5.12.09

567 - O cofre

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Foto: Paulo Heuser
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O cofre


                                                                                Paulo Heuser



Vai chover, muito. Evito olhar para o céu, tornei-me gaulês. Temo que ele me caia sobre a cabeça, único temor dos gauleses. Deles, pois nós tememos tudo, inclusive que nossa própria sombra nos assalte. Caminho com jeito de local, pois é perigoso parecer forâneo por aqui. Os locais não olham para os lados, já sabem tudo que há pelos flancos. Olho setenta metros à frente, com olhar de franca indiferença. Essa é a regra. Mesmo à frente, conheço tudo, de olhos fechados, o poste, o mendigo, a lixeira, a caixa de coleta dos correios, a parada de ônibus e o cofre. O cofre. É, um cofre, daqueles grandes. Não é um Fort Knox, mas abrigaria o conteúdo de muito caixa dois.



Bem, aí temos algo de novo. O cofre. Se um cofre, em pé, chama a atenção, o que dizer de um cofre tombado, de boca aberta, na esquina da Rua da Praia? Jaz inerte feito pedestre que usa a faixa. Esconde apenas um grande vazio. Esse cofre perturba minha passagem, pois penso no que aconteceu para que ele esteja ali. O mendigo está lá porque é um mendigo, é sua profissão. Dele se espera que lamurie para pedir dinheiro. Em outros tempos, cheguei a temer a aposentadoria do mendigo, por invalidez. Isso implicaria o paradoxo do mendigo da Caldas Júnior, pois ele, uma vez aposentado, deixaria de mendigar. Premiado pelo fator previdenciário, e pelos formidáveis reajustes da aposentadoria, ele logo integraria a legião dos Sem-Paim e voltaria a mendigar. Pilhado na volta à atividade, perderia a aposentadoria. Porém, a invalidez o levaria novamente à aposentadoria, e salve-nos Paim, assim por diante. São temores sofismáveis, mas retornam, de quando em quando. Bem, o mendigo que se exploda, pois o que me preocupa, mesmo, no momento, é o raio do cofre. Se cruzar por ele, terei de olhar para o lado, gesto impensável para um local. Pior do que olhar para o lado, só mesmo olhar para trás. Locais não olham para trás, nem deixam que sua sombra o faça.



Fico a imaginar por que diabos alguém largaria um cofre nesse lugar. Não é o lugar mais recomendável para se desovar um cofre roubado, ainda mais na hora do almoço. Por que ainda não o furtaram, se já se encontra jogado há mais de dois minutos? Esse trambolho, mesmo vazio, vale uma grana preta, lá pelos lados da Voluntários da Pátria. Pesa muito, deve ser isso.



Quantas perguntas sem resposta. Pensando bem, nada disso é problema meu, e é hora do almoço, hora de se olhar para a própria barriga. Só há um jeito de cruzar por ele. Olho para cima, sem preocupação com a sombra, pois está muito nublado.



Céus, vai chover, muito!





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23.6.09

531 - A cigarra e a formiga

Jean de La Fontaine
Fonte: Wikipedia
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A cigarra e a formiga

Paulo Heuser

Jean de La Fontaine era francês. Era, pois partiu desta para a – presumidamente - melhor em 1695. Ele escreveu, entre outras coisas, a fábula da cigarra e da formiga. Essa, todo mundo conhece. Não há quem não a ouviu. É aquela historinha sobre a cigarra que vivia na gandaia enquanto a formiga se rebentava trabalhando, durante a primavera, o verão e o outono, para estocar alimentos para o inverno. A moral dessa fábula é evidente. O sujeito deve guardar algo para os dias escuros que virão.

José ouviu tal fábula à exaustão, desde o colo da mãe até a FEBEM. Ele teve uma infância comum, como qualquer outro menino. Nasceu na Vila Ronca Tripa, filho de pai viúvo e mãe ignorada, engraxou sapatos na praça, roubou calotas, foi aviãozinho e coroinha. Sua infância não foi fácil, ralou entre o bem e o mal, mas sempre acordou cedo e foi dormir tarde. Trabalho era seu nome. José sabia que só assim poderia guardar algo para os anos da velhice. Aos 18, quando deixou a FEBEM, José abriu sua própria boca-de-fumo. O rapaz era um empreendedor. Fez curso de marketing no Sebrae e inovou, lançou baseado com sabor. Maracujá e abacaxi francês. Foi um estouro.

Do ilícito à remissão, José trocou o crime pela retidão. Rima infame, porém necessária. Ele investiu em música gospel e prosperou. Abriu uma gravadora de fitas cassete, quem se lembra delas? Crente não pirateia, e ele vendeu fitas como água que desce o Jordão. Longe das festas e tentações, ele guardou 40 por cento de tudo que ganhou, pois a fábula da infância deixou sua lembrança. Ele era formiga, não era cigarra. E a cigarra? Tocava viola no planalto.

José foi das fitas aos CDs e DVDs. Já vendia daunlouds quando percebeu que poderia ter um inverno confortável e tranqüilo. Acumulara um bocado de dinheiro junto ao governo. INPS, INSS, ISSQN, ISS, ICMS, IR, II, IPTU, ITR, IOF, IRGA, INCRA, ITBI, ITBM, IPVA, INRI e todos demais is. Contudo, José não queria parar. Ele era uma boa formiga e queria alongar seu outono. Trabalharia até que o inverno se fizesse presente. O que apressou as coisas foi outro i, o infarto. José chegou cedo ao escritório, tomou um café e sentiu uma dor muito intensa, que se estendia do braço ao peito. Enfartou. Pôs pontes e molas. O médico recomendou descanso. Resignado, José reconheceu que o inverno chegara. Era hora de descansar. Ainda bem que ele era formiga e passara a vida guardando. E a cigarra? Bem, Jean de La Fontaine havia se enganado. Ela era um paquiderme, na verdade. Gastou tudo que José amealhou, em farras no planalto, terminando por pisar nele.


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