19.3.10

575 - Mistérios da mente

Fonte: Wikipedia
.
Mistérios da mente


Paulo Heuser


Ulli adora os pastéis de joelho de porco. Sua predileção recai sobre os Schweinshaxepasteten da Áustria, mais crocantes, quando comparados aos Eisbeinpasteten de Munique. O primeiro contato dele com essa iguaria ocorreu em Kirchdorf an der Krems, Áustria, na Schweinshaxepasteten-Haus GmbH, minúsculo restaurante localizado no Simon Redtenbacher Platz halb 4. Os pastéis de lá são inigualáveis, recheados generosamente com um joelho de porco assado e meio repolho roxo. Ulli é o apelido do Klaus-Ulrich Klosettschüsselfüllung, filho de um vendedor de medidores de pH para chucrute, que imigrou para o interior de Linha Nova Áustria do Sul, RS. O pequeno Ulli desde cedo mostrou uma queda para as ciências químicas, como o pai. Ainda no jardim de infância, desenvolveu sua variante para o clássico Abfülltenfurtzen (peido engarrafado) e acrescentou traços de gás de repolho ao gás sulfídrico - H2S. A genialidade precoce do menino não passou despercebida, e ele foi enviado à Universidade da Basiléia, Suíça, onde se graduou em Química e doutorou-se em Neuroquímica, orientado pelo célebre prof. Albert Hoffman, aquele que fez a juventude dos anos 60 e 70 enxergar coisas coloridas onde nada havia. Ulli não seguiu os estudos psicodélicos do mestre e dedicou-se a desvendar os misteriosos mecanismos da memória. Embrenhou-se nas ligações químicas efetuadas pelos neurônios responsáveis pela codificação, pelo armazenamento e pela recuperação das sensações e das ideias.
Foi num sábado, lá pelo meio-dia. Ulli deu um pulo até Vale do Sol. Lá, seguindo pela pequena estrada que cruza próximo à Pousada Formigão, há uma casa onde mora Oma Elfriede, uma velha senhora austríaca, que domina a arte da confecção dos Schweinshaxepasteten. Ele não estava sozinho, havia turistas da Capital, que, de alguma forma, haviam chegado até lá. Oma Elfriede complementa a renda familiar através da especialidade culinária que é transmitida de mãe para filha, os Gerosteschweinshaxepasteten, versão de forno dos fritos, os Gebrateneschweinshaxepasteten.
As moscas já empestavam o alpendre sob o qual os comensais se sentavam, à longa mesa de madeira rústica. A conversa girava em torno das Olimpíadas de Inverno de Vancouver. Comentavam da loucura de alguém que se jogara perau abaixo, de cabeça, em um minúsculo trenó. Um sujeito calvo, que matava moscas com palmadas certeiras, perguntou:
- Vancouver fica na Alemanha?
- Não, se ficasse na Alemanha chamar-se-ia Von Kuwer... – respondeu-lhe alguém.
- Ah, percebi, fica na Holanda!
Essa conversa foi o gatilho que disparou a tempestade no cérebro do Ulli. Ele finalmente pode desvendar os mistérios neuroquímicos da memória. Pena que ele não se lembra mais disso.



Marcadores: , , , ,

24.2.09

503 - A revolta dos pastéis

Foto: Paulo Heuser
.

A revolta dos pastéis

Por Paulo Heuser


Era domingo de Carnaval, e João - vamos chamá-lo assim, pois efetivamente é o seu nome - temperava uma ovelha para o churrasco da noite, na sua casa de praia. João contou este causo enquanto saboreávamos a tal da ovelha. Naquela tarde, ele estava com as mãos cheias de tempero quando ouviu o bater de palmas ao portão. Meio a contragosto, foi verificar do que se tratava, pois, naquele momento, encontrava-se sozinho em casa. Verificou tratar-se de uma moça morena, de aparência pobre. Então, travou-se o seguinte diálogo:

- O que deseja?

- O senhor me desculpe, mas haveria qualquer resto de comida? Estou com muita fome.

Ela disse isso em tom estranhamente normal, sem lamúria nem súplica. Apenas disse. João já estava impaciente, pois já haviam tentado lhe vender canetas, em nome da paróquia, e outras coisinhas que, quem está de férias, não quer. Ele apenas disse:

- Lamento, mas estou ocupado, e minha mulher não está em casa.

- Senhor, eu sei que estou lhe incomodando, mas realmente estou com fome.

Naquele momento, a ficha caiu. João percebeu que, por trás de uma aparente calma, aquela moça sentia algo que ninguém deveria sentir, pelo menos involuntariamente. Muitos passavam fome voluntariamente, naquela praia, para se manterem dentro dos padrões estéticos vigentes. Não aquela moça. Ela estava se lixando para as aparências e queria apenas comer. Queria deixar de sentir aquele vazio dolorido. Tocado no íntimo, João lavou as mãos e encontrou alguns pastéis comprados naquele dia, mas não consumidos. Alcançou-os à moça, que disse no mesmo tom de intrigante calma:

- O senhor não tem idéia do bem que me fez.

Agradecida, a moça seguiu seu caminho, enquanto comia os pastéis salvadores. Aquele evento abalou as estruturas do João. Tanto que ele fez algumas pausas, enquanto relatava o ocorrido. Todos ouviram em silêncio e deixaram a ovelha de lado, por um instante.

Na segunda-feira, eu lutava contra Umberto Eco. Lutava, porque não conseguia avançar três linhas na mesma página. Algo me perturbava. Era o relato do João. Havia algo extremamente perturbador naquilo. Olhando a chuva, percebi o que era. Ninguém mais encara o pedinte como alguém que passa fome. Associamos o pedinte com o achaque que sofremos no dia a dia, que parte daqueles que nos abordam, às dezenas, seja nos sinais, seja na exclusão do assistencialismo eleitoral oficial. O incluído social passou a ser aquele que consome eletrodomésticos em 24 vezes para pagar - a primeira só depois das eleições. Contudo, há os que passam fome. Fome. Eles não têm o que comer e recusam-se a chafurdar no lixo. Passam pela fome digna, apesar de nada haver de digno na fome. Não querem celular pré-pago nem TV de plasma. Querem comida.

A moça ganhou seus pastéis, que devem tê-la mantido até o outro dia. João ganhou seu dia. Mais, provavelmente, ganhou gratidão. A ovelha se foi, devorada pelos convivas. Umberto Eco me desafia a seguir na nem sempre fácil leitura dos seus escritos. E eu? Bem, fiquei a olhar para a chuva, que caía persistente, a imaginar que a falta de um pastel poderá iniciar uma revolução.

Marcadores: , , , , , , , ,

12.2.08

O pastel do Mezenga

O pastel do Mezenga

Por Paulo Heuser


Dia desses, eu resolvi tomar o café da manhã fora. A única coisa que não faz parte do meu café da manhã é o café. Gosto de bebidas mais saudáveis, como fanta, fruki, mirinda ou sukita, coisa que aqueles que preparam os cafés dos hotéis ainda não perceberam. Alguns chegam a me perguntar: café ou chá? – Fanta, lhes repondo. Assim, adentrei o Bar do Mezenga, nos baixos da Caldas Júnior, atrás do famoso pastel da casa e de uma fanta gelada.

O Mezenga vendeu o ponto, faz algum tempo, e partiu para um restaurante de comidas mais gaudérias. Deixou saudade. Arrisquei assim mesmo. O lugar ficou estranho, com aquelas máquinas de videopôquer. Como não sou afeito ao pôquer matinal, preferi assistir ao noticiário da manhã na TV. O antigo pastel também se foi com o Mezenga. O novo não escorre como aquele. Havia uma técnica especial para comê-lo. Quebrava-se a massa em uma das extremidades e entornava-se a gordura no cinzeiro. Pastel fresco é assim, escorre.

Deliciando-me com a fanta, não tanto com o novo pastel, observei que a mesa ao lado estava ocupada por pai e filho, este de uns sete anos de idade, mais ou menos quatro, para ser bem preciso. O olhar do menino estava grudado na tela da TV, enquanto mastigava seu ex-pastel do Mezenga. Ele provavelmente nunca saberia o que é um verdadeiro pastel – pensei. Meio ovo, azeitona inteira e a cozinheira invisível, eis o segredo. Enquanto as mandíbulas do menino encontravam-se ritmicamente, o locutor falava da possibilidade de cassação do vereador que aparecia na imagem: um homem postado com as mãos para cima, usando imenso crucifixo dourado, com longos cabelos e barba, túnica branca e uma coroa de espinhos sobre a cabeça, – Jesus! – gritou o menino.

Horrorizado, o pai apressou-se em explicar ao menino que aquele não era Jesus, era o Cururu, vereador de Pelotas, enquanto o locutor informava da possibilidade cassação do edil por quebra de decoro, já que este havia vestido uma túnica branca, manipulado objetos e proferido palavras cabalísticas. – Ele é padre, pai? Novamente o pai respondeu-lhe negativamente, enquanto lhe explicava que aquela era uma cerimônia de vodu.

Entre um gole e outro de fanta, entendi a confusão que tomou conta do menino que assistia àquele espetáculo ritualístico-legislativo. Alguém vestido daquele modo efetivamente se parece com a imagem de Jesus nas pinturas religiosas. Confundi-lo com um sacerdote cristão também não é difícil, desde que se acredite que o hábito faz o monge. Curiosamente, o refrão que Cururu usou na fracassada tentativa de eleger-se deputado federal, informava que, além de ter micose nos dedos dos pés, dor na coluna, bicho-de-pé e coceira na cabeça, já fora vendedor de pastéis, entre outras coisas. E o homem foi eleito vereador com 4.643 votos, o quinto mais votado em Pelotas, em 2004. Portanto, representou legitimamente 4.642 cidadãos, além dele próprio, ou 2,42 por cento da população de Pelotas.

Os ataques aos cultos legislativos do Cururu mostraram um lado por vezes oculto da discriminação. Os adeptos a outras crenças ficaram ofendidos com a performance do Cururu. Como reagiriam se a cerimônia fosse executada por um sacerdote pertencente às igrejas majoritárias? Um que vestisse túnica branca, manipulasse objetos e pronunciasse palavras ritualísticas?

Fim de fanta, fim do pastel. O menino ainda olhava para a tela da TV, com o olhar de quem nada entendia. Um dia, provavelmente lhe ensinarão sobre os sincretismos, religiosos e políticos. E ele nada entenderá, restando-lhe a fanta e a lembrança do pastel do Mezenga, do qual nunca chegou a provar. Assim é a democracia.


prheuser@gmail.com
www.pauloheuser.blogspot.com
www.sulmix.com.br

Marcadores: , , , , , , ,