29.1.09

499,999 e 7/8 - Livros... Livros? Melhor não lê-los



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Livros... Livros? Melhor não lê-los

Por Paulo Heuser


Ler dá azia, segundo o Presidente. Ler notícias, bem entendido. Nada que algumas doses daquele leite de magnésia de fílipis não possam resolver. O hidróxido de magnésio – MgOH2 –, em suspensão edulcorada, anula o efeito corrosivo da leitura das notícias que desagradam ao leitor. Para lê-las, no entanto, alguns cuidados há de se tomar. Ao tomar o leite de magnésia de fílipis, observar que as interações medicamentosas dele com tetraciclinas, levodopa, lítio, benzodiazepínicos e um monte de outras gororobas, inclusive diflusinal, trazem outros problemas. O leitor corre o risco de se transformar em um diarréico ácido deprimido. A depressão viria não apenas da redução dos efeitos do lítio, como também da combinação da azia com a diarréia. Não há como não ficar deprimido. Pior mesmo, só se agregadas à tosse.

Entendidos os mecanismos das patologias jornalísticas, resta um remédio milenar, de mínimos efeitos colaterais. É a leitura crítica. Aplica-se um filtro exterminador ideológico, sobre as notícias, e se lê o que efetivamente está lá escrito. As matérias publicadas nos jornais e nas revistas costumam pender, pouco ou muito, para o lado para onde se inclina o veículo jornalístico. Cabe ao leitor a identificação dos preconceitos e paixões embutidos nos textos. Há leituras muito difíceis, como as matérias sobre os conflitos na Faixa de Gaza, onde ninguém é inocente, e, se algum dia o foi, perdeu-se na poeira do tempo, quando um trilobite – artrópode do Período Cambriano – romano expulsou um trilobite hebreu, que, por sua vez, expulsou trilobites palestinos, que explodiram trilobites hebreus, que pulverizaram trilobites palestinos, que... Quem, mesmo, começou isso tudo? Não havia leite de magnésia, naquele tempo. Nem azia, suponho.

O efeito colateral da leitura crítica é a chatice dos que ficam sobre o muro. Eles ouvem tanto o lado A como o lado B, por mais chato que este possa ser. Não se emocionam tanto na leitura das notícias. Tampouco reagem com paixão, pois, movidos pela razão, dificilmente pendem completamente para um dos lados. Não pegam em faixas e cartazes de protesto. Os chatos adquirem a capacidade da leitura crítica ao lerem livros. A leitura dos livros desenvolve a capacidade de abstração necessária à leitura crítica. Lê-se muita bobagem, mas, um dia, chega-se lá. Os chatos reservam a paixão para a leitura dos livros. Com agenda oculta, sem agenda oculta, os livros permitem vôos apaixonados através das asas da imaginação. O escritor planta uma semente, que germinará de forma distinta conforme o leitor. Há livros enfadonhos, mal-escritos, absurdos e obscuros, mas nenhum deles dá azia. Livros especiais são os que foram proibidos. Se o foram, há algo neles que causou medo, não azia.

Lamentavelmente, os livros vêm sendo deixados de lado. O Tio Guguel – que tudo sabe e tudo vê, mesmo que torto – encontra sinopses de qualquer coisa escrita. Menos do Horizonte Zenital – com Z! -, do Dr. Hermann Von Schweissberg. Eu li esse livro durante a minha adolescência e acredito ter sido o único a fazê-lo. Era tamanha a sucessão de bobagens, que não consigo me lembrar do que li. Porém, a leitura não me causou azia. Amnésia, sim, mas sem azia.

Aos que ainda se perguntam por que lêem, fica uma corruptela do Poema Enjoadinho, de Vinícius de Morais: Livros... Livros? Melhor não lê-los. Mas se não os lemos. Como sabê-lo?

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11.8.08

439 - A persistirem os sintomas, o médico deverá ser ...

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A persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado


Por Paulo Heuser



Há coisas que ninguém confessa ter, a não ser sob intensa tortura, é claro. É o caso daquelas enfermidades relacionadas com o sistema de ejeção dos subprodutos da digestão. O pessoal disfarça, e só vai atrás de ajuda quando a coisa fica realmente crítica. O Zé agüentou a tortura, anos a fio, até que uma crise excepcionalmente intensa o levou a procurar o Babão, o barbeiro. Só a Dona Mirtes - do instituto - entende mais de remédios que o Babão. Porém, como confessar a Dona Mirtes que ele tinha, sabe, aquilo? Nem morto. Melhor contar com a sabedoria e a discrição do Babão. Dona Mirtes organiza reuniões de senhoras, para vender uns bagulhos de pintura, nas quais atualiza o mercado da fofoca com as últimas novidades. O Babão é mais discreto. Só conta para os seus clientes. Mesmo a falar de homem para homem, o Zé custou a confessar. Marcou a consulta, e foi cortar o cabelo. Esperou não haver mais ninguém na barbearia, e mandou, sem dó, na lata: “- Ô Babão, o que é bom contra hemorróidas?”. Babão é profissional, manteve a linha. Não riu, pelo menos até o Zé sair de lá, feliz da vida, com a prescrição do Retoplus 400 – agora com abas anatômicas.

Obter a prescrição foi fácil. Comprar o Retoplus 400 – agora com abas anatômicas – foi outra. Com que cara entraria na farmácia do Seu Agenor, e pediria aquilo? O problema não era o Seu Agenor. Era a Dona Graça – irmã da Dona Mirtes -, balconista em tempo integral. O Zé bolou um plano. Chegou à farmácia, como quem não quer nada, e pediu para falar, em particular, com o Seu Agenor. Dona Graça esticou o ouvido para tentar pescar algo da conversa. Esse tarado tentava comprar preservativos - pensou ela. Seu Agenor ouviu a explicação, fez cara de entendimento e gritou: “- Mande uma caixa de Retoplus 400 – agora com abas anatômicas -, Dona Graça. Morto de vergonha, Zé foi para casa, a levar seu tesouro – agora com abas anatômicas. Ao chegar, usou o negócio, na hora. Pois não é que funcionou? Pelo menos para o problema original. Só que as abas anatômicas não eram tão anatômicas assim, e deixaram uma tremenda urticária, logo naquela região. Lá foi ele novamente à barbearia. Babão nem cobrou pela nova consulta, digo, pelo novo corte. Prescreveu Urticol Generex, para uso tópico. Nova ida à farmácia, novo pacote e novo alívio. Já podia até sentar-se novamente. Dona Mirtes passou a encará-lo de forma estranha, quando passava pelo instituto. O alívio da urticária foi imediato. Pena que surgiu a sensação de boca seca.

O Babão chegou a pensar em sugerir que o Zé bebesse água, para terminar com a boca seca, mas manteve o profissionalismo. Prescreveu Oralflud Humetrat, que efetivamente hidratou novamente a boca do Zé. Dessa vez, pediu diretamente a Dona Graça, sem medo. Por esse lado, nada havia para envergonhá-lo. Dona Graça achou melhor preveni-lo da possibilidade da ocorrência de um efeito colateral um pouco comum: a náusea. Ela convenceu-o a levar também o Inojetyl Alfa, para prevenir qualquer efeito indesejado. Hidratado e não-nauseado, Zé viveria momentos de felicidade, não fosse pela palpitação da pálpebra esquerda. Nada que o Palpitremol Sinistrel não resolvesse. Então veio o formigamento nos pés.

Desconfiado, Zé resolveu retornar ao Babão. Começou a desconfiar da capacidade farmacológica da Dona Graça. Ela estava empurrando tudo que havia na prateleira da farmácia. Na certa, ela ganharia aquela viagem a Búzios, patrocinada pelo laboratório. O Babão fez cara de horror. Qual fora o louco que prescrevera Palpitremol Sinistrel sem prescrever, concomitantemente, o Formiplax Pedatrol? Dona Graça ofendeu-se, ao perceber que ele procurara um concorrente leigo. Nada falou, enquanto pensava na dor muscular que essa combinação provocaria. Na manhã seguinte, Zé jogou a toalha, não muito longe, pois a dor era muita. Fez o que deveria ter feito desde o início: Procurou a ajuda da Dona Mirtes. Ela logo descobriu o que havia de errado com ele. A combinação de Palpitremol Sinistrel com Formiplax Pedatrol, após o uso do Inojetyl Alfa, causa aumento do ácido galáctico, gerando fortes dores musculares. Nada que não pudesse ser resolvido através da ingestão de cápsulas de Mioespasmil Relax. Contudo, Dona Mirtes achou melhor preveni-lo da possibilidade, apesar de muito remota, da ocorrência de um efeito colateral: hemorróidas.


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