25.9.09

549 - A eloqüente

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A eloqüente

Paulo Heuser

Elvira nasceu falando. Ninguém se lembra da primeira palavra dela, lembram-se apenas do primeiro discurso. Ela não fala, apenas. Emenda palavras, horas a fio, como fazia Fidel Castro antes de vestir Adidas. Compará-la a Fidel, é subestimá-la, pois, além de eloqüente, é rápida. Emenda também as sílabas, não deixando espaço nem para respirar. Fala inspirando, fala expirando e fala em apnéia. Elvira é uma máquina de falar que preenche todo o ambiente com palavras. Ouvi-la, é um suplício. A avalanche verborréica, em continuum, não dá tréguas. Ela tem uma habilidade nunca vista para preencher qualquer hiato interssilábico.

A fama da eloqüência da Elvira cruzou fronteiras. Noutro dia, um concerto da orquestra sinfônica atrasou. O maestro burquinense Gummi von Plungerkolben recusou-se a subir ao palco, quando descobriu que ela estava na platéia. Na verdade, Elvira não fala durante os concertos, porém, fala todo o resto do tempo, inclusive durante a afinação dos instrumentos. Ela apresenta uma funcionalidade que foi incorporada aos equipamentos de rádio, chamada AGC, ou controle automático de ganho. Quando o ruído aumenta, ela aumenta o volume de voz, quando ele baixa, ela também fala, ou melhor, grita mais baixo. O sujeito do primeiro naipe dos violinos dá o tom, para a afinação, e ninguém ouve. Só ouvem a voz da Elvira, que se mantém, prudentemente, no limite suportado pelo ser humano. Ela não pode mais ingressar na União Européia. Os países membros do Espaço Schengen limitaram os níveis aceitáveis de ruído. O limite passou a ser o Pré-Elvira, algo entre o ruído de uma decolagem de jato e a poluição de carro de som de candidato eleitoral.

Armando era o contraponto da Elvira. Era uma tumba ambulante. Dele, nada saía. Falava tanto quanto o mudo afônico que fez voto do silêncio. Estranhos são os desígnios de Afrodite. A eloqüente Elvira casou-se com o mudo Armando. Haveria compensação, pois o silêncio dele absorveria a torrente de palavras dela. Assim andaram, nos últimos 40 anos. Ela falava o tempo todo, ele apenas assentia com um gesto quase imperceptível. Tudo ia bem, até a quarta passada. Saíram para jantar e comemorar quatro décadas de monólogos. Elvira pediu ao garçom um filedepeixepodesercôngriooulinguadoetcetc... O pobre homem tentava anotar o pedido, sem conseguir separar o que interessava do que realmente não interessava, ou seja, praticamente tudo. Ela seguia falando, para espanto dos demais convivas, enquanto os cães uivavam e a caravana fugia, seja lá o que isto quer dizer. Então, aconteceu.

No início, sentiram apenas um leve tremor, que foi crescendo, crescendo, até aflorar um terrível rugido da boca do Armando.

- Cala a boca, Elvira!

O tempo parou. O garçom estacou, com cara de mulher de Ló, os cães ladraram e a caravana passou. Fez-se o mais profundo silêncio. Não se ouvia mais nem a respiração da Elvira, principalmente porque ela parou de respirar. Entrou em síncope. Armando viraria herói, se houvesse seguido seu instinto. Contudo, rendeu-se à paixão antiga e tratou de ressuscitá-la. Tomou o corpo sem vida nos braços e gritou, com todas as forças:

- Fala alguma coisa, Elvira!

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4.9.08

456 - De Semântica e gramemas



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De semântica e gramemas

Por Paulo Heuser


Há palavras belas, palavras neutras e palavras feias na língua portuguesa. Semântica é uma palavra bela, poderosa, como a maioria das proparoxítonas. Com ela, enche-se a boca. Semântica. Assim também é a palavra heurística. Gramema é uma palavra feia, Tem o sabor da paçoca com maria-mole e pamonha. Falta-lhe tudo. Gamema lembra boca mole. Gramemas são os processos de intensificação prefixais, como os prefixos gregos hiper, super e ultra. Apondo-se um gramema à palavra semântica, poderemos obter uma expressão ainda mais poderosa, como a ultra-semântica, que nunca será ultrapassada, pois já está além do limite. Isto posto, tentarei explicar o que aconteceu com o Zé.

O Zezinho queria assistir ao filme que o coleguinha de aula lhe emprestara. O menino sempre elogiava a sala de projeção do vizinho, equipada com TV de alta definição (HDTV). O Zé tinha apenas um televisor SDTV, inferior ao do vizinho. Ninguém deles entendia bem o que significavam essas siglas, mas o que importava mesmo era a competição. Nenhum dos vizinhos poderia se mixar para o outro. Se o vizinho tinha HDTV, o Zé havia de tê-la também. E lá se foi ele, a procurar o melhor sistema de TV de alta definição disponível no mercado, e fora dele.

Quando o caminhão da entrega trouxe o sistema HDTV do Zé, o vizinho contra-atacou, comprando o recém-lançado Full HD, que, sendo lá o que fosse, seria melhor do que o sistema HDTV. O Zé ficou roxo de raiva, e pôs-se a campo, em contato com um personal high tec noiser – consultor pessoal em barulho de alta tecnologia. Este lhe informou do iminente lançamento do sistema ArquiFull HD. Enquanto isso, o menino aguardava. O vizinho não se deu por vencido. Tão logo chegou o ArquiFull HD do Zé, ele anunciou, através do menino, que encomendara um ExtraFull HD, superior ao ArquiFull HD. Enquanto isso, o menino aguardava.

A guerra tecnológica seguiu pelos próximos meses, com a compra de sistemas HiperFull HD, SobreFull HD, SupraFull DH, SuperFull DH, culminando com o UltraFull DH. Ambos esperaram alguma inovação que ultrapassasse o UltraFull HD. Enquanto isso, o menino aguardava. Como o sistema de imagem não mudava, passaram a competir pelo som da TV. Por fim, falidos e exaustos, contentaram-se com o sistema UltraFull HD, com tela de 108 polegadas, equipado com UltraDolby Ultra-Surround 97.1. Guerra era guerra, paz era paz. Finalizada aquela, Zé convidou a família do vizinho para assistirem ao filme que gerou todo o conflito tecnológico, num gesto de paz.

Foi numa noite de sábado. O sistema UltraFull HD veio acompanhado com a máquina UlfraFull HD Popcorn, que produzia pacotes de 5 kg de pipocas na manteiga com bacon em segundos. Com a platéia toda instalada, o menino pôs o disco Ultrablu-Ray, no aparelho UltraFull HD player, e a fantástica tela de 108 polegadas passou a exibir The second hundred years (1927), filme de Oliver e Stanley (Gordo e o Magro). Não há gramema que auxilie a descrever a cara da platéia, quando iniciou o filme em preto e branco, cheio de manchas e riscos. O som UltraDolby Ultra-Surround 97.1 deu um toque especial ao filme mudo.

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