17.8.08

444 - A boca seca



Foto: Estadão
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A boca seca

Por Paulo Heuser


O B do teclado está falhando. Será uma migalha de pão? Tenho de bater a tecla, com medo de que ele saia sempre maiúsculo. Ficaria B demais. Sou obrigado a solidarizar-me com alguns atletas dos Jogos Olímpicos, e de quaisquer outros jogos, menos olímpicos, especialmente com aqueles que competem nas modalidades individuais.

Os esportes individuais levam à glória, e à desgraça, sem meios-termos. Se você venceu, a Pátria triunfou. Você será sócio de mais de uma centena de milhões de vencedores, sem falar do patrocinador. Hinos, bandeiras e vinhetas, todos o acompanharão. Se você perder, foi Você quem perdeu. Por falar nisso, quem afinal lhe permitiu representar tal multidão? Sem vencer?

Quem nunca competiu numa modalidade esportiva individual, não sabe daquela sensação estranha que surge antes da prova. Quantos não se questionam, sobre – porcaria do B – o que estão fazendo lá? O coração dispara, a boca fica anormalmente seca, os segundos se transformam em horas, e aí tudo acontece em segundos, muito poucos, às vezes. Não há arrependimento, ou não pode haver. Aquele momento de distração custa uma vida. Para o patrocinador, não há desculpa aceitável. A pressão é grande, mesmo sem patrocinador. A platéia faz as vezes de.

Imitação da vida, em Bs maiúsculos, os Jogos Olímpicos cobram mais. Mais patrocínio, mais cobrança, e mais expectativa. São milhões de olhos, e de dólares, que exigem a perfeição. Afinal, não estão usando aquele banco e aquele remédio em vão. Pagaram por isso, e podem exigir retorno. É o código de defesa do consumidor desportivo. Pagou, ganhou. O patrocinador pagou pela menina bonita, sem voz, que dublou a menina, não tão bonita – segundo o patrocinador -, com voz. O que importa é a imagem. Questionam as imagens da abertura, que seriam produzidas pelo campeão da manipulação das imagens. Questionam os tempos obtidos pelos nadadores. A piscina seria mais curta? Havia correnteza? A água seria quimicamente aditivada? Ou, o que poderia parecer impossível, os nadadores eram melhores, frutos da tecnologia e da fisiologia modernas?

Nas ruas chinesas, jornalistas se revezam em devorar insetos. Como sair de lá sem comer escorpiões? Nem patrocinador, nem telespectador, perdoariam. É o preço cobrado pelo esporte.

Feliz daquele rapaz, o Cielo, que certamente fez por merecer. Rebentou-se durante anos, e triunfou. Foi ao Olimpo, em modalidade individual. Seu choro de glória derramou a tensão que acomete aqueles que ousam desafiar os favoritos, e o próprio Olimpo. Ele foi o mais rápido numa prova que passa num pestanejar. Nem a platéia conseguiu respirar. A mídia fez um show, fazendo ouvir a música que ele teria ouvido durante aqueles vinte e poucos segundos rumo à glória. Quem nada, sabe que a água não permite que se ouça nada, durante uma competição, senão o próprio bater do coração.

Aos outros, os escorpiões, além da boca seca.


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30.7.08

434 - O espírito olímpico

Fonte: Wikipedia
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O espírito olímpico

Por Paulo Heuser


Não se fala de outra coisa. Os Jogos Olímpicos estão novamente aí, agora em Pequim. Teriam se originado na Grécia Antiga, em 776 a.C.. Daquelas competições entre helênicos, chegamos aos Jogos Olímpicos da Era Moderna, com uma série de alterações. Havia quatro Jogos Pan-Helênicos, os Olímpicos, os Píticos, os Nemeus e os Ístmicos. Intercalavam-se num calendário complexo, com os Jogos Olímpicos, ocorrendo de quatro em quatro anos, em Olímpia, cidade-estado de Elis, em homenagem a Zeus.

Os Jogos Olímpicos originais eram restritos aos helênicos, inclusive aos das colônias, como Rodes. As modalidades esportivas consideradas olímpicas eram poucas, quando comparadas com as 41 modalidades de hoje. Destacavam-se as lutas, saltos, corridas e modalidades de arremesso. Em alguns momentos do passado, os Jogos Olímpicos abrigaram modalidades estranhas, como o levantamento de peso com uma só mão. Somente eram permitidos os competidores do sexo masculino, nos jogos antigos. Mulheres, só na platéia. Sendo virgens, é claro.

Se por um lado eram jogos de pelados, já que competiam completamente nus, por outro lado eram jogos de abonados, pois todas as despesas, inclusive as de transporte e de hospedagem, eram suportadas pelos participantes. Pé rapado, nem na corrida. O amadorismo durou bastante, até o final do Século XX, quando os patrocinadores finalmente venceram, incluindo a participação dos atletas profissionais.

Os Jogos Olímpicos sofreram uma grande interrupção, entre 394 d.C. e 1896 - também d.C., é óbvio. Naquele ano, o imperador - convertido cristão - Teodósio I proibiu os jogos, pelo evidente paganismo incutido neles. Coube ao francês Pierre de Frédy, o Barão de Coubertin, lutar pela criação dos Jogos Olímpicos da Era Moderna. Ele havia assistido à reedição dos Jogos Pan-Helênicos, promovida pelo milionário grego Evangelios Zapas, entre 1870 e 1889. Entusiasmou-se de tal forma, que conseguiu convencer o governo francês a patrocinar suas viagens em busca de apoio para a criação da versão atual dos jogos. Como os gregos interrompiam suas guerras para participarem dos jogos, Coubertin imaginou que os países modernos fariam o mesmo. Os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna aconteceram em Atenas, em 1896, com 285 atletas representando 13 países. As despesas com a organização foram pagas por Georgios Averoff, outro milionário grego. Protagonizando uma tragédia grega moderna, o Barão de Coubertin morreu pobre e doente, na Suíça, em 1937. Contrariando as idéias de Coubertin, e a prática dos gregos, os povos modernos interromperam os jogos para realizarem jogos de guerra.

O autor do mote Citius, Altius, Fortius – mais veloz, mais alto, mais forte – não foi nenhum grego, até porque está em latim. Quem o criou, foi o padre francês Henri Martin Dideon, diretor do Colégio Arcueil de Paris.

Espantosos são os custos dos Jogos Olímpicos Modernos. Os chineses esperam gastar – oficialmente - algo como 3,16 bilhões de reais na organização. Esperam, pois levantamentos externos indicam que gastarão por volta de 65,6 bilhões de reais. Apenas na tentativa de redução da poluição, gastarão 16,5 bilhões de reais. Mesmo assim, os atletas deverão se habituar a competir numa atmosfera um tanto diferente daquela a qual estão habituados. O COI – Comitê Olímpico Internacional - poderá incluir uma nova modalidade, a corrida de escafandro.

Com todos esses investimentos, viva o espírito olímpico, ou, como diria hoje o Padre Dideon,
Adidius, Naikius, Altius Lucrus!


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