14.1.09

499,998 - D'aquém e d'além



Foto: Wikipedia
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D’aquém e d’além

Por Paulo Heuser


Eu andava meio chateado. Agora, ando muito. Alguém ligava para o meu telefone, várias vezes por dia, e nada falava, quando eu atendia. Era de um número de São Paulo que se repetia em variantes crescentes. Começava pelo final 40, seguia pelo 41, até o 45. Todos os dias, impiedosamente. Coisa de serial caller – telefonador serial. Cheguei a retornar a ligação, em vão, pois recebi a informação de que aqueles números não existiam. A tecnologia é algo extraordinário! Ligavam-me do além, certamente.

Hoje, a coisa se repetiu. O relógio batia as 12h30, quando o número inexistente me ligou novamente. Porém, desta vez, veio uma voz, através dos fios Wi-Fi:

- Alô! Sr. Erasmo?

- Não.

- Não?

- Não.

- Sr. Erasmo, meu nome é Patrícia e falo em nome da seguradora Brucuthu-Charolês. Nós temos a satisfação de lhe comunicar que criamos um convênio com o seu plano de saúde, que gentilmente nos forneceu o seu cadastro.

- Como? Eles forneceram o meu cadastro?

- Sim, gentilmente.

- Como, fizeram isso sem minha autorização?

- Bem, isso é um problema entre eles e o senhor!

- Bem, considerando que eu não me chamo Erasmo, tudo bem.

- Sr. Erasmo, se o cadastro gentilmente fornecido diz que o senhor é o Sr. Erasmo, o senhor é.

- Não sou!

- O senhor apenas pensa que não é. Recomendamos-lhe uma releitura da sua certidão de nascimento, pois o cadastro do plano de saúde não falha.

- Não sou, não sou e não sou!

- Sr. Erasmo, temos a satisfação de lhe comunicar que o seu plano de saúde e a Brucuthu-Charolês uniram suas forças para criarem o plano D’aquém-D’além. O senhor e os seus passarão a contar com o nosso apoio, aqui e lá.

- Lá?

- Sim, Sr. Erasmo, o senhor sabe... no caso de passagem.

- Passagem aérea? É seguro de viagem?

- Não exatamente, Sr. Erasmo, é a passagem para o outro lado, sabe como é, não sabe?

- Não.

- Não, como?

- Apenas não. Não, simples e negativo.

- Percebo, Sr. Erasmo, o senhor gosta de falar através metáforas inversas.

- Não.

- Percebo, Sr. Erasmo. Se o senhor for um dos primeiros mil clientes do novo plano, estaremos lhe assegurando a opção Ida Mais Platinum.

- O que é isso?

- É o nosso exclusivo e sofisticadíssimo plano de passagem superior. Nada se compara a ele. Somos os únicos a fornecer drinque de boas vindas na chegada ao outro lado.

- Chegada?

- O senhor percebe, do outro lado...

- Como é que vocês podem assegurar algo que nem sabem se existe?

- Pela satisfação de cem por cento dos nossos clientes Ida Mais Platinum. Nenhum deles reclamou!

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22.5.08

402 - O telefone secreto

Foto: Wikipedia
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O telefone secreto

Por Paulo Heuser


Eu adquiri o hábito de não receber ligações telefônicas cuja origem não seja identificável. Boa coisa não pode ser. Provavelmente será um golpe do falso seqüestro, ou alguém querendo me vender algo que eu não quero comprar. Números originados em São Paulo, ou arredores, ou os terminados com dois zeros, também são altamente suspeitos.

Na semana passada, o pessoal da tele-tortura esteve especialmente ativo. Recebi ofertas de terrenos no Condomínio Alto Xingu, no próprio. Ligou também alguém que venderia um plano funerário Pague & Morra, e todo aquele pessoal que vende cartões de crédito e TV a cabo que já tenho. Nunca entendi por que querem me vender algo que já comprei. É uma pena que o aparelho telefônico só consegue armazenar mil números de telefone. Eu costumava associar os números com o nome da bomba que queriam me vender. Assim, quando o telefone tocava, já aparecia uma indicação do tipo serial caller #1, e assim por diante. Porém, o telefone só armazena 100 números na agenda. Por isso, alguns me pegam desprevenido. Aparece aquele número inocente, no visor do telefone, como se fosse da manicura do cachorro. Durante toda a semana, recebi recados de que a Elvira havia me ligado, três ou quatro vezes por dia. Quem diabos seria a Elvira? A vendedora dos jazigos climatizados? O enigma perdurou até o sábado.

Passava muito pouco das oito, quando o telefone fixo tocou. Era a Elvira. Ela falava em nome do cartão Card, que me levaria à festa do peão boiadeiro. Eu ganharia um ingresso para o rodeio, caso aceitasse a oferta. E mais, poderia pagar o ingresso grátis em 10 vezes sem acréscimo. Fui curto e grosso, agradecendo, mas recusando. Afinal, de rodeio, já havia o palhaço que acordara cedo para receber a ligação. Quando eu peguei novamente no sono, eis que o telefone soou novamente. Não aquele telefone fixo. Era o outro, o telefone secreto cujo número nem eu mesmo sei. Sobressaltado, atendi de pronto, pois deveria se tratar de uma emergência. Era a Elvira, novamente. Fiquei tão assustado, que nem pensei em lhe perguntar sobre quem lhe fornecera meu número ultra-secreto. No acesso de raiva, que se seguiu, coloquei o telefone defronte à TV, para que a Elvira ficasse ouvindo a propaganda da academia de ginástica portátil que faz as vezes de tábua de passar roupa, ralador de queijo e andaime para troca de lâmpadas de teto.

Satisfeito com meu sadismo, fui à cozinha. Quando abri a geladeira, percebi que a voz do vendedor da academia 4Fit havia mudado. Ele parecia conversar com alguém. Foi então que eu percebi que a Elvira lhe vendera um cartão.


prheuser@gmail.com

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