11.8.09

540 - O paradoxo do Seu Arlindo

Bertrand Russell
Fonte: Wikipedia
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O paradoxo do Seu Arlindo

Paulo Heuser

O paradoxo do Hotel de Hilbert é uma daquelas coisas que apenas os matemáticos conseguem entender, ou fingem que entendem. Paradoxos, por si sós, já são esquisitos, pois parecem ser o que não são, ou, são o que não parecem, ou algo parecido. O matemático alemão David Hilbert (1862-1943) demonstrou que sempre é possível acomodar mais um hóspede, mesmo que um hotel esteja lotado, desde que ele possua infinitos quartos. O matemático brasileiro José Costa (1930-) criou uma variante do paradoxo proposto por Hilbert, o paradoxo do Senado de Costa.

Considere um senado hipotético com infinitos cargos em comissão, todos ocupados, isto é, todos os cargos em comissão contêm um parente. Suponha que um novo parente chega e gostaria de se acomodar no senado. Se o senado tivesse apenas um número finito de cargos em comissão, então é claro que o requerimento não poderia ser atendido. Porém, como o senado possui um número infinito de cargos em comissão, movendo-se o parente do cargo 1 para o cargo 2, o parente do cargo 2 para o cargo 3, e assim por diante, podemos acomodar o novo parente no cargo 1, que agora está vago. Por um argumento análogo é possível alocar um número infinito de novos parentes, apenas movendo o parente do cargo 1 para o cargo 2, o parente do cargo 2 para o cargo 4, e, em geral, do cargo N para o cargo 2N. Assim, todos os cargos em comissão de número ímpar estarão livres para os novos parentes.

Apesar de muito atual, o paradoxo do Senado de Costa não é o foco deste texto, por razões que não vêm ao caso. O que nos interessa, no momento, aconteceu ontem. Eu caminhava pela Dr. Flores quando me lembrei do Seu Arlindo Barth, meu primeiro barbeiro. Lembrei-me também do paradoxo do barbeiro, cuja autoria é atribuída ao brilhante matemático galês Bertrand Arthur William Russell (1872-1970). O resumo da ópera é o seguinte: o barbeiro de uma aldeia hipotética faz diariamente a barba de todos os aldeões que não barbeiam a sim mesmos, e a mais ninguém. Ora, se o barbeiro barbeia apenas os que não barbeiam a si mesmos, ele terá de barbear a si mesmo, criando o maior forrobodó lógico, falando em linguagem científica matematicamente aceitável. Esse teorema poderia passar despercebido, caso eu não tivesse sido abordado por diversas pessoas que gritavam: - Corto cabelo e compro ouro! Naquele momento, parei e lembrei-me do Seu Arlindo. Não consegui imaginar o Seu Arlindo comprando ouro, pois deixaria de ser um barbeiro para se tornar um ourives. Se o paradoxo do Seu Arlindo ourives é ruim, pode haver algo bem pior, pois, mais adiante, outro sujeito gritava:

- Corto cabelo, compro ouro e implanto dentes!

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18.6.09

529 - Mens insana in corpore insano


O patriarca de uma FOBC
Senador da República José Sarney
Foto: Wikipedia
Mens insana in corpore insano

Paulo Heuser


O Mata-Bancário soprava na Caldas Júnior. Vinha lá do rio, pulava sobre o muro da Mauá e deixava seu rastro de gelo. Não vinha sozinho, trazia a chuva gelada. A moça que vende jornais na esquina da Siqueira Campos vestia traje de astronauta. Quem sobe a Serra atrás do frio deveria experimentar a sensação térmica daquela esquina. É de graça, porém, bem pior. E fica aqui, coisa nossa, porto-alegrense. Em vez de tomar chocolate quente, pode tentar o ensopado de vísceras do Jacó, com ovo picado, salsinha e pimenta medonha. Aquece a alma e algo mais. Deveriam trazer turistas do nordeste para conhecê-la, pois esquina como aquela, não há, pelo menos neste país. Pode haver lá em Vyngaïakhinsk, na Sibéria Ocidental. Contudo, lá não há dobradinha do Jacó, só sopa de repolho.

Pois, em meio a esse cenário de desolação térmica havia uma caixa de papelão, deixada ao lado da entrada do prédio. Por entre as tampas semicerradas via-se um improvável par de olhos, pertencentes ao menino maltrapilho que se escondia no interior da caixa. Choque! Ninguém espera por aquilo. Situação terrível. Mas, os calejados alfandegários de carreira sabem das coisas. Mendigo nenhum, em sã ou insana consciência, vai morar dentro de uma caixa de papelão, em plena Caldas Júnior, num dia de Mata-Bancário. É suicido, são ou insano, e reforça o apelo à piedade. Quem não está habituado a esses artifícios mercadológicos, digamos assim, dá em dobro. E, talvez, se põe a pensar no que levou aquele menino a chegar àquela situação. A resposta está escancarada, só não a vê quem não quer. Faltou-lhe uma família bem composta. As famílias bem compostas não deixam seus membros à mercê das intempéries.

Uma estrutura familiar bem composta logo coloca suas crianças num dos inúmeros programas sociais mantidos pela sociedade incivilizada, como o PPN – Programa do Pequeno Nepotista -, o PMP – Programa do Menor Parente - ou o PNC – Pequeno Nepotista Cruzado. À medida que crescem, outros programas sociais os esperam. Há de se destacar o programa MPE – Meu Primeiro Estado. Todos esses programas fazem parte de um pacote chamado FOBC – Família Oligárquica Bem Composta -, uma das raras unanimidades nacionais, mantido e operado pelos mais variados matizes ideológicos, que, apesar de mantidos por ela, navegam à margem da sociedade civil.

O pobre menino navega na sua bizarra nau de papelão, nos gélidos ventos da Caldas Júnior. Um par de olhos esbugalhados à procura de um porto que não encontrará, pois nasceu aqui, não nasceu lá.

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