5.8.07

Memorize seu setor!

Foto: Paulo Heuser
Memorize seu setor!

Por Paulo Heuser


Chegamos à fase da vida em que nos tornamos extremamente minimalistas. Trocamos qualquer bufê de 87 pratos quentes e 48 frios por um prato bem-feito. Um bom pão, acompanhado de boa manteiga, vira banquete. Ernest Hemingway vira opção de leitura. Fugimos de cafés coloniais como o diabo foge da cruz. Rodízios, só sob os móveis. Pizza? Margherita, ora. Enfim, trocamos quantidade por qualidade e caos por harmonia.

Num dia qualquer da vida, sem aviso prévio, passamos a freqüentar pequenos armazéns e lojas de miudezas. As bancas do Mercado Público passam a nos atrair. As bancas, até que não são tão minimalistas, mas o povo é. E isso é belo. Chega aquela senhora pedindo peixe seco. O que alguém fará com peixe seco? Sei lá, mas aí que reside a graça da coisa. Pedem coisas estranhas e exóticas, coisas que nunca encontrarão à venda nos supermercados das grandes redes. São aquelas coisas que estão guardadas em grandes vidros, na quarta prateleira, terceira coluna, atrás do pote de geléia de cactos da Abissínia.

Quando entramos na fase minimalista, fugimos da padronização, do modismo. Modismo é complexo, pois implica condicionamento social. O treinador mercadológico deve nos adestrar, para que compremos pasta de qualquer porcaria e digamos: - Oh, que como é bom comer Grlbh! Todos gostam, por que não eu? Passei da fase de comer Grlbh, hoje prefiro o pão. Não os pães de iogurte, 29 cereais, erva doce, alcachofras secas, batata azeda ou caju. Apenas pão. Quando comemos carne, preferimos a de sabor carne. Nada de carnes sabor pizza, guacamole, quatro queijos ou cheddar.

Na hora de comprar os mantimentos, passamos a preferir o armazém do Sergio. Não há necessidade de carrinho para colocar as compras. Basta largá-las sobre o balcão. O Sergio sabe de quem são. Também não há ilhas de mercadorias no Sergio. Pode-se caminhar livremente, sem arredar carrinhos esquecidos no meio do corredor pelos distraídos, para não dizer coisa pior. Ilhas de mercadorias são campos minados no meio do corredor de supermercados grandes. No Sérgio não há caderno de ofertas, basta lhe perguntar o que está barato. Ele sabe, e diz. As sacolas do Sergio são mais resistentes. Não furam com qualquer lata. O que dizer dos estacionamentos, então? No Sergio, há vaga na porta. Nos grandes, esquecemos onde deixamos o carro. Depois, vagamos pelo estacionamento, tentando encontrá-lo. Certa feita, perdi meu carro. Pior, sem saber onde. Já era noite feita, quando descobri que o deixara no dentista, pela manhã. Tive de apanhar um táxi, para buscá-lo. As grandes redes de supermercados criaram padrões de sinalização para seus estacionamentos. Maravilha, você vai a qualquer loja da rede e encontra os mesmos sinais, com uma advertência: Memorize seu setor.

Quando não vou ao Sergio, costumo comprar coisas na pequena loja da muito grande rede. Loja tão pequena que ficou meio esquisita, com a sinalização das grandes. No minúsculo estacionamento, para algo como 20 carros, há o aviso para memorizar o setor. Sigo à risca: Setor 1-A. Não é difícil memorizá-lo. É o único.
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25.3.07

A Invasão dos Ovos Assassinos



A Invasão dos Ovos Assassinos

Por Paulo Heuser

Quase tudo é sazonal na vida, menos a própria. Chega a época de temer que o céu me caia sobre a cabeça, temor compartilhado com os gauleses da irredutível aldeia imortalizada por Goscinny e Uderzo. Nesta época, deixo de freqüentar o supermercado, retornando apenas após a Páscoa. Temo os ovos. Não os de galinha, comportados e imutáveis, a não ser na cor e no tamanho. Temo os ovos de mamíferos. Se a própria existência deles não é uma ameaça ao conhecer científico, a posição em que são postos é a verdadeira ameaça, física, no caso.

O supermercado utilizou livros ingleses, do século XI, para determinar a altura em que deveriam dependurar os ovos de Páscoa. Utilizaram um paper do Yorkshire Dog’s College, intitulado Eastern Eggs – A Study of Human Growth. Através daquele paper, determinou-se que os ovos de Páscoa deveriam ser dependurados no teto, a 1,80m de altura, levando em conta que os homens apresentavam altura média de 1,71m, quando despido o elmo, considerados apenas os homens cujas mulheres eram fiéis no casamento, evidentemente. Desde lá, algo mudou, inclusive a altura de alguns homens e mulheres, que facilmente ultrapassa a clássica medida britânica. Chego a entender a razão que os levou a colocá-los (os ovos) tão baixo. Os cabides de ovos são prateleiras aéreas, na verdade. Aquelas belas e simpáticas coelhinhas demonstradoras não teriam como alcançá-los, se colocados numa altura segura para os pobres infelizes que se situam nas curvas superiores do percentil de crescimento, como eu.

Devo caminhar curvado, se resolver atravessar aqueles corredores dos enlatados, bolachas, grãos e outros alimentos. Só estou seguro mesmo, quando ando pelos corredores dos artigos de limpeza, sem ovos de mamíferos, os que não gosto mesmo de percorrer. Por que não penduram os ovos lá? Comprar água sanitária não dá prazer a ninguém normal. O problema não é apenas o desconforto físico. Há o desconforto psicológico, também, vulgarmente conhecido como mico. – Mãe, olha lá o gigante no meio dos ovos! Há quem prefira sair de lá com eventuais galos na testa, mas com o orgulho intacto. Conheço um ex-jogador de basquete que não se abala, abala os ovos. Ereto, atravessa a barreira de ovos, após um impulso inicial. As aterrorizadas promotoras de vendas assistem àquela terrível destruição sistemática dos ovos de mamíferos. Quando ele desponta na extremidade do corredor, descabelado e com a testa vermelha, resta um longo vale invertido de ovos de mamíferos quebrados, insumos para a liquidação da segunda-feira pós-Páscoa.

Hoje desafiei o perigo e fui àquele supermercado. Fui buscar carne, passando longe dos ovos, após fazer um grande desvio pelo setor da água sanitária. O preço da carne, em si, já é uma grande ameaça. Lá em casa já nos adaptamos, substituindo as carnes clássicas por outras mais em conta. Alcatra, picanha e maminha deram lugar à lagosta e ao haddock, bem mais baratos. Dão um carreteiro bem legal. Apenas pensei estar seguro no açougue. Uma placa metálica despencou sobre as minhas costas, deixando um vergão vermelho. Será coisa do coelhinho?

A propósito, que raios de mamíferos são esses, que põem ovos?


E-mail: prheuser@gmail.com

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