13.11.08

491 - A vida em dois turnos


Foto: Wikipedia
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A vida em dois turnos

Por Paulo Heuser


Eu desconfio que o aumento expressivo do consumo de antidepressivos, observado nos últimos quatro anos, tem a ver com os serviços que o pessoal contrata. As pessoas não têm mais tempo para nada. Levantam-se, comem, correm, trabalham, correm, comem,.... e dormem. As agendas estão excessivamente preenchidas. Há quem administrem bem essa rotina, mas ninguém consegue administrá-la quando é forçado a solicitar serviços dos provedores destes.

Problemas com provedores de Internet, TV, água, e a entrega de móveis e outros trastes passou a ser feita por agendamento em turnos. Quem solicita os serviços é obrigado a permanecer em casa, por turnos inteiros, à espera de técnicos ou entregadores, que às vezes não vêm. Não há como agendar visitas com horário determinado. Os limites dos turnos não ajudam. Há turnos da manhã que iniciam às nove horas e se encerram às 13 horas. Os turnos da tarde podem iniciar às 11 horas e terminar às 19 horas. Ou seja, há turnos de oito horas! Quem ainda pode se dar ao luxo de permanecer oito horas à espera de um técnico? Sempre há como deixar outra pessoa, mas esta nem sempre saberá dar as informações necessárias ou fiscalizar a execução do serviço. Além do que, eles não aceitam que fique apenas o cachorro.

A moda do agendamento em turnos iniciou com os provedores de serviços de telecomunicações e estendeu-se a uma gama enorme de outros serviços. Até se entende que todos busquem a maximização dos lucros, mas há limites para tanto. O que vemos é a plena utilização dos recursos do provedor e a plena ociosidade dos clientes. Estes só podem mesmo ficar deprimidos. Senão vejamos, o sinal da Internet passa a cair na segunda-feira. Ligo para o 4 mil-e-tanto e consigo agendamento para quarta-feira, no turno da manhã. Viro daqui e dali e consigo que o cunhado do zelador fique de campana. Na terça-feira dá problema no sinal da TV. Sem problema, há horário para agendamento na quinta-feira à tarde. Tarde que vai até as 19 horas, mas inicia às 11 horas. O cunhado do zelador não pode ficar, pois comprou uma geladeira que será entregue no mesmo turno. Ele lembrou que o filho do quitandeiro não tem aula à tarde. Se a geladeira estiver abastecida, ele fica. Há solução para tudo. Droga, o ar-condicionado pifa na terça-feira à noite. Os técnicos poderão buscá-lo na sexta-feira, no turno da manhã, que inicia às 7 horas e se encerra às 14 horas. O filho do quitandeiro não poderá ficar porque entregará o rancho do cunhado do zelador. Este não poderá ficar porque deverá esperar pelo rancho. Ainda bem que a sogra do síndico pode. O problema é que ela sofre de Alzheimer e poderá se esquecer de onde mora. Será necessário arrumar alguém que lhe fique lembrando do endereço.

Só há uma solução. Contratarei um pintor para passar uma demão de tinta na sala de estar. Ele poderá esperar pelos demais. Bem, ainda restou um problema. Quem esperará pelo pintor?


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4.10.07

Banda larga, porém curta




Banda larga, porém curta


Por Paulo Heuser


Meu blog anda prejudicado, pois aparentemente assinei um serviço de acesso a Internet que somente provê acesso durante o dia. À noite, o modem se transforma em uma abóbora sem sinal. Algumas luzes se apagam, enquanto uma pisca. O horário em que a Cinderela se vê sem sapatinho de cristal varia. Em alguns dias, ocorre às 19, em outros às 21 horas. Só há uma certeza: ficarei fora da Internet. O ritual que se segue é sempre o mesmo, aumenta apenas minha raiva. Ligo para o 4004 qualquer coisa e sou atendido pela gravação que pede aquele número de um monte de dígitos que desconheço. Entro com meu CPF, teclo dois, seguido de dois, e uma gravação me avisa que estou sendo transferido para o atendimento preferencial. Um paciente atendente atende mecanicamente, solicitando CPF, endereço, telefone para contato e todas aquelas coisas que eles já estão carecas de saber. No que poderá me ajudar? Tentando conter a vontade de esganar alguém, nem que seja um ativo de rede, comunico-lhe que estou NOVAMENTE sem Internet. Ele pede que eu desligue o modem, para iniciar uma monitoração que aponta falta de sincronismo no modem. Aviso-lhe que isso ocorre TODAS as noites, variando apenas o horário. Algumas vezes ele me comunica que há uma falta de sinal no meu bairro, outras que virá um técnico para verificar o problema in loco. Naturalmente, se for identificado problema na minha rede interna, a visita será cobrada. Só que a visita não vem. Perde-se em algum lugar, em meio ao emaranhado de fios, cabos e ativos que compõem a grande rede. Fico até meio aliviado, porque abaterão R$ 2,15 na minha fatura do próximo mês, pela indisponibilidade. Poderei comprar uma coca-cola de dois litros!

O ritual repete-se, feito pesadelo de quem sempre se remete atrás no tempo. Quando resolvi ameaçá-los, com o rompimento do contrato, o atendente mostrou-se muito solícito, colocando-se à disposição para me transferir para o setor de cancelamentos dos contratos. Pergunto-lhe se esse é o desejo da sua empresa. Novamente muito solícito e empático, ele informa que aquele é apenas um departamento técnico. Os cancelamentos devem ser providenciados pelo outro. Faz parte da extrema especialização e segmentação do negócio moderno. Se não conseguirem efetuar download do cliente, o setor de cancelamento de contratos fará um offload dele. Aí o problema estará solucionado. Cliente morto, cliente que não incomoda.

Começo a ficar em dúvida. Para que serve um computador que não está em rede? Jogar paciência, Arachnid ou Freecell? Será um complô conspiratório contra meus escritos? Terei ofendido alguém que tem o poder de silenciar meu modem? Ou será apenas obra de um provedor que não sabe exatamente como prover? A tv até que funciona, mas tenho medo de ir às festas. Poderei chegar lá apenas com meio download feito, apesar de ser um daqueles que são aceitos na festa, como é mesmo? Pelo menos, me resta um poder, o poder da pena. Não da pena da comiseração, mas da pena da escrita. Posso me revoltar escrevendo este texto. Se você for um de nós, tema. Se não for, não seja, pois correrá o risco de chegar numa festa sem as pernas, apesar de ser um deles. Minha banda é larga, porém curta.


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