4.7.08

422 - Um lugar para exercer a cidadania



Foto: Paulo Heuser
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Um lugar para exercer a cidadania

Por Paulo Heuser


O Parágrafo único do Art. 1º da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 reza que: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Tudo muito bonito, especialmente quando lido pelo pessoal lá de cima do palanque. Quando o povo emana o poder através dos seus representantes eleitos, tem havido discordância quanto à qualidade do produto do processo democrático. Ou seja, as leis e os governantes não são exatamente aquilo que o povão esperava. Os que emanam o poder têm duas formas para mostrarem seu descontentamento com a atuação dos seus procuradores legais.
Uma forma de protestar passa pelas urnas. Quando o eleitor se sente traído, poderá optar por outro candidato, na próxima eleição. Porém, não o faz, talvez por não lembrar em quem votou. Alguns votam no candidato mais pitoresco, em forma de protesto. Os partidos mais espertos já colocam um chamariz das moscas descontentes. Ele se elege, mesmo tendo um discurso absurdo e uma imagem caricata. De qualquer forma, o eleitor será governado por quem elegeu. Seria melhor se protestasse antes, não depois.

Outra forma de protesto é o protesto em praça pública, cada vez mais exercido. Aquele parágrafo único da Carta garante que o poder poderá ser exercido diretamente. Isso incomoda. Sempre há alguém no meio do caminho, exercendo esse direito. A desorganização é total. Deveria haver uma agenda de protestos, dando preferência aos domingos e feriados, fora da hora de maior movimento. Falta estrutura para tratar dos protestos. Poderiam criar ministérios e secretarias de estado para tratarem dessas manifestações populares. Os protestos atrapalham a vida de quem não está protestando naquele momento. Sei que a idéia é exatamente esta, dar visibilidade ao problema, mas isto pode parecer válido quando o protesto é eventual, extraordinário. Quando faz parte da rotina, deixa de ser protesto e passa a fazer parte do leque de manifestações culturais. Seriam então os órgãos de apoio à cultura, os responsáveis? Alguém tem de tratar do assunto, pois o trânsito está uma porcaria, não só pelo aumento do número de carros. Fiquei tão pessimista, que confundi uma cerimônia de entrega de novas ambulâncias com um protesto dos socorristas, por melhores salários. No fundo, parece tudo igual, pois atrapalham o trânsito.

Um protesto não difere muito de um espetáculo de arena. Há pelo menos duas partes em conflito, mesmo que uma não saiba disso. Há também os catalisadores, os elementos que possuem agenda específica, para bagunçarem mais o coreto. São os sujeitos de aparência erudita, pastores ideológicos que conduzem os simplórios. Eu já acredito na existência de plantões de protesto, compostos de estudantes de meia-idade que podem ser mobilizados em poucos minutos. Eles compõem os batalhões do teleprotesto, evolução natural das telemensagens, que caíram no esquecimento.

Uma pasta constituída para tratar dos protestos poderia começar pela organização de horários e locais. Há uma tendência natural para moverem as praças de eventos para fora das cidades. O Coliseu de Roma, por exemplo, foi desativado como sede de jogos. Ninguém mais luta lá dentro, afora turistas japoneses procurando pelo melhor ângulo fotográfico. Tampouco promovem peladas de futebol, no seu interior. Os times construíram novos anfiteatros, fora do centro da Cidade Eterna. As corridas de carroças ocorriam no Circo Máximo, vizinho do Foro Romano. Hoje, ocorrem em Monza, longe de lá. Velhas cidades encontram novas soluções, pois é apenas uma questão de organização.

O que faz falta, por aqui, é uma arena de protestos, um protestódromo. Já temos sambódromo, camelódromo e crackódromo, por que não utilizarmos um deles para sediar os protestos? Com investimento quase nulo, auferiríamos ganhos importantes na liberação do trânsito. Lá todos poderiam exercer a cidadania à vontade. A redução da emissão de gases do efeito estufa seria um destaque. Carros em marcha lenta poluem muito mais, por mais tempo. A redução da irritação com os engarrafamentos, gerados pelas marchas de protesto, tornariam os eleitores mais simpáticos aos governos. Todas as esferas de governo poderiam compartilhar o protestódromo. Por que não organizarem megaprotestos ecumênicos, contra os governos federal, estadual e municipal? Algo como um Megaproteshow Federativo. A agenda seria sorteada entre os sindicatos e movimentos sociais. Os estudantes de meia-idade montariam seu plantão naquele local, abrindo a Uniprotesto. Os candidatos eleitorais poderiam utilizar o espaço para os comícios-protesto.

São apenas sonhos, idéias que surgem durante os congestionamentos de trânsito. Quem não concordar, sempre pode protestar. Há espaço!

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24.3.07

Um dia como outro qualquer



Um dia como outro qualquer

Por Paulo Heuser


Mais uma sexta-feira normal, como outra qualquer. Desço a Caldas Júnior, mostro o crachá ao soldado que, apesar da cara feia, levanta o cordão de isolamento, me abrindo passagem. A imprensa ainda não chegou. O pipoqueiro, sim, bem como a velhinha dos panos de prato de cinco reais – hoje tá barato! – surrealmente sentada naquela cadeira de praia, sob o andaime, dentro da área isolada pelos soldados. A mãe dela teria vendido panos de prato bordados aos soldados alemães e franceses nas trincheiras da Alsácia-Lorena? Subo ao andar, coloco a moeda na cafeteira e dou uma espiada pela janela.

O prédio da esquina com a Mauá, de onde saiu o PCC e entrou o MST, e sabe lá mais o quê, está sendo desocupado pela tropa de choque. Macacões azuis e capacetes laranjas cercam as ruas e os telhados. No meio da rua vazia, um sujeito de terno e pasta. Será o oficial de justiça? Ingrata profissão, de homens poderosos e solitários. Ninguém os recebe com fanfarras. Quarenta e cinco minutos após o ultimato de cinco minutos, as tropas invadem o prédio. Não há resistência, física, pelo menos.

Começa a retirada das pessoas e das tralhas. Aquelas se reúnem em semicírculo, obedecendo a uma voz de comando que parece sair de um sujeito de bermudas, regata e boné branco. Deve ser o comandante, pois se posta no interior do semicírculo e começa a puxar o coro de frases de efeito, algumas feitas. Uma é vaiada, pois todo mundo já está cansado de saber que o povo unido jamais será vencido. A realidade nos mostra isso o dia todo. À frente, colocam-se as crianças, enviadas por uma mulher jovem, vestindo calça capri e colant pretos, chapéu de palha, com um bebê no colo. As crianças formam uma bizarra ala de frente, carregando um estandarte contra o machismo, o imperialismo e outros ismos. Logo a seguir, vêm os da outra ala, carregando os estandartes de um estranho MTD – Movimento dos Trabalhadores Desempregados (sic). No semicírculo, começa uma fieira de cânticos, muito eclética, por sinal. Começam com Para não dizer que falei de flores, do Geraldo Vandré, seguem com Atirei o pau no gato, sei lá de quem, Asa branca, do Grande Gonzaga e, para encerrar com chave de ouro, Parabéns a você, sei lá de quem também. Gosto da primeira e da terceira. Não entendo a segunda e a quarta. Ops, não terminou ainda, agora vem algo gospel. Chega a imprensa. E o congestionamento vai longe. O telefone toca, alguém relatando que está preso no túnel. Deus ajuda quem cedo madruga. Enquanto um helicóptero tudo observa, voando feito um zangão barulhento.

O trânsito é liberado na Mauá. Meia dúzia tenta bloqueá-lo. Um apito de soldado basta para demovê-los. A turba se vai, cantando cânticos ensaiados, perdendo-se ao longe, em meio a buzinaria dos que perderam a hora da manhã. O café terminou, a janela fechou. Numa sexta-feira que começou como qualquer outra. Quem invadirá o prédio hoje à tarde?


E-mail: prheuser@gmail.com

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