16.9.08

463 - Novas patologias


Foto: IBM 3033, da década de 80. Cortesia da IBM
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Novas patologias

Por Paulo Heuser


Os profissionais de TI – Tecnologia da Informação - que ingressaram na área na década de 70, como eu, surgiram durante o período jurássico do então Processamento de Dados. O pessoal mais novo brinca, nos chamando de dinossauros, pois estaríamos extintos, sem sabê-lo. Há professores de cursos de TI que falam dos mainframes – computadores de grande porte – como coisas do passado. Contam que, no histórico evento do Mainframe de Babel, as CPUs se rebelaram e correram em todas as direções, cada uma falando uma linguagem diferente, como Assembler, Fortran, Cobol, Algol, PL/I, C++, Pascal, Java e tantas outras. Na verdade, os mainframes ainda existem, e sou testemunha viva disso. Eles apenas estão escondidos em subsolos ou salas cofre, bem longe do público em geral. Assim também estão os mainframers – os profissionais que trabalham com as grandes máquinas.

É fácil reconhecer um mainframer, apesar da escassez deles. Eles têm cabelos brancos, cabelos tingidos ou não têm cabelo algum. Geralmente se comportam de forma estranha, e falam palavras mais estranhas ainda. Eles não imprimem o conteúdo de telas ou arquivos, eles listam. Os mainframes chamam relatório de listagem, HD de disco e operam mouses do tamanho de capivaras. Estive num dos últimos eventos apenas para mainframers. Aquele sim era o lugar perfeito para venderem tinturas de cabelos e cera de carnaúba. Parecia um congresso de internos de geriatria. Havia aparelhos auditivos e andadores grátis. Sem mencionar o rabecão de plantão.

O aspecto triste de ser um mainframer é trabalhar com computadores que não têm jogos. Nada, nem um miserável FreeCell ou Pack Man. Mahjong e Solitaire? Nem sonhar! Paciência, por mais ambíguo que possa parecer, não é apenas um jogo de microcomputador. É uma característica da personalidade dos mainframers, que devem tolerar piadas a respeito da sua extinção, partindo dos laptopers - povo que lida com os computadores das novas eras.

Não são apenas os mainframers que exibem sinais exteriores da sua profissão, como os cabelos brancos, tingidos, caídos ou qualquer combinação disto.

O Dr. Prljave Bradu, do Centro de Pesquisas Avançadas em Anatomia Humana da Universidade da Ístria, sediada em Hum, na Croácia, publicou artigo na Znanstveni časopis – jornal da Academia Croata de Ciências -, sobre alterações anatômicas observadas em laptopers de meia-idade. Esses profissionais apresentaram alterações posturais importantes. Adotaram postura diferenciada, com o corpo projetado para frente. Contudo, a alteração mais importante diz respeito à modificação anatômica dos membros superiores. Os laptopers passaram a andar com as mãos dependuradas na frente do corpo, com os antebraços recolhidos. As duas mãos estão sempre paralelas, uma próxima da outra. A equipe do Dr. Bradu observou um grupo de 827 laptopers, que foram comparados com os 12 mainframers encontrados, pertencentes ao grupo de controle. O trabalho concluiu que as alterações anatômicas observadas nos laptopers decorrem da utilização de notebooks cada vez menores. Como não enxergam muita coisa, naquelas telas minúsculas, projetam o corpo na direção da tela. Os minúsculos teclados obrigam a digitação com as mãos muito próximas, uma da outra, em paralelo, com os antebraços recolhidos na frente do corpo.

A Dra. Ručnik Stained, do Instituto de Zoologia da Universidade da Ístria, em Hum, diz que, os laptopers estão adquirindo postura semelhante àquela do Tiranossauro Rex, graças aos minúsculos notebooks de sete polegadas.

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1.7.08

420 - Ressurreições

Eniac - Foto: Wikipedia
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Ressurreições

Por Paulo Heuser


Pipocam daqui e dali notícias que dão conta da ressurreição de algo ou de alguém. As bolachas de música foram enterradas pelos CDs e DVDs. Na verdade, nunca morreram. Alguns fanáticos continuaram mantendo seus equipamentos em ordem, dando vida adicional ao vinil, que ainda pode ser encontrado nas lojas especializadas. A indústria fonográfica já decretou a morte dos CDs e DVDs, ultrapassados pelos MP alguma coisa. A pirataria tomou conta de tudo. Enquanto a velha bolacha mantém sua qualidade musical inalterada, as novas tecnologias digitais comprimem os arquivos musicais até o limite da perda do timbre. Pavarotti e Ney Matogrosso acabarão com a mesma voz. Essa devastação musical faz com que o vinil retorne, não apenas em forma de velhos álbuns, como também em lançamentos.

Na área dos alimentos, antigas cozinheiras são retiradas da aposentadoria. Elas dominam o segredo da comida feita a partir de ingredientes básicos, sem processamento industrial. Elas sabem preparar o caldo de carne feito a partir de carne. Coisa surpreendente, na era dos tabletes. Elas também sabem temperar com apenas uma fração do sódio embutido nos ingredientes industrializados. Não utilizam corantes, essências nem aromatizantes. O resultado final é surpreendente: pratos que diferem em gosto, um do outro, e têm gosto daquilo que se propõem a ser. O peixe tem gosto de peixe, a galinha tem gosto de galinha e a carne de porco tem gosto de carne de porco. Só não espere ver essas cozinheiras trabalhando num rodízio. Elas passam ao largo.

Na minha profissão – informática -, os profissionais que atuam com os computadores de grande porte (mainframes), são chamados de dinossauros, em alusão ao tamanho dos equipamentos e à iminente extinção, que ainda não ocorreu. Ouço falar dela desde os anos 80. Contudo, nunca chega. A profecia levou ao fim dos cursos de formação dos analistas e programadores que utilizam tal tecnologia, muito diferente daquela empregada nos microcomputadores. É certo que os mainframes diminuíram em número, mas a razão não tem tanto a ver com a sucessão tecnológica na direção da microinformática. Na verdade, quem está sumindo são as empresas que empregam mainframes, grandes indústrias e bancos. A fusão dessas grandes empresas concentra as áreas administrativas. As empresas resultantes das fusões empregam computadores cada vez maiores, porém em menor número. É certo também que novas empresas dificilmente partirão do zero utilizando mainframes. Eles são caros demais, para quem inicia, além de demandarem pessoal que não é tão fácil de se encontrar no mercado. Algumas universidades norte-americanas perceberam que o nicho de mercado dos mainframes não sumiu. Estão recriando disciplinas de programação para mainframes. As aulas são ministradas por professores que utilizam andadores e aparelhos auditivos. Ah, e giz.

Alguns caçadores de talentos andam atrás de profissionais que haviam perdido muito destaque, nos últimos anos. Eram os reis, nas empresas. Ninguém lhes fazia sombra. Eram os economistas, que ocupavam os cargos de gerentes financeiros. Só eles sabem como fazer uma empresa dar um lucro danado sem produzir absolutamente nada, como nos velhos tempos da inflação. Os preços não interessavam muito, o importante era o prazo. Receber antes, pagar depois. Essa arte foi esquecida. Os MBAs não ensinam isso.


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