4.1.10

572 - A Tríplice Aliança




Foto: Paulo Heuser
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A Tríplice Aliança




Paulo Heuser



Lojas de roupas para mulheres são o inferno. Para os homens, pelo menos. Nada há para se fazer lá dentro, senão esperar. O problema maior é onde esperar. Aqueles lugares são repletos de araras e mulheres que andam desordenadamente na busca de algo que nem elas mesmas sabem o que é. Não sobra lugar onde se possa esperar. Faz parte das estratégias de marketing não permitir que os clientes atravessem a loja diretamente. É necessário se percorrer um labirinto confuso e cheio de expositores. As mulheres escolhem aleatoriamente algo como 27 peças de roupas e entram no provador, após longa espera até que um se desocupe. Ao sair, rejeitam todas as peças e se põem novamente à caça de outras opções. Quando finalmente encontram algo que parece satisfazê-las, acham caro e vão embora, em busca de outra loja. Enquanto isso, os homens esperam, esperam e esperam. E esperam.


Em outros tempos, os shoppings disponibilizavam bancos para maridos em espera. O sujeito sentava-se e lia Guerra e Paz enquanto esperava. Depois, inventaram o 3G, e os maridos puderam trabalhar enquanto cumpriam seu sagrado dever de acompanhar as mulheres às compras. Essa cômoda situação se prolongou até que alguém percebeu que poderia ganhar o dinheiro dos maridos em espera. Instalaram cafés nos corredores e retiraram os bancos. Os maridos viram-se no dilema da escolha entre a espera em pé e o café. Três horas em pé azedam o humor de qualquer um. E incham os pés.


Em Punta del Este há uma loja, de aparência indiana, nome também, que criou uma área de convivência para maridos em espera. A loja é outra daquelas personificações do caos. Algumas clientes tentam comprar a própria roupa. Lá se descobre que os maridos são iguais, mesmo vindos de diversas partes do mundo. A inovação está no porta-maridos externo. Construíram uma espécie de arquibancada, junto ao passeio público, onde os maridos sentam-se e observam o movimento. Alguns fumam, outros arriscam até uma olhadela nas chicas que passam. Lá pelas tantas, passa um sujeito que toca o hino uruguaio na corneta. Atrás, vem o pior. Uma trupe de argentinos ensaia uma desconcertante batucada. Porém, o porta-maridos se parece com o paraíso. Argentinos, brasileiros e uruguaios ensaiam até uma conversa e descobrem que, afinal, não são tão diferentes. Deixam de lado antigas rusgas, observados pelos intrigados americanos e europeus; os argentinos reconhecem que Pelé até que jogou um bolão; os brasileiros reconhecem que Maradona chegou a jogar futebol. Vez por outra, um argentino olha impaciente para o relógio e diz que aquilo não é possível, ninguém pode se demorar tanto lá dentro. De pronto, vêem-se brasileiros e uruguaios a consolá-lo. É a volta da Tríplice Aliança.


Em meio a vinte e tantos maridos senta-se uma mulher. Todos olham-na surpresos. Ela percebe e devolve com um “olha a discriminação!”.


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14.2.08

A cana do Brasão




A cana no Brasão

Por Paulo Heuser


A leitura matinal do jornal tornou-se enfadonha. Cartões, cartões e cartões. Tudo gira em torno dos cartões de crédito. Apenas uma notícia chama a atenção, destoando entre as denúncias de mau uso dos cartões. O deputado Clodovil Hernandes apresentou o Projeto de Lei 2310/07, para modificar o Brasão das Armas Nacionais. Sugere a troca das folhas de fumo que fazem parte do brasão por galho de cana-de-açúcar.

O deputado alega que o fumo causa doenças e que já não representa a mesma riqueza que representava em 1889. O projeto não é inédito, tendo sido apensado a outros dois, o 1345/1999 e o 4149/1998, este já acendendo velinhas. Confesso que eu não sabia que aquelas folhas eram de fumo. Se os nobres deputados não apresentassem esses projetos de lei importantíssimos, eu talvez nunca viesse a sabê-lo. Eles devem acreditar que muitas pessoas deixarão de fumar, prolongando suas vidas, se o galho de cana substituir as folhas de fumo. É aquela história, o sujeito perde a vontade de fumar ao olhar para o Brasão de Armas Nacionais sem folhas de fumo. Não seria o caso também de retirarem as folhas de café, que lá estão? Café em demasia pode causar problemas de saúde.

Algo me preocupa nesses projetos de lei. Se a retirada das folhas de fumo reduz a vontade de fumar, a presença do galho de cana-de-açúcar não aumentará a vontade de tomarem pinga? O deputado alega que a cana-de-açúcar é matéria prima para a fabricação de açúcar e do álcool combustível. Entretanto, esquece-se de mencionar o álcool que também serve de combustível para a queima das frustrações do cotidiano. Temo que o novo brasão vá se parecer com um rótulo de garrafa de pinga.

Porém, o que mais me preocupa é a reforma estética de um símbolo da Nação como se fosse logotipo de empresa, que deve ser atualizado periodicamente. O Brasão de Armas da Inglaterra existe desde o Século XII, durante o reinado de Ricardo I. Apesar de ostentar três leões passantes com garras azuis e línguas de fora, aparentemente ninguém tentou alterar aquele brasão. Convenhamos que os leões nunca foram uma riqueza da Inglaterra, mostrando-se piores para a saúde humana do que o fumo, conforme foi provado no Coliseu de Roma. Leões de língua de fora parecem debochar dos súditos do reino. Claro, digo isso porque não entendo nada de heráldica, a ciência que estuda essas coisas. Talvez consigam explicar também por que os leões ingleses têm garras azuis.

Caso venham a se tornar lei, esses projetos poderão movimentar a economia. A começar pelo concurso para a escolha do novo Brasão das Armas Nacionais. Poderão escolher algo mais moderno, com estrelas estilizadas. As plantas poderão simbolizar melhor o momento político nacional. Pepinos a abacaxis traduziriam bem este momento.
Uma alteração do Brasão das Armas Nacionais implicará alterações em todos locais onde é utilizado, incluindo as placas em todos os prédios públicos e os timbres dos documentos oficiais federais. Todas essas alterações envolvem custos. Ainda bem que poderão ser cobertos pelos cartões de crédito corporativos.


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