela esquerda como pela direita. Tropeçou, mas continuou a varrer as flores dos repetentes da nova era, um à esquerda, outro também, porém ambos à direita.

Quando a calçada termina, a mulher que varre vira-se e volta a varrer, pois o caminho que trilhou a varrer já exibe as novas flores que o vento da primavera varreu dos galhos da história. Ipês, jacarandás ou caliandras, todas são flores que dão tombos se não varridas.

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31.8.08

452 - A festa da Flor

Les Deux Carrosses de Claude Gillot, 1707
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A festa da Flor

Por Paulo Heuser


Ontem foi a festa de 50 anos da Flor. Até aí, nada de mais. A maioria das pessoas completa 50 anos. Contudo, as festas de aniversário da Flor são diferentes quando ela completa idade que perfaz múltiplos de dez. Foi assim nos 30, nos 40, e agora, nos 50. Temos de esperar dez anos pela próxima. Alguns esperam, mas não conseguem chegar lá. O destino interrompe sua espera. Eu sou daqueles que conseguiram chegar lá. Portanto, festa, grande festa!

Já tentamos convencer a Flor a fazer festas qüinqüenais, trienais, bienais, sem sucesso. Temos de esperar dez anos pela próxima. É claro que ela festeja seu aniversário anualmente. Coisa de família, e um ou outro. Porém, decorrida outra década, ela convida as mesmas pessoas que estiveram na década anterior, e faz as grandes festas. Fazem-se amizades de década nas festas da Flor. São amigos que vemos apenas a cada dez anos, mas, enfim, são amigos das festas da Flor, o que os torna outro tipo de amigos. Por alguma razão desconhecida, o tempo não parece ter passado, nas festas da Flor, apesar das mais ou menos evidentes modificações físicas. Mesmo que o tempo aparente passar de forma diferente, nas festas da Flor, ele passa de outra forma do lado de fora. Fulano chega com outra mulher, e Sicrana chega com outro marido. Na próxima, poderão estar novamente juntos.

A festa da Flor teve sessão de fotos antigas, que invariavelmente geram comentários sobre a aparência de um ou outra. Nossa, ele tinha cabelos! Essas festas de década permitem papos igualmente de décadas. O Fulano falava de prensarem um disco da banda, na dos 20, gravarem um cassete, na dos 30, queimarem um CD, na dos 40. E agora? Bem, agora a coisa complicou. Sicrana sonhava com um serviço de festas que servisse strogonoff, na dos 20; um xis-strogonoff, na dos 30; uma tele-entrega de strogonoff, na dos 40, e um rodízio de pizza de strogonoff, na dos 50. Coisas do tempo.

Alguns convivas mantêm a mesma conversa, desde 1978. O truque para que a conversa não decaia é arrumar um assunto atemporal, como a beleza das equações do calor e da onda. Outro é xingar o governo, pois não há governo que não mereça ser xingado. Na festa dos 20 xingavam o governo do Geisel – em silêncio; na dos 30, o do Sarney; na dos 40, o do FHC; na dos 50, o do Lula. É só xingar o governo. Qual, não interessa muito. Sempre é um assunto atual. O Collor foi mais esperto, pois evitou os aniversários de década da Flor. FHC e Lula não foram tão espertos. Com dois governos, dificilmente escapam.

A Lei Seca não é novidade, para os convivas das festas da Flor. Nos outros aniversários dela o pessoal já ia de taxi. É que as festas da Flor são feeeestas. Portanto, todo cuidado é pouco. Desta vez, fiz como das outras, tomei um taxi. Para voltar, na madrugada, tomei outro. Taxi, bem entendido. Então comecei a temer pela minha vida. Meu taxi era dirigido pelo motorista, e guiado pelo demônio. Lá pelas tantas, ele comentou que a minha rua era aquela contramão. Respondi-lhe que, olhando pelo lado certo, não era. Após algumas roletas-russas, ele chegou ao mais alto píncaro da audácia volante, ao efetuar uma conversão à esquerda, em plena perimetral. Por isso, não me admirei nem um pouco quando ele entrou na minha rua pela contramão. Temi não chegar à festa dos 60 da Flor.

Aquele motorista está cumprindo pena no semi-aberto. Durante o dia, dorme no xilindró, durante a noite, dirige um taxi.

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18.6.08

414 - Atrasado!



Foto: Paulo Heuser
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Atrasado!

Por Paulo Heuser


Eu adorava sardinhas, quando criança. Não pelas sardinhas, pela lata. O atum relegou as sardinhas ao esquecimento. As pizzas de sardinha foram prato de todas as festas de aniversário da década de 70. Os rapazes levavam a bebida, as moças a comida. As mamães das moças preparavam pizzas de sardinha, invariavelmente, e os papais se livravam das bebidas que haviam recebido de brinde, seja quais fossem.

As latas de sardinhas vinham com aquela chave que pretendia facilitar a abertura. Era uma chave metálica que se encaixava numa aba, e permitia, em tese, que a tampa da lata fosse enrolada na direção de uma das extremidades. Já as pobres latas de atum, além de caras, apresentavam superfície lisa, quase desprovida de encaixes para o abridor. Para dificultar mais a abertura, sempre foram cilíndricas, exigindo que o abridor de latas ande em curva. Os abridores geralmente descarrilam. Algumas já contam com abertura através de um anel que, quando puxado, traz a tampa consigo.

As latas de sardinhas me causaram tamanho fascínio, que passei anos projetando um sistema de abertura instantânea, sem riscos à saúde. Descartei o canhão laser, pelos custos envolvidos. Deixei também de lado o rolo compressor, pois saía apenas purê de sardinhas. O modelo que chegou mais próximo da realidade foi um cortador, no formato da lata, que guilhotinava a tampa, de um só golpe. Naturalmente, tamanho e formato da lata deveriam se manter padronizados. Estava dando tudo certo. O equipamento era barato, de fácil operação, e de tamanho relativamente compacto, podendo ser afixado à parede. Então, veio o Collor. A segunda abertura dos portos, promovida por elle (sic), trouxe as latas de sardinhas portuguesas. Nada contra a nacionalidade delas. O problema foi o formato das latas, completamente diferentes das nossas. Depois, os pobres passaram a comer atum, graças à distribuição de renda do Lula. Atacado por direitistas, socialistas e portugueses, joguei a toalha. Desisti, pois cheguei atrasado. Meu invento foi natimorto. Não como mais sardinhas, e passei a odiar as latas.

As grandes corporações também chegam atrasadas. A France Telecom montou uma rede para acesso pago, sem fio, a Internet, cobrindo toda Paris, enquanto a prefeitura da cidade montava uma rede semelhante, com acesso gratuito.

Descobri que cheguei novamente atrasado. Investi nas eleições, tarde demais. Projetei postes telescópicos, que poderiam ser encolhidos até a altura de apenas dois metros, para facilitar a colocação e a retirada de propaganda eleitoral. Nos hiatos entre eleições, que não são tão longos assim, o sistema poderia abrigar a propaganda não-eleitoral. Todos ficariam felizes. Os candidatos poderiam colar sua propaganda sobre a dos outros, todas as noites. As gráficas operariam a plana capacidade. Alguém fabricaria e venderia os postes. As empresas de publicidade venderiam novos espaços. As prefeituras poderiam alugar os postes. Eu ficaria rico com a patente. Proibiram a propaganda eleitoral nos postes. Novamente, cheguei atrasado!

Não desisti, no entanto, de continuar inventando. A motivação veio de um grupo de sete miseráveis que aguardavam a morte, sentados sob uma marquise, nesta noite de frio glacial. Morrerão de frio, mas mantêm algum humor. O primeiro deu boa noite. O segundo pediu desculpas por darem boa noite, enquanto o último comentava que, de qualquer forma, eles não existiam. Como todo CSM – cidadão sem marquise -, passei olhando para o chão. Não é bom encarar a realidade. Percebi, então, por que as lojas passaram a colar propaganda sobre o passeio público. Todo mundo passa olhando para o chão, com se usassem um cabresto vertical. Foi então que nasceu meu novo projeto. São os OVU – Óculos de Visão Ufanista. Eles convertem a realidade local à realidade dos discursos. Esses óculos transformarão a passagem pelo Centro num passeio agradável, como se estivéssemos naquele lugar que os discursos políticos projetam. Através deles, veremos apenas marquises desabitadas. Não haverá caixas de papelão e cobertores sujos. Na Padre Chagas, os flanelinhas sumirão. Infelizmente, ainda não achei uma forma de sumir com os parquímetros. Os OVU eliminam apenas a imagem. O me-dá-me-dá-me-dá, permanecerá. Nada que um MP3 não resolva.

Sei que o produto tem tudo para se tornar um sucesso. Só temo chegar atrasado, novamente. Se o Brasil se tornar, finalmente, aquilo que nos vendem nos discursos, os OVU serão inócuos, inservíveis. Mostrarão a mesma agradável realidade que a visão a olho nu nos proporcionará. Assim, torço pelo atraso. Adoraria jogar os OVU fora. Porém, meu medo maior é da visão das ruas vazias, completamente desabitadas, através dos OVU, ao meio-dia, em pleno Centro, num dia comum da semana, apesar do ruído intenso.

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9.12.07

aC. ou dC.?

Foto: Paulo Heuser
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aC. ou dC.?

Por Paulo Heuser


Às vezes penso como faziam para datar alguma coisa, antes de Cristo. Não podiam simplesmente escrever ano tal, aC. Sem o C, não havia aC., ainda não. Consultando o alfarrábio eletrônico, descobri que, aparentemente, o calendário cristão foi concebido pelo monge e matemático grego Dionysius Exiguus – Dionísio, o Pequeno – em 525 dC. Em aC., seria mais difícil. Até então, utilizavam um calendário que iniciara com o reino do imperador Diocleciano. Como este não morria de amores pelos cristãos, e vice-versa, o monge Dionísio resolveu seguir outra linha. Assim, retroativamente, propôs o sistema aC., dC., até hoje utilizado. Portanto, os antigos não enfrentaram o problema que tanto me preocupou. Ora, ninguém poderia saber, em 10 dC., por exemplo, que já existira um ano 10 aC., que só viria a ser inventado em 525 dC. Simples, não? Como não havia computadores, na época, as consultorias deixaram de ganhar rios de dinheiro, com o bug do ano zero, que nunca houve, graças à inexistência do ano zero.

Dionísio, o Pequeno, utilizou Cristo como referência inicial do seu Calendário Cristão. Já em Cuba, poderiam montar um Calendário Castrista, utilizando Castro como referencial. Poderiam inclusive copiar o aC., dC. – antes de Castro, depois de Castro. Os britânicos poderiam adotar o Churchill como referência: antes de Churchill, depois de Churchill. Os mais puritanos talvez preferissem Cromwell. Charles provavelmente não seria a opção mais indicada.

Os venezuelanos já têm sua opção: Chávez. Talvez menos perene que o próprio Chávez gostaria, mas sem dúvida é um referencial marcante. Com certeza, ninguém o esquecerá tão cedo. Os chineses e os outros povos que não adotam o Calendário Cristão têm lá também os seus problemas. O calendário chinês não tem evento inicial de referência, pois é cíclico, repetindo-se em ciclos menores, de 12 anos, e maiores, de 60 anos. Os ciclos menores se dividem em anos, cada um designado pelo nome de um animal. As ofertas de crediário das Casas Fiungzong são mais ou menos assim: Leve agora, comece a pagar somente no próximo porco e termine quando chegar o macaco. Propositadamente, ou não - para mantermos a dialética preservada -, eles escondem que o sujeito de olhos puxados pagará, do rato ao carneiro, antes da chegada do próximo macaco. Coisas de marketing. E o chinês vai para casa, feliz da vida, levando seu esticador de fusilli zero bala, que pagará em 10 suaves anos. Os chineses poderiam optar pelo Calendário Confúcico, utilizando como referencial o pensador Kung Fu Tse, mais conhecido por aqui como Confúcio, que viveu entre 551 e 479 aC. – este C, de Cristo, evidentemente. Mas, como o Confúcio lá é com K, não daria certo. Teriam de usar aK., dK., o que desvirtuaria qualquer calendário aC., dC.

Os australianos têm a banda AC/DC, de rock pesado. Os franceses poderiam invocar de Gaulle, que, antes de tudo, era Charles, com C. Os norte-americanos poderiam optar pelo Clinton ou pelo Carter, dependendo do gosto por charutos.

Bem, finalmente chegamos aqui. Campos Sales? Não, não tem o apelo necessário. Café Filho? Não, como o próprio nome denuncia, foi café pequeno. Carlos Luz? Quem foi ele? Dois dias de governo não lhe permitem entrar dessa forma para a história. Castelo Branco ou Costa e Silva? Muito generais, dirão alguns. Chegamos ao Collor. Pode ter gerado um bocado de confusão, mas empreendeu a Segunda Abertura dos Portos. A de Dom João já deixava saudades. Graças ao Collor passamos a beber cerveja do Kurdistão e espumante de Burkina Faso. Contra ele, há o fato de ter ex-mulheres, e algumas não conseguem ficar tão caladas como o Rei Juan Carlos gostaria. Resta-nos o Cardoso, mais aristocrático, bem falante e bem comportado. Porém, é o arquiinimigo da situação. Fica chato torná-lo referencial de calendário. Há um C que mexe com este País. Aliás, nunca antes neste País brigou-se tanto por um imposto. Poderemos utilizar a CPMF como referencial de calendário. Teremos o aC., dC. – antes da CPMF, depois da CPMF.

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22.3.07

À Sombra da Criméia




À Sombra da Criméia

Por Paulo Heuser

Heino viveu os horrores de II Guerra Mundial. Sua excentricidade é atribuída aos momentos de angústia e desespero pelos quais passou. Sabe o que é escassez. Sabe o que é fome. Viu a morte de perto, muito perto. Uma granada explodiu ao lado dele, em Uerckermünde. Somente Judas, depois de perder as botas, e Heino sabem onde isso fica, mas ele sempre conta histórias de lá. Histórias tristes, sobre bombardeios, trincheiras e soldados mortos. Normalmente frio, distante, e reservado, como convém a todo oriundo da Prússia, Heino se soltava um pouco ao freqüentar aquele velho bar daquele clube decadente, onde ainda se jogava general em copos de couro. O ar empestado de odores de mofo e velhas bebidas destiladas, o ruído característico do copo batendo na mesa de feltro verde encardido, o vidro de rollmops de ovo cozido enrolado com sardinha, sobre o balcão, tudo o remetia de volta a pátria perdida, o Heimatland. Chegava, impecavelmente vestido, no seu terno cinza com gravata borboleta verde. Seus companheiros de chegada eram o copo de cerveja, ao lado do de Steinhaeger, formando o clássico ponto-e-vírgula. O cigarro com piteira e o jornal completavam o quadro.

Após ler o jornal, de cabo a rabo, Heino arriscava-se no jogo de sinuca e na conversa frugal decorrente. Depois, juntava dois pastéis e dois rollmops, e partia para casa, onde faria sua solitária ceia, num ritual que se repetia há incontáveis anos. Cada dia terminava como o anterior. A única perturbação eventual era a partida, para o reino do além, de algum velho companheiro da sua autista relação muda. Nunca deixou de comparecer aos velórios e enterros, nem de levar flores brancas. A gravata borboleta, contudo, continuava verde.

Ontem, a rotina de Heino foi quebrada. Em parte, na verdade. Mas todo mundo, pelo menos do mundo dele, reparou. A porta vaivém da entrada do bar abriu-se, como de costume, dando passagem ao dono da borboleta verde. Ele sentou-se sobre um dos altos bancos com topo de couro vermelho, saudou formalmente o ecônomo, pegou o jornal e congelou. Talvez seja esta a melhor palavra para descrever o que ocorreu. O cigarro queimou sozinho, o copo de Steinhaeger restou abandonado sobre o centenário balcão, a cerveja perdeu seu colarinho, apenas o cheiro de mofo permaneceu.

Quando a brasa do cigarro atingiu a piteira, criando um cheiro desagradável de resina queimada, Heino saiu do seu transe. E saiu do bar, apressado, em direção ao mercado. Heino esqueceu pastéis e rollmops nesse dia. Comprou batatas, cinco sacos de batatas, e muita carne enlatada, encalhada há muito, por sinal. Comprou também um enorme estoque de velas, fósforos e Steinhaeger. Quem o viu deixar o bar, e adentrar o armazém, jura tê-lo ouvido murmurar, entre os dentes, a frase “Eles de novo, não!”. Não saía da cabeça de Heino a fotografia oficial da Conferência de Yalta, na Criméia, em 1945, mostrando as poderosas figuras de Churchill, Roosevelt e Stalin. “Eles não podem ter voltado! De novo, não!” – atormentava-se ele, enquanto enchia o carrinho de compras com latas.

Seu Norberto, do bar, não entendia o que acontecera com Heino. Não levara pastéis nem rollmops, fato realmente notável. O pessoal dos jogos de sinuca e general reuniu-se, pela primeira vez em 45 anos, para debater o assunto. Sobre o balcão, abandonado, jazia o jornal que Heino viu. Na capa, em evidência, as figuras de um presidente, um vice e um ex, sorriam alegremente para a posteridade, na Criméia do Planalto. Heino pedia querosene, um estoque de querosene. - Não tem da marca jacaré? – perguntava ele, aflito.





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