17.10.09

556 - Quarenta e três vinte e seis

Imagem: Wikipedia
Quarenta e três vinte e seis

Paulo Heuser

Caminhar na rua é coisa de pobre. Rico caminha na esteira. Pois, lá vou eu. Desfruto este sábado maravilhoso de primavera. Nem frio, nem quente, apenas perfeito. Deixo a esteira para trás, já que nem a tenho. Opto, compulsoriamente, pela rua. Maravilha. Sigo, pela 24 de Outubro, e paro para atravessar a Cel. Bordini Flores. Quem lá sabe que a Bordini é Flores? Aperto o botão e aguardo, conforme instruções. Aguardo, aguardo e aguardo. Quando já me esqueço do que fui fazer lá, o bonequinho do sinal muda, de vermelho, para verde. Aguardo ainda a passagem dos últimos 27 carros, que queimaram o sinal, e inicio a longa travessia. A visão do boneco caminhante verde é obstruída, repentinamente, pelo ônibus 4326. Nenhum carro passa, somente aquele imenso ônibus 4326, vindo da 24, ignorando o sinal e ingressando na Bordini, o Flores se foi, de susto. Ficamos, eu e o bonequinho verde, nos encarando. O 4326 se vai, Bordini abaixo, não antes de uma brecada, para que o motorista pudesse gritar qualquer coisa a respeito dos pedestres idiotas que, como pinos de boliche, acreditam nas carreirinhas brancas ornadas pela luzinha do boneco verde. Agora, mais calmo, percebo meu erro. Não usei o Novo Sinal. Besta, eu. Sou retrógrado, escrevo com tremas e atravesso no sinal, sem medir conseqüências. Saramago pode escrever daquele jeito, sem medo, porque é português. Nós, brazucas, temos de matar as ideias e fazer o Novo Sinal. Saramago desdenhou a Reforma Ortográfica muito antes de ela sequer ter sido imaginada. Se Cabral houvesse navegado segundo um manual escrito pelo conterrâneo, Nobel das letras, seríamos groenlandeses.

A verdade é uma só, sinto-me ridículo fazendo o Novo Sinal. A luz vermelha, na cara do motorista do 4326, o bonequinho verde, a faixa de retenção, a faixa de pedestre, a Lei e um mínimo de civilidade deveriam ser suficientes para pará-lo. Mas, não são.

De alguma forma, apesar do 4326, consigo chegar a Redenção. Na volta, evito a 24 de Outubro, pois temo o retorno do 4326. Prefiro descer a Padre Chagas, onde há muito de belo. Belas pessoas, belas lojas, tudo belo. Tenho dificuldade para cruzar o passeio do café chique. As mesas ocupam a passagem, e eu necessito de mais espaço. O único espaço que ainda poderia servir está ocupado pelas mascotes mastodont terrier de duas senhoras, vestidas de meninas, que bebericam champagne, deixando marcas indeléveis de batom nos cálices. Um arroto de Bollinger transforma qualquer bafo de pudim de gambá em autêntico parfum de pouding de putois. Uma sorridente garçonete percebe o meu embaraço e avisa: mesmo de pé, devo consumir alguma coisa. Afinal, estou ocupando espaço.

Corro para a Farrapos, no Baixíssimo Morro Ricaldone.

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16.8.07

Araponga


Araponga

Por Paulo Heuser


A ascensorista capta partes das conversas de outrem, dificilmente uma inteira, do prólogo ao epílogo. Habitua-se a assistir pedaços de filmes. Agora percebo que os motoristas passam por situações semelhantes, nos semáforos de trânsito. Paramos, e nos permitimos pequenos intervalos de observação do que acontece ao redor. Alguém vem pedir esmola, crianças giram calotas, um pedestre hesita antes de iniciar a travessia da faixa, chega o assaltante, o motorista do ônibus faz sinal de luz, reclamando da demora do assalto e, finalmente, o araponga fotografa.

Talvez eu devesse escrever “a araponga”, já que a palavra designa uma ave. Mas, aquele não era ave, era humano, do sexo masculino. O termo passou a designá-los, graças à novela escrita por Dias Gomes et alii em 1990, na qual associou o nome da ave a um espião.

Pois ali, na esquina em frente à Estação Rodoviária, estava aquele sujeito, parado próximo à entrada do metrô. Chamava a atenção, pois apenas os loucos e os incautos atravessam a avenida por ali. Os bêbados não são tão afoitos. Porém, ele não tentava atravessar. Andava nervosamente, de um lado para o outro. Vestia longa capa de gabardine, com a lapela levantada na parte de trás. O guarda-chuva preto pendia ao lado do corpo, pendurado no cotovelo esquerdo. Da orelha esquerda pendia o fio do fone de ouvido que desaparecia roupa adentro. Ele proferia frases curtas, enquanto olhava furtivamente para os lados. Aflito, consultou o relógio.

O que estaria fazendo aquele sujeito ali? Ele não pertencia àquela paisagem, com certeza. O que estaria arapongando? Não havia nada de interessante à vista. A paisagem defronte dele se resumia a um viaduto, um caótico cruzamento de trânsito, sem mendigos – eles não se arriscam ali -, concreto e asfalto. Estaria esperando a passagem de alguém importante, alvo de uma investigação? Ou, talvez, poderia estar a serviço de uma das inúmeras CPIs em andamento. Eu já antevia as manchetes dos jornais do dia seguinte: - “Escândalo do Viaduto! – descobriram que os pichadores utilizaram tinta desviada da merenda escolar da escola de artes marciais mantida pela empresa do terceiro setor que recebe verbas parlamentares oriundas de um fundo internacional de financiamento habitacional da classe média norte-americana que só come perus orgânicos e importa boxeadores cubanos”. Faria parte da fábrica de novos escândalos para diminuir velhos escândalos.

Então ocorreram os dois eventos que fariam com que minha vida não fosse mais a mesma. O primeiro foi a foto. O araponga sacou a câmera e me fotografou. Não uma foto comum, de gente apagando velas de bolo. Uma foto da única coisa interessante que havia por ali: eu. O segundo evento foi a virada do semáforo. Ficou verde.

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