26.1.09

499,999 e 3/4 - À espera de uma oportunidade


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À espera de uma oportunidade

Por Paulo Heuser

Muitos são pegos de surpresa pela aposentadoria. São atropelados. A data chega, sem que se dêem conta. Outros, mais previdentes, planejam cuidadosamente o seu futuro. Há muito no que pensar. Qual modelo de pijama listrado estará em moda? As pantufas terão orelhas de camundongo? Esses felizardos nem sentem a mudança. No dia D, acordam cedo e vestem o reluzente pijama listrado. A partir de então, deliciam-se olhando pela janela, de segunda à sexta. O que fazem aos sábados e domingos? Não sei, devem descansar.

Quando o dia chegar, estarei preparado. Venho treinando para me tornar um esperador profissional. Sem pijamas, sem pantufas, bem entendido. Esperarei de uniforme. Pensei num modelito básico, feito com tecido listrado cinza e branco, com calças e camisa folgadas. Algo cômodo, como seria de se esperar. Nos pés, nada de orelhas de camundongo. De elefante, quem sabe?

O que me tornará profissional, é a prestação do serviço de espera. Não esperarei por mim, esperarei pelos outros, não, nem pelos outros, esperarei pelos que os outros esperam. A oportunidade surgiu quando escrevi A Vida em Dois Turnos, texto que falou da inconciliável agenda dos usuários e fornecedores de serviços. Tudo acontece em dois turnos, e os usuários vêem-se obrigados a esperar, esperar e esperar. Sem estarem aposentados, na maioria dos casos. Os coitados não têm nem o pijama listrado! O que os não-aposentados não têm, que os aposentados têm? Além do pijama, é claro. É o tempo. Os aposentados têm turnos livres para qualquer gosto. Entrarei nesse nicho de mercado, ainda inexplorado. Prestarei serviços de espera. A coisa funcionará assim: o cliente agendará a visita de algum técnico das prestadoras de serviços, como TV a cabo e telefonia, e vai trabalhar tranqüilo, pois eu estarei lá esperando. Não fumo, não cuspo no chão e não como pão sem prato embaixo. Ou seja, além de esperar, não emporcalharei a casa do cliente.

Serei o mui bastante esperador do cliente. Darei palpites, quando tratarem de orçamentos de reformas, fiscalizarei a qualidade do sinal, quando fizerem manutenções técnicas de TV a cabo. Há um subnicho desse mercado que não passou despercebido. Quantas pessoas adotam animais de estimação para terem alguém lhes esperando em casa? Proverei serviços diferenciados de espera pelos donos da casa solitários. Chegarei à casa do cliente, com alguns minutos de antecedência, e esperarei a chegada dele. Então, abrirei um grande sorriso, dar-lhe-ei as boas-vindas e me despedirei. Ainda avalio o serviço oposto: a despedida do cliente. Chegarei e esperarei o cliente sair, para que ele tenha de quem se despedir. Nada impede a prestação de serviços combinados, como o pacote Despedida-Recepção. Tudo bem baratinho, pois aposentado tem tempo de sobra.

Fiz uma simulação da prestação do serviço de espera profissional pelos provedores de serviços. Como eu precisava mesmo de um serviço de manutenção, deixei um aposentado esperando pelo pessoal que faria os orçamentos. Dos sete profissionais, cujas visitas agendei, quatro não vieram, dois erraram o turno da visita, e o que efetivamente veio recusou-se sequer a orçar a empreitada, pois, nas palavras dele, aquilo daria muito trabalho. Cheguei a pensar em prover serviços de manutenção, depois de aposentado, já que não há quem os faça. Porém, isso me tiraria a condição de aposentado. Melhor esperar.

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13.11.08

491 - A vida em dois turnos


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A vida em dois turnos

Por Paulo Heuser


Eu desconfio que o aumento expressivo do consumo de antidepressivos, observado nos últimos quatro anos, tem a ver com os serviços que o pessoal contrata. As pessoas não têm mais tempo para nada. Levantam-se, comem, correm, trabalham, correm, comem,.... e dormem. As agendas estão excessivamente preenchidas. Há quem administrem bem essa rotina, mas ninguém consegue administrá-la quando é forçado a solicitar serviços dos provedores destes.

Problemas com provedores de Internet, TV, água, e a entrega de móveis e outros trastes passou a ser feita por agendamento em turnos. Quem solicita os serviços é obrigado a permanecer em casa, por turnos inteiros, à espera de técnicos ou entregadores, que às vezes não vêm. Não há como agendar visitas com horário determinado. Os limites dos turnos não ajudam. Há turnos da manhã que iniciam às nove horas e se encerram às 13 horas. Os turnos da tarde podem iniciar às 11 horas e terminar às 19 horas. Ou seja, há turnos de oito horas! Quem ainda pode se dar ao luxo de permanecer oito horas à espera de um técnico? Sempre há como deixar outra pessoa, mas esta nem sempre saberá dar as informações necessárias ou fiscalizar a execução do serviço. Além do que, eles não aceitam que fique apenas o cachorro.

A moda do agendamento em turnos iniciou com os provedores de serviços de telecomunicações e estendeu-se a uma gama enorme de outros serviços. Até se entende que todos busquem a maximização dos lucros, mas há limites para tanto. O que vemos é a plena utilização dos recursos do provedor e a plena ociosidade dos clientes. Estes só podem mesmo ficar deprimidos. Senão vejamos, o sinal da Internet passa a cair na segunda-feira. Ligo para o 4 mil-e-tanto e consigo agendamento para quarta-feira, no turno da manhã. Viro daqui e dali e consigo que o cunhado do zelador fique de campana. Na terça-feira dá problema no sinal da TV. Sem problema, há horário para agendamento na quinta-feira à tarde. Tarde que vai até as 19 horas, mas inicia às 11 horas. O cunhado do zelador não pode ficar, pois comprou uma geladeira que será entregue no mesmo turno. Ele lembrou que o filho do quitandeiro não tem aula à tarde. Se a geladeira estiver abastecida, ele fica. Há solução para tudo. Droga, o ar-condicionado pifa na terça-feira à noite. Os técnicos poderão buscá-lo na sexta-feira, no turno da manhã, que inicia às 7 horas e se encerra às 14 horas. O filho do quitandeiro não poderá ficar porque entregará o rancho do cunhado do zelador. Este não poderá ficar porque deverá esperar pelo rancho. Ainda bem que a sogra do síndico pode. O problema é que ela sofre de Alzheimer e poderá se esquecer de onde mora. Será necessário arrumar alguém que lhe fique lembrando do endereço.

Só há uma solução. Contratarei um pintor para passar uma demão de tinta na sala de estar. Ele poderá esperar pelos demais. Bem, ainda restou um problema. Quem esperará pelo pintor?


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20.9.08

465 - Foi no 20 de setembro



Carga da cavalaria Farroupilha. Guilherme Litran
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Foi no 20 de setembro

Por Paulo Heuser

Triiim...

- Alô!

- Bom dia! Eu estaria falando com quem?

- Boa pergunta...

- Seria o Senhor Paulo?

- Quem poderia saber... Vou perguntar ao vizinho... Um momento, por favor. - (pausa) – Alô, sim, o vizinho disse que é ele.

- O Senhor Paulo seria o vizinho?

- Não, ele disse que é o contrário.

- Como eu faria para falar com o Senhor Paulo?

- Já está falando com ele...

- Oh, desculpe, houve um mal entendido.

- Não entendi!

- Bem, o senhor é o Senhor Paulo, é verdade?

- É o que o vizinho diz, e eu acredito piamente nele, pois é candidato a presidente do conselho do condomínio.

- Percebo, Senhor Paulo. Eu poderia falar um minuto com o senhor?

- Bem, já estamos falando há mais do que isso...

- Certo, Senhor Paulo, serei direta, então. O Senhor é cliente do nosso cartão Monocard, não é?

- Se vocês que são donos do cartão não sabem, eu saberei?

- Certo, nós sabemos.

- Que bom! Podemos nos despedir satisfeitos, pois chegamos à unanimidade.

- Senhor Paulo, eu gostaria de lhe falar das vantagens de ser um cliente Monocard.

- Infelizmente, hoje não será possível!

- Entendo, senhor, mas eu não poderia falar-lhe por um minuto?

- Para dizer a verdade, não. Não estou aberto, nem aos domingos, nem aos feriados.

- Mas, Senhor Paulo, hoje é sábado...

- Pode até ser, mas não é um sábado como outro qualquer, hoje é 20 de setembro!

- Certo, senhor. A data confere.

- Então, até logo...

- O que há de especial no 20 de setembro? Para nós, todo dia é dia para se usar o Monocard!

- Ora, o 20 de setembro é o dia em que todos mergulham na fumaceira e andam a cavalo.

- Por quê?

- Porque nesse dia, faz muitos anos, um vendedor de serviços de cartão de crédito ligou, na manhã de um sábado, para um cliente esfarrapo.

- Percebo, Senhor Paulo, mas o senhor já conhece as vantagens de ser um cliente Monocard?

Então se iniciou uma sangrenta guerra que durou mais de dez longos anos.



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22.5.08

402 - O telefone secreto

Foto: Wikipedia
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O telefone secreto

Por Paulo Heuser


Eu adquiri o hábito de não receber ligações telefônicas cuja origem não seja identificável. Boa coisa não pode ser. Provavelmente será um golpe do falso seqüestro, ou alguém querendo me vender algo que eu não quero comprar. Números originados em São Paulo, ou arredores, ou os terminados com dois zeros, também são altamente suspeitos.

Na semana passada, o pessoal da tele-tortura esteve especialmente ativo. Recebi ofertas de terrenos no Condomínio Alto Xingu, no próprio. Ligou também alguém que venderia um plano funerário Pague & Morra, e todo aquele pessoal que vende cartões de crédito e TV a cabo que já tenho. Nunca entendi por que querem me vender algo que já comprei. É uma pena que o aparelho telefônico só consegue armazenar mil números de telefone. Eu costumava associar os números com o nome da bomba que queriam me vender. Assim, quando o telefone tocava, já aparecia uma indicação do tipo serial caller #1, e assim por diante. Porém, o telefone só armazena 100 números na agenda. Por isso, alguns me pegam desprevenido. Aparece aquele número inocente, no visor do telefone, como se fosse da manicura do cachorro. Durante toda a semana, recebi recados de que a Elvira havia me ligado, três ou quatro vezes por dia. Quem diabos seria a Elvira? A vendedora dos jazigos climatizados? O enigma perdurou até o sábado.

Passava muito pouco das oito, quando o telefone fixo tocou. Era a Elvira. Ela falava em nome do cartão Card, que me levaria à festa do peão boiadeiro. Eu ganharia um ingresso para o rodeio, caso aceitasse a oferta. E mais, poderia pagar o ingresso grátis em 10 vezes sem acréscimo. Fui curto e grosso, agradecendo, mas recusando. Afinal, de rodeio, já havia o palhaço que acordara cedo para receber a ligação. Quando eu peguei novamente no sono, eis que o telefone soou novamente. Não aquele telefone fixo. Era o outro, o telefone secreto cujo número nem eu mesmo sei. Sobressaltado, atendi de pronto, pois deveria se tratar de uma emergência. Era a Elvira, novamente. Fiquei tão assustado, que nem pensei em lhe perguntar sobre quem lhe fornecera meu número ultra-secreto. No acesso de raiva, que se seguiu, coloquei o telefone defronte à TV, para que a Elvira ficasse ouvindo a propaganda da academia de ginástica portátil que faz as vezes de tábua de passar roupa, ralador de queijo e andaime para troca de lâmpadas de teto.

Satisfeito com meu sadismo, fui à cozinha. Quando abri a geladeira, percebi que a voz do vendedor da academia 4Fit havia mudado. Ele parecia conversar com alguém. Foi então que eu percebi que a Elvira lhe vendera um cartão.


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