18.12.09

571 - Quando o cosseno de teta tende a zero


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Quando o cosseno de teta tende a zero



Paulo Heuser



Do primeiro bueiro a gente não se esquece. Tornei-me repetitivo depois que caí num deles. Volto ao assunto porque me encontrei ontem com o Gervásio, na Praça da Alfândega. Em meio aos habituais freqüentadores do local, o Perninha, o Funéreo e a Catorze Minutos, lá vinha ele, rengueando as duas pernas, mais ou menos como eu. Alguém poderá questionar a verossimilhança da rengueada dupla simétrica, mas, fazer o quê? São questões puramente técnicas e funcionais. Eu não sabia do assalto dele, não foi o primeiro, nem ele sabia do meu bueiro, o primeiro. A bem da verdade, devo confessar que aquela não foi a minha primeira incursão num bueiro, porém, foi a primeira involuntária. Quando eu era criança venci uma aposta ao percorrer dois quarteirões através da recém-implantada rede de esgoto pluvial, espero, de Santa Cruz. Isso são águas passada. Gervásio contou-me da sua mais recente aventura, ocorrida dois dias antes. Ele fora fazer a ceia no drive thru para pedestres, pois a noite o estava convidando a fugir da delivery do Anthony’s Dog, o popular Lulú do Tonhão. Quando quase alcançava o trailer de comida rápida, surgiram dois sujeitos que se apaixonaram pela carteira dele. O relógio já se fora no quarto assalto de 1993. Disposto a salvar o que fosse, Gervásio pôs-se a correr ladeira abaixo. Quando estava em plena debandada, calculou que sua velocidade crescia para além do limite tolerável pelas pernas, pois o cos(Ѳ) era muito pequeno e tornava proporcionalmente minúsculo o atrito cinético. Em mais três ou quatro passos, ele entendeu a gravidade da situação. Com força de atrito cinético quase nula, referida ao solo, sua velocidade aumentava pela aceleração da gravidade, freado apenas pela força de atrito com o ar. Graças aos céus, e ao cachorro-quente do Tonhão, sua silhueta semi-atlética o ajudava a frear. Até que ele tropeçou. Aí a coisa se complicou de vez, pois ele colidiu contra um corpo de massa infinitamente maior, a Terra. Toda aquela energia cinética foi convertida em hematomas e escoriações. Além da energia mecânica dos gritos, evidentemente. Quando Gervásio chegou em casa, naquele estado, a mulher duvidou dele ao ouvir que ele havia feito tudo aquilo sem a ajuda de ninguém. Sozinho ninguém conseguiria rebentar-se tanto.


Promovemos o I Concurso de Chagas da Praça da Alfândega. Um mostrava o joelho ralado, outro mostrava a mão esfolada. De chaga em chaga, um apostava, outro cobria a aposta. Empatamos. Estávamos igualmente destroçados. Havia mais algo, em comum, conforme deduzimos depois. Todo mundo nos dizia da sorte que tivemos, afinal, não quebramos nenhum osso e não levamos tiros. Que sorte! É verdade, temos muita sorte de morar aqui. Como canta a música, Porto Alegre é demais!




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4.6.08

408 - Couve, farofa e tiro


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Couve, farofa e tiro


Por Paulo Heuser


Quando eu era criança, acreditava ser americano. Não um americano qualquer, como os brasileiros, argentinos, bolivianos ou mexicanos. Um norte-americano, dos legítimos. Os filmes das sessões vespertinas nos induziam a esse pensamento. Os norte-americanos eram os bons, os mocinhos. Portanto, também éramos norte-americanos, pois éramos bons. Um exercício simples de lógica remetia a essa conclusão. Nossos inimigos eram os japoneses, os alemães e os índios. Essa crença se foi, junto com os filmes ufanistas onde os filhos do Tio Sam resolviam tudo à bala. Eles continuam resolvendo à bala, mas os inimigos mudaram de cara e de postura.

O pior aspecto em ser americano era acreditar que as coisas se resolveriam à moda de lá. As casas das revistas em quadrinhos não tinham cerca, e os bandidos se resumiam aos Irmãos Metralha, ao Mancha Negra e à dupla João Bafo de Onça e Zé Honesto, perfeitamente identificáveis pela aparência. Havia hidrantes vermelhos nas esquinas, que não eram roubados, e quem estacionava diante deles era multado. Nos filmes, quando era chamada, a polícia vinha. Bastava discar 911.

Hoje, muitos anos depois, me convenceram a almoçar a feijoada do Jacó. Já não me restava dúvida alguma, quanto à condição de não-americano. Se ainda houvesse alguma, teria se dissipado de pronto. Não pela feijoada, pois há tantos brasileiros lá fora, que já devem considerá-la prato genuinamente nova-iorquino. A última dúvida seria terraplenada pelo espetáculo improvisado do lado de fora do Jacó: um assalto com direito a tiro e ferido. O assalto em si, não espantou ninguém, pois se incorporou à rotina da cidade. O que mais me espantou, foi a reação dos clientes.

Em outros tempos, todos se jogariam sob as mesas, procurando evitar as balas perdidas. Hoje, não. Um freguês recostado à parede, com ares de quem havia avançado com gosto na feijoada, comentou, sem entusiasmo:

- Foi tiro. – bocejou longamente, enquanto falava.

Outro cliente, sentado à mesa junto à porta, concordou:

- Foi. O presunto está caído.

A mesma falta de entusiasmo, do outro, foi denunciada pela garfada deste na feijoada. Um grão de feijão tentou escapulir, gravata abaixo, mas foi interceptado a tempo, pelo golpe certeiro com a língua. Reflexo típico daqueles que já almoçaram muitas feijoadas e mocotós. Os anos de experiência ensinam.

- Morreu? – perguntou a morena de botas de cano alto, casaco roxo peludo e calça justíssima, que se servia de couve e farofa. Sequer virou-se, para perguntar.

- Não. Levantou-se, e está sangrando na perna. Está vivo, por enquanto.

Sentado ao lado da porta, o sujeito grisalho dos óculos redondos narrava o acontecido como se estivesse narrando uma partida de xadrez. Não emprestava emoção alguma à narrativa. O outro, encostado à parede, mudou de assunto, passando a olhar para a morena da couve com farofa. Analisou o norte do cano das botas e disse:

- Fulana, não vá muito na couve, senão engorda!

Do lado de fora, a vítima cansou de esperar pelo socorro, sabe-se lá de quem. Colocou uma toalha sobre o assento do carro e se foi, deixando uma mancha de sangue no pavimento.

O guardião da porta gritou para o Jacó, entre garfada e outra:

- Só não vá cobrar couvert artístico!

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