20.9.08

465 - Foi no 20 de setembro



Carga da cavalaria Farroupilha. Guilherme Litran
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Foi no 20 de setembro

Por Paulo Heuser

Triiim...

- Alô!

- Bom dia! Eu estaria falando com quem?

- Boa pergunta...

- Seria o Senhor Paulo?

- Quem poderia saber... Vou perguntar ao vizinho... Um momento, por favor. - (pausa) – Alô, sim, o vizinho disse que é ele.

- O Senhor Paulo seria o vizinho?

- Não, ele disse que é o contrário.

- Como eu faria para falar com o Senhor Paulo?

- Já está falando com ele...

- Oh, desculpe, houve um mal entendido.

- Não entendi!

- Bem, o senhor é o Senhor Paulo, é verdade?

- É o que o vizinho diz, e eu acredito piamente nele, pois é candidato a presidente do conselho do condomínio.

- Percebo, Senhor Paulo. Eu poderia falar um minuto com o senhor?

- Bem, já estamos falando há mais do que isso...

- Certo, Senhor Paulo, serei direta, então. O Senhor é cliente do nosso cartão Monocard, não é?

- Se vocês que são donos do cartão não sabem, eu saberei?

- Certo, nós sabemos.

- Que bom! Podemos nos despedir satisfeitos, pois chegamos à unanimidade.

- Senhor Paulo, eu gostaria de lhe falar das vantagens de ser um cliente Monocard.

- Infelizmente, hoje não será possível!

- Entendo, senhor, mas eu não poderia falar-lhe por um minuto?

- Para dizer a verdade, não. Não estou aberto, nem aos domingos, nem aos feriados.

- Mas, Senhor Paulo, hoje é sábado...

- Pode até ser, mas não é um sábado como outro qualquer, hoje é 20 de setembro!

- Certo, senhor. A data confere.

- Então, até logo...

- O que há de especial no 20 de setembro? Para nós, todo dia é dia para se usar o Monocard!

- Ora, o 20 de setembro é o dia em que todos mergulham na fumaceira e andam a cavalo.

- Por quê?

- Porque nesse dia, faz muitos anos, um vendedor de serviços de cartão de crédito ligou, na manhã de um sábado, para um cliente esfarrapo.

- Percebo, Senhor Paulo, mas o senhor já conhece as vantagens de ser um cliente Monocard?

Então se iniciou uma sangrenta guerra que durou mais de dez longos anos.



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8.9.08

457 - 2391-0010



Fonte: Wikipedia
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2391-0010

Por Paulo Heuser


Ah, como esperei por esta manhã de sábado! Ansiava por uma hora a mais de sono, que fosse. Apenas uma hora a mais. O maldito resfriado veio forte, e com esse clima nada melhor do que curtir a cama. Nestes dias a cama se parece com o paraíso, principalmente quando a chuva bate na janela. Então o maldito telefone tocou. Quem ligaria a essa hora da manhã? Seriam más notícias ou engano. Ninguém me acordaria a essa hora se não tivesse um assunto muito importante a tratar. Era uma máquina.

Uma máquina me ligou! Já sou obrigado a falar com máquinas quando utilizo os serviços dos maravilhosos SACs, Call Centers ou seja lá que nomes lhes dão. Porém, desde que o Lula ligou, na eleição anterior, nenhuma outra máquina me ligou. Desta vez não foi o Presidente pedindo votos. Foi a 2391-0010. A máquina de voz feminina não queria comprar votos. Ela queria me vender novas amizades pelo preço de uma ligação local. Acordei, a contragosto.

O Lula eu ainda posso xingar, ligando para alguma ouvidoria. Posso alegar que nunca ninguém antes neste País me ligou tão cedo para pedir voto. Mas, contra uma máquina anônima, o que posso fazer? Ela não tem nome nem endereço. Tenho o número do telefone dela – 2391-0010 -, o que em nada me ajudaria, pois seu eu ligasse para ela, cairia na armadilha. É exatamente o que ela queria que eu fizesse. Faria novos amigos, seu eu ligasse? Amigos baratos, sem dúvida, pois custam o mesmo que custa uma ligação local. Novos amigos em promoção, portanto.

Já que eu estava acordado, resolvi tentar encontrar o dono da máquina. Foi então que descobri que o Tio Google não estava nem aí. Culpa do meu acesso Internet que apresentava forte soluço, fazendo eco a minha tosse. De nada adiantou segurar a tosse, pois o soluço continuava. Fazer o quê! Disquei para o SAC do provedor e segui o menu apresentado pela... pela... máquina! Outra máquina, esta muito simpática.

- Disque 1 para problema de sinal da Internet... Disque 2 para problema com o sinal da TV... Disque 3 para problema com o telefone... (esta é curiosa, discar como?)... Disque 4 para problema com mais de um dos anteriores... Disque 5 para problema com todos os anteriores... Disque 6 se você é deficiente auditivo... Disque 7 se você esqueceu o que eu falei antes... Disque 8 para ouvir musiquinha... Disque 9 para falar com alguém, após ouvir a musiquinha, é claro.

Teclei 1 e descobri que outra máquina me atenderia. Essa bem mais informal que a anterior, pois veio falando direto na íntima demais segunda pessoa do singular. Íntima demais para uma máquina. Foi também uma máquina esperta, pois captou logo o problema. Ela intercalou alguns “entendo” no diálogo (?). A coisa terminou por aí. As ligações foram interrompidas pelo tu-tu-tu-tu. Fiquei sem atendimento, mas não fiquei sem Internet. Tenho uma vizinha muito prestativa. Ela empresta xícaras de açúcar, farinha, ovos e sinal de Internet sem fio.

Vida moderna é assim, não sei o nome dela, apenas o sobrenome. Algo como dlink.

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