15.7.09

536 - Zigoto e gameta

Foto: Paulo Heuser
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Zigoto e gameta

Paulo Heuser


Quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha? A Dra. Huhntraudt Von Der Eier, do Instituto de Estudos Criacionistas de Roswell, NM, afirma que o ovo surgiu primeiro, pois a primeira galinha nasceu de um ovo posto por uma não-galinha, e um ovo de não-galinha não pode gerar uma galinha. Portanto, aquele ovo que gerou a primeira galinha era um ovo de galinha, apesar de posto por uma não-galinha. Simples assim, fenômeno que inspirou a dupla caipira Zigoto e Gameta.

Os ovos remetem à infância, literalmente. Fui alfabetizado através de uma cartilha cheia de vês e vogais, inclusive ovos. Havia frases como: Vovó viu os ovos do vovô, e Ivo viu a uva de Eva. Vivi a infância no tempo em que se podiam comer ovos. Época maravilhosa aquela. O sujeito levantava-se, pela manhã, e recebia um ovo cozido, daqueles que se tira a tampa. Havia um suporte que mantinha o ovo de pé – Eierbecher, na primeira língua que aprendi. Eu gostava tanto desses ovos que sonhava com um Doppeleierbecher, para dois ovos. Então, a grande nação do norte descobriu que os ovos faziam mal à saúde dos habitantes do Terceiro Mundo. Foram-se os ovos, ficou a maionese de vidro. Criaram massa sem ovos, maionese sem ovos, quindim sem ovos e ovos de gelatina. O mundo nunca mais foi o mesmo, pelo menos o Terceiro. Décadas depois, os cientistas descobriram que a morte atingia não apenas aqueles que comiam ovos, já que os que não comiam ovos também morriam. Isso bastou para que muitos vegetarianos se transformassem se em verdadeiros dragões de Komodo, farejando ovos enterrados na porta da geladeira.

Creio que foi em primeiro de abril de 2008. Impressionado pela reabilitação dos ovos, resolvi experimentá-los. Cavei meu amado Eierbecher, comprei ovos e me pus a trabalhar na cozinha. Descobri algo terrível. Andaram fuçando nos tais de gametas e produziram ovos que são muito maiores, quando comparados com aqueles que eu comia na infância. Nenhum ovo moderno cabe no Eierbecher antigo. Sobra ovo para todos os lados. Como a solução de Colombo, para deixar um ovo em pé, não se aplicava nesse caso, não tive outra saída senão quebrá-lo ao meio e servi-lo no prato. Outra fuçada nos gametas tirou o gosto das gemas dos ovos. Elas ficaram com gosto de maionese de vidro. Ainda se conseguem ovos caipiras, no mercado negro. A questão do gosto até que se resolve, mas mesmo esses ovos são muito grandes. Andaram trocando a raça das galinhas caipiras.

Cozinhar ovos parece ser a mais básica das atividades culinárias, porém, há segredos na manipulação dos ovos. Ovos que afundam n’água são ovos frescos. Isso se explica porque a casca é permeável, e permite a saída de substância, substituída por ar. Por mais incrível que possa parecer, ovos cagados são melhores que ovos limpos. O ovo apresenta uma membrana ao redor da casca que é removida ao se lavá-la. Essa membrana aumenta a durabilidade do ovo. Portanto, só se lavam os ovos imediatamente antes de utilizá-los. Novamente, por mais incrível que isso possa parecer. Há quem reclame do cheiro dos ovos não lavados, mas os ovos naturais são assim mesmo, fedem.

O cozimento dos ovos também apresenta certos segredos. Um ovo padrão ABNT, de 57g, densidade 1,083 g/cm3, calor específico 3,7 J/gK e condutividade térmica 5,4 x 10-3 W cozinha em 3,5 minutos, quando a temperatura de partida é de 21⁰C, para se obter ovo mole. Se a temperatura inicial for a da geladeira, de 4⁰C, o tempo será de 4,5 minutos. Os ovos duros são de cozimento mais complexo, pois há o perigo de superaquecimento da gema. Uma técnica segura, porém demorada, é ferver o ovo por um minuto, desligar a chama e mantê-lo por mais 17 minutos n’água. Toma 18 minutos, mas o ovo fica perfeito. Se os seus ovos fogem desse padrão, não tema. Comece pela determinação da densidade, relação entre sua massa e volume. O volume pode ser determinado facilmente. Descubra duas funções que permitem determinar a curva de uma meia seção de um plano que o corta longitudinalmente. A seguir, deite a figura e calcule a integral de cada semi-plano, somando as duas partes. Quase pronto. Terá a área do plano. A partir daí, o processo é auto-explicativo, qualquer integral tripla calcula o negócio. Simples assim. Complicado mesmo, é ficar nessa posição.

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23.5.08

403 - O vazio de Roswell

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Foto: Wikipedia
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O vazio de Roswell

Por Paulo Heuser


A cidade de Roswell, no estado norte-americano do Novo México, é uma espécie de Meca daqueles que adoram os OVNIs – objetos voadores não identificados. Lá teria ocorrido a queda de uma espaçonave alienígena, em 07 de julho de 1947, acidente supostamente encoberto pelas autoridades daquele país. Seja como for, Roswell encontrou vocação no turismo, negócio infinitamente melhor do que o garimpo ou a criação de cactus. Até hoje, mais de 60 anos após o evento Roswell, ainda há muita gente revirando seixos em meio ao deserto, à procura de evidências que comprovem a ocorrência do evento. O comércio local fatura vendendo lembranças do evento de 1947. O cinema tem voltado suas atenções a Roswell, periodicamente, rodando filmes do gênero teoria da conspiração. Esta ficou para trás, aqui, faz muito tempo. Hoje somos peritos na prática da conspiração.

Adoro os antigos filmes B de ficção científica, porém não creio muito em discos voadores nos visitando. Para não dizer que não creio mesmo. Contudo, respeito que neles crê. Existindo ou não, o fato é que nesta última quinta-feira, feriado, eu descobri o que provavelmente aconteceu em Roswell. Tudo começou quando resolvi assar um churrasco. Carnes de churrasco, para mim, são a costela e o vazio. A costela andou sumida, desossada e transformada em produto das elites. Renegaram a lagosta, em favor da costela.

Eu comprei uma peça de vazio embalada a vácuo. Olhando por fora, tinha boa aparência. Ao abrir o invólucro, logo percebi por que chamam aquela peça de fralda, ou fraldinha. O que havia lá dentro era surpresa, como ocorre com as fraldas literais, cujos recheios podem assustar. Determinado a transformar aquilo em um pedaço de carne espetável, pus mãos a obra. Escolhi uma faca boa, afiei-a e comecei a cortar, esticar, arrancar e desdobrar. Foi então que me lembrei do Seu José, que mantinha o açougue mais asséptico do mundo, nos altos da Barão do Cotegipe. A primeira impressão era a de que ele não vendia carne. Não havia carne exposta, nem no balcão frigorífico. Tudo ficava armazenado dentro da câmara frigorífica. Tampouco o Seu José mostrava o pedaço ao freguês, antes de fechar negócio. Ele ouvia o pedido, entrava na câmara frigorífica e saía de lá com a peça de carne solicitada, no peso correto, + ou - 0,1%. A diferença entre o Seu José e um cirurgião era a precisão no corte. Muitos tentaram alcançar aquela do Seu José e não conseguiram. Acabaram como cirurgiões plásticos ou coisa que o valha.

Eu nunca tive a pretensão de dar cortes com a precisão do Seu José. Contudo, o que sobrou de útil depois da despelanquisação que procedi naquele vazio, mal dava para preencher um pastel de carne, já considerado o espaço para o meio ovo e a azeitona. Restou uma pilha enorme de sebo, membranas e outras coisas que careciam de um estudo histológico mais profundo, para classificá-las. O churrasco não foi um fracasso total. Havia pão, salada e cebolas assadas no espeto.

Olhando para a pilha de coisas que derivaram do tal do vazio, me lembrei do filme que mostrava a suposta dissecação de um ET em Roswell. Aquilo não era ET coisa nenhuma! Era o cozinheiro limpando um vazio embalado a vácuo, para o churrasco de aniversário do comandante do 509º Grupo de Bombardeiros, sediado em Roswell.

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