26.10.08

481 - Chapéu-de-chuva



Foto: Wikipedia
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Chapéu-de-chuva

Por Paulo Heuser

Talvez não haja objeto tão amado e tão odiado como o guarda-chuva. O barômetro é quem dita a regra, e a regra é: sempre chove quando se deixa o guarda-chuva em casa e sempre faz sol quando se traz o maldito. Desde que o guarda-chuva deixou de ser bem durável, acontece um fenômeno. Surge um exército de vendedores de quarda-chuvas de “dérreal” – dez reais, em cameloniquês -, ao cair das primeiras gotas. Basta um ar-condicionado pingar, e já há alguém berrando para oferecer os modernos, minúsculos e descartáveis: “Tomático o guarda-chuva!” – guarda-chuva automático.

Os equipamentos de “dérreal”, e nada, são a mesma coisa, só que nada é de graça, enquanto aqueles custam – ou será custa? – “dérreal”. O preço varia conforme varia a quantidade de chuva. Um “dérreal” pode sair por “sete real”, se a chuva parar, ou até por “vinte real” se a chuva for muita e os clientes em potencial aparecerem no final do expediente. De qualquer forma, duas coisas permanecem invariáveis: real sempre fica no singular, e o guarda-chuva chama-se “dérreal”, seja qual for o preço pago.

Os “dérreal” devem ser fabricados no mesmo lugar, pois são idênticos, seja aqui, seja na China. Todos têm um botão dourado junto ao cabo que já vem solto de fábrica. O tal do botão serve, em tese, para abrir “tomaticamente” o guarda-chuva. O botão dourado é herança da origem do equipamento. Até bem pouco, acreditava-se que o guarda-chuva teve origem na Mesopotâmia, há 3400 anos. Porém, o Dr. Heinrich Sodbrennen-Brausetabletten, da Universidade da Eritréia, contesta essa versão da história. Ele alega, inicialmente, que na mesopotâmia a chuva é, e era, muito escassa. Assim, os mesopotâmios podem ter inventado o guarda-sol, não o guarda-chuva. Faz sentido. Além do mais, o Dr. Sodbrennen-Brausetabletten – ou Heinz, como prefere ser chamado – encontrou antigos escritos gregos que narram uma estranha história envolvendo um tal de Zeus, deus que costumava dar presentes de grego. Também faz sentido, pois ele era efetivamente grego, e ainda não havia lojas de 1,99 talentos que vendessem artigos chineses.

Os textos desenterrados pelo Heinz contam que Zeus mandou sua filha Pandora se casar com Epimeteu, irmão de Prometeu – aquele cujo fígado foi devorado pelo abutre Éton. Pandora trouxe uma caixa – as mulheres sempre as trazem –, e Epitemeu não resistiu à tentação de ver o que havia lá dentro. Apertou o botão dourado e abriu a caixa da Pandora, que continha toda sorte de desgraças, como o trabalho, a doença, a loucura, a mentira e a paixão. Espalhada a desgraça, restou apenas a esperança, no fundo da caixa.

O “tomático” e a caixa da Pandora têm algo em comum: o botão dourado. Melhor não pressioná-lo, pois nunca se sabe o que pode acontecer. Porém, há diferenças. Na caixa da Pandora restou a esperança. No “tomático” não há esperança. Mais, Pandora tentou livrar-se da caixa, e não teve sucesso. O “tomático” vai para o lixo, de onde nunca deveria ter saído.

Resta falar do chapéu-de-chuva. Um feio dia estive na Bahia. Sim, era um feio dia, pois chovia há dias. Descobri que na Bahia havia muito sol acima das nuvens. Entrei numa daquelas lojas que vendem desde o berimbau até o colchão de coco anão, e pedi um guarda-chuva. Acontecerem duas coisas. Primeiro, o Luis Antunes – o primeiro português a não se chamar Manuel – desatou a rir, pois os brasileiros vurros – burros? - chamavam o chapéu-de-chuva de guarda-chuva. Não preciso lembrar a reação dele quando embarcou comigo no autocarro, que eu desastradamente chamei de ônibus. Poderia ser pior, pois em Angola embarcaríamos no machimbombo. Segundo, o vendedor me dizia que não havia guarda-chuvas à venda na Bahia, pois lá sempre faria sol. Então descobri por que os turistas norte-americanos carregam berimbaus pela rua, quando chove. Tive que levar um berimbau para convencer o sujeito a me vender um dos guarda-chuvas que escondia em meio às carrancas esculpidas em madeira. O Luis Antunes continuava a rir. Restou a sorte de não embarcar no machimbombo.

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3.3.08

27 anos


Esta é a tricentésima sexagésima quinta postagem.


Foto: Paulo Heuser
27 anos

Por Paulo Heuser


Estou francamente desolado. A globalização atropelou-me novamente. O pão daquela loja do supermercado foi padronizado com os demais da rede. Virou pão comum, como borracha. O que me atraía àquela loja era o pão, uma baguete quase francesa. Aparência e embalagem permaneceram as mesmas. A casca crocante, no entanto, foi-se com a venda da loja. Caiu o último bastião daqueles que sonhavam com um pão decente. Inscreveram o padeiro num curso de técnicas para fabricar pães sem graça. Pães para consumo com geléias industrializadas e margarinas fabricadas a partir de biocombustíveis. Da refinaria à mesa. Logo lançarão o pão de mamona, subproduto da moderna tecnologia para substituição dos comestíveis pelos combustíveis. Tornaremos-nos fósseis, afinal.

Outra coisa que me incomodou foi o pagamento de contas nas caixas do supermercado. A escolha do caixa, antes pautada pela quantidade de coisas que os da frente levavam no carrinho, transformou-se em algo semelhante à escolha das filas nos bancos. Somente a primeira vista, diga-se de passagem. Nos bancos devemos evitar as filas onde há jovens vestindo bermudas e com capacetes na mão. São potenciais office boys portadores de pastas recheadas com contas de difícil pagamento, que demandam inúmeros cálculos e consultas. Já nos supermercados, os potenciais perigos são outros. Cuidado com as senhoras idosas que carregam apenas um litro de leite e um pacote de bobs, no cesto de compras. Alguns dirão que não se vendem mais bobs no supermercado. Outros irão além, dizendo que nem sequer sabem o que são bobs. Ora, bobs são rolos de cabelo, dispositivos do tempo em que as mulheres e alguns homens - de extrema vanguarda - gostavam de ondular os cabelos. Depois alguém juntou dois ferros de passar e colocou uma dobradiça na base deles, inventando a tal de chapinha para alisar cabelos por incineramento.

Por trás daquela aparentemente inofensiva combinação de apenas dois itens pode haver uma bolsa com todas as contas do mês. Contas que serão pagas lá, na sua frente. A funcionária empacará a cada nova conta, chamando recursivamente um supervisor que consultará o gerente, que consultará o escritório central, etc. E você ficara lá parado, enquanto todos os demais clientes passam pelos outros caixas. Pagas as contas, finalmente, você será atendido. Não, faltou registrar os bobs. Ao passá-los frente ao leitor do código de barras, este entenderá que aquelas inúmeras linhas que se repetem cilindricamente são códigos de barra. Os mesmos códigos da maçã importada do Zimbábue. O impressor do caixa passará a cuspir rolos de papel com registro de maçãs, muitas maçãs. Ao chegar nos R$ 192,13 de maçãs, a caixa concluirá, após bocejar, que algo está vagamente errado, pois ela não pesou nenhuma maçã. Então consultará o supervisor que consultará o gerente, que consultará o escritório central, etc. O escritório mandará reiniciar o terminal do caixa que, mesmo assim, continuará expelindo lançamentos de vendas de maçãs. A você restará procurar outro caixa. Se for esperto, procurará uma das maiores filas – são as únicas que andam.

No sábado passado observei que o supermercado aderiu à campanha pró-obediência à lei que proíbe a venda de bebidas alcoólicas para menores de idade. Iniciativa louvável! Já havia passado uma dúzia de coisas quando o terminal parou, logo após passar o pacote de cervejas. Recusava-se teimosamente a registrar outros itens. O funcionário do caixa teve um lampejo repentino. Lembrou-se da obrigatoriedade de confirmar a maioridade do cliente, toda vez que o item selecionado é alguma bebida alcoólica. Ele digitou algo e o terminal seguiu em frente, sem registrar mais maçãs. Ao ouvir a explicação do rapaz, eu comentei, em tom de brincadeira, que era fácil constatarem que tenho mais de 18 anos.

- Dezoito não! São 27. – respondeu-me o caixa.

- Por que 27?

- Sei lá, eles pedem para verificarmos se o cliente aparenta ter mais de 27 anos de idade.

Fiquei encasquetado com os 27. Haverá estado norte-americano onde a maioridade só se dá aos 27? Seria uma margem de 50% para compensação de falhas de julgamento? Ou uma estratégia de marketing calcada na felicidade de alguém de mais idade que é confundido com alguém menor de 18 anos? As moças adoram. Imagine o diálogo:

- Lamento, senhorita, mas tenho ordens de não vender bebidas alcoólicas para menores!

- Não é senhorita, é senhora!

- Desculpe-me, por favor. Eu nunca poderia imaginar que alguém casasse tão moça...

- Tampouco sou menor de idade!

- Ah, deixe disso, não me engana...

- Pois bem, veja minha identidade!

- Nossa, que coisa incrível, como a senhorita, digo, senhora consegue manter essa incrível jovialidade? Eu não lhe daria mais do que 17!

- Ora, também não exagere...
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- Não estou exagerando, senhora. Se a senhora levar 12 rolos de papel higiênico Maciez Terminal, na promoção, aí sim, poderei exagerar. Não lhe darei mais do que 15!

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