22.7.08

429: Yi, er, si!



Fonte: Wikipedia
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Yi, Er, Si!

Por Paulo Heuser


Entre outros vícios, como o de contar botões, tenho o hábito do jogo. Faço uma fezinha, na Mega Sena, duas vezes por semana. Jogo todas as quartas e sextas-feiras, três bilhetes “no escuro”. Eu comprava os bilhetes, na loja de uma senhora chinesa, através de uma monótona rotina. Entrava na loja, pedia três Mega Senas e uma Quina de cinqüenta centavos, para arredondar o valor em cinco reais. Ela escolhia os bilhetes, e tentava me vender um café de máquina. Eu recusava, alegando que só tomaria o café quando acertasse na loteria. Porém, algo mudou, faz umas duas semanas.

Os numerais são estranhos, em outras línguas. Os antigos romanos gastariam todo o alfabeto, pela falta do zero. Quem for aprender o idioma alemão, logo perceberá uma diferença enorme nos numerais, quando comparados com os numerais em português. Vinte e um vira einundzwanzig – um e vinte, literalmente. As unidades precedem as dezenas, em alemão. Para quebrar qualquer tentativa de se estabelecer uma regra lógica, os milhares precedem as centenas, que precedem as unidades, que, por sua vez, precedem as dezenas. Para complicar um pouco mais, as dezenas de centenas são utilizadas como no idioma inglês, quando se tratam de datas. Mil novecentos e vinte e um vira algo que, traduzido literalmente para o alemão, fica dezenove centenas, um e vinte. No idioma inglês ficaria um misto dos dois, traduzido como dezenove centenas, vinte e um.

Os italianos e os alemães escrevem numerais por extenso que tiram o fôlego de qualquer um, pois não colocam espaços entre as palavras que compõem o número. Três mil e novecentos e oitenta e sete vira um desses dois horrores, quando traduzido para o italiano ou o alemão, respectivamente: tremilanovecentoottantasette e dreitausendsechshundertsiebenundachzig. Com milhões e bilhões ficam ainda melhores.

Eu pensei que o pior vinha da França. Por alguma razão, eles só foram até o sessenta, com as dezenas faladas. O que gera inevitáveis confusões quando um francês informa o preço de alguma coisa a quem não conhece os numerais deles. Setenta, por exemplo, é soixante dix – sessenta dez. Noventa, vira quatre vingt dix – quatro vinte dez. Há quem atribua essa adoração pelo vinte a um sistema numérico céltico baseado nesse número.

Creio que ocorreu alguma reforma numérica na China, pois a dona da loja, na qual compro meus bilhetes, não vende mais três bilhetes, desde que a aposta subiu de R$ 1,50 para R$ 1,75. Pareceu-me que o número três sumiu. Desde que aos três bilhetes passaram a custar R$ 5,25, dificultando o troco, ela vende um, dois ou quatlo – Yi, er, si. Tlês – San - não! Tlês, só tomando um café.


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19.3.07

A Loteria do Infortúnio

A Loteria do Infortúnio

Por Paulo Heuser

A última fatura do cartão de crédito trouxe uma novidade admirável. Não sei como, ninguém havia pensado nisto antes. Há produtos e serviços que estão aí, caindo de maduros, sem que ninguém os perceba. Até que um dia, alguém é acometido de um surto de criatividade, trazendo a novidade à luz. Como quem chega na frente leva uma vantagem enorme, o sucesso está garantido. Neste caso, em especial, o produto revoluciona a área de seguros.

Muita gente, onde não me incluo, deixa de fazer seguros porque acredita que a estatística joga a seu favor. Às vezes dá certo, noutras dá o infortúnio. Eu acredito que as seguradoras sempre jogam para não perder. E elas têm o monopólio do infortúnio. Recebi, junto à fatura original, outra intitulada “Acidentes Pessoais com Sorteio”. Há uma folha anexa com o regulamento, mas não consigo lê-lo. Nem eu, nem mais ninguém além dos 40. Letrinha menor do que aquela da composição química provável das coisas que levam (e trazem) gorduras trans. Impossibilitado de descobrir como a coisa funciona, posso ao menos imaginá-la, a partir do título.

A natureza estatística dos acidentes impede o planejamento de um fluxo de caixa sem surpresas. Um ônibus de peregrinos cai da ribanceira. Pronto, foi-se o caixa da seguradora, naquela semana. Por outro lado, os segurados também não podem planejar a vida de forma conveniente, ante a possibilidade de acidentes pessoais. Dona Lourdes tira férias para fazer peregrinação e o ônibus no qual ela viaja cai da ribanceira. Sempre acontece com ônibus de peregrinos. Foram-se as férias, foi-se a peregrinação. Se fosse capaz de prever os acidentes antecipadamente, Dona Lourdes não tiraria férias na época dos acidentes. Com sorteio mensal de acidentes pessoais, bastaria tirar férias logo após um sorteio onde não fosse contemplada. Bom para Dona Lourdes, que não perderá a peregrinação, bom para a seguradora, que sabe exatamente quanto vai pagar de indenizações. Só não descobri se é possível dar lance, tirando um acidente além do sorteio.

Outra coisa que não me foi possível identificar, é se há tipificação do acidente, por natureza, como a queda da escada ao trocar lâmpadas ou atropelamento pelo cortador de grama. Poderá haver outras, como escorregão no pipi do cachorro e intoxicação pelo pastel do boteco. Bem, este último é, na verdade, uma tentativa de suicídio, não coberta por nenhum tipo de seguro. De qualquer forma, a tipificação poderá frustrar um segurado que sonha com uma perna quebrada e ganha apenas um braço quebrado, na extração pela Loteria Federal. Mais justo poderá vir a ser o sorteio de quantias em dinheiro, para indenização de acidentes pessoais à escolha do segurado, desde um cardápio de opções.

Não paro de me espantar com a criatividade do ser humano na concepção de produtos como este. Coisa de gênio, como o consórcio de sepultamento. Foi sorteado no mês e não aproveitou, perdeu a vez. Depois, só por lance.

E-mail: prheuser@gmail.com

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