19.11.09

563 - A feira vista pelos fundos

Foto: Juliana Heuser
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A feira vista pelos fundos

Paulo Heuser

A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre se foi. É hora do desmanche. Vão-se as barracas, ficam as lembranças. Dessa feira, em particular, não me esquecerei. Afinal, dei o meu primeiro autógrafo. E não foi só um, houve até fila. Já ouvi críticas a respeito disso, dizem que mãe na fila não conta. Inveja. Quem diz isso não tem mãe, ou pior, ela não veio. Mães à parte, eu realizei parte do sonho e vi a feira pelos fundos, onde as coisas acontecem. Estive nos bastidores.

Foi lá, de caneta na mão, que percebi a crueldade demonstrada por alguns pais do passado. Inventaram nomes inimagináveis, saídos, na melhor das hipóteses, de um jogo cata-palavras. Hermeneuse não é nome de gente. Pode até ser nome de ciência humanística oculta, mas de gente, não é. Só não disseram isso para os pais da própria, e o escrivão deve estar contando essa história aos netos. Não é conversa, não, vi-me cara a cara com a Hermeneuse e dei-lhe um autógrafo. Houve também a seção dos gregos, representada pelo Achylles, com dois eles, para ficar bem Aquiles, mesmo. Tudo bem, afinal, é grego, mas quem consegue, fora da Grécia, escrever Achylles sem parar para pensar? Vendo assim, escrito, parece fácil. Lá, na seca, dá um branco.

Mudos deveriam ser proibidos de pedir autógrafos, a não ser que escrevam o nome em um pedaço de papel. Aí se incluem os que falam muito baixo em meio à algazarra feita pela mãe que está na fila. Seu nome, por favor? Hmmpfgh... Como? Hmmpfgh... Perdão? Hmmpfgh...! Seu Hmmpfgh se escreve com agá mudo, não é? Hmmpfgh...!

Confesso que eu morria de medo de que não aparecesse ninguém, nem a mãe. Haverá coisa mais frustrante, para um escritor, do que a ausência de leitores ávidos por autógrafos? Dá um frio, só de pensar no vazio causado pelos intermináveis 30 minutos de espera por alguém que não virá. Na hora, serve até engano, como autografar o livro do que entra lá por engano. Outra tática pode ser a oferta de livros aos doadores de sangue, além do lanche grátis.

Escrever um livro parece fácil, mas não é. Não basta a escolha do assunto. Tem que ser um assunto que interesse alguém. Caso contrário, não chega nem no balaião. O segundo passo, não menos importante, é escrevê-lo. Depois, vêm as revisões, revisões e mais revisões. Há outros problemas, menos óbvios, como financiamento, edição, divulgação, registro, et caetera e tal. Vencidos todos os obstáculos, ei-lo, novinho em folha e cheirando à tinta. É o momento de relaxar e partir para a sessão de autógrafos. Contudo, além de assiná-lo, faz-se necessário escrever alguma coisa. Então, surge o dilema, escrever o quê?

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8.11.09

561 - Ditadura, anistia e greve geral



Treze à mesa

Quinze partiram, dois se foram e treze chegaram. Como geralmente acontece, nessas empreitadas, vieram daqui e dali, sabe-se lá de onde. Compunham curioso grupo. Encontraram-se, pela primeira vez, num fim de tarde quente de verão. Colocados à mesa longa e estreita tatearam em busca do objetivo comum. Repetiram os encontros, semana após semana, mês após mês. Aprenderam antigas lições e reviraram os porões da História. Formaram uma confraria que ansiava por deixar legado, algo que os incluísse na própria História. Não seriam meros observadores da passagem do tempo, para marcá-lo de forma indelével.

A História não é vista por todos da mesma forma, logo perceberam. Quem a viveu dela construiu sua percepção. Os demais leram e ouviram. A maior virtude apresentada pela confraria, sem dúvida, foi o respeito às crenças e à individualidade. Não foram meros peões a repetir, lado a lado, monótono movimento de casa à frente e toma na diagonal. Avançaram juntos, na direção da meta, respeitando os inevitáveis movimentos de deriva. Discutiram, rangeram dentes, riram, choraram e chegaram.

Chegamos. Tornamos-nos contistas, pois contamos um pedaço da História, a esta e às futuras gerações, através dos personagens que criamos. Pusemos nossa marca lá na Biblioteca Nacional. A meta era o livro, no qual cada um de nós deixou quatro contos. Porém, hoje percebemos que a meta está muito adiante, move-se como o horizonte. O livro é apenas o primeiro marco. Outros virão. Alguém poderá dizer que somos catorze, na verdade. De duas, uma: ou o décimo quarto é o Alcy Cheuiche, ou deixamos de contar alguém que havia ido ao banheiro.

Os alunos da Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche têm a satisfação de convidá-lo para o lançamento de “Ditadura, anistia e greve geral – 30 anos depois”, no dia 13/11/2009, sexta-feira, às 16h30, na Sala dos Jacarandás do Memorial do RS, junto à Praça da Alfândega, durante a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. A sessão de autógrafos ocorrerá às 18h00, na mesma data, no térreo do Memorial.

Ariane Severo, Artur Pereira dos Santos, Bruno Abrão, Eliane Camera, Gilles Castro, Isabela Severo, Ivo Domingo Vivian, Juliana T. Grünhäuser, Marcia Antonina, MCæleste Carloto, Paulo Heuser, Vanésia Zibetti Vasconcellos e Zilah Cheuiche.

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29.1.09

499,999 e 7/8 - Livros... Livros? Melhor não lê-los



Foto: Wikipedia
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Livros... Livros? Melhor não lê-los

Por Paulo Heuser


Ler dá azia, segundo o Presidente. Ler notícias, bem entendido. Nada que algumas doses daquele leite de magnésia de fílipis não possam resolver. O hidróxido de magnésio – MgOH2 –, em suspensão edulcorada, anula o efeito corrosivo da leitura das notícias que desagradam ao leitor. Para lê-las, no entanto, alguns cuidados há de se tomar. Ao tomar o leite de magnésia de fílipis, observar que as interações medicamentosas dele com tetraciclinas, levodopa, lítio, benzodiazepínicos e um monte de outras gororobas, inclusive diflusinal, trazem outros problemas. O leitor corre o risco de se transformar em um diarréico ácido deprimido. A depressão viria não apenas da redução dos efeitos do lítio, como também da combinação da azia com a diarréia. Não há como não ficar deprimido. Pior mesmo, só se agregadas à tosse.

Entendidos os mecanismos das patologias jornalísticas, resta um remédio milenar, de mínimos efeitos colaterais. É a leitura crítica. Aplica-se um filtro exterminador ideológico, sobre as notícias, e se lê o que efetivamente está lá escrito. As matérias publicadas nos jornais e nas revistas costumam pender, pouco ou muito, para o lado para onde se inclina o veículo jornalístico. Cabe ao leitor a identificação dos preconceitos e paixões embutidos nos textos. Há leituras muito difíceis, como as matérias sobre os conflitos na Faixa de Gaza, onde ninguém é inocente, e, se algum dia o foi, perdeu-se na poeira do tempo, quando um trilobite – artrópode do Período Cambriano – romano expulsou um trilobite hebreu, que, por sua vez, expulsou trilobites palestinos, que explodiram trilobites hebreus, que pulverizaram trilobites palestinos, que... Quem, mesmo, começou isso tudo? Não havia leite de magnésia, naquele tempo. Nem azia, suponho.

O efeito colateral da leitura crítica é a chatice dos que ficam sobre o muro. Eles ouvem tanto o lado A como o lado B, por mais chato que este possa ser. Não se emocionam tanto na leitura das notícias. Tampouco reagem com paixão, pois, movidos pela razão, dificilmente pendem completamente para um dos lados. Não pegam em faixas e cartazes de protesto. Os chatos adquirem a capacidade da leitura crítica ao lerem livros. A leitura dos livros desenvolve a capacidade de abstração necessária à leitura crítica. Lê-se muita bobagem, mas, um dia, chega-se lá. Os chatos reservam a paixão para a leitura dos livros. Com agenda oculta, sem agenda oculta, os livros permitem vôos apaixonados através das asas da imaginação. O escritor planta uma semente, que germinará de forma distinta conforme o leitor. Há livros enfadonhos, mal-escritos, absurdos e obscuros, mas nenhum deles dá azia. Livros especiais são os que foram proibidos. Se o foram, há algo neles que causou medo, não azia.

Lamentavelmente, os livros vêm sendo deixados de lado. O Tio Guguel – que tudo sabe e tudo vê, mesmo que torto – encontra sinopses de qualquer coisa escrita. Menos do Horizonte Zenital – com Z! -, do Dr. Hermann Von Schweissberg. Eu li esse livro durante a minha adolescência e acredito ter sido o único a fazê-lo. Era tamanha a sucessão de bobagens, que não consigo me lembrar do que li. Porém, a leitura não me causou azia. Amnésia, sim, mas sem azia.

Aos que ainda se perguntam por que lêem, fica uma corruptela do Poema Enjoadinho, de Vinícius de Morais: Livros... Livros? Melhor não lê-los. Mas se não os lemos. Como sabê-lo?

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