29.5.08

405 - A Convenção


Foto: Wikipedia
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A convenção

Por Paulo Heuser


As vinte e oito unidades do Condomínio firmariam uma convenção. Tudo conforme a lei. Alguém trouxe uma minuta, com base na legislação, que foi adaptada à realidade do Condomínio, em apenas 87 assembléias. O Síndico foi muito democrático, em todo o processo, convocando condôminos de todas as etnias, religiões, raças, condições sociais e profissões. O advogado Justo, do 302, juntou-se à dançarina temática Shirley da Tromba, do 104, ao médico Hérnio, do 201, e assim por diante. A Dona Fecunda, do 103, foi incansável na defesa dos direitos da sua prole de sete filhos. O Síndico Augusto fez questão de não interferir na condução dos trabalhos. Para garantir a isenção, ofereceu pequenos mimos, como viagens a Serra, aos condôminos que se manifestaram contra a constituição de uma assembléia convencional tão diversificada, em troca da sua participação ativa nos debates. O decano dos condôminos, Seu Raposo, foi eleito Presidente da Assembléia Convencional.

Logo no início dos trabalhos, Seu Raposo apontou a existência de despesas extraordinárias que os condôminos participantes da Assembléia estariam suportando, em função dos trabalhos. Shirley da Tromba queixou-se do lucro cessante, por deixar o ponto vago. Dona Fecunda mencionou a despesa extraordinária gerada pela contratação de uma babá, para cuidar da sua prole, enquanto ela participava das reuniões. Debatido o assunto, foi proposta isenção de pagamento das taxas condominiais, para fazerem frente às despesas dos condôminos convencionais. Foi aprovada também a adesão da Assembléia Convencional ao plano de saúde SindMed, proposta pela convencional Shirley Tromba, que enfrentava problemas com sua próstata. Seu Raposo informou da possibilidade de os convencionais participarem do XVI Congresso Internacional de Convencionais Condominiais, em Miami, para obterem subsídios à confecção da carta magna. O convite foi estendido aos familiares, inclusive à prole da Dona Fecunda. Deliberado o assunto, a participação no XVI CICC foi aprovada por unanimidade aclamada, com máxima láurea.

O presidente do Conselho Fiscal – Seu Probo - estranhou as rubricas onde foram lançadas as despesas com a missão técnica a Miami: material de limpeza. O Síndico prestou os devidos esclarecimentos, informando que Dona Fecunda trouxe uma caixa com uma dúzia de tubos de detergente, comprados no Free Shop, a preço promocional. Seu Probo foi osso duro de se roer, até que lhe comunicaram que participaria, junto com sua mulher, Dona Correta, da missão técnica aos Emirados Árabes, com escala em Paris, para o III Colóquio Mundial de Conselheiros Fiscais, com direito ao certificado emoldurado e chaveiro da Torre Eiffel.

Seu Justo reclamou, justamente, que não havia como pesquisar toda literatura jurídica pertinente nas assembléias. Propôs a contratação de uma consultoria jurídica especializada, para dar o apoio necessário. Questionado sobre a existência de alguma empresa do ramo, Seu Justo lembrou-se apenas, e casualmente, do escritório Justo & Justo, cuja contratação foi aprovada. Nada mais justo.

Dona Shirley da Tromba solicitou licença remunerada e pagamento de despesas de viagem para participar do XXIV Encontro Internacional de Convencionais Condominiais da Outra Via, em São Francisco, Califórnia. Solicitação atendida. Ninguém mais aceitou o convite.

O Dr. Hérnio propôs a contratação de um serviço de bufê para servir o jantar durante as assembléias convencionais. A proposta foi aprovada, com emenda da Dona Fecunda, que estendeu o fornecimento das refeições aos familiares dos convencionais, através de quentinhas servidas diretamente nas unidades. Aprovada também a indicação do bufê da mãe do Dr. Hérnio para fornecer as refeições.

Durante a assembléia-jantar inaugural do Bufê Condomínio, Seu Raposo discursou, defendendo a necessidade de decorarem o ex-salão de festas, agora plenário da convenção, com alguns símbolos religiosos. Mencionou, de passagem, que sua cunhada tinha uma loja que vendia produtos sacros. O Síndico Augusto pediu à parte para acrescentar que, casualmente, a empresa prestadora da manutenção do elevador informara da oferta de decoração do salão, com símbolos sacros, caso o Condomínio trocasse o elevador pelo novo modelo avançado. Dona Laica protestou, das galerias, contra a tentativa inquisitória de forçarem crenças religiosas no Condomínio. Seu Augusto apresentou uma solução, sugerindo a contratação da Sincrética Litúrgica, empresa da sua nora que atuava na decoração religiosa politemplária. Da sinagoga à mesquita, havia produto para qualquer crença. Proposta aprovada, inclusive a troca do elevador, para não perderem a oferta da decoração.

O Dr. Hérnio propôs a instituição de uma taxa extra mensal, para manutenção do plano de saúde. Essa taxa seria cobrada durante os quatro anos seguintes. Aprovada.

Dona Fecunda propôs a compra de uma brinquedoteca para uso de sua prole. Houve resistência, pois não havia provisão de receita para tal fim. O Síndico Augusto propôs retirarem parte da verba para o plano de saúde, que estaria superestimada, para fazer frente às despesas com a brinquedoteca. Aprovado.

Doutor Justo propôs extinguirem a taxa para manutenção do plano de saúde, já que a maior parte da verba estava destinada à brinquedoteca. Houve protesto veemente da Dona Fecunda. O Síndico Augusto propôs extinguirem a taxa e criarem uma nova taxa para manutenção do plano de saúde, passando a cobrir o custo da brinquedoteca com um aumento da taxa de consumo do gás. Aprovado, desde que a taxa para manutenção do plano de saúde se tornasse permanente.

O Síndico Augusto propôs trocarem o Opala 71 do Condomínio pelo novo modelo ofertado pela concessionária do irmão do cunhado do Dr. Hérnio. Aprovado, com emenda da Dona Fecunda, para extensão do uso do veículo aos convencionais em missão técnica ao clube, à escola dos filhos ou ao shopping.

O Síndico Augusto propôs darem nome ao Condomínio. Realizaram consulta pública entre os condôminos, através da consultoria mercadológica da empresa do sócio do filho do Síndico Augusto, tendo vencido a proposta do nome Brasil. Aprovado. O Síndico Augusto aproveitou para propor a contratação da ONG Hiena do Morro Ensolarado para fornecimento de facões para o manejo da reserva florestal dos fundos do Condomínio Brasil. Aprovado, com cortes.

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16.10.07

A vó do Mestre Yoda

Foto: Comitê Revolucionário. Fonte: Wikimédia
A avó do Mestre Yoda


Por Paulo Heuser


Mary-Joe Santos acordou subitamente, após 43 anos de coma profundo. Milagre? Provavelmente, pois nenhum médico apostaria nem uma ficha de um centavo na recuperação dela. Em épocas de menos aparelhos e mais sensatez, deixaram que a natureza seguisse seu curso. Porém, o corpo de Mary-Joe não se deu por vencido, como ela nunca se dera por vencida nas suas convicções políticas extremadas. Ela não foi vítima da repressão. Foi vítima daquela sandália fajuta. Avessa aos produtos de marca, fabricados pelos burgueses imperialistas, comprou um par de sandálias que soltaram as tiras. No momento em que ela galgava o monumento, para dar início ao protesto da UIES – a proscrita União Internacional dos Estudantes Stalinistas –, temida até na Albânia, pela incomum radicalização das idéias comunistas.

A tira da sandália fabricada pelo camarada João das Tiras soltou-se, bem no momento em que Mary-Joe galgava o bigode do homenageado no monumento. Seguiram-se cenas de comoção, quando os sete congressistas socorreram sua até então líder, mártir viva a partir de então. João das Tiras imolou-se em Saigon, em protesto contra os fabricantes de estátuas bigodudas imperialistas. Com Mary-Joe em coma e João das Tiras tombado em ação, os seis membros restantes da sigla revolucionária desistiram da militância. Um virou cirurgião plástico de militantes enrustidos, quatro estudaram direito e dedicaram-se ao direito trabalhista sindical – patronal. Um virou escritor e dedicou-se à biografia não autorizada – em coma – de Mary-Joe. Esse não era seu nome, na verdade. Chamava-se Maria Euzébia, na certidão de nascimento. Utilizava o codinome Mary-Joe para confundir os serviços de informações.

Mary-Joe acordou numa manhã de sábado, num hospital de uma nação amiga da causa revolucionária, para onde fora levada de carona, junto com uma turma de expatriados voluntários. Após aquele papo de praxe – onde estou, que dia é hoje, o que aconteceu, cadê o desgraçado do João das Tiras? – Mary-Joe começou a assimilar todas as novidades. Teve de ser ressuscitada, após olhar-se no espelho pela primeira vez, depois de 43 anos de coma profundo. Há coma raso? Aquela bela morena fogosa dos tempos da UIES se transformara na avó do Mestre Yoda. Não havia milímetro sem rugas naquele corpo encolhido e curvado pelos anos e pela doença. Recuperava-se rapidamente, após ouvir a boa nova: a Revolução vencera na pátria amada. Os imperialistas militaristas foram vencidos pelo voto e pelo clamor das massas estudantis de caras pintadas. Milhões foram às ruas, entoando frases de efeito. Os operários finalmente assumiram o poder, pelo voto. A flor, como maior refrão, venceu o canhão, conforme a previsão nos versos do poeta. Mary-Joe quase enfartou de alegria. Até perdoaria João das Tiras, se ele ainda estivesse vivo.

O que se seguiu, não deixou de ser triste. Buscaram Mary-Joe de jatinho executivo, emprestado por um rico empresário e fizeram-na visitar duas repúblicas nas escalas da volta. Andou em carro aberto, ao lado do sujeito que só vestia camisas vermelhas, única coisa vermelha por lá. Na chagada em casa, recepcionaram-na ministros e mandatários em finos ternos produzidos pela elite imperialista da moda. Operários de limusine conduziram-na à suíte presidencial do Decadent Luxury Pharaonic Towers Hotel, com vista para toda a capital. Mary-Joe não pregou o olho, naquela noite, entre lençóis egípcios de 2400 fios – contando apenas os do lado avesso. Beliscou-se para verificar se não acordara de um sono profundo para um pesadelo político. Que diabos de revolução comunista era aquela? Onde estavam os antigos camponeses, operários e estudantes? Onde foram parar as idéias? Ela via apenas os neojanotas enfiados em trajes decadentes. Até então, ficara apenas desesperada. O telefonema do ministro foi a pipa d’água no seu já transbordante dedal. Ele lhe comunicou que o governo lhe brindara com uma polpuda pensão vitalícia, como heroína da revolução, e que ela, de inhapa, fizera jus a um milhão de luvas, ou fosse lá o nome que dessem àquilo.

Mary-Joe imolou-se moralmente. Passou a ser a Euzébia Louca, representante da Associação Americana dos Caçadores de Veados, Bisões e Assemelhados. Veste Prada.


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8.10.07

Fauna exótica



Foto: Wikipedia

Fauna exótica


Por Paulo Heuser



Volto à rotina. Acordo, me levanto, apanho o jornal e tomo café. Meu café da manhã leva tudo, menos café. É um café da manhã descafezado. Folheando o jornal, concluo que tudo segue seu seguimento normal. Senão vejamos, hoje abrirão novo processo contra o Renan, o Renan prenderá o rabo de alguém, explode novo escândalo envolvendo ONGs e verbas parlamentares, furacão no Oriente, o bispo ataca a emissora concorrente e o Mangabeira ganha outro ministério. CPMF agora é a Contribuição Para o Mangabeira Ficar. Reclamam que o art. 84 da Constituição proíbe a criação de ministério por decreto. Esqueceram de lê-la, por certo. Crie-se outro, ora. Um Ministério das Borboletas, quem sabe. São bonitinhas, não incomodam ninguém e são efêmeras.

Segue tudo igual, aquela mulher estacionou novamente aquele Clio exatamente no lugar que impede o retorno, os pedestres atravessam a avenida fora da faixa e o eterno caminhão de verduras tranca a Riachuelo. Manhã típica, se não fosse o urso. Sim, um enorme urso marrom. Consigo desviar do humano e do crocodilo que atravessam a rua correndo, na companhia do infeliz urso, porém deste, não consigo. Atravessam a rua correndo, com sinal para pedestres fechado. E o ursídeo resta estatelado no asfalto molhado, com os olhos vítreos esbugalhados. Cena chocante que atrai grande público, ainda mais nesta hora da manhã. Temo ser detido, apesar de não haver presunção de culpa. Sabe como é, o pessoal normalmente tira o partido dos mais fracos. Do urso, no caso. Uma senhora idosa vestindo uma daquelas capas antigas de nylon, de cor bordô, tenta me tranqüilizar, lembrando o fato de que os ursídeos fazem parte da fauna exótica. Pelo menos não me prenderão em flagrante, sem fiança. O crocodilo continua rindo de tudo. Olhando com mais calma, os três se parecem com fauna exótica. Aqui, há apenas jacarés, e o humano, a julgar pelo seu sotaque, não parecem ter vindo destas paragens.

Antes que alguém possa esboçar qualquer tipo de reação, o humano recolhe aquele urso de pelúcia maior do que ele e parte em disparada, atravessando a rua em meio aos carros. O crocodilo continua rindo, sacudindo a cauda freneticamente, agarrado pelo outro braço do humano que corre rua abaixo. Desfeita a cena do incidente, pela fuga das vítimas, sigo meu caminho.

Já razoavelmente refeito do susto causado pelo atropelamento daquela enorme criatura de pelúcia, fico a imaginar o que aquele trio fazia ali. Teriam dormido na viagem e perdido a escala em Brasília? Acordaram aqui, dois mil quilômetros depois?

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