24.6.08

417 - Segunda via


Foto: Relojoaria.com
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Segunda via

Por Paulo Heuser


Noutro dia eu estava espiando um relógio de pulso, numa vitrine, pois percebi nele uma característica curiosa. Além de exibir o dia do mês, exibia também o anterior e o posterior. Fiquei pensando na utilidade daquilo. O dia do mês é uma informação completa, por si só, a não ser que o comprador do relógio seja um recém- libertado pelas Farc, e ignore o mês e o ano nos quais se encontra. Sei que muitos relógios sofisticados exibem informações utilíssimas, como o século, as marés do Mar Morto, as fases das luas de Urano, coisas fundamentais para qualquer ser urbano socialmente bem colocado. Ali parado, com cara de idiota, acabei chamando a atenção de duas vendedoras, que logo me cercaram.

- Pois não, senhor. Percebemos que o senhor se interessou pelo relógio!

- É verdade. Confesso que não entendi por que ele exibe três dias, em vez de apenas um, como os demais.

- Ah! – exclamou uma das vendedoras – O senhor reparou nessa característica única desse relógio.

- Sim, não há como não reparar.

- É fascinante, não é? – disse ela, orgulhosa.

- Não deixa de ser, em tese. Mas, qual é a utilidade disso?

- Ora, senhor. Essa exclusividade permite que o senhor saiba quando foi ontem, quando é hoje e quando será manhã!

- Assombroso! Mas, não bastaria que eu somasse ou subtraísse um da data de hoje?

- Oh, é claro, mas o senhor poderia errar! E no dia 31, o que o senhor faria? Diria que o dia seguinte seria o 32?

Sorri, agradeci, e saí de lá. Constatei que nem sempre falamos a mesma língua daqueles que falam a nossa língua. Notei também que a lógica das vendas tem parecido um tanto ilógica. Fiz um teste com um operador de telemarketing que não aceitava não como resposta à proposta de contratação do serviço que a empresa dele tentava me empurrar. Em resposta à terceira ou quarta pergunta sobre os motivos que me levavam a não aceitar a proposta, escancarei:

- Porque essa empresa não presta. Nada do que ela produz pode me interessar!

- Sim, mas então o senhor não estaria interessado no plano básico, mais em conta?

- Não!!!

- Qual seria a razão?

Fiquei sem razão. Não sabia mais o que pensar. Nada do eu pensasse seria compatível com os neurônios daquele ser, não-humano, pelo visto.

Hoje cheguei a uma daquelas empresas que identificam todos os visitantes, compreensivelmente. Eles cadastram todos os visitantes, por ocasião da primeira visita. Depois, basta apresentar o documento, cujo número é digitado pela recepcionista. Acostumado com o acesso instantâneo, fui surpreendido pela luz vermelha. Eu fui barrado. Após digitar algumas coisas, e olhar para a tela do comutador, espichando o pescoço, a recepcionista sorridente informou a razão:

- Ah, já entendi! O senhor apresentou a segunda via do documento, que não está cadastrada! Apenas a via original pode lhe dar acesso.

Pensei, por um momento, e resolvi seguir a lógica que ela seguia:

- Já sei! Voltarei para casa e mandarei minha segunda via, no meu lugar! Segunda via com segunda via pode, não pode?

Ela continuou sorrindo, pareceu apenas um pouco indecisa, mas falou:

- Bem, acho que vai funcionar...

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