26.6.07

Traumatismos

Traumatismos

Por Paulo Heuser


Gessilever estava encostado, não na parede, nem no poste. Estava “encostado” no INSS, havia quase dois anos. Fazia bico como porteiro de lupanar (casa de costumes), para complementar a renda. Renda miserável, diga-se de passagem. Podia estar inservível para o INSS, mas para um trabalho de homem, tudo bem. Com a mulher, Crimxise, também encostada, a situação ficara crítica. Como uma coisa leva à outra, Gessilever conseguiu uma colocação para Crimxise, no lupanar. Trinta anos mais nova do que ele e com um sexto da massa volumétrica dele, ela chamava à atenção, principalmente depois do banho-de-brechó. Ela tornou-se a nova sensação da Boyte Calypso, para orgulho do Gessilever.

Crimxise fora “encostada” porque conseguiu convencer o perito da sua terrível dor lombar. Pudera, que lombo! Ela passou a fazer fisioterapia ocupacional, dançando e rebolando sobre o “queijinho”, para o deleite dos clientes da Calypso. Trabalhando lá, Gessilever podia ficar de olho nela, pois nesse mundo decadente todo cuidado era pouco. O que ela fazia lá era meramente profissional. Ai de quem tentasse chegar perto dela depois do final do expediente, lá pelas sete da matina.

Já um homem forte, como ele, necessitava de uma doença mais alta, na cervical. Uma dor medonha, no cangote, atribuída à má postura, comum em quem mede dois metros de altura. Foi um colega de batente quem lhe deu a dica. Como todo mundo tem problemas lá, depois dos 20 e poucos, fica mais fácil dar um cambão no perito. Ainda mais quando se beira os 50. Artrose seria o nome da pereba.

Assim, a vida ia sendo levada na manha. Juntando os “encostos”, o salário dele e as “comissões” dela, não havia motivo para se queixarem muito da vida. Faziam o que gostavam, ele quebrando ossos dos fregueses indesejáveis da Calypso e ela trabalhando na área de serviços de entretenimento da casa. Galgara o posto mais alto, no queijinho mais alto.

Realmente, não havia motivos para se queixarem muito da vida. Até que chegaram aquelas cartas do INSS, convocando-os para nova perícia. Tudo novamente, após apenas dois anos! O que estariam pensando aqueles burocratas? Não teriam mais nada a fazer, do que incomodar seus clientes? E não deu outra. O perito não se impressionou com o lombo da Crimxise e a considerou apta para retornar ao trabalho na economia mais formal. Tão formal que teria de voltar a trabalhar vestida. Se havia algo que não se usava na Calypso, esse algo era o uniforme de batente. Crimxise até tentou inovar, atando uma fita vermelha no pescoço. Só que a clientela reagiu, gritando “tira, tira, ...”.

Chegou a vez do Gessilever, na perícia. Entrou de cara amarrada na sala onde se decidiria seu futuro, por pelo menos dois anos. Relatou que não conseguia dormir, pois a dor era muita. Não encontrava posição. Seus dias seriam um inferno, obrigado pela dor a ficar imóvel, em casa. Desgraçadamente, o médico perito trouxe ótimas notícias, para o INSS. Gessilever estava apto a retornar ao trabalho. O descomunal porteiro da Calypso gelou. A renda da família ficaria seriamente abalada. Crimxise teria de fazer hora extra, e, o que é pior, fora do horário do batente. Então seria amor! Hora de aplicar o plano B:

- Tem o traumatismo ucraniano, doutor...

- Não vejo nada disso nas radiografias, o senhor não apresenta traumatismo craniano!

- Eu não, doutor, mas o senhor apresentará, quando eu terminar...


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