27.8.08

450 - Ao apagar da chama

Foto: Wikipedia
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Ao apagar da chama

Por Paulo Heuser


A chama se apagou, o show terminou. Atletas e público voltaram para casa. Hora de voltarem às novelas e ao futebol. Serão quatro anos de preparo para os Jogos Olímpicos de Londres 2012, tarefa já iniciada há muito. O Rio de Janeiro está de olho em 2016. Os Jogos Olímpicos transformam cidades, basta dar uma olhada em Pequim, que mudou de cara para receber os turistas olímpicos. Aprenderam a sorrir, esconderam o churrasquinho de au-au, reduziram a poluição e deram o maior show de pirotecnia já visto. Sem esquecer o show de conquista de medalhas, onde desbancaram as ex-potências do esporte. O Johnson virou Lingson.

Londres 2012 mostrará contrastes com Pequim 2008. Os londrinos não precisarão de muita tecnologia e de grandes manobras para obterem visibilidade maior do que 30 metros, pois o fog dá folga no verão, e muito da poluição foi controlado nas décadas anteriores. Os maiores índices de poluição ocorreram em 1952, quando três mil pessoas morreram em conseqüência do smog – smoke + fog. O que me deixa curioso, é o que farão no show de abertura. Um festival de rock, talvez, pois nisso eles são muito bons. O príncipe Charles fará um discurso de boas vindas, recheado com pequenas piadas britânicas. Aquele refinado humor britânico é muito bom. Ele provoca gargalhadas de golfe, além das palmas, é claro. A nação que deu Monty Python e John Cleese ao mundo merece respeito humorístico.

Esse humor britânico viria da comida deles. É impossível não rir dela. Londres tem seis mil restaurantes, representantes da culinária de mais de 70 países. Ainda bem, para eles e para os estrangeiros. O maior prodígio britânico foi a exportação de alguns hábitos alimentares às colônias. Até hoje os países anglófonos ainda compartilham do café da manhã da culinária inglesa. O café da manhã dos norte-americanos é a cara do café da manhã dos ingleses: bacon, ovos, salsichas e pão, tudo frito, inclusive o pão. Bombas de gorduras, porém saboroso. Já dos outros pratos, é melhor não saber.

Nem sempre foi assim. As primeiras colônias dos EUA, na Terra Nova (1583) e na Virgínia (1587), foram abandonadas devido à ferocidade dos índios revoltados com a culinária dos conquistadores. Trata-se de uma especulação, é claro. Eles não teriam suportado a kidney pie – torta de rim -, nem fish and chips – peixe e batatas fritas – com muito ketchup e enrolados em jornal. Como os ingleses ainda não conheciam a batata inglesa, nessa época, presume-se errado que fish and chips seria só fish com ketchup, enrolado no jornal. Ocorre que tampouco havia ketchup, nem jornais impressos. Isso causa algum abalo na hipótese. O jornal é imprescindível, pois é ele que dá gosto à coisa.

Os britânicos são cordiais, em geral, apesar da aparência um tanto empoada. À pergunta sobre um bom lugar para se comer por lá, terão a resposta na ponta da língua: “Oh, bem, eu tentaria Paris ou Roma!”. Nesse aspecto Rio 2016 dará de dez a zero neles. Afinal, no Rio poderão comer feijoada. E feijoada. E mais feijoada. Para variar, feijoadinha de feijão branco, em preparo para a próxima feijoada. Haja gás!

Caipirinha não é mais bebida típica do Rio de Janeiro. Muitos parisienses juram que ela foi inventada lá, principalmente os argelinos. Alguns venezianos pensam o mesmo, pois caipirinha é coisa da terra do carnaval, e, afinal, quem inventou o carnaval? Os gregos também dizem que foram eles, mesmo que lá a caipirinha seria feita com ouzo - bebida feita de anis. Rio 2016 será na base da feijoada – quero vê-los pronunciar isso – com gaibirrinia. Feijoada soará como feiioaada, em alemão, pois o jota pronuncia-se como o i. A propósito, o vê se pronuncia como o efe, e o dobre-vê como vê. Simples, não é? Por que a letra a está duplicada? Porque deve estar, ora.

Numa coisa Londres levará grande vantagem sobre Pequim 2008 e Rio 2016. Lá todos falam inglês, apesar de os norte-americanos não concordarem muito com isso. Até as crianças lá falam inglês! Nota-se que investem pesado no ensino de línguas.

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7.5.08

394 - Quarenta e duas



Motorola
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Quarenta e duas

Por Paulo Heuser


Armagedônio cantarolava Knocking’ on Heaven’s Door, de Bob Dylan, quando bateram à porta. O knock e o toc foram mera coincidência, pois ele cantarolava a mesma música desde 1973, quando a vitrola deixou de funcionar. Tampouco bateram à porta, desde lá. Por isso, não foi sem surpresa que viu aquele sujeito sorridente, parado na entrada do espartano apartamento de quarto e sala.

- Bom dia, Senhor...? – O estranho sorria, com olhar de interrogação.

- Armagedônio, às suas ordens.

- Eu poderia conversar consigo, por alguns instantes? – Perguntou o sujeito sorridente.

- Sim, entre...

- Obrigado! Sou o gerente de vendas da Global Market Outlet, Inlet, Middlelet & Anylet. Estou aqui porque não conseguimos entrar em contato com o senhor através do telefone.

- É que eu não tenho telefone.

- Pois então, o senhor aparece como uma anomalia, no nosso relatório gerencial. O conselho de acionistas certamente trocará o presidente da empresa, meu chefe, indicando um outro, que demitirá o principal executivo de vendas: eu, caso não consigamos inseri-lo na nossa promoção do mês. Como todas os nossos canais de vendas utilizam o telefone, vim pessoalmente.

- O que o senhor vende?

- Vendemos qualquer coisa, mas nossa campanha atual é para a venda dos televisores 42’’, de plasma. Estamos com a promoção Pequim 2008. O senhor compra nosso aparelho, assiste aos jogos e começa a pagar somente após as Olimpíadas de Londres, em 2012. Há opção para troca automática do aparelho, a cada ano, chegando em 2012 com o modelo de 168’’.

- Mas, eu não assisto à televisão. Além disso, um modelo de 168” não caberia dentro do meu apartamento.

- Não seja por isso! Nossa divisão imobiliária já comercializa os apartamentos com TV Wall 168, prontos para nossos aparelhos de plasma da campanha Londres 2012. Os imóveis podem ser completamente financiados, com opção de pagamento a partir das Olimpíadas de Madri ou Rio, em 2016, sem local ainda definido.

- Bem, o tamanho não é o problema. É que eu realmente não assisto à TV.

- Hoje, hoje. Quando chegarem as olimpíadas, o senhor não desgrudará os olhos da tela da nossa Pequim 2008 - 42’’ Olympic Turbo Blower!

- Não assisto às olimpíadas, tampouco. Deixei de acompanhá-las faz muito tempo. Os jogos tornaram-se competições entre patrocinadores.

- Nós respeitamos seus escrúpulos, porém me cabe lembrá-lo que no próximo domingo comemoraremos o Dia das Mães. O senhor já imaginou sua mãe assistindo ao Juvenal em 42’’, puro plasma?

- Eu não tenho mais mãe...

- Então a promoção “Todo Mundo de Mãe, no Dia das Mães”, serve como uma luva! Nós estamos com uma promoção de mães adotivas, fornecidas pela nossa ONG Mães Sem Fronteiras. A promoção Pequim 2008 oferece mães chinesas em pronta entrega. O senhor assina o contrato agora, recebe o aparelho e a mãe em 24 horas, e passa a assistir aos capítulos do Juvenal, em companhia da nova mamãe.

- Não me interessa, pois realmente não assisto à TV e não sei quem é esse Juvenal.

- Nossa, desde quando o senhor não sai daqui?

- Desde 1970. Eu era vendedor, na época. Bati à mesma porta, para tentar vender um televisor em cores para o então morador. Havia a campanha da Copa do Mundo.

- Alugou o apartamento dele?

- Para dizer a verdade, não. Ele simplesmente sumiu, após me oferecer café. Entrou na cozinha, e não voltou. Foi quando observei que as portas não têm maçanetas, por dentro. Creio que abrem quando alguém bate. Como você, no caso. Notei também que as janelas são falsas. São quadros pintados, na verdade. A propósito, aceita um café?


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